Eilon estava perdido, ele conhecia o mundo com seu pai ao lado, Estevão ainda tinha tanto para ensinar, ele ainda era um príncipe e não havia aprendido tudo que um rei deveria saber. O garoto estava indo contra as ordens de Perseu naquela tarde, o rei do outro lado disse que Eveline ficaria no quarto por um tempo, mas que era necessário ter cuidado. Ele caminhava pelo corredor dos reis, onde havia o quadro de cada um dos governantes de Calasir desde Enoch, os quadros dos reis mais antigos foram refeitos com base em quadros de escolas ou outras coisas, já que haviam sido perdidos no grande incêndio; Eilon parou em frente ao quadro de seu pai, a pintura era de Estevão jovem, lembrava do homem falar que foi logo depois da inauguração da fortaleza, ele usava as roupas verdes e brancas, ostentava a coroa na cabeça e numa pequena placa dourada centralizada na borda debaixo, a alcunha estava gravada, “Estevão, O Dragão”, o garoto sorriu ao ler, pensava qual seria a sua, caso ascendesse ao trono. Ele não queria, não nessas condições. Sorriu para a gravura do pai antes de caminhar em direção a sala do conselho, sabia que sua mãe estaria lá e ele adoraria conversar com ela.

Perseu entrou na sala do conselho em busca de paz, mas encontrou Estela, o que parecia quase a mesma coisa. Era estranho ela estar de preto, contrastava com os cabelos brancos, não era feio, mas era triste. A rainha estava sentada na cadeira que ficava de costas para a janela que mostrava o covil, era a cadeira mais alta e tinha um pequeno dragão em cima do encosto; ela segurava sua coroa nas mãos, a de Estevão estava pousada sobre uma almofada verde.

—Estela — ela olhou para o rei de olhos azuis e sorriu — Estou atrapalhando?

—Não, você jamais iria me atrapalhar — ele riu de forma abafada e entrou, fechou a porta e caminhou até ela. — Será estranho não usar mais minha coroa — ela suspirou — Estevão me deu quando fiz dezessete estações, foi depois do ataque a fortaleza Drakoj, poucas luas antes de você chegar… — eles se olharam, não havia arrependimento, eles sabiam que não.

—Às vezes, no silêncio da noite, eu me arrependo — ela juntou as sobrancelhas confusa — Você poderia ter tido um casamento perfeito com uma família perfeita, mas eu cruzei seu caminho de forma irresponsável, Eveline quase matou seus filhos — ele parecia em conflito, Estela segurou sua mão.

—Eu não me arrependo — ela sorriu, Perseu a acompanhou — Você foi um dos melhores momentos que já tive — ele levou a mão ao rosto dela e acariciou a bochecha.

—-Desculpe pelo que falei aquele dia, eu não tinha noção do tamanho da confusão — Perseu baixou os olhos e foi a vez dela acariciar o rosto dele.

—Mamãe? — Eilon chamou abrindo a porta, Estela recolheu a mão rapidamente. — Desculpe, não sabia que estava em reunião…

—Não, estávamos conversando — ela tinha um frio na barriga — Como posso ajudar, meu amor? — Eilon respirou fundo e fechou a porta em suas costas.

—Eu não quero ser rei — falou despencando os ombros — Eu vou entregar a coroa para Eveline, é o que ela quer — olhou para baixo tentando esconder as lágrimas.

—-Não! — Perseu odiava o garoto pelo que fez com a outra, mas sabia que normalmente a maldade chamava maldade, então não seria total surpresa que isso tivesse acontecido. O problema real era que se Artemisa tivesse uma coroa sobre a cabeça, nada mais importaria e tentar livrá-la do mal de Éfellya seria ainda mais difícil. — Evie não pode ter acesso a poder — “não ainda”, completou mentalmente.

—Então passarei para Ethan — ele engoliu um nó e correu para os braços da mãe.

