Among Other Kingdoms - Segunda Temporada
10 Capítulo X
Estela olhou pacientemente seus bebês serem amamentados pela estranha que Perseu deixou em seu quarto, Eilon mamava com muito mais violência, mas Evie mamava com muito mais fome, a pequena estava faminta, William a pegou quando terminou, já dormia nesse momento, foram colocados no berço lado a lado, seu cunhado beijou a menina e saiu silenciosamente.
—Por que não posso amamentar eles? – a pergunta saiu como um sussurro.
—Já expliquei, rainhas não amamentam, atrasa a próxima gestação – Estevão respondeu mantendo um tom brando.
—Mas...eu não...eu queria... – seu marido se aproximou, ela se encolheu, para sua surpresa, houve um afago nos cabelos, Estevão estava orgulhoso dela, mesmo que os gritos incessantes tivessem sido irritantes, ela conseguiu colocar duas crianças no mundo.
—Querida, isso é o certo – ele beijou o topo da cabeça dela.
—Não sei se concordo – olhou para seus pés, Estevão ergueu seu rosto com os nós dos dedos.
—Isso é o melhor, meu bem – contornou o rosto da esposa. – Mulheres da realeza não amamentam seus bebês – beijou a testa dela.
—Mas...isso parece tão errado – sussurrou.
—Não quero discutir – a voz se tornou grossa – Está sendo dias excepcionais, não estrague tudo – ele a encarou firme – Haja como uma rainha.
Estela acatou o que o marido falou, não estava com disposição para brigar, seu corpo ainda doía, se sentia fraca, sabia que estava depois de tanto sangue que perdeu, Linor quase a matou, talvez, bem no fundo, ela queria ter morrido, estava fadada aquela vida de ordens, de solidão e vazio. A mulher levantou da cama com cuidado, Estevão roncava ao seu lado, deu passos suaves até o berço, Evie dormia profundamente, suspirava vez ou outra, Eilon encarava o teto, ela o pegou, sem perceber que era a primeira vez que o pegava, o menino quando não estava dormindo, estava nos braços do pai ou das amas; ela o encaixou em seu braço, cheirou seus cabelinhos brancos e beijou a pequena testa, sorrindo para o pequeno.
—Você foi muito esperado, sabe disso? – sussurrou caminhando para os sofás – Seu pai ama muito você, eu também te amo – ela sentou numa das poltronas, o brilho da lua iluminava eles com suavidade. – Gostaria que ele amasse sua irmã da mesma forma – o sorriso vacilou.
A manhã começou alegre, Estevão beijou a esposa e logo em seguida pegou Eilon no colo, o beijando, acariciando seu rosto delicado, se sentia tão sortudo, tão intocável, conseguia imaginar aquele garoto nas costas de um dragão tão grande quanto Jaspe, um dragão assustador que faria seus inimigos se curvar imediatamente, ele usaria sua coroa um dia, sentaria em seu trono e usaria sua sala do conselho para discutir problemas no reino, seria Eilon, o rei de Calasir, senhor de dragões, defensor do reino.
—Poderia pegar Evie também? – Estela tocou seu ombro delicadamente – Ela também é sua filha. – Estevão pensou no quanto a esposa estava sendo chata com algo tão irrelevante, ele queria pegar seu menino, seu garotinho, a quem ele ensinaria tudo e mais um pouco.
—Claro, querida – sorriu entregando o menino para ela, não queria causar brigas agora, tudo estava tão perfeito – Com cuidado, por favor. É, assim – ele arrumou o bebê nos braços dela e pegou a garotinha, que abriu os olhos — Ela tem os olhos da minha avó – sorriu, Estela se alegrou com aquilo, pela primeira vez Estevão mostrava afeição pela menina.
—Bom dia – William entrou no quarto, sorria o melhor que podia depois de passar boa parte da noite chorando de saudades de Orion, foi até sua cunhada e seu irmão, ficando no meio dos dois, Evie armou uma cara de choro eminente – Ela não gosta de você – a tomou dos braços de Estevão, que ficou aliviado com aquilo – Você gosta é do seu tio, eu sei, eu sou muito bom com bebês – conversou se afastando do casal, Estevão passou o braço pelos ombros dela e sorriu.
—Ele é lindo, não é? – olhou para o bebê afagando os cabelos da esposa – Ele é perfeito! – Estela assentiu sorrindo – Está destinado a coisas gloriosas, tenho certeza – beijou os cabelos de Estela no exato momento que Linor bateu na porta.
