Among Other Kingdoms - Quinta Temporada
3 Príncipe da Morte
Notas iniciais
Orion e Ben se afastaram do local onde o clubinho de Eilon estava reunido. Pelos deuses, se ele pudesse, traria Estevão de volta a vida, mas, com o lado mais obscuro, repulsivo e envolto de um veneno palpável para apavorar eles. Seus primos tinham problemas. Aquele clubinho era uma chacota, Calasir era sem graça, Eilon como Rei era insociável, Elisa uma enjoada, Ethan um desconforto visual, os demais eram coisas menos insultantes para ele pensar. Alguns Matáveis eram nojentos e detestáveis. Quando ambos estavam longe o suficiente da sala, Orion ainda conseguia ouvir que ainda estavam rindo de Artemisa. Eles gargalhavam, citavam que nem Saphiral a suportaria Artemisa, o que fez fechar o punho e passar a mão sobre os cabelos, sabia que Artemisa foi muito idiota em perdoar Eilon sem nenhuma grande consequência, se houvesse castigo, pensariam antes de zombarem dela. Então ele olhou para Ben que parecia um pouco inquieto. O que era perceptível, o que fez Orion respirar fundo se acalmando.
—Aqueles cabelos de leite azedo...
Ben respirou fundo e tentou não falar mal da Coroa, aliás, ele servia Calasir.
—Eu sei que Evie era bastante impulsiva, desinteressada nas coisas da família. Mas, achei que agora eles iam ao menos dar uma chance para ela. E eles estão magoados porque Perseu casou com Estela? – Ele estava confuso. – Sério, podia ser alguém pior, não?
—Espero que depois do que você viu da Artemisa não te deixe com medo dela... – Orion desviou o assunto. Ben inclinou a cabeça e deu um sorriso bobo.
—Medo? – A expressão dele era de descontraído. – Foi extremamente surpreendente e inesperado. (...) Artemisa apesar de ser um pouco impulsiva, ágil, um pouco forte; ela é esperta, tem uma risada graciosa e tão espontânea. – Houve um longo suspiro. – Ela é belíssima! Aqueles olhos dela são tão vibrantes, o cabelo é perfeito e puxa... Aquele sorriso... Aah... – Bem estava completamente entorpecido e apaixonado pela Artemisa; o que deixou Orion sem reação, apenas boquiaberto.
—Eu sei que ela ainda não foi coroada como princesa, mas, ela merece ser tratada como uma Rainha... – Orion por um instante se sentiu mal pelo outro, primeiro, porque sabia que Artemisa ainda tinha sentimentos por Max, o que fez passar a mão no rosto.
—Desculpe perguntar, porque você nunca conversou com ela antes? – Ele colocou a mão sobre o queixo curioso.
—Era meio impossível... – Sua expressão era de genuína. Além do fato dela não fazer parte da maioria das atividades da família real, ela também sumia, não estava perto do chão, o Pégasus dela era rápido. E ela nunca ia para o mesmo lugar sempre. – Orion ficou pensativo por um minuto.
—Então, você sabe do que ela gosta? Das coisas particulares? – Ele perguntou curioso.
—Um pouco. – Orion olhou para um espelho ao lado deles. – Por quê?
—Seria o dia perfeito para você dar o presente perfeito dela. – O garoto havia esquecido completamente de entregar o presente que ele encomendou para Artemisa no baile do seu aniversário.
—E se ela não gostar? – Perguntou em um tom de preocupação.
—Ela vai gostar, eu sei que irá adorar. – Orion e Ben acenaram antes de cada um ir para um lado, um foi preparar a surpresa, e o outro conversar com a prima. Assim que ele atravessou o espelho foi recebido no rosto por uma pequena maquete dos dragões no istmo. O garoto gritou de dor, e a garota levou um susto em pânico.
—Bem feito! Já falei para usar a porta! – Ela exclamou, seu rosto estava vermelho, ela havia chorado, seus cabelos estavam bagunçados, o vestido amassado. Orion sentiu o quente do sangue escorrendo em seu nariz e a encarou. – Você não poderia ser um pouco normal? Menos bizarro? Porque você fica fazendo isso? – O tom de raiva dela se elevou, o que o irritou mais. – Veio reclamar de alguma coisa senhor perfeitinho?
—E você não poderia ao menos ter se dedicado a aprender deragoniano com a sua mãe? Participar das atividades? Fingir estar interessada?! Como você esperava ser a princesa perfeita ou a Rainha se nem ao menos se dedicou? – Artemisa pulou para cima de Orion não precisava que ele a lembrasse das coisas que ela deveria fazer ou não.