—Eilon, seu pai voltaria dos mortos para te colocar no trono — Estela acariciou os cabelos do filho — Cada passo que Estevão deu foi pensando em você e muito antes de você nascer — o garoto olhou para a mãe, que sorria fracamente — E quando eu digo muito antes, foi muito antes — o menino analisava cada feição da mãe, ela parecia levemente feliz — No baile do nosso noivado, quando perguntei se seu pai estava feliz, ele me respondeu que estaria mais feliz quando reunisse aqueles mesmos convidados para o torneio de nascimento do nosso filho e você pode acreditar, não houve dia mais feliz na vida de seu pai do que o dia que você nasceu — ela segurava o rosto do menino com as duas mãos e mantinha um sorriso no rosto.

—Pode acreditar, eu estava lá —- Perseu se compadecia com a dor do garoto, o pai era tudo para ele e talvez sentisse um pouco de inveja disso. — E por muitas vezes eu ouvi o quanto ele estava orgulhoso pelo primogênito dele.

—Eveline é a primogênita — olhou para o chão.

—Das meninas — Estela completou — Mas você é o herdeiro legítimo de seu pai — Perseu pensou que essa frase estava bem certa, já que Artemisa era sua herdeira legítima. — Eilon, seu pai queria sua coroação mais que ninguém — ela largou o garoto, que sentou na cadeira ao lado. Os dois observaram a mulher caminhar até um quadro e o tirar da parede, havia uma porta ali, que ela destrancou e tirou uma caixa de veludo de dentro.

—O que é isso? — Eilon perguntou arqueando a sobrancelha.

—Há algumas luas Estevão pediu ao joalheiro da corte para fazer uma coroa para você — ela colocou sobre a mesa e abriu a tampa, era uma coroa parecida com a dela, mas com menos detalhes, era um aro de ouro com chamas de ouro ao redor — Ele ia entregar para você em seu próximo torneio — sorriu fraco — É sua, para sua coroação — ela tirou com delicadeza e Eilon a pegou com as duas mãos, admirando o trabalho do joalheiro — Porque somos um reinado de fogo, aço e…

—E uma coroa de chamas — o filho olhou para a rainha.

—Exatamente — beijou a têmpora do menino — Duas, nessa geração — olhou para a sua com certo pesar. — Não precisa ficar com medo do peso da coroa, você não estará sozinho, Mandrik estará ao seu lado para te guiar enquanto ensina Max a ser seu conselheiro.

—Nem eu e nem seu pai crescemos com alguém nos ensinando a ser rei, mas conseguimos nos tornar bons governantes. Tenho certeza que você também será — Estela sorriu para Perseu, ele estava sendo gentil e isso era bom.

—Tudo vai ficar bem, meu filho — Estela o beijou na bochecha — Eu estarei aqui para você.

—Eu amo a senhora — Eilon a abraçou com força.

—Eu também amo você, meu príncipe de cabelos brancos — ela beijou os cabelos dele e sorriu, Estevão sempre o chamava assim, desde antes do menino nascer.

—Eu vou ficar com Elisa, tudo bem? — Estela assentiu sorrindo, Eilon olhou para Perseu — Com vossa licença — o rei acenou e o garoto se retirou, a mãe trancou a porta logo atrás.

—Artemisa alguma vez disse que te amava? — o sorriso de Estela vacilou e ela olhou para Perseu, negando com a cabeça suavemente.

—Eu entendi sua revolta quando chegou aqui e viu tudo que tinha acontecido — ela tornou a sentar na cadeira de Estevão — Eu também ficaria furiosa, mas eu gostaria de ter um tempo contigo antes do caos ser instaurado na fortaleza, antes de Artemisa tentar matar os irmãos, antes dela ferir Orion e antes de Eilon a violar.

—E tem motivo o que ele fez? — Perseu a encarou, ela respirou fundo.

—A atitude dele foi péssima e ele estava furioso com Artemisa — o encarou — Estevão queria casar os dois e eu repeti por anos o quanto era uma ideia maluca, no entanto ele ainda queria. Quando chegou o baile onde o noivado seria anunciado, ela não apareceu, o que enfureceu Estevão, mas não tirou a ideia da cabeça dele — Perseu a olhava com atenção, ele sentia muito por todos os problemas que Artemisa tinha causado, não queria que as coisas fossem desse jeito. — Só que Estevão não esperava que Eilon e Elisa iriam se rebelar e fugir para Dragoi, casando na fé de Deragona, a partir daí as coisas começaram desandar — ela lembrava das inúmeras brigas dos filhos e isso doía — Ela sempre detestou Eilon, mas quando ele retornou casado, ela agrediu Elisa, chorou horrores, era como se ela sentisse realmente a perda.