—Majestades, peço desculpas pela interrupção, gostaria de entregar o preparado – ele alcançou uma garrafinha para Estevão – Vai secar o leite e vossa majestade não sofrerá com os incômodos de uma amamentação – o sorriso de Estela se desfez, ela queria ter a sensação de nutrir seus filhos, ela havia os gerado! Ela quase morreu diversas vezes para os ter e agora precisava entregar para mulheres desconhecidas dar leite quando ela própria poderia fazer.
—Obrigado, Linor – Estevão abriu a garrafa, serviu numa taça e estendeu para a esposa – Beba – o líquido era vermelho acastanhado, não parecia apetitoso, torceu o nariz quando pegou e levou ao nariz – Vamos, beba – Estela olhou para William, que estava muito absorto em suas conversas com Evie, ela roçou os lábios na borda da taça antes de engoliu de uma vez o líquido, era amargo; devolveu a taça vazia para o marido, que sorriu – Muito bem – beijou sua testa, fazendo o mesmo no bebê – Agora vamos procurar amas de leite para você, meu filho – o tomou dos braços de Estela, que fez certa resistência em entregá-lo – Meu filho, todo meu – sorriu encostando os narizes um do outro e saindo do quarto.
—Ele está perdido pelo menino – William comentou enquanto colocava Evie na cama para que ela ficasse confortável.
—Você também ficou assim com Orion – olhou para o cunhado, uma cólica a atingiu, lembrou-se da garrafinha que havia recebido do visitante estranho, a abriu e bebeu, não era amargo, era doce e suave ao mesmo tempo.
—É diferente, eu amo meu filho porque é meu filho, Estevão ama Eilon porque imagina o garoto voando em Jaspe e queimando meio mundo – ele contornou o rosto da menina e parou na bochecha, a pequena fez um movimento de sorriso.
—Não...Cavaleiro por cavaleiro, Eveline também é – William soltou uma risada.
—Pelos Deuses, tantos nomes e você deixou ele colocar Eveline – riu brincando com os dedos da bebê.
—Eu não estava exatamente presente – sentou no outro lado do bebê, ficando de frente para William, que num relance não viu Estela, viu Auterpe, eles ficaram muitas horas naquela posição observando cada pedacinho de Orion.
—É – falou quando seu transe se dissolveu – Bom, Evie está segura conosco.
Estevão chegou ao quarto de Mandrik, o pequeno em seu colo observava ao redor, os olhos verdes eram tão lindos, Eilon era tão igual a mãe!
Quem abriu a porta foi Navi, que havia ido para lá mais cedo a fim de aproveitar Mandrik e Leodak, o que realmente fez, não tanto quanto gostaria.
—Rei Estevão, estava tratando alguns assuntos com Mandrik... – começou.
—Estevão não está nem aí – Mandrik gritou ao fundo – Que tu quer?
—Gostaria de falar com Navi – Sorriu para o conselheiro de Perseu, que fechou a porta atrás de si.
—No que ajudo? – olhou para o bebê no colo do rei, não tinha dúvidas que era o menino.
—Os bebês de amas de leite, poderia providenciar, por favor?
—Claro, irei providenciar – Navi aceitou o agradecimento de Estevão, mas quando ele saiu, bufou, qual que era a dele de não deixar a menina amamentar os próprios filhos? Caramba, ele tinha dezoito irmãos e todos foram amamentados!
Navi saiu do castelo, queria ficar com Mandrik e Leodak, queria passar seu tempo com eles, não catando amas de leite para bebês que não eram de Saphiral, ao menos a mulher havia parado de gritar, céus, a garganta dela deve ter ficado em frangalhos, ela gritava tanto que jurou que as paredes tremiam, além dos gritos teve Perseu preocupado, ele não entendia a preocupação excessiva com a rainha de Calasir. Ele tinha as amas perfeitas para os bebês.
Perseu acordou naquela manhã e olhou para a coruja no teto, respirou fundo, teria festividades naquele dia, precisava estar disposto, mas antes teria o desjejum, talvez Estela descesse para se reunir na mesa, gostaria que sim, gostaria de a ver um pouco, queria a tocar, conversar amistosamente, ele não deveria ter se precipitado quando ela disse que esperava um bebê dele, deveria ter aguardado ou até pedido algum sinal aos deuses naquele momento, mas não, preferiu fazer o lógico e proteger a mulher, dizendo que ela esperava um filho do marido, o amor era uma doença dolorosa.
Estela não os acompanhou para o desjejum, preferiu ficar com as novas amas de leite que Navi havia trazido, ele disse que eram suas tias e que o leite delas daria força para os bebês, Estevão ficou contente com essa informação, seu herdeiro precisava ser forte e a futura esposa dele também. Perseu olhava o espaço vazio na mesa com certo pesar, a última vez que ela esteve ali foi quatro dias antes dos bebês nascerem.