—Pra você é fácil falar! Não teve aquela criatura no corpo! Cresceu no seu país, no seu Reino, com mãe e pai, sem irmãos, você foi feliz! Para você tudo foi perfeito, foi um sonho foi... – Orion segurou os pulsos da prima com fúria e berrou:
—Foi um pesadelo! Um inferno! Sim, eu tinha metade daquele espírito! – Ela parou enquanto ele a segurava. – Eu só via meus pais poucas vezes, eu vivi muito no Refúgio, eu era detestado lá, queria ter irmãos, queria que eles sobrevivessem! Mas, meu pai ficou por você! Ele cuidou de você, mesmo que Estevão não! Ele viu os seus primeiros passos e suas primeiras palavras! – Havia uma tensão na voz dele. – Eu detestava aprender as culturas e os idiomas de Ruphira! Odiava me manter preso aprendendo, mas, lá eu estava, pois, eu serei um dia um príncipe coroado e futuramente um Rei, eu não fiz para agradar os outros, fiz para mim! Pro meu futuro! – Houve um longo silêncio e ela saiu de cima dele e o observou por uns instantes. – Se esforçar para se melhorar, era o melhor que você poderia fazer. – Ele virou o rosto. – Você se irrita fácil. – Ela deu de ombros.
—Eu não posso fazer muita coisa... – Orion se sentou no chão e limpou o sangue que ainda escorria em seu nariz. – Elisa sempre teve tudo o que quis, do jeitinho que planejou. E mesmo que eu e Eilon nunca déssemos certo, era para ele ser meu esposo, mesmo eu o detestando. – Ela franziu a testa e ofereceu um pano para o primo que aceitou para limpar o nariz. – É que ela sempre foi tão desejável, tão amável tão...
—Insuportável, doce, enjoativa, incomoda, um tronco de árvore tem mais ritmo que Elisa. Eles precisam de dragões para tudo, grande droga. – Ele respirou fundo. – Eu sei como dói ser a segunda opção... – Ela abaixou a cabeça.
—Desculpa manter seu pai desse lado.
—Tirando a coroa e os dragões, o que eles têm de mais? Sério... – Houve um longo silêncio. – Eles se acham superiores, mas, são arrogantes, se acham superiores e nem são tudo isso. (...) Você sabe o que nos diferencia deles? – Ela ergueu a sobrancelha. – Meio sangue Subimortal, poderes, se tivermos sorte, imortalidade, ou muito mais tempo de vida que os outros.
—Isso não muda o fato de que sou rejeitada, humilhada e deixada de lado. Não resolve os meus problemas.
—Todo problema tem uma solução, se não tem solução, não existe problema. – Artemisa o olhou por um longo momento e pensou consigo mesma sobre a frase do primo.
—A solução seria dar uma bela lição nos meus irmãos, raspar os cabelos dele ou pintar de outra cor.— Orion inclinou a cabeça e riu. Artemisa o olhou sem entender.
—Raspar os cabelos seria uma boa ideia. – Ela ficou pálida.
—Como? Você. – Orion levantou um dedo.
—Você deixou eu ouvir. – Ele riu. Artemisa ficou confusa, ela não fazia ideia que seus pensamentos eram tão audíveis quando ela estava brava, assim como seu pai fazia, ela tinha acabado de fazer, não sabia como, apenas fez.
—Não entendo porque você sempre foi tão insistente comigo.
—Eu também não sei, você sempre teve um ar de Subimortal.
—E você me acha louca? – Orion concordou. – De um modo ruim? – Ele negou. – Acha que eu assustei Ben? – Ele fez uma expressão que não sabia, mas arrumou um pouco a postura.
—Você devia aprender deragoniano... – Ela revirou os olhos. – Porque eu não posso aprender o que meu pai e sua mãe falavam?
—Não pode aprende só que lhe parece conveniente, terá que aprender o que lhe for lhe imposto. – Ela bufou. – É chato, eu sei, mas, é assim que funciona. – Houve uma pausa. – Aliás, se me permite te dizer; Ben lhe dará filhos bonitos. Não tão lindos quanto os meus, mas, serão lindinhos...
— São umas conversas estranhas... – Ele começou a rir, era bom descontrair e não se irritar.
—É tudo que você precisa saber por isso...
*
No almoço as coisas que já estavam tensas, se elevaram entre intensidade e hostilidade, raiva e mágoa, uma vergonha para os anfitriões na frente dos outros, isso foi constrangedor, o mesmo se seguiu no jantar de despedida de Estela, se aquilo fosse um encontro diplomático, a rixa de Eilon seria prejudicial. Quando todos se dispersaram, após, presentear e se despedirem de Estela, Ben puxou Artemisa para o pátio, eles não era os únicos do lado de fora do castelo, mas, como sempre eram os mais afastados do clubinho “leite azedo” como Orion os chamou, e ela adorou. O clube estava descontraído, foi quando Ben fez um gesto para Artemisa que riu, foi quando Max começou a olhar para os dois, a risada dela era única, não que a de Annie não fosse encantadora, a de Artemisa era presencial, quase contagiante.