—E daí? — Estela suspirou.

—Ela começou a provocar os dois, dizendo que Eilon não era homem e essas bobagens — tirou uma mecha perdida de cabelos que estava em seu rosto — Ele, como bom filho de Estevão, ficou furioso — Estela segurou as mãos dele com força e o encarou — Eu sei que nada justifica o que ele fez, mas peço que o perdoe, não por ele, nem pela aliança…mas por mim — essa última parte saiu como um sussurro — Perdoe Eilon por mim e te peço isso não como mãe dele, mas como mãe de Artemisa — Perseu observou cada detalhe do rosto perfeito, algumas noites ele achava que tinha esquecido o quanto Estela era bela, mas os flashes daquela noite surgiam em sua mente e então ele percebia que as lembranças eram vivas e nítidas.

Estela não teve tempo para reagir quando ele a pegou pela mão, a fez ficar de pé e a colocou sentada na mesa, ela arfou com a proximidade dos dois, havia passado tantos anos e ao mesmo tempo parecia não ter passado um dia. Os rostos ficaram mais perto, até que ela sentiu os lábios dele roçarem os seus, sentiu seu rosto corar quando lembrou de quantas vezes havia feito algo parecido com Estevão e quase sentiu remorso, seu marido havia morrido há um quarto de lua e aquilo parecia tão errado, mas a noite há catorze anos também havia sido muito errada. Perseu a beijou com urgência, sentia falta dos lábios dela, do corpo, dos cabelos macios, do perfume de rosas; ele mal pode se controlar quando ela aceitou o beijo, dando passagem para sua língua adentrar em sua boca, Estela tremeu quando ele forçou o corpo contra o seu, ela entrelaçou as pernas na cintura dele, o puxando mais para perto, aquilo parecia uma autorização, mas um dedo foi colocado entre os lábios e a rainha o encarou.

—Não, ainda não — suspirou, Perseu se afastou um pouco frustrado, não achava que Estevão merecia um período de luto, não da parte de Estela, depois de tudo que havia sofrido com ele e por ele.

—Quando? — ele murmurou.

—Depois da coroação — acariciou o rosto dele antes de receber mais um beijo.

—Depois da coroação — afirmou ao separar os lábios e sorrir, ela fez o mesmo.

Perseu saiu da sala do conselho e refletiu sobre o que tinha acabado de fazer, a diferença era que naquela época ela era casada e agora estava viúva, então era menos errado. Ele respirou fundo olhando para o vitral sobre a escadaria principal, ainda tinha um trabalho para fazer.

O quarto de Eveline cheirava a ódio, o que Perseu entendia muito bem, todas as almas que Éfellya assassinou tão cruelmente estavam em busca da parte maquiavélica de Artemisa. O rei olhou para a princesa, as pontas dos cabelos dela estavam negras…como carvão.

—Os cabelos de minha mãe eram negros como carvão — sussurrou tocando as pontas dos fios, há muitos anos havia dito essa mesma frase após Estevão afirmar que seus filhos teriam cabelos brancos.

—Rei Perseu? — Eveline sussurrou, ele sentou na cama ao lado dela e sorriu.

—Como se sente? — acariciou o rosto dela, queria ter feito isso na infância, quando ela era uma criança que precisava de amor.

—Péssima…eu tive um sonho… — colocou a mão na cabeça.

—Não foi um sonho, Orion te mostrou todas as lembranças de Éfellya, todo o mal que ela causou em Pardóx, por culpa dela o portal foi rompido — ele explicou — Quando nasce um primogênito em Saphiral, corre o risco de se tornar um receptáculo da alma inescrupulosa dela.

—Então era para Eilon ter esse ódio dentro dele? — ela bufou pensando no quanto o irmão era de sorte, se tivesse sido ele a ser o receptáculo, ela não precisaria sofrer todas essas dores.

—Seu irmão já tinha os genes ruins de seu pai — Perseu não conseguiu segurar a opinião, o que arrancou uma risada divertida de Artemisa.