Logo depois da refeição, Navi avisou que a carruagem estava pronta, engoliu em seco, mas fez seu dever, os pegasus guiaram a carruagem por cada vila e ele anunciou que gêmeos nasceram em Saphiral, em nenhum momento citou a palavra “herdeiro”, no entanto todo o povo ouviu o timbre que acompanhou o nascimento de quem deveria herdar a coroa de Perseu, assim como Perseu herdou da criatura maquiavélica que fora sua mãe; ele pediu para parar quando terminou o percurso, se inclinou e chorou. Pelo Tártaro! Ele precisava fingir que não havia herdeira nenhuma quando sabia que sim! Evie era sua herdeira, ele ouviu isso e principalmente, ele viu isso!
Quando retornou ao castelo, uma pilha de presentes já se formava em uma das salas, William olhava cada embrulho e objeto admirado, enfim estava levemente contente, Estela não estava ali, nem Estevão, o que era um certo alívio, não estava com muito ânimo para o ver. Para sua infelicidade, o rei de Calasir surgiu em seguida, questionando o que era aquilo e ficando imensamente feliz quando soube que era para seus filhos.
A tarde as festividades começaram, Estela apareceu, impecavelmente vestida, usava um de seus muitos vestidos verdes com branco, esse, em especial, tinha uma fita dourada no corpete, usava a coroa, que refletia na luz do sol como chamas, um colar belíssimo de esmeraldas, ao seu lado Estevão também estava impecável, usava um colete branco com um paletó verde por cima, a coroa também estava em sua cabeça, assim como um bebê estava em seus braços, William estava ao lado deles, carregava o outro bebê, Perseu percebeu a tristeza que ela tinha em seus belos olhos, uma mãe privada de amamentar e segurar seus filhos não poderia ser feliz.
—Eu gostaria de fazer uma mera formalidade – Perseu se dirigiu até William, de quem tirou a menina, a acomodou nos braços e caminhou até o altar onde havia várias estátuas de deuses, os quais o povo de Calasir não conhecia – Essa é...Artemisa, princesa e herdeira de Saphiral, apresento-a aos meus deuses e invoco a proteção de todos sobre ela – sussurrou no ouvido da bebê, que se manteve em silêncio durante todo o tempo, ele sorriu e por um momento se esqueceu que havia mais pessoas perto, Perseu acariciou o rosto delicado da menina, pensando no quanto Eveline não combinava com ela, mas o nome era apenas um detalhe, havia grandes coisas destinadas à ela, coisas inimagináveis, ela era por direito a herdeira de Saphiral, era filha de Perseu. Então houve um resmungo e ele lembrou que havia outro bebê, ele precisaria fazer o mesmo ou Estela teria problemas, sabia que seria ela porque Estevão a usava como saco de pancadas; devolveu a princesa para William e pegou o menino de Estevão, que entregou meio receoso – Esse é Eilon, herdeiro do reino do outro lado do portal, peço que o protejam – também sussurrou para evitar divergências.
Logo em seguida foi aberto o torneio em homenagem ao nascimento dos gêmeos, não havia homens tão bem armados quanto em Ruphira, mas ainda assim eram habilidosos, a maioria lutava sem armas, travando uma luta limpa, Estevão até que estava se divertindo, gostava desse tipo de entretenimento, William também, bebia a cada golpe que seu soldado recebia e eram muitos golpes! Mandrik e Leodak estavam assistindo as lutas com atenção, o conselheiro comentava que pretendia começar a treinar os soldados de Calasir assim, com lutas corporais e não só com espadas. Estela estava entediada, seus bebês foram levados pelas amas, o que a deixou na completa solidão, seu marido estava absorto nos embates, assim como seu cunhado, respirou fundo e levantou, queria se distanciar um pouco, pensar em si e em tudo que passara, queria pensar que Deragona estava a um piscar de olhos de distância.
Ela caminhou pelos corredores do castelo sem prestar muitas atenções aos detalhes, seu coração batia compassadamente e de forma ritmada, Estela também não prestou atenção de onde entrada, os corredores eram como labirintos e não como os de Balaur, que ela conhecia quase cada centímetro. Havia uma porta no fim do corredor, a qual ela abriu com delicadeza, uma brisa soprou, era um jardim, o jardim que Perseu pediu para construírem era quase como um pequeno palácio, possuía calçadas altas que eram sustentadas por pilares de pedra branca e cheios de todos os tipos de árvores e flores, ela arfou.