—Max? – Annie o chamou com uma voz suave. – Tudo bem? – O garoto assentiu e depois de repensar os pensamentos mostrou o anel que ele havia mandado fazer para Annie, Elisa e Elora deram um suspiro com graciosidade, enquanto ele colocava o anel no dedo dela, aquilo quebrou o coração de Artemisa de maneira quase lerda, para ela sentir aos poucos, quando seus olhos começaram a marejar, ela se lembrou que estava com Ben, se lembrou que Orion disse que ele lhe daria filho bonitos, mas, tanto Max quando Ben eram bem parecidos. Com algumas diferenças, entre elas a coragem. Ben observou o alvoroço do grupo e tocou no rosto de Artemisa.
—Eu entendendo que você não me acha interessante. – Aquilo a pegou de surpresa. – E entendo que não estou lá á altura de condes e lordes... – Ele sorriu de forma meiga e suave.
—Eu não...
—Tenho um presente para você. – Ele a interrompeu, porém, em seguida ele a olhou com o rosto vermelho e em seguida se arrependeu. – Perdão, desculpa. Não quis te interromper. – Artemisa riu e fez um gesto que ele não precisava se desculpar; então ele continuou com o rosto vermelho rindo sem jeito, o que a fez rir. Ben então se apoiou em um dos joelhos se abaixando, o que a fez prender a respiração, pois seu sorriso era caloroso e reconfortante. Por um breve momento o olhar de Max encontrar o de Artemisa, que só voltou a sua atenção quando Bem começou a falar. O que chamou a atenção de Max que ainda segurava a mão de Annie, ele virando a cabeça fez os outros acompanharem. Mesmo que eles não pudesse ouvir, eles viam.
—Eu me perguntei de onde vêm os pensamentos de não conseguir parar de você. Não consigo fazê-los parar, pois, o seu rosto é a única coisa que eu vejo quando fecho os olhos. – Ele respirou fundo. – É que dessa vez eu posso ver você bem mais perto dessa vez. Nem que seja por um breve momento. – Então, ele estendeu uma espada para ela. O pomo tinha o formato de uma rosa em broto, com uma bainha dourada e carmesim, o cabo e o guarda-mão tinha a imagem de um caduceu, havia uma imagem de um Pégasus com as asas abertas acima do cabo e a lâmina tinha linhas onduladas prateadas, que tinha o nome dela escrito em calasiano, o encaixe da bainha era incrivelmente bem decorado, como pequenas pétalas de flores com pequenos brilhos. A garota prendeu a respiração e riu para ele, muito mais do que qualquer uma que ela podia imaginar, era linda, não era um buquê de noiva, não era um anel adornado, mas, era algo que ela usaria, mesmo que ela quisesse isso, ela também achou belíssimo. Em um segundo ela abraçou o garoto que retribuiu o abraço e a segurando nos braços rodando com ela, o que a fez rir. Foi quando Ethan deu uma risada debochada.
—Você não tem medo dela te machucar com essa espada? – Houve um silêncio no pátio, Artemisa soltou Ben e olhou para os irmãos, suas mãos começaram a coçar. – Qual é, você viu o que aconteceu hoje. Eles estavam rindo se divertindo e zombando, provocando, Artemisa tentou não explodir novamente, estava cansada deles, como eles podiam, então ela correu em direção ao castelo, na qual Ben a perseguiu, ela era mais rápida, quando ele finalmente a alcançou a segurou pelo pulso suavemente.
—Espera Artemisa. Desculpa se eu te humilhei, achei que esse presente seria perfeito... – Ela começou a chorar, na qual ele a abraçou firme contra o seu peito. – Tudo bem você ser impulsiva, sei que você não me machucaria, e eu sei me defender. – Artemisa queria gritar, queria sacar a espada e machucar eles, mas, então olhou para o garoto. – Vou dizer por que é importante; você é como uma estrela, brilha mais do que qualquer coisa. É impossível não olhar para você. – Ele inclinou a cabeça e segurou o rosto dela. – Você será Rainha sem precisar casar com um Rei; só pense nisso, é diferente e está tudo bem você ser diferente. – Ele limpou as lágrimas dela. – Desculpe não gosto de te ver triste, você tem um sorriso tão lindo.
—Obrigada... – Artemisa sussurrou com a voz um pouco embolada, depois ela segurou a espada pesada e sorriu. – Eu gostei do presente, é lindo. Você não me humilhou, eu realmente usarei isso. – Ela sorriu, foi quando Ben se inclinou e a beijou devagar e com calma. Claro, houve o momento que ela quis controlar o ritmo do beijo, mas, ele segurou suavemente nos seus ombros, se eles avançassem mais, ele teria problemas com Perseu.