—É, Eilon já tem os genes ruins de Estevão — ela concordou, seu corpo ainda doía, ainda se sentia sendo arranhada. — Era isso? — Perseu estranhou a pergunta, parecia tão casual, como se tivessem apenas brincado de cartas.

—Você viu tudo que ela fez, quero que pense que não pode se tornar como ela — ele segurou as mãos dela e notou uma pulseira de ouro com uma safira verde, era o presente de Hades — Por favor, não seja como ela — Evie assentiu, escondendo a opinião de que poderia ser muito pior que Éfellya.

Elisa estava no quarto, estava trêmula, sentia frio e sua pele estava pálida, Eilon estava ao seu lado enquanto Linor a examinava, ele não conseguia dizer o que ela tinha, ele não conseguia acreditar que Eveline tinha um estoque infinito de veneno embaixo da cama.

—Se seu pai estivesse vivo, ele teria mandado essa garota para os confins de Samerot — Linor disse verificando a temperatura dela.

—Não pode ter sido ela, eu devo estar com a saúde frágil depois de quase morrer — sorriu para Eilon, que não retribuiu — O que você tem, querido?

—Deixe-nos a sós, Linor — o futuro rei ordenou e o curandeiro obedeceu, sumindo pela porta na sequência — Você acha que seremos bons reis? — perguntou apertando as mãos dela com nervosismo.

—Você está preocupado com isso? — uma risada escapou dos lábios dela — Meu amor, você será o melhor — segurou o rosto dele com as mãos — Papai te criou para isso!

—Você promete que estará ao meu lado? — os olhos verdes brilhavam de esperança.

—Do início ao fim — ela prometeu o beijando.

Mandrik começou organizar a coroação aos mínimos detalhes, ele queria que tudo saísse perfeito, era como um último serviço para Estevão. O conselheiro chorava enquanto assinava as cartas. Max entrou silenciosamente e o abraçou, assustando o pai, que começou a limpar as lágrimas freneticamente.

—Tudo bem, pai, pode chorar — o garoto disse — Imagino o quanto deve ser difícil perder o melhor amigo, quase irmão — Mandrik assentiu.

—Estevão significava muita coisa para mim — ele sorriu — Ele era o único que sabia de você porque eu não confiava em mais ninguém para isso — o garoto sentou ao lado — Nós crescemos juntos, fizemos a primeira caçada juntos, fomos juntos na casa dos prazeres na primeira vez — riu nessa parte — Ele sempre estava lá, fosse para rir de mim ou comigo — bagunçou os cabelos do garoto — Espero que um dia você e Eilon tenham essa mesma relação. — suspirou pesadamente.

—Eu posso ajudar com as cartas? — Mandrik assentiu sorrindo enquanto o menino começava a carimbar cada papel.

Duas manhãs depois Drakoj estava cheia de pessoas, condes e lordes estavam vindo em direção a cidade para prestigiar o novo rei, alguns sentiam mais a morte de Estevão do que outros. Perseu acordou sentindo um aperto no peito, primeiro pensou em Auterpe, rezava para que ela estivesse bem, ela precisava estar bem, por Orion e pelo bebê em seu ventre. Ele vestiu uma roupa mais formal, parecida com a que ele usou no baile de anos atrás, era um terno azul escuro com detalhes em rosa.

Orion vestia um terno roxo e dourado, seu pai usava verde e parecia nervoso, ainda não havia conversado com o filho sobre o acidente com a mãe, ele iria precisar fazer isso em algum momento, não sabia exatamente quando.

Eilon vestiu o colete verde pensando que estava indo para sua coroação, o que confirmava que seu pai havia morrido, ele não queria pensar nisso. Elisa estava sentada no banco da penteadeira, seus cabelos estavam ondulados, havia um colar em seu pescoço e brincos em suas orelhas, ela tentava sorrir. Estela buscou os filhos enquanto os mais novos iam com o tio, William estava responsável por guiar o grupo até o jardim, onde tudo havia sido montado para a celebração, ali estava apinhado de súditos, eles ficaram perto de Perseu.

—Você viu Evie? — William perguntou aos sussurros.

—Acredito que no quarto — Perseu respondeu olhando ao redor.

