Amnésia

6 Três Lugares: Death Hills, Kiarr, Conselho Mágico


Notas iniciais
Olá, senhores leitores? Tudo bem?
Eu acho que eu estou um pouco atrasada em relação à esse capítulo, em relação ao capítulo da minha outra história e também na resposta dos reviews: a isso, eu peço minhas sinceras desculpas!
A questão é que a escola tem me pressionado bastante, e o meu tempo está muito reduzido. Eu nem tenho tido tempo para deixar reviews nas histórias que eu gosto! Isso é chato, mas fazer o quê? Eu juro que responderei os reviews assim que der.
Mas eu li todos, ok?
Estou tão feliz com essa história e os leitores maravilhosos que consegui! Vocês são fodásticos!
E espero que gostem do capítulo!

A cidade de Death Hills, situada num ponto deserto em meio à cordilheira homônima, há pouco mais de vinte quatro horas atrás, ainda era uma aldeia de magos das trevas. Apesar de pertencerem a uma guilda ilegal, e estarem tentando reviver Zeref, os magos não incomodavam ninguém, e pareciam bem felizes na sua pacata vidinha no meio do nada.

Naquele momento, porém, tudo o que restara da aldeia eram cinzas de corpos carbonizados.

E, é claro, quinze magos da aliança Fairy-Lamia-Pegasus, que, exaustos, não faziam a menor idéia do que estavam fazendo ali. Talvez pelo inegável instinto de ajudar que as pessoas do bem tinham, ou por mera falta de serviço, eles tinham ficado para ajudar os feridos do grande incêndio, e agora, debaixo de um pequeno acampamento improvisado, fileiras de feridos se estendiam, gemendo em agonia por seus corpos queimados. Wendy e Erza ainda não haviam chegado, o que tornava a cura dos ferimentos bem mais complicada e, para piorar tudo, uma grande nuvem de chuva se estendia no céu.

Juvia, que tinha trabalhado arduamente na tarefa de apagar o fogo mágico (Natsu, o melhor indicado para comer tudo, tinha se recusado a fazê-lo, para ajudar a resgatar as vítimas dos escombros), finalmente apareceu no acampamento, e depois de cumprimentar Gray da maneira usual (um pequeno selinho, apenas), olhou para o céu com olhos vagos.

_Juvia prevê tempestade forte. Porque Gray e Lyon não fazem uma espécie de teto para o acampamento?_

_Eu não vou fazer nada com esse nudista de merda._

_Olha quem fala, filhinho-da-mamãe._

_Andem, façam logo essa merda de teto!_ disse Gajeel, irritado, comendo um pedaço de ferro. _Eu odeio me molhar._

Lyon e Gray bufaram, mas quando os pingos desconfortáveis de água começaram a salpicar em suas peles, acabaram deixando a briga de lado e criando uma espécie de tenda com Gelo Mágico, que seria muito útil para abrigar possíveis novos feridos. Aquela altura, já estava quase amanhecendo, e nenhum sinal de Wendy e Erza.

_Elas não aparecem... Juvia vai procurá-las._ disse a Fullbuster, preocupada. _Chuva não incomoda Juvia, então ela pode procurá-las sem nenhum problema._

_Eu vou com você, amor._ disse Gray, vestindo o casaco. _Natsu disse que elas foram perseguir umas pessoas suspeitas... E se forem magos? Vamos procurá-las._

_Não será necessário, Gray._ disse a voz de Erza, e todos os magos pararam. _Nós estamos aqui._

Das sombras de uma ruela, estavam Erza Scarlet e Wendy Marvel, ensopadas dos pés à cabeça. Os cabelos curtos de Erza grudavam na lateral de seu rosto, e ela carregava dois homens desmaiados nos braços. Wendy, ao seu lado, parecia cansada, ou exausta, e mais se arrastava do que realmente andava. Calmamente, Erza se aproximou da proteção do acampamento e deitou os dois homens no chão, antes de reequipar a armadura, novamente seca.