~*~
Antes da manhã começar, Orion foi ao quarto de Artemisa batendo na porta com calma e um sorriso animado, ele inclinou a cabeça quando viu que ela estava quase toda vestida, faltava a cor certa assim como o penteado certo. Enquanto fazia as tranças em metade do cabelo como ondas, ele explicava como a viagem não demoraria, que seria divertido, independente de quem fosse, ela só precisava ter estomago forte, apenas isso. Enquanto a neblina pairava sobre o porto, o navio de Ruphira com escamas de kraken, o que deixava a navegação rápida, o navio de Calasir tinha apenas Navi no navio como sempre, ele queria levar Leodak, apenas uma vez, mas, Mandrik recusou, em vez disso, ele levou Gameon, Perseu não iria deixar o Pégasus da sua filha do outro lado. Ben recebeu uma ordem da coroa de Calasir, vinda especialmente de Eilon, para ele ir para Saphiral, manter Artemisa ocupada, distraída, por tempo indeterminado, o soldado não tinha raiva do Rei, estava um pouco chocado, mas, ele tentou entender, o pai deles morreu, sua mãe ia embora, era algo novo para todos eles.
Ver os filhos com o olhar visivelmente ressentidos machucava o coração de Estela, era meio inacreditável que na única vez em sua vida, quando ela tinha poder de escolha ainda assim, parecia a escolha errada, porque alguém sempre iria cobrar muito dela, iria reclamar, ela estava determinada a ser feliz.
Quando o navio zarpou do porto, Auterpe se viu longe de Calasir, mas, ainda assim, próxima demais deles, Evan, Elia, Joice, Connor, Lincan, Estela e Ben estavam indo com eles para o outro lado. Ela aprendeu a aturar a sogra, mas, Lincan ainda era uma incógnita. Estava grata pelos outros filhos de Estela não terem vindo, mas, também se sentia aflita. Orion estava debruçado na torre junto com Artemisa, Evan e Elia estavam com as babás, e Ben estava perto de Perseu, por ordem dele.
—Eles estão reclamando que vão ter que cuidar de tudo sozinhos... – Orion disse virando para a prima que ignorou aborrecida. – Tá bom, quer mudar de assunto? Como foi a noite com Ben? – Ele perguntou com um bom sorriso. Artemisa riu revirando os olhos.
—Foi como todas as outras, ele me beija, me elogia, me corteja e não entrou no quarto comigo. – Ela disse com indignação a última frase.
—Vamos lá, vai ser mais emocionante se for em Saphiral. – Ele disse rindo. – Para que usar um quarto? Uma cama? Tem tantos lugares para vocês fazerem lá e.
—ORION ARCHI INTERLOK! – Auterpe berrou o que fez o garoto tremeu e olhar para baixo, ele trincou os dentes e deu um sorriso com uma expressão de “foi mal.” O navio magicamente velejava sozinho, apenas as vezes precisava usar o timão para arrumar a rota, mas, ele estava indo para Ruphira, então não precisaria de muito. Lincan estava bebendo um vinho em uma taça de crânio de prata, achou inesperado, sentado em duas cadeiras no convés junto com William, ele observou a esposa do sobrinho brigando com o filho, achou a cena inusitada, não era como se Orion fosse peitar a mãe, estava tentando ajeitar a situação.
—Me diga uma coisa... – Ele se inclinou para William com um sorriso curioso. – Como você simplesmente virou um Rei? Só casamento?
—Na verdade, eu virei Rei honorário quando Orion nasceu, aí ocorreram uma coisas chatas.
—Rei de dois dias... – Lincan disse rindo tomando um pouco do vinho. – Seu irmão adorava esse apelido.
—Mas, agora faz mais de dois dias... – Lincan então desviou o olhara para Perseu e Estela, ambos estavam juntos de Connor, conversando, sorrindo um para o outro, foi quando ele cutucou William novamente. – Tanto tempo batendo uma pra cunhada e nem se aproveitou da viuvez para consumar os desejos?— Ele sussurrou baixinho, o que fez William ficar vermelho e rir. Ele negou devagar bebendo o vinho e olhando para Auterpe.
—Seria uma traição dupla... Com Perseu, Auterpe... Não posso dizer que não tenha aproveitado algumas vezes. – Ele sussurrou de volta.— O pavor e a indefesa dela é tão engraçado...
—Não é como sua esposa.
—Auterpe é inexplicável, forte, dominante...
—Sério que agora sua esposa domina você? – Ele riu baixo.— Tudo bem, tudo bem, não esperava isso de você. Mas, o quão diferente ela é de Estela?