As portas foram abertas, todas as cabeças viraram para a saída do castelo, Mandrik vinha na frente, Estela no meio sendo seguida por Elisa e Eilon, atrás deles vinham criados bem vestidos trazendo as coroas e um trazia a espada de Estevão. O conselheiro olhou para a rainha assim que subiram ao pequeno palco onde estavam os tronos, atrás era a paisagem do covil, com Ronar, Tyrax e Jaspe vigilantes sobre o monte; Elisa e Eilon se posicionaram de frente para a plateia e a mãe ficou no meio deles, mas mais a frente.

—Meus condes e meus lordes, por vinte anos vocês seguiram meu marido, por vinte anos ajudaram ele a construir o reino perfeito para todos e por dezesseis anos eu estivesse ao lado dele e pude ver o quanto ele amava o povo que o ajudou subir ao trono — Estela sorria segurando as lágrimas — Mas, depois da fatalidade que foi seu falecimento, é hora de realizar seu maior desejo, faz-se necessário coroar o novo rei — Eilon engolia o choro com força, não poderia ser fraco diante de todos os principais aliados de seu pai — Quem conhecia Estevão, sabe o quanto ele almejou esse momento — virou para o filho e sorriu — Hoje coroamos o novo rei de Calasir — Estela pegou a coroa que o marido havia mandado confeccionar para o filho e se aproximou, Mandrik limpava as lágrimas discretamente lembrando de quando houve a anunciação da coroação de Estevão — Eilon, da casa Balaur, de agora e até o fim de seus dias, senhor e protetor de todo o reino de Calasir — duas lágrimas escorreram pelo rosto do menino quando sentiu o peso da coroa sobre sua cabeça — E sua rainha-consorte, Elisa — Foi Mandrik quem pousou a coroa de Estela na cabeça da menina — Hoje, com muito orgulho, eu me torno a rainha-mãe do reino — Ela sorriu para o povo — Que os deuses salvem o rei e rainha! — o público explodiu em palmas, Estela desceu do palco, Eilon deu a mão para Elisa e se aproximaram da frente, o povo parecia feliz com a nova realeza.

—Esperem! — A porta foi aberta subitamente, a menina que chegou usava um vestido rosa e tinha algumas mechas negras no cabelo — Eles enganaram vocês, eu sou a primogênita! — Evie gritou, o povo a olhou enquanto ela caminhava cegamente até os tronos, Eilon colocou Elisa levemente atrás de si — Eu sou a verdadeira rainha e vim pegar minha coroa! — Perseu bufou pensando que depois do que ela passou, tudo que ela viu nas memórias de Éfellya, iria mudar, ser uma pessoa melhor, aparentemente ele estava errado.

—Evie, filha — Estela surgiu na frente dela, bloqueando a passagem até Eilon — Por favor.

—Saía da frente! — Ela gritou — Eu sou a verdadeira rainha e pegarei minha coroa! — Eveline tirou a adaga do cinto e apontou para a mãe.

—Baixe isso e pare de show — Estela disse firme, pela primeira vez Evie achou a mãe diferente, Estela nunca falava firme com eles.

—Vou parar quando a coroa estiver sobre a minha cabeça e Eilon embaixo da terra! — a princesa investiu, Estela segurou seu pulso com força, o que gerou uma olhada de ódio da menina. A rainha-mãe não percebeu quando ela puxou outra adaga, a lâmina cortou seu rosto, o reflexo fez Estela se desequilibrar e se afastar, levando as mãos na bochecha — Agora é sua vez — apontou para Eilon, que ainda mantinha Elisa em suas costas.

—Eveline, pelos céus, pare! — Mandrik disse tomando a frente de Eilon, que foi cercado por soldados da guarda real — Não queremos machucar você — o conselheiro falou, a espada estava devidamente empunhada, mas odiaria precisar matar a menina.

—Vocês não vão me machucar, eu vou machucar vocês — ela riu, uma sombra cobriu o jardim, era um dragão, mas não era nenhum do covil, era outro. O povo correu, se escondendo onde conseguissem, Estela viu Ethan puxar Elora pela mão enquanto seguiam as babás que levavam os mais novos, seus olhos encontraram com os de Perseu. O dragão pousou e rugiu, afastando quem estivesse por perto. — Que merda é essa? — a princesa virou, um garoto desceu do dragão e a olhou com um sorriso de escárnio, logo em seguida olhou para Orion.

