Amnésia
1 Capítulo Único
Notas iniciais
É baseada nessa música linda do Justin Timberlake, Amnésia, e recomendo que leiam com ela! ;] tem alguns pedaços da letra na fanfic, também. O link tá nas notas finais.
Algo simples que tive a ideia no ônibus, espero que gostem!
E desculpem qualquer erro, eu não reviso rs
Enjoy~
Amnésia
— Hm... Star me pediu para te lembrar de trazer a mostarda. Aparentemente nós só temos dois fracos sobrando.
Ele fecha a porta da geladeira, uma única latinha de refrigerante na sua cesta. Ainda tem que pegar o pão – o verdadeiro motivo para ter ido até o mercado àquela hora e naquele tempo – mas não está com pressa e sorri para o celular, encostado firmemente na orelha.
—Bom saber que você precisa de uma desculpa para me ligar – comenta com um sorriso. Ela faz um som engraçado do outro lado e Garfield quase pode ver seus olhos revirando. Quase. O som faz cócegas no seu pescoço, descendo até o peito num calor agradável.
—Eu não preciso. – É a única coisa que Raven diz, mas isso quer dizer muita coisa e, Deus, ele sabe disso. Continua sorrindo como um bobo para o telefone, passando por debaixo de um espelho e nem tendo tempo para reparar no seu tom de pele normal. O agasalho e o cachecol cobrem boa parte de seu rosto, mas o que está para ver é uma pele branca normal, assim como os cabelos loiros. Ninguém na rua poderia dizer quem ele realmente é. Ninguém percebe o anel um pouco grosso demais em seu dedo do meio.
— É claro que não. – Pega o pão, um macarrão de espinafre, a mostarda e um vinho não tão barato (de onde Asa tira todo esse dinheiro? Ótima pergunta para fazer para Rae) e segue para o caixa. O mercado está quase vazio, por ser de noite, mas isso não o importa realmente. – Eu sei que meu número já está na sua chamada de emergência, Rae.
Outra vez essa risada abafada ecoa por seu ouvido e, outra vez, Garfield sorri. A neve lá fora nem sequer lhe causa arrepios.
— Tão confiante...
A caixa diz entediada o valor da compra e ele procura o cartão automaticamente.
— Estou mentindo? – pergunta, abaixando seu tom de voz depois de digitar a senha. – Sabe, eu já percebi que você está louca para começarmos a dividir um quarto, também. Nosso relacionamento está ficando sério, baby.
Dessa vez Rae não consegue mesmo segurar a risada.
— Oh sim, estou tão louca por você. Por favor, Garfield, eu não aguento mais essa distância de um metro entre nossos quartos — brinca, sarcástica, um leve tom de humor no final da sua língua, apesar da voz monótona e séria de sempre. Ele ri alto, passando a mão pelos cabelos. Sente tanta vontade de beijá-la agora e rolar por cima dela, na cama onde ela provavelmente está sentada agora.
Ele finalmente pega a sacola na mão direita, coberta por uma luva, e sai do mercado. A neve cobre boa parte da rua, como um tapete, e um pouco ainda cai das nuvens. A cidade é toda iluminada, mas aquelas ruas parecem vazias, como o mercado. Mutano olha ao redor, procurando algum pego na onde ele poderia tirar aquele anel e finalmente se transformar em algum animal que voa, levando a sacola em seu bico. Infelizmente, muito provavelmente ele terá que ir a pé. Asa sempre diz que é melhor não arriscar.
— Você está toda brincalhona ultimamente, de quem pegou esse costume horrível? – ironiza, caminhando pela neve tranquilamente.
— Hm... Eu não sei, tem esse cara estranho com umas orelhas pontudas esquisitas me perseguindo ultimamente, eu deveria fazer algo a respeito.
— Hey! Minhas orelhas não são esqui...