—Gostou? – a voz de Perseu soou atrás dela, virou num pulo, o rei de olhos azuis sorria, segurou a mão dela delicadamente – Eu... eu mandei fazer para te presentear – e lembraria de agradecer cada um que ajudou na construção.
—É muito lindo – girou ao redor.
—Espere só – ele a puxou pelo pulso delicadamente até um buraco no chão.
Eram torres afundadas no chão, dando a ilusão, de longe não dava para ver que tinha uma escadaria que levava ao segundo jardim, que era mais escondido. Parecia outro país, outro mundo, ousava dizer Estela.
Todas as paredes estavam cheias de flores, e o topo das paredes davam um charme com as pequenas árvores que tinham ali. A coluna que sustentava o jardim de baixo, era feita de rocha cristalina, no piso podia se ver o seu reflexo e havia uma fonte no centro do jardim. Era silencioso e aconchegante, haviam algumas estátuas de Pégasos de asas abertas, o que fazia com que não desse para ninguém ser visto dali de dentro. No jardim de cima não havia essa privacidade. Perseu deu um sorriso quando viu o resultado.
—Uau, é perfeito – Estela desceu a escadaria por completo, estava deslumbrada com tudo aquilo.
—É sim. Espero que aceite – Perseu se mantinha atrás dela, Estela olhou por cima do ombro para ele.
—Aceitar? – arqueou a sobrancelha.
—Sim, gostaria de me acertar com você, eu entendo o quanto foi péssimo o que falei, mas não havia outra alternativa – o sorriso dele vacilou, Estela mantinha os olhos nele – Peço desculpas – se aproximou dela, ficando bem próximos.
—Perseu...eu não posso aceitar – olhou para seus pés.
—Você merece – afastou uma mecha de cabelo dos olhos, afagando a bochecha dela, Estela queria chorar, não porque não gostou do presente, era lindo, seria perfeito para fugir dos incômodos, ela adorou, no entanto detestava receber presentes depois de brigas, era o tipo de coisa que Estevão também fazia – Eu sinto muito pelo que falei, deveria ter acreditado em você.
—Mas não acreditou – se afastou subitamente.
—Estela, seja racional – a puxou pelo pulso – Eu jamais conseguiria imaginar que você esperava dois bebês e que um era meu! – essa parte saiu baixo.
—Você poderia ter me ouvido, eu sabia que era seu! – se desvencilhou com força.
—Eu não poderia saber! Achei que você disse aquilo porque queria fugir de Estevão e se estivesse grávida de mim teria alguém para lutar por você – eles se encararam.
—E acha que eu inventaria algo assim para fugir de Estevão? – olhou descrente – Eu detesto alguns momentos com Estevão, mas jamais envolveria outra pessoa nisso, eu só queria que você soubesse, não porque iria me trazer para Saphiral, mas para saber! – Estela estava magoada por Perseu achar que ela diria algo de tamanha proporção apenas para fugir de seu marido.
—Me perdoe – a voz saiu suave, ele a segurou pelos braços, encarando a rainha e quase roçando seus lábios – Fique em Saphiral com Artemisa, vamos criá-la juntos, Eilon pode ir com o pai, tenho certeza que Merope consegue fazer algum feitiço nele.
—Esta sugerindo que eu abandone meu filho e fique aqui?
—Não seria abandono, Estevão ama o menino – ele acariciou os cabelos dela suavemente – Assim todos serão felizes.
—Não – disse firmemente – Eu não seria feliz escolhendo apenas um dos meus filhos, não posso fazer isso.
—Não é uma escolha, você apenas vai acertar as coisas...
—Não! Você está fazendo como Estevão, primeiro briga comigo, duvida da minha palavra e depois vem me dar presentes e pedir desculpas – Perseu ficou magoado com a comparação – Sabe quantos presentes já recebi depois das brigas?! Mais do que posso contar! Mas diferente de você, Estevão jamais duvidou da minha palavra – ela o olhava firme, enquanto os olhos dele enchiam de lágrimas – Agradeço a tentativa, porém mantenho o que disse: Evie é filha de Estevão.
—Você não a casará com o irmão, casará? – talvez isso assustou tanto Perseu quanto a ideia dela ser criada pelo crápula do Estevão.
—Claro que sim, como fazíamos em Deragona – ela olhou para ele, seu coração pesava em agir dessa forma, se ele tivesse ficado ao lado delas tudo seria tão mais fácil – Agradeço a tentativa, rei Perseu. É um belo jardim – Estela sumiu nos degraus, Perseu sentou em um banco e deixou algumas lágrimas escapar, detestava se sentir assim.