—Aparentemente quando queremos um serviço bem feito precisamos fazer pessoalmente — o jovem caminhou enquanto seu dragão voltava para os céus, que fechava em tempestade, mais três dragões estavam lá: Tyrax, Jaspe e Ronar, todos rugiam para o invasor — Sinceramente, eu acho que deveriam ter acabado com toda e qualquer linhagem das safiras — olhou para Perseu e sorriu — Mas eu resolvo isso, sem problemas. — William colocou Orion atrás de seu corpo.

—Longe dela — O rei de olhos azuis puxou a espada e apontou para o garoto, que ergueu as mãos em rendição.

—Sim, longe dela! — Perseu não viu o dardo que ele lançou, mas a mira de Taburon era excepcionalmente boa, Evie apenas sentiu o dardo perfurar seu pescoço, ela levou as mãos na ferida, sentindo o sangue escorrer por entre os dedos.

—-Perseu, se abaixa! — Estela gritou, o rei virou em direção a filha, viu uma figura voando em sua direção e se jogou no chão.

—Ótimo, assim eu acabo com todos de uma vez — Taburon levantou a faca longa que trazia, mas não teve tempo de usá-la, foi abocanhado por Sinler na sequência, ele sentiu os dentes perfurando sua pele e, mesmo sendo ferido, tentou atacar o animal com a lâmina, era como se ele estivesse atacando uma armadura. O dragão do invasor viu o ataque ao seu cavaleiro e mergulhou ao resgate, porém Ronar o trancou, voando para sua frente e abrindo as asas, atordoando o outro animal com fogo, Tyrax e Jaspe atacaram em dupla, cada um num lado, chovendo pedaços de carne de dragão na praia da península. Sinler deu uma mordida mais forte no garoto, o arrebentando no meio e deixando as partes do corpo cair.

Estela olhou a briga no céu e logo depois olhou para o palco, Eilon ainda mantinha Elisa atrás de si, segurando a mão dela com força, Evie estava caída nos pés de Mandrik, o pescoço coberto de sangue, os olhos fechados. Perseu derrapou quando tentou ficar em pé, mas correu ao encontro da menina, chegando ao corpo junto com Estela, que a colocou sobre o colo.

—Filha, acorde, por favor — Estela disse segurando o rosto dela, mas Eveline não estava mais ali.

A princesa caiu num túnel, sendo arranhada por todo o percurso, garras surgiam do escuro e a acertavam, ela gritava, mas não saia voz; foi um longo trajeto sendo agarrada, arranhada e queimada, até que caiu de costas numa praia, ela arfou pela dor e sentou, a areia era fina e branca, a água era clara, havia um homem caminhando mais a frente, era alto, forte e com cabelos loiros escuros.

—Estela?! — O homem virou ansioso, mas o brilho se apagou ao ver Eveline — É você…

—Bom te ver, papai — disse com desdém — Onde estamos?

—Acho que o grande dragão tinha uma Deragona sobrando — riu — O que aconteceu? Como veio parar aqui?

—Eu… — coçou a nuca — Fui reivindicar a coroa de Calasir e um invasor me atacou. — deu de ombros.

—Reivindicar a coroa de Calasir? Ficou louca? — a menina ficou de pé e bateu a areia da saia — Todos sabiam que Eilon era meu herdeiro — um sorriso brotou nos lábios dele — Como ele estava? Estava feliz? Usou a coroa que mandei fazer para ele?

—Ahn…ele não estava muito feliz, mas sim, usou uma coroa nova — Estevão olhou para o mar e suspirou, queria tanto estar no mesmo plano que sua família. — Por que tanto favoritismo por Eilon? — ela arqueou a sobrancelha.