_Onde vocês estavam? O que houve?_ perguntou Jura. _Eles disseram que vocês tinham visto homens suspeitos._

_E realmente vimos._ disse Wendy, generosamente aceitando a toalha que Eve lhe estendeu. _Mas não eram só homens. Havia mulheres também. E eram magos, mas não pareciam magos da guilda das trevas situada aqui. Aqueles eram magos estrangeiros, possivelmente os causadores do incêndio._

_Nós até tentamos lutar, mas de repente cinco dos seis sumiram do nada! É como se entrassem nas sombras e de lá sumissem. Uma deles ficou, mas não fomos capazes de derrotá-la. Parecia forte._

_Sério?_ disse Natsu, empolgado. _Poxa, magos desconhecidos e fortes! Eu queria ter estado lá. Ela era muito poderosa?_

_Era o que parecia. No começo, eu não lhe dei muito crédito, mas ela conseguiu parar a trajetória da minha espada, e barrou o Rugido da Wendy. Ela invocou um espírito estelar também._

Isso imediatamente chamou a atenção de todos os magos da Fairy Tail presentes.

_Um... Espírito Estelar?_ indagou Levy. _Mas... Como ela era?_

_Com certeza não a Lucy. Demasiada fria, irônica, sarcástica e poderosa para ser a Lucy que estamos procurando._ afirmou Erza. _Eu não pude ver seu rosto, ela usava capa, mas Libra não é um espírito estelar que a Lucy possuía. Acho bom não considerarmos isso uma pista de nada._

_Ah, isso é uma pena._ disse Natsu, murcho, mas rapidamente recuperando a animação._Mas é bom. Eu não acharia legal reencontrar a Lucy como nossa inimiga..._

_Realmente. Mas há algo que me preocupa à cerca do que ela disse para nós..._ ponderou Wendy, confusa. _Ela disse alguma coisa sobre Mirajane e Tohru... Agora eu me sinto preocupada. Não há como contatarmos o conselho daqui?_

_Infelizmente não._ disse Hibiki, ativando a Arquivo. _Estamos no meio do nada, e até nos mapas mais detalhados essa aldeia não existe. Só conseguiremos qualquer comunicação com o conselho quando chegarmos em Jibrille. Até lá... É esperarmos que tudo esteja bem._ ele sorriu charmosamente. _Wendy, seria muito incômodo você curar esses feridos? Se seu poder mágico estiver bem..._

_Não, eu estou legal._ interrompeu ela, sempre prestativa, se ajoelhando ao lado do primeiro da fila. _Ah, eu queria que Charle estivesse aqui... Porque Happy e ela não vieram mesmo?_

_Estavam em missão. Quem diria que Happy, Charle e PhanterLily iriam em missões sozinhos._

_Todos crescemos._ disse Gajeel, observando a chuva forte do lado de fora. _Todos nós. Eles não seriam diferentes._

_É. Mas não é hora de nostalgia._ disse Sherry. _Temos que terminar isso hoje. Quanto mais nós demorarmos para chegar a Jibrille, mais tempo estaremos perdendo na busca pela Crime Sorciére e pela Light Dragon. Quanto tempo você acha que vai demorar para curar todos, Wendy?_

_Levando em conta o nível dos ferimentos, mais ou menos uma hora._ disse a maga, concentrada.

_Dessa forma..._ disse Jura, num tom conclusivo. _Partiremos pela manhã._

_***_

Em algum ponto de Kiarr, uma aldeia simples e pacata localizada numa região onde as guildas mágicas são consideradas estritamente desnecessárias, um grupo de cinco magos estava sentado, apoiados no tronco de uma árvore, cada um entretido nos próprios pensamentos. Alguns metros à frente, o portal criado pela sexta maga faltante se mantinha aberto, tão calmo e silencioso quanto os magos que estavam sentados à sua frente. Ninguém falava.

Todos estavam tensos, entretanto.

_Mas que droga!_ disse Akane, retirando o capuz do rosto, irritada. A cascata de cabelos cacheados escuros caiu livremente pelas costas, emoldurando um rosto fino e angelical. _Porque Layla não aparece?_

_Ela nem deveria ter ficado. Abriu três portais, e usou os poderes para diferentes ataques. Pelos meus cálculos, o poder mágico de Layla estava pela metade._ disse Aoki, também tirando o capuz. Tinha os mesmo cabelos cacheados escuros da outra, embora curtos, e o mesmo rosto angelical. _Mas ela nos mataria se voltássemos._

_Vocês são irmãos?_ perguntou Meredy, também se desfazendo de sua capa. _São muito parecidos.