A voz morre na sua boca. De repente, Garfield se lembra da neve caindo em seus cabelos. Ele pode até senti-la, seu corpo duro como uma pedra. O telefone quase escorrega de sua mão, mas continua lá com uma enorme persistência. Há algo de errado. Tem que haver. No fim da rua, há uma garota. Somente uma, seu cachecol cobrindo o queixo e boca. Mas os olhos estão nus e arregalados. Mais que os dele.
Podia sentir isso quase começar a mudar
Mas então dói demais
É quando começa a desaparecer
Seu cabelo loiro é tão brilhante quanto a luz, e suas íris mais bonitas do que as de qualquer um. O cachecol cai até seu pescoço e um sorriso lindo cobre seu rosto corado pelo frio, é uma expressão tão feliz, que não combina com seus olhos de repente tão tristes. Garfield dá um passo para trás, o vento passando por seu nariz.
Ela se aproxima e não há nada que ele possa fazer. Não quer impedi-la. Não sente essa necessidade. Seu cenho se franze. O rosto dela está cada vez mais perto, seu corpo cada vez mais perto, mas ele se sente muito distante.
—Mutano... – chama, a voz carregada de um dor desconhecida por ele. Ela é ainda mais bonita de perto. É ainda mais abatida. O cheiro doce de alcaçuz enche seu nariz e arrepia os pelos de seus braço. O sopro em forma de fumaça que sai da boca dela é frio. – Meu Deus, é você! – O que é esse som? O que é essa voz que penetra seus ouvidos? Sua respiração fica pesada.
Ele pisca.
—Me desculpe – responde sério. Há algo naquele rosto que é estranhamente familiar, mas é só isso. O sentimento entra e sai do mesmo jeito.
Continue chegando mais perto
Não conheço, mas ela acha que eu a conheço
Um sorriso bonito com aqueles olhos tristes
— Gar? Você está ai? — Raven chama no telefone, mas o cenho franzido da garota a sua frente chama mais sua atenção. Ela está tão confusa.
— O que foi? – ri de nervoso, botando uma das mechas do cabelo para trás da orelha. – Mutano, o que quer dizer? É claro que você se lembra de mim...
É ele que franze a sobrancelha agora. Essa garota loira, esse nariz rosado agora alcança até sua boca. Ela está mais baixa. Alguns anos se passaram.
— Eu não sei o que você quer dizer – O frio começa a alcançar de seus joelhos até a barriga. Ele quer ir embora.
Então ela levanta a mão, a expressão brava, e segura seu pulso – aquele toque um dia já foi quente como fogo, mas dessa vez só gela sua espinha. Ele não move sequer um centímetro. Os olhos tristes estão enfurecidos.
—Mutano, para com isso. Eu estava... Há coisas... Eu estou tão arrependida, eu queria tanto te ver, eu... – sua voz vai ficando cada vez mais carregada, até que some de vez.
Uma das luzes da rua pisca e é como se ele estivesse em outro lugar agora. Há uma grande roda gigante na sua frente, e essa garota está rindo de alguma palhaçada que ele fez. É a única coisa que ele quer ver; ela rindo.
Ela roda em seus braços no meio da sala de estar. Todos os Titãs estão dormindo, eles estão sozinhos.
Ele segura a sua mão e a diz que eles deveriam ir até a roda gigante, o show de fogos é lindo daquele ângulo.
Deus, ele não sabe dançar nada, mas o jeito que ela o abraça e tenta não pisar em seus pés diz tudo o que ele poderia saber.
A sala de espelhos parece assustadora agora. Ele pode vê-la em todos os espelhos.
Ele não pode vê-la realmente em nenhum.
Ela diz que há algo melhor. Um ângulo melhor. Segura em sua mão e o leva para o canto do parque; é de onde uma pedra flutua do chão e eles voam tão alto, tão alto quanto ele nunca sonhou.
Slade o soca no estômago. No rosto. Os ombros doem, as pernas fraquejam. Ele se transforma num gorila, suas últimas forças se esgotando.
Mutano a rodopia por toda sala, sem que eles nunca toquem nos sofás. É a melhor sensação que ele já teve, seu estômago está em chamas conforme ela sorri e cantarola um ritmo imaginário.