—Você quer saber? — Estevão sorriu olhando para ela, Evie assentiu e começou a seguir o homem pela faixa de areia — Pouco antes da tomada de Drakoj, uma mulher chegou ao acampamento, se dirigiu a mim e disse que iria fazer a leitura do meu futuro, eu aceitei. Ela pegou minha mão, fez um corte e pingou numa xícara, disse que via uma coroa sobre minha cabeça e uma estrangeira ao meu lado, disse que essa mulher me daria filhos fortes e poderosos — Eveline quis rir, desde quando seu pai acreditava em leitura de futuro? — Então sua mãe apareceu, ela não queria casar comigo, dizia que ia contra seus princípios.

—E o que o senhor fez para a convencer? — Eveline deu dois pulinhos para o alcançar.

—Eu a obriguei a casar comigo — suspirou — Na noite que antecedeu o casamento eu tive um sonho muito realista, era de um menino de cabelos brancos e olhos verdes claros, como sua mãe, ele estava sentado no trono e usava uma coroa, havia um dragão atrás dele — sorriu — Eu me agarrei nesse sonho. — Evie sentia o pesar do pai, mas sabia que ele não havia sido o melhor marido do mundo — Então ela engravidou a primeira vez e perdeu o bebê durante o sequestro. Eu fiquei muito bravo, pensei que os deuses estavam chacotando da minha cara, queria encontrar aquela vidente e matá-la por mentir.

—Mas ela não mentiu — Evie sussurrou.

—Não, não mentiu — Estevão parou na avenida que levava ao templo e olhou para a construção — Quando seu irmão nasceu, eu vi a realização do meu sonho, quando ele reivindicou Ronar, eu tive certeza que era ele — um sorriso largo estava sendo ostentado no rosto — Eu amei você, tentei ser um bom pai, mesmo com seus incessantes choros quando eu a pegava — Estevão acariciou o rosto dela — Me desculpe por não ter tentado mais, por não ser um pai melhor para você, desculpe por minha ausência, talvez se eu estivesse mais presente antes daquela tarde, nosso relacionamento teria sido melhor.

—Desculpe, papai — Evie levou a mão até a mão do pai — Eu sabia o quanto aquele bebê era importante para a mamãe e para você e mesmo assim fiz aquilo — ela sentiu seu coração ficar mais leve, era como se um peso saísse de seu corpo — Eu não queria ser ruim — ela chorou e foi abraçada por Estevão — Eu não sei o que aconteceu comigo.

—Tudo bem, filha — ela sorriu ao ouvir isso — Eu fiz muita coisa da qual não me orgulho, eu obriguei sua mãe a casar comigo e a infernizei até que ela engravidasse — eles se encararam — Eu sinto muito por tudo isso — ele sorriu — Eu amo você — Eveline chorou mais nesse momento, não lembrava da última vez que ouviu essa frase vinda de Estevão. — Vá, ainda não é sua hora — ele girou a pulseira que ela carregava no pulso e então caiu num buraco, as lágrimas foram secando e ela caiu num quarto.

Era o quarto da princesa de Saphiral, aquele que ela e Orion invadiram durante a estadia dela no castelo de Perseu. O rei estava parado ali acompanhado de sua mãe, por que sua mãe estaria com Perseu naquele quarto?

—Isso é para Evie? — Sua mãe perguntou, o que a deixou confusa.

—Aqui ela será Artemisa — Ele suspirou — Princesa e herdeira de Saphiral — pegou a mão dela delicadamente. Do que eles estavam falando? Ela era adotada? — Você pode recusar…

—Jamais faria isso com nossa filha — eles olharam um para o outro — Eu quero que um dia ela venha para cá, conheça seu povo, seu reino — Estela levou a mão ao rosto de Perseu — E o pai dela — ele sorriu — Jamais pediria para abrir o portal se não quisesse que ela o atravessasse – Evie estava perdida, por que Estela chamava ela de “nossa filha”, sendo que estava com Perseu? — Eu sinto muito pelo que falei. Não queria ser rude — afagou a bochecha dele — E gostaria muito de ter uma vida ao seu lado — eles encostaram as testas — Mas tenho que voltar, tenho Jaspe, Sinler e os filhotes deles, tenho obrigações com o povo que me fez rainha.

—Estevão a fez rainha — o sorriso se desmanchou.

—Um título não é o que te torna rei ou rainha, isso acontece quando o povo te reconhece como tal, quando você se sacrifica por eles — eles embalavam os corpos suavemente.