—Essas mulheres tão ingratas – uma voz masculina soou, assustando o rei, olhou ao redor, o homem de cabelos negros e pele pálida estava encostado em um pilar – Esse negócio de jardim não funciona, eu literalmente dei rosas de rubis para minha garota e ainda assim só posso ficar com ela dois terços do ano – o homem tocou numa rosa e essa murchou.
—Deus Hades – Perseu disse levantando a cabeça.
—Feliz pela paternidade, garoto? – sorriu para o rei.
—Não é meu...
—Quer enganar quem? – Perseu olhou confuso para ele – Todos ouviram o timbre, todos sabem que nasceu o herdeiro de Saphiral...
—Herdeira – corrigiu delicadamente.
—Verdade, é uma menina – Hades caminhou em direção ao rei – Aquela garota foi forte, ela poderia ter morrido – seus lábios se curvaram num sorriso – Quase morreu, chegou bem perto. Eu gostaria de a ter nos Campos Eliseos, é uma boa pessoa...
—No que ajudo vossa divindade? – Perseu não queria pensar que Estela quase morreu e que iria morrer se ele não intervisse, se ele tivesse tomado a frente nada daquilo teria acontecido.
—Vim parabenizar pessoalmente pelo nascimento da pequena – enfiou a mão no bolso da túnica – Trouxe algo para cada um deles, espero que não se importe que eu presenteie o filho do outro – Hades abriu a mão, eram duas pulseiras simples, dois aros de ouro com uma safira verde no centro de cada um – São safiras, não esmeraldas, peguei as verdes para não causar problemas para nossa amiga – explicou, Perseu arqueou a sobrancelha ao ouvir “nossa amiga”, no entanto preferiu não comentar – É um para cada gêmeo, vai proteger eles das feras do submundo e também é uma passagem de volta caso acabem lá – Perseu estava confuso, por que os gêmeos precisariam de uma passagem de volta do submundo? – Nunca se sabe o dia de amanhã – Hades deu de ombros – Desejo saúde para eles e que tudo que desejarem se realize – as pulseiras começaram a brilhar – Eu, Hades, Deus do submundo e senhor dos mortos, abençoo essas crianças, que suas vidas sejam prósperas como as joias embaixo da terra, que as Moiras teçam o melhor dos destinos para cada um, que com o uso dessas pulseiras nenhuma mal os ataque e que, caso chegar a hora e for necessário, as portas do submundo as devolva para a terra. – as pulseiras brilharam e apagaram – Tome, uma para cada – sorriu, Perseu o viu virar a coluna de fumaça e então desaparecer, olhou para as joias em sua mão, eram duas, como os filhos de Estela.
A rainha de Calasir subiu a escadaria ao tropeços, chegando ao corredor engolindo as lágrimas, não poderia chorar, não queria. Arrumou o vestido e se juntou ao marido que ainda estava absorto no torneio, ela ficou ali apenas existindo e sorrindo quando recebia algum presente pelos gêmeos, sem imaginar que naquele momento Perseu embalava Evie nos braços e a ninava, mostrando para ela a pulseira que ganhara do deus, Perseu ficaria o dia inteiro com a menina nos braços se pudesse, mas não podia.
Quando o torneio terminou, o rei das safiras abriu a festa de Ártemis, havia muita fartura, muita dança, muita alegria e havia também a presença doce de Auterpe, que surgiu sem grandes cerimônias, eles se cumprimentaram calorosamente.
—O que houve entre você e William? Cadê Orion? – o irmão perguntou assim que se afastaram.
—William não aceitou o refúgio dos herdeiros, acha que larguei Orion nas mãos de irresponsáveis, mas fiz o que devia ser feito – ela disse engolindo as lágrimas, Perseu beijou sua testa demoradamente, sabia que a irmã também estava se sentindo péssima com aquilo. – E como foi o parto de Estela? E os bebês?
—Bom, o parto foi horrível, mas os bebês estão bem. Estão num dos quartos de guardiões, posso te levar até lá – Perseu acariciou o rosto dela suavemente, Auterpe assentiu alegremente, sendo guiada por seu irmão até um dos quartos de cima, Perseu bateu na porta que foi aberta logo depois por Estela, que pareceu surpresa por Auterpe estar ali.
A rainha dos rubis parabenizou a outra enquanto o rei das safiras se retirava, Auterpe entrou, viu os bebês e teve certeza que a menina era sua sobrinha, mesmo que o nome fosse detestável.
Os festejos duraram toda a noite, finalizando quando o sol nasceu, todos estavam alegres, ou quase todos, Perseu participou por necessidade, estava infeliz.
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