_Somos gêmeos fraternos. E eu não me pareço com ele._

_Parece sim._ Ultear tirou o capuz também, e Gerard, acompanhando a todos, também fez o mesmo. _Mas... Esse portal... Como ela o abriu?_

_Ela tem uma chave especial para isso._ Aoki disse, indiferente. _A Chave de Abertura, como ela costuma chamá-la._

_Mas... É normal ele ficar diminuindo e aumentando assim?_ perguntou Gerard, apontando para o portal, que começava a oscilar em termos de tamanho. _Ele está oscilando entre dois e um metro e meio de altura._

_Isso não é nada bom..._ murmurou Akane, a voz trêmula. _Significa que o poder mágico dela está chegando ao fim._

O portal por fim se decidiu, parando em um metro e meio de altura. Depois de alguns segundos, no entanto, começou a encolher ainda mais.

_Talvez devamos ir buscá-la._ sugeriu Ultear.

_Não é uma boa idéia. Layla não é muito amiga da idéia de ser salva._ Akane passou a mão nervosamente pelos cabelos, ainda observando o portal. _Mas estou começando a considerar a idéia de tomar uma bronca. Se esse portal se fechar, é porque o poder mágico dela está zerado... Com os magos da aliança do conselho naquela vila, nós podemos imaginar horrores para Layla._

O portal continuou a diminuir, com todos os olhares cravados nele. Em poucos segundos, tinha apenas um terço da altura original, e continuava a perder estatura. Mais alguns momento diminuindo e ele se fecharia.

_Fleur vai nos matar..._ murmurou Aoki, uma gota de suor fazendo um caminho sinuoso pela lateral do rosto até cair no chão. _E, com o portal dessa altura, nem temos como ir lá buscá-la!_

_Tomara que ela consiga fugir..._

Aquela altura, o portal não tinha mais que dez centímetros de altura, e o impensável aconteceu: ao invés de diminuir ainda mais, ele cresceu, drasticamente, num espaço de poucos segundos. No ritmo de um piscar, ele atingiu toda a altura original, e Layla apareceu. Tinha a capa caída sobre os ombros, e a trança geralmente firme estava frouxa, com vários fios caindo nas laterais do rosto. Estava quase inconsciente e, ao que parecia, tinha usado a última reserva de poder mágico para abrir o portal; no momento em que ela saiu, a abertura se fechou e sumiu no ar, como se nunca tivesse existido.

Lânguido, o corpo de Layla pendeu para frente, e apenas os bons reflexos de Gerard impediram que seu corpo se chocasse violentamente contra o chão. Amparando-a nos braços, Gerard achou que seu rosto era levemente familiar, mas logo classificou aquilo como uma sensação equivocada; o rosto de Layla não era o tipo que você via sempre por aí.

_Layla!_ disse Akane, preocupada. _Como ela está, Gerard?_

_Apenas inconsciente. Vai acordar logo. Acho que gastar tanto poder mágico a deixou exausta._ Gerard levantou-se, com Layla nos braços, e olhou para os gêmeos. _O que faremos?_

_É melhor levá-la para nossa sede._ disse Aoki, pensativo. _Venham conosco._

_Vocês têm uma sede?_ perguntou Meredy, empolgada, enquanto os seguia. _Que legal!_

_Não se empolgue._ Akane deu-lhe um sorriso cúmplice. _É uma por semana, no máximo duas. Nós não ficamos muito tempo num mesmo lugar, para não deixarmos rastros. Nossa mudança para Kiarr, por exemplo, aconteceu hoje._

_E onde vocês estavam antes?_

_Em Works. Era uma cidade de guilda das trevas, e Fleur escolheu abandoná-la por ser um alvo fácil._

_Fleur... _Ultear suspirou, pensativa. _Faz muito tempo que não a vejo... Como anda minha velha colega de conselho?_

_A mesma coisa dos últimos dez anos. Não entendo como ela consegue permanecer tão imutável._ riu Aoki. _Mas isso não é relevante. Se as indicações me dadas estão certas, a nova sede da guilda é..._ eles pararam em frente à um casarão decrépito, de fachada manchada e decaída. _Aqui._

Os cinco magos mediram o casarão de cima abaixo. Meredy fez que ia rir, mas Ultear parou-a, com um gesto de mão, enquanto examinava a fachada, duvidosa.