Isso não está acontecendo. Àquela menina do lado dele não é ela. Aquelas roupas não são dela. Aquele olhar raivoso não é da mesma menina que ele segurou nos braços. Ele diz que não. Repeite mil vezes, conforme Robin o olha. Starfire tem os olhos cheios de lágrimas, Cyborg parece capaz de pular e tentar contê-lo a qualquer momento. Não pode ser. Não pode ser. Deus, não pode ser. Ele olha para Raven, em busca de ajuda. Ela dirá que a mente da garota está sendo controlada. Dirá que Slade a drogou. Contudo, a única coisa que Raven faz é deixar o capuz cair sobre seus olhos.
Não. Aquela não pode ser a Terra.
Então ele a beija, sem se importar se as câmeras da Torre vão captar o momento.
Então ele a beija, os fogos atrás de suas cabeças. A pedra bobeia um pouco no ar, o que faz com que os dois riam.
Então ele a olha. Está tudo acabado. Star acabou de dar o último soco e Terra está no chão, acabada, os cabelos cobrindo o rosto antes tão pacífico. O rosto mais lindo que ele já viu. Starfire não tem coragem de prendê-la e mais ninguém o faz. Eles todos olham para Mutano. Todos esperam que ele decida o que fazer. Terra levanta o rosto e seus olhos estão nebulosos. Não há nada para vez; nem glória, nem arrependimento. Ele não chora nenhuma lágrima, mas nunca sentiu dor tão forte antes.
A neve volta. A rua está como sempre, bem iluminada. E aquela menina ainda está na sua frente, as palavras de aflição acabaram de sair da sua boca. Ela espera uma resposta, qualquer que seja.
Quando é que todo o fogo se tornou mais frio?
Quando o seu coração começou a bater mais devagar?
— Garfield?!— Raven chama outra vez, parecendo mais preocupada que antes.
— Eu não te conheço – diz por fim, depois de cobrir o microfone do celular com o dedo. Indiferente, começa a andar para frente, sem esboçar reação sob o olhar atônico dela. Ela o alcança e o segura outra vez no pulso, semicerrando os olhos cheios de lágrimas.
— Mutano, por favor! – suplica, os dedos o apertando cada vez mais forte. Ele está anestesiado. Nem pode senti-la. – Sou eu, Terra...
É ele quem se vira dessa vez e a segura pelos ombros, fúria estampada no rosto impaciente. Ele a sacode para frente e para trás de leve.
— Se fosse você, se fosse verdade, não acha que eu saberia?! – Grita, uma dor muito bem guardada voltando a alcançar seu peito. Ela está aflita. – Não acha que eu te conheceria?!
— M-Mutano, eu...
O garoto a solta outra vez e, não preparada, ela se desequilibra e cai no chão. Algumas lágrimas percorrem suas bochechas rosadas. O pensamento de ajudá-la sequer passa na cabeça dele. Nada passa na cabeça dele. Só a vontade que aqueles olho azuis sumam e deem lugar para íris violetas, quase acidentadas, as quais amava muito.
— Eu não te conheço – repete, quase se virando. – Você é só uma estranha.
Ela tampa a boca com a mão, uma vontade incrível de gritar e o choro tomando cada parte do seu ser. O asfalto começa a tremer levemente e ele sente conforme vai embora. Ela não vai atrás. O chão para de tremer poucos segundos depois.
— Garfield...?
— Você ouviu?
—... Uma parte, sim.
Ele suspira.
— Estou chegando na Torre, Rae.
— E eu estou esperando por você.
Tão frio, querida, agora estou ficando louco
Não sei por que você precisa de mim sozinho
Se fosse verdade, se fosse você
Você não acha? Você não acha que eu saberia?
Amnésia
Cada memória desaparece até tudo ir embora
Sem mais 'nós', ela é uma estranha que eu conhecia
Notas finais
Espero que tenham gostado! ;]
Obrigada td mundo que leu ♥
Até ;]
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