Amnésia
1 Capítulo 01. É tarde demais para se desculpar.
Cap. Bella.
Meu dia começou com gritos e um sonoro tapa, mas o que realmente me importava foi o meu copo de suco quebrado no chão da cozinha. Me ajoelhei na tentativa de juntar os cacos, porém já era tarde demais, assim como a droga da minha vida.
—Como ousa trabalhar de atendente de supermercado? Sujando o nome do seu pai.
—Aro, não é meu pai -Falei desviando de mais um tapa em meu rosto.
—Nunca mais fale isso entendeu?
Minha mãe estava tão furiosa que não consegui contestá-la.Tudo que eu queria dizer era que sentia muito. Por ter nascido de um caso de uma noite e ter destruído sua carreira de modelo. Por me parecer tanto com um pai que eu nem conheci. Me desculpar por se preocupar tanto que com meu futuro que se tornou uma caça dotes. Não posso negar que vários aluguéis atrasados e uma criança pequena para alimentar faz com que qualquer pessoa perca sua sanidade. Mas agora estava adulta suficiente para ajudá-la, não ficaríamos ricas, porém ficaríamos livres .
—Lembre-se que está registrada no nome dele -Gritou minha mãe.
—Que seja, pois já solicitei bolsas em todas as faculdades do país, eu vou embora.
Isso não era uma ameaça e sim a realidade. Eu estava com os dias contados naquela casa. Se minha mãe não conseguia dar um basta naquele assédio moral e psicológico, alguém tinha que dar.
—Menina ingrata, depois de tudo que fiz por você.
—Sinceramente, preferia morar na rua, passar fome, do que viver com um padrasto que não me respeita.
—Se isso está acontecendo é por que você está se insinuando, com estas roupas curtas e todo seu jeito.
Por que sempre a vítima é culpada? Culpada por estar no local errado. Culpada por vestir roupas que chamam atenção de velhos tarados. Por que não aceitar o fato da vítima ser apenas vítima?
—Sim, eu sou a culpada -Falei vencida -Eu sou uma prostituta como a minha mãe .
O tapa veio só que desta vez eu não desviei .Não era isso que ela queria? Que assumisse a culpa por tudo. Senti a dor do tapa, mas isso não era nada em relação a dor da minha decepção, minha mãe deveria me proteger.
—Sua pequena vadia -Gritou em fúria.
—Me bata se quiser, mas quando sair por aquela porta não vou voltar mais -Gritei tão alto que mal reconheci minha voz.
—Você não faria isso .
—Pode apostar -Desafiei.
—Bella é sua festa de aniversário de dezoito anos o que faremos com os convidados? Perguntou minha mãe voltando para o modo "fingir para a sociedade que somos uma família perfeita."
—Cancele.
—Não posso, seu pai ficaria furioso pois todos os seus sócios foram convidados .
—Mãe, não vê que está pedindo demais? Que não consigo ficar no mesmo lugar que Aro .
—Por favor, por favor! Implorou de joelhos -Você é minha filha precisa me ajudar.
Sim, ela era minha mãe e não conseguia odiá-la.
—Tudo bem -Suspirei odiando cada palavra.
Passei o dia em um spa, onde o maquiador demorou para esconder o vermelho do meu rosto, mas discreto não me fez nenhuma pergunta, já que estava acostumado a cobrir os roxos da minha mãe. O vestido de princesa azul celeste combinando com meus brincos de diamante esconderam perfeitamente meu sofrimento. Eu quase acreditei que era feliz. Eu quase acreditei que tinha que tinha uma família perfeita quando sorri para a foto de família, aquela que ficaria emoldurada em alguma parede da mansão. Mas isso foi apenas um segundo.
—Linda! Sussurrou meu padrasto com olhar malicioso quando agarrou minha mão, que fiz questão de esquivar.