—(...) Bastante, não sei explicar, a maciez da pele, o cabelo... Os olhos... – Houve uma pausa. – Mas, olhe para ela. Eu morreria por ela, eu mataria por ela. E seria um prazer. – Lincan ergueu a sobrancelha.
—Á qual você está se referindo?— William riu baixo. Aquele riso fez o coração de Auterpe parar alguns segundos, seus dedos ficaram estáticos, e ela se apoiou no lado do navio de tontura, ânsia e como se o chão sumisse. Ela começou a puxar ar e apertou a madeira com força, sua visão ficou turva, não. Não podia ser verdade, não, pelos deuses. Devia ser um engano, tinha que ser um maldito engano. Mesmo com as peças se juntando, ela não queria aceitar, não queria entender, nem podia. Auterpe começou a duvidar do seu valor, da sua força, da sua vida, da sua beleza, as peças se encaixando, sua garganta fechando. Ela caminhou de forma automática para frente do navio, segurando nas coisas, Perseu olhou para sua irmã e se assustou com sua expressão, ela parecia um fantasma.
—Auterpe? Tudo bem?
—O portal! Agora. – Ela se manteve firme, Perseu estranhou a expressão da irmã, mas, se posicionou na outra ponta da frente do navio, não era adequado abrir o portal em qualquer lugar, eles poderiam ir para qualquer Reino, qualquer parte de Pardóx.
—Auterpe, vamos um pouco mais para o leste, por favor, por aqui não... – Ela olhou para Perseu com uma expressão incomodada. – Auterpe...
—Está com medo? – Ele pressionou os lábios, foi quando ele olhou para Estela o que fez Auterpe rir e falar em Saphiral arcaico: Está parecendo como Estevão, cego de medo de machucar ela.
—Pare!
—Abre a droga do Portal ou eu abro sozinha! – Perseu fez um sinal para ela esperar, e chamou Orion e Artemisa com a mão. Ambos se aproximaram dele e observaram.
—Orion, coloque todos para dentro, para as cabines, os mantenham seguros e depois suba para nos ajudar a abrir o Portal. – O garoto arregalou os olhos.
—Não, aqui não. – Ele tocou no ombro do sobrinho.
—Considere isso sua primeira tarefa de Príncipe. – Orion mordeu os lábios e da maneira menos calma que conseguiu pediu para todos irem para as cabines e saírem do convés. William se aproximou do filho preocupado.
—O que aconteceu?
—Mudança de planos, não deixe ninguém sair das cabines até nós chamarmos. Pode ser?
—Cadê sua mãe?
—Pai, por favor, só vai, por favor... – Quando todos desceram para as cabines, e Orion se aproximou da proa, Navi no outro navio pensou rápido o suficiente para amarrar uma corrente no barco, porque de repente o vento mudou.
Foi quando de repente, o choque da membrana entre os dois lados não fez cócegas, foi uma ventania sombria que passou pelo seu corpo os fazendo fechar os olhos e Orion cair de joelhos. Quem estava nas cabines sentiu um impacto menos violento, Perseu encarou a irmã, foi impulsivo da parte dela, ela poderia machucar os outros, mas, Auterpe estava cega de raiva e descrença. Quando a vista clareou, Perseu recuou um pouco para observar o lugar, não o reconhecia.
—Onde estamos? – Orion olhou para os lados, era uma paisagem quase assombrada, com construções demolida e inabitável.
—Vermell de Ruphira. – Perseu estreitou os olhos, eles estavam em águas inimigas.
—Auterpe! – Ele exclamou. – Está louca?
—Talvez... – Ela subiu no mastro e ajeitou as bandeiras mudando o rumo, Orion olhou para Perseu assustado, o que sua mãe estava fazendo?
—Tio...
—Vermell de Ruphira não é tão longe de Ruphira, é metade de um dia de viagem. – Ele tentou o tranquilizar. – Vai dar tudo certo. – Orion segurou no peito por um segundo enquanto o tio foi verificar primeiro Navi e depois os demais, mas, ele ficou lá parado observando a paisagem e sua mãe. A viagem realmente foi mais rápida por esse caminho, no final da tarde, podiam-se ver cores, paisagens vivas, o que fez Orion respirar aliviado, foi quando todos puderam voltar para o convés e admiraram a vista.
Joice ficou de boca aberta vendo como as casas eram decoradas com metais, diversas pedras preciosas, e as torres feitas de ouro reluzente era encantador; Connor ficou mais impressionado com as árvores que brotavam do mar e era frutíferas, Estela gostava de ver os inúmeros dragões aquilo sempre a fazia lembrar-se da sua antiga Deragona, não a que Perseu refez para ela. Lincan observava tudo com curiosidade, tinham de tudo daquele lado, as feras aladas dos dragões, outros animais emplumados, era de tirar o fôlego, mesmo que ele já tivesse visto de tudo, aquilo era inusitado. Os animais aquáticos acompanhavam o navio com animação, tudo era vivo, haviam construções novas, Ruphira mudou bastante em 15 anos, parecia maior.