—E o que você sacrificou pelo seu povo? — as mãos dele desceram para a cintura dela.

—Minha felicidade — ela levantou o rosto — Eu também amo você — eles selaram os lábios, o que deixou Evie em choque, nunca imaginou sua mãe beijando outro homem — Sempre te amarei — Estela sussurrou partindo na sequência.

—Pois é, pobrezinhos — uma voz disse ao seu lado, a fazendo saltar — Você cresceu — o homem pálido e de cabelos negros sorriu — Sou Hades, seu protetor pessoal — sorriu.

—Mas…o atleta… — ela estava cada vez mais perdida.

—Ah — fez um gesto com a mão como se dissesse “Esqueça ele” — Acredito que você esteja confusa. — Evie assentiu — Sabe, seu pai tratava sua mãe muito mal, daí quando Perseu foi visitá-los, ele tratou Estela diferente. Mulheres ficam suscetíveis quando bem tratadas.

—Ela traiu Estevão? — Hades assentiu rindo.

—Traiu — deu de ombros — mas ele bem merecia.

—E por que ela nunca me contou a verdade? Por que nunca me disse quem era meu pai? — Eveline estava indignada.

—Até parece que você não conhecia Estevão! — ela se encolheu envergonhada — Ele te mataria e depois sua mãe nunca mais veria a luz do dia. Ela te protegeu por todos esses anos. — colocou a mão no ombro da menina — Sua mãe passou por muita coisa ruim, mas sempre tentou te proteger, mesmo que às vezes não estivesse claro. — Artemisa o olhou — Não contar quem era seu pai foi para que você pudesse voltar para Saphiral, mas para isso precisa se redimir, não pode ter ódio.

—Eu… — ela suspirou — Eu não sinto mais ódio — seus olhos encheram de lágrimas — Eu quero voltar, quero pedir desculpas para mamãe! — Hades sorriu largamente e deu dois toques na pulseira. Evie caiu no mesmo túnel escuro, que agora era fresco e tinha cheiro de flores.

Estela estava na cama ao lado da filha, Perseu estava no outro lado, a perna tremia de nervosismo. O pescoço da garota estava enfaixado e a respiração quase nula, até que houve uma forte inspiração e ela sentou, abrindo os olhos simultaneamente.

—Filha! — Estela a abraçou com força.

—Me desculpe, mamãe — Evie a abraçou de volta — Desculpe por não ser a filha que você…que vocês queriam que eu fosse — ela olhou para Perseu, que afagou os cabelos dela, não estavam brancos, nem negros, estavam prateados.

—Desculpe por não ser a mãe que você merecia — Estela a olhou e sorriu.

—A senhora fez o melhor que podia — Evie sorriu — E o mais importante, me protegeu e me deu a chance de conhecer minha verdadeira casa.

—Como você sabe? — Perseu a encarou perplexo.

—Um deus me contou — Artemisa deu de ombros e sorriu, Perseu a agarrou nos braços e a abraçou.

—Desculpe não estar com você — beijou o topo da cabeça dela — Eu queria muito.

—Tudo bem, eu entendo — ela sorriu, Artemisa conseguia sentir o amor que irradiava de Perseu para ela.

—Eveline está bem? — Eilon abriu a porta do quarto e observou a cena, sua irmã estava com os cabelos diferentes, mas sua mãe parecia bem com isso. A garota levantou e caminhou até ele, o abraçando de súbito.

—Eu perdoo você — ela disse, Eilon a abraçou um pouco mais forte.

—Eu deveria ter sido um irmão melhor para você — ele falou.

—Eu não fui exatamente a gêmea dos sonhos — ela riu — Me desculpe, Eilon, me desculpe por tudo que fiz.

—Eu peço desculpas — o recém coroado rei sorriu.

A fortaleza Balaur foi tomada por uma aura de felicidade e amor, as coisas estavam certas agora. Estela e Perseu precisaram explicar o que havia acontecido entre eles para Eilon, Elisa e Ethan, poupando os mais novos da conversa. Artemisa pediu desculpas para Orion, que aceitou, sentia que não havia mais mal no corpo da garota.

Agora eles tinham outro problema, Auterpe havia acordado e não sabia o que tinha acontecido nos últimos catorze anos.