Se meu olhar pudesse matar alguém, Aro com certeza estaria morto, mas ao mesmo tempo agradeci aos céus por ser criada pela mãe dele, uma senhora muito gentil, mas que Aro temia e obedecia. Ela acreditava cegamente que eu era sua neta até meus dezessete anos, data do seu falecimento e começo do meu suplício. Antes era apenas olhares ou palavras sugestivas, agora era algo explícito.
—Me solte -Falei baixinho quando subi a rampa do maldito iate .
—Bella, seu pai só quer levar a filha para festa -Repreendeu minha mãe totalmente cega ou burra.
—Eu posso muito bem ir sozinha -Falei posando para os paparazzi de plantão.
O iate estava lotado de seletas pessoas, que eram apenas volume para uma festa de fachada enquanto meu padrasto e seus sócios fechavam contratos ilegais .
—Isso parece tão sujo -Falei tão alto que minha mãe escutou.
—Pelo menos uma vez esqueça tudo e apenas viva -Insistiu minha mãe para que vivesse uma farsa.
Talvez ela tivesse certa era meu aniversário e tudo que eu queria era uma vida nova. Uma garçonete me ofereceu uma bebida que logo aceitei, afinal já era de maior e era apenas um copo, que mal faria? Mas logo veio uma tontura. A bebida estava batizada com algum tipo de entorpecente. Meu padrasto me olhava como se aprovasse o meu comportamento .Ele queria me embebedar em um lugar onde todos estavam bêbados ou de uso de substâncias proibidas. Seria tão fácil.
Mas isso não ia acontecer, por que antes acabaria com a minha vida .
Uma banda começou a cantar próximo a piscina, aproveitei o ensejo e acabei me afastando, o iate era grande, luxuoso e estava começando encher de uma multidão de corpos que se moviam de acordo com a batida a maioria era jovens, no salão também havia um cantor .
Sem pensar arranquei meu sapato de salto e tentei equilibrar na borda do iate. Meu único pensamento foi se água estava fria e quanto tempo demoraria para minha mãe sentir a minha falta. Certamente me culparia e depois seguiria sua vida .
Perdida entre o sim e não, escutei um tiro, mas talvez estava dormente o suficiente para confundir um tiro com fogos. Porém no segundo tiro não tive dúvidas, estava acontecendo algo ou talvez era só o meu padrasto exibindo suas armas em outras palavras ameaçando alguém. O que era normal no ramo ilícito em que ele era envolvido.
—É um assalto. -Gritou uma voz desconhecida .
Não, aquilo não parecia uma brincadeira .Pensei quando tentei descer da borda, mas dois barcos bateram no iate. Decidindo a minha indecisão .
Eu estava certa a água estava fria e as ondas não estavam tão calmas como imaginei .E no meio da confusão descobri que queria viver, tentei gritar na esperança que alguém percebesse a minha presença, o que não ocorreu. Lutei o máximo que consegui, precisava ajudar minha mãe. Quanto mais me debatia, mas cansaço me atingia. O frio tomou conta do meu corpo até que fiquei inconsciente.
Não sei quanto tempo fiquei no mar ,pensei que estava morta quando ouvi uma voz masculina .
—Está salva agora.
—Aguente firme .
—Lute .
Essa eram as palavras de incentivo da voz do meu benfeitor. Lutar para viver e era isso que ia fazer .Depois de um tempo não sentia mais frio, alías não sentia nada. Desesperada tentei mexer meu corpo inerte. Primeiro foi os dedos, depois as mãos que rapidamente foram enlaçadas por uma mão que poderia jurar ser a do desconhecido que parecia feliz com meu pequeno gesto. E por último abri os olhos, mas logo fechei devido a claridade.
—Já acordou? Perguntou a voz.
Fiquei em silêncio, não sabia o que dizer, tudo estava tão confuso. Tentei me lembrar de algo, mas para meu desespero não me lembrava de nada.
—Bella, eu sei que está acordada. Insistiu a voz.
Continua....
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