Quando chegaram ao porto, Auterpe desceu primeiro junto com Orion. Como se esperado, alguns moradores correram em direção à ela, animados, sempre a presenteando, Orion se afastou um pouco, foi quando um grupo de doze garotas foi ao encontro dele, de uma forma tão rápida que foi inesperado. Ele deu uma risada sem graça quando foi derrubado no chão. Todos que estavam no navio acharam aquilo extramente estranho, mais por causa da rapidez que aconteceu. Foi quando Joice desceu correndo em direção ao neto.
—Vossa Majestade retornou em segurança... – Lennus se aproximou de Auterpe fazendo uma reverencia e pegando sua mão para beijar com devoção, porém, parou quando olhou para a aliança em sua mão. – Majestade... – Foi quando William se aproximou de Auterpe colocando a mão em volta da sua cintura, o rosto de Lennus endureceu. – Você de novo!
—Prazer te ver também Lennus. – William disse com um sorriso, mas, não foi retribuído, o Conselheiro olhou para Auterpe que mordeu levemente os lábios, o Conselheiro deu um passo para trás e viu a confusão entre Joice e as garotas que não queriam soltar Orion.
—O que... – Lennus se aproximou de Orion e ficou confuso depois se virou para o garoto. – Bem-Vindo de volta Herdeiro de Ruphira, Orion. – O garoto sorriu.
—Bom te ver Lennus. Ah, esses são os meus convidados, são a minha família. – Lennus olhou ao redor. Perseu acenou com a cabeça o que apenas o deixou mais confuso.
—Como assim sua família? – Orion se arrumou colocando as garotas de lado, e começou a apresenta-los.
—Minha avó Joice, meu avô Connor, meu tio avô Lincan, minha tia prima Artemisa, Ben, e claro, Rei Perseu meu tio, e William, meu pai. Oficialmente casado com a minha mãe. Pessoal, esse é o Conselheiro de Ruphira, Lennus.
—Vossa Majestade se casou? – Lincan percebeu o incomodo no rosto do Conselheiro, ele escondeu um sorriso. Foi quando Auterpe fez um sinal para que Orion tomasse a voz na apresentação deixando a pergunta do outro no ar.
—Querido povo de Ruphira, quero lhes apresentar formalmente o Rei e a Rainha de Saphiral, Perseu e Estela Archi. – Ambos se apresentaram para a multidão deles, Lennus observou Estela, aquela Rainha sempre estava grávida e pelo visto, sempre estava com um Rei. – A Princesa Artemisa de Saphiral e seu acompanhante Ben de Calasir, os membros da família real de Calasir, Connor, Lincan e Joice. – Ele se voltou para eles com um sorriso, bem-vindos a Ruphira. Somos receptivos e os meus súditos são amáveis. – Eles gritaram, deram as boas vindas entregando flores e algumas pulseiras de ouro, o que Joice completamente amou, Connor preferia as flores.
Antes de eles caminharem para o castelo, Quetzalcóatl, um homem emplumado, parecendo com um réptil voador, o deus criador, alto e forte apareceu para Orion. Quem não estava acostumado se afastou de súbito, os deuses de Saphiral não eram tão altos para Artemisa, nem assustadores.
—Orion...
—Quetzalcóatl... – Orion fez uma reverência. – É uma honra te ver. – Ele colocou os braços para trás em uma expressão de respeito. – Veio me ver por causa da coroação? – O deus assentiu. – E quer saber minha decisão, suponho. – Orion olhou rapidamente para a mãe, mas, seus olhos pararam em seu pai, queria dar orgulho para ele, queria que sua presença fosse tão desejada e almejada quanto à de Ethan, ele se virou para o deus e deu dois passos para o lado. – Eu escolho Mictlantecuhtli. – Auterpe perdeu o ar junto com Lennus que engasgou, as garotas se entreolharam, e William inclinou a cabeça.
—Tem certeza?
—Absoluta, nunca estive tão certo em toda a minha vida. – O deus apontou para as garotas que voltaram a sorrir. Orion tocou na de cabelos avelã e estendeu a mão para a de cabelos vinho. Auterpe apertou as mãos, respirou fundo e paralisou. Mictlantecuhtli era o deus do submundo e dos mortos. Mesmo que fosse algo natural, havia outros deuses, outros menos rígidos.
—Orion, está convidado para a sua coroação ao amanhecer. – O deus desapareceu em seguida, foi quando ele deu um suspiro de alivio e se voltou para seus convidados.
—Vai ser fantástico! – Ele exclamou animado, Lincan se aproximou do sobrinho quando Auterpe se afastou do filho, ela precisava ser a anfitriã de Ruphira, independente do que estava sentindo em sua mente, seu filho seria coroado Príncipe, e seria um dia cheio, turbulento e desafiador.
—Porque as duas garotas? – Orion abaixou levemente o rosto sem jeito.
—Sacrifícios... – Ele disse baixinho, o que deixou o seu rosto vermelho. – Durmo com elas e serão sacrificadas. – O tio o olhou surpreso, o que fez recuar. – Eu gosto, elas se sentem honradas, é o meu dever. E as regras...
—Sabe o que eu acho? – Lincan colocou a mão sobre o ombro do sobrinho, e sorriu. – Você vai ser um Príncipe coroado, futuro Rei desse lugar não é? – Ele assentiu. – Então porque seus súditos não podem ficar felizes pelas suas escolhas? O Reino ficará feliz se o Herdeiro estiver feliz, não é?
—Sim... Mas.
—Aproveite, você é o futuro Rei, tome o controle da sua vida e se divirta. Aproveite sem todas as regras.
—Mas... – Lincan bagunçou os cabelos de Orion e sorriu.
—Ouça seu tio, eu sei que você não vai se arrepender de ser feliz.
O castelo continuava bem decorado, parecia maior, havia mais corredores que eram completos labirintos, ao contrário da coroação de Auterpe, a de Orion era mais complexa, mas, ele levou o conselho de seu tio com convicção, no meio da noite, quando sabia que não seria possível o ouvir saindo, ele foi até as montanhas, pegou um de seus dragões e desapareceu no céu escuro. Na manhã seguinte, quando todos levantaram, havia uma energia contagiante pelos corredores e pelo Reino, assim como na noite passada, Orion não sentou para comer com os demais, ele tinha um pequeno palacete para essas ocasiões de sacrifícios. Também foi aconselhado que não comerem muito.
As roupas que foram entregues para os visitantes era o típico roxo, com detalhes dourados e prateados, os únicos que não estavam de roxo era Perseu e Estela; eles usavam o rosa mais escuro, como Artemisa ainda não foi coroada Princesa de Saphiral, seu vestido tinha duas cores, rosa e roxo. Auterpe estava preocupada, a coroação aconteceria no pátio principal, era mais espaçoso de frente para os templos dos deuses. As roupas de Auterpe eram diferentes, revelavam muito a pele, as suas coxas e seus ombros, mesmo com as penas douradas, era impossível não olhar para o corpo dela, o que deixou William com ciúmes.
—Porque essa roupa? – William perguntou com uma voz séria. Ela não fez nenhum comentário, mal conseguiu dormir a noite, apenas fez um gesto de que estava tudo bem. Mesmo que não estivesse tão bem assim. A mesa para os deuses estava pronta com oferendas, tudo parecia perfeito, faltava apenas Orion. William tocou no rosto da esposa que se assustou com o toque, e olhou para ele. – Não se preocupe. Vai dar tudo certo, Orion vai ser Príncipe, não se preocupe. – Ele entrelaçou os dedos nos do dela. – Estou aqui... – Auterpe assentiu e apertou a mão dele, sabia, o sentia.
Quando Orion apareceu rindo para todos vestindo uma roupa de guerreiro, as plumas eram escuras, o sorriso dele fez a multidão se animar, Artemisa negou a empolgação dele rindo, parecia eufórico. Ele se colocou no meio da arena, e fez uma reverência para os seus pais, antes do deus aparecer. Orion se virou para ele e sorriu largamente. Mictlantecuhtli era uma figura esquelética enorme, com um cocar longo de penas preta e verde escuro, com brincos pontiagudos como adagas e olhos pretos com íris vermelhas vibrantes chamavam a atenção, não havia pele no seu rosto ou tronco. Era possível ver seus olhos, principalmente o crânio da sua cabeça. Foi quando William se inclinou, Estela e Perseu estavam próximos dele, disfarçadamente cochichou para Estela:
—Gostaria que Ethan tivesse vindo, ele teria adorado ver isso.
—William...
—Imagine como ele ficaria no momento do sacrifício.
—Nem quero. — Auterpe torceu o nariz, como William era capaz? Foi quando ela soltou sua mão sutilmente.
—Orion, nascido de Auterpe, cria de Éfellya, o caos do Universo; com o sangue de William, cria de Connor, o equilíbrio mortal; entende que está escolhendo Ruphira para ser responsável quando a Rainha e o Regente não estiverem? – A voz do deus era profunda, transmitia uma serenidade prendendo a atenção. Connor ficou feliz que seu nome foi mencionado por algo que ele nunca tinha visto, Joice desgostou de não ter sido mencionada.
—Sim, eu, Orion, Archi Interlok, neto do caos Subimortal e do equilíbrio Mortal escolho ser responsável por Ruphira, mas, também escolho poder ser feliz para manter o meu povo feliz. Eu estando felizes, eles ficarão também.
—E porque diz isso?
—Porque você poupou meus irmãos... Poupou deles ficarem eternamente perdidos no profundo do Mitclan. – Houve um silêncio e o deus concordou, o que fez Auterpe se emocionar. – Eu agradeço por isso;
—A morte não é o fim... – Mictlantecuhtli disse naturalmente.
—É a passagem para a outra fase da existência no universo cíclico eterno. Por vezes efêmero, onde cada segundo ornamenta as estações, tudo flui, Ruphira respeita essa fluidez. – Ele dizia com a voz séria, e sorridente. – Pois, antes do nosso encontro de almas, aprecio estar face a face comigo. – O deus entregou um cetro de osso dourado. – As festividades se iniciam! – Ele exclamou, o que levou o povo a gritar e comemorar.
A coroação foi totalmente diferente, haviam homens fortes, bem armados entrando na arena, Orion estralou o pescoço e começou a lutar violentamente contra cada homem que contra atacava, parecia um espetáculo de horrores, mas, aqueles homens eram inimigos da Coroa, inimigos de Ruphira, adversários de Orion. William por um instante paralisou, olhou para Auterpe que estava relembrando que foi durante sua primeira tarefa perdeu a coroa de Rainha. Orion tinha mais vontade, mais agilidade, agressividade. Perseu tampou os olhos de Estela na metade das vezes, Artemisa e Ben se revezavam para tampar os olhos um do outro. Connor estava impressionado, Joice indignada e Lincan admirado, o garoto era imparável. Quando alguns homens estavam no chão, os leões foram soltos, o que o surpreendeu, as feras eram imensas, e eram quinzes, ele usava espadas e adagas, ás vezes dava choques, a multidão de Ruphira ia a loucura, mas, por um instante William não se sentiu confortável, era perigoso, principalmente quando um leão arranhou o peito do garoto, ele queria impedir tudo, mas, Auterpe o segurou.
—Orion vai morrer!
—Ele escolheu essa coroação, não o assuste... – Ela o segurou forte. – Você é PAI DELE! – William se virou para Auterpe assustado, ele sabia que era, mas, ela disse com uma certeza que arrepiou sua espinha.
A luta prosseguiu com algumas decapitações, quando ele achou que havia acabado, as duas garotas que ele escolheu apareceram armadas com foice dupla, ele cuspiu sangue antes de trocar a arma de luta. Elas eram ágeis, o que demorou para arrancar o coração de uma e jogar para que o deus comesse; entretanto, a outra garota impediu, o que o deixou vulnerável, se o coração parasse de bater a coroação seria adiada. Ele chocou sua cabeça contra a dela a desnorteando, foi tempo dele jogar o coração da outra antes de fazer o mesmo com ela. Seu corte era perfeito, rápido, ágil, e depois de lutar incansavelmente ele completou os dois sacrifícios. Houve um silêncio quando ele caiu no chão e ficou imóvel por um tempo; ele riu, ser dramático era horrível. Orion se levantou berrando de alegria ouvindo a salva de palmas e a fogueira sendo acessa, foi quando Mictlantecuhtli pegou o cedro de osso dourado e transformou em uma coroa de ouro, com adereços de ossos, com pequenas lanças parecendo de espadas, o garoto riu e pulou de alegria, foi lhe entregue um anel e um bracelete de ossos no braço direito.
—Á vocês, eu os apresento oficialmente, o Herdeiro de Ruphira, Orion, agora o Príncipe de Ruphira, o Príncipe da Morte! – Enquanto ele pulava animado, olhou para os seus parentes, então, parou, ele olhou para o seu corpo, estava sujo de sangue, ele prendeu a respiração, e antes que dissesse algo Auterpe se levantou.
—Vamos festejar! Viva Orion Príncipe de Ruphira!
—Viva o Príncipe da Morte!
—Ah, claro, para dar mais alegria aos meus súditos... – Houve um silêncio. – Quero apresentar a minha futura noiva. – Auterpe travou e arregalou os olhos. Orion estendeu a mão para uma garota encapuzada perto da mesa dos deuses, o capuz era vermelho, lilás, ninguém percebeu até ele caminhar até ele e tirar o capuz. – Á vocês, minha felicidade, Galatéia Nelpa.
Enquanto o povo comemorava e dançavam em volta da fogueira, Lincan ria e Artemisa junto com Perseu pareciam chocados; Auterpe sentiu suas pernas fraquejarem, ela caiu sentada na cadeira desacreditada, seu filho desobedeceu todas as regras.
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