_Ele suportará tamanho peso? Parece prestes a desabar._

_Todas as nossas sedes anteriores seguiram a mesma linha. É a fachada perfeita para não sermos pegos, um casarão velho, decrépito, prestes a desabar. Mas a magia de gravidade de Fleur sempre mantém os casarões em pé._

_Ela dominou a magia de gravidade?_ perguntou Ultear, surpresa. _Ela sabia que eu era associada à Grimoire Heart, mas eu não imaginava que conhecia as magias que Mestre Hades havia nos ensinado._

_E ela não conhecia._ Akane forçou o portão enferrujado. _Mas vinha fazendo investigações sobre isso. Antes de a Grimoire Heart cair, eram só boatos, mas depois que vocês foram derrotados, tudo veio à tona. Nesses dez anos, ela conseguiu, além das nove magias que ela nos ensinou, dominar mais quatro._

_Se ela tivesse continuado como uma boa garota se tornaria uma Maga Santa._ Gerard comentou, enquanto eles atravessaram o abandonado jardim que separava os portões do casarão. _Talvez a mais poderosa de todos. Dominar treze magias? Isso não é para qualquer um._

_É, ela sempre teve um grande potencial latente. Soube desenvolver sua espantosa reserva de poder mágico muito bem._ Ultear olhou de esguelha para Gerard. _Mas andar na linha nunca fez a linha da Fleur, e isso sempre me incomodou. Em algum momento, eu comentei com Mestre Hades a hipótese de descartá-la, mas ela fez questão de vir me procurar pessoalmente para explicar que sabia de tudo sobre a Grimoire Heart, mas que não pretendia se colocar em nosso caminho. Ela me avisou que queria formar sua própria guilda, mas que não ia tomar qualquer decisão a respeito de qualquer coisa envolvendo a Grimoire Heart._ ela riu. _É estranho pensar que nós começamos a nos dar bem uma com a outra a partir daí._

_Bem, Fleur é realmente singular._ Akane concordou, forçando uma chave comprida na fechadura da porta. _E agora, vamos entrar._

As velhas portas do casarão se abriram, e, sob um salão rústico que um dia já fora muito belo, sete magos estavam dispostos em forma de seta, esperando a entrada dos visitantes. Akane e Aoki, que entraram primeiro, fizeram um leve e respeitoso aceno de cabeça para a figura da frente, antes de se unirem aos magos já dispostos.

Gerard soube quem era Fleur Magnifiqué no momento em que a viu. Não só pela sua posição na ponta da seta, mas também por causa da postura altiva, dos olhos calmos, mas duros, que escondiam uma personalidade não má, mas ambiciosa e esperta. Era uma mulher de presença marcante, e não era à toa que controlava uma das mais poderosas guildas existentes naquele momento.

Assim que eles entraram, os olhos de Fleur varreram os três com os olhos, se demorando mais na posição de Layla, inconsciente nos braços de Gerard.

_Sejam bem-vindos à nossa guilda._ disse ela, a voz suave. _Faz muito tempo, Ultear, e parece que esses dez anos lhe fizeram muito bem... Lamento tê-la abordado apenas num momento tão inoportuno, mas as circunstancias me forçaram a apelar um pouco. Creio que esses dois magos com você sejam Meredy e Gerard Fernandez?_

_Exatamente._ Ultear deu um passo à frente. _Ao que parece, você é bem informada._

_A mente de Layla é um depósito infinito de informações, se me permite o comentário. Deixe-me compensar um pouco do seu défict de informação, Ultear: essa aqui é Arashi, a líder na nossa equipe de espionagem e infiltração. _ela apontou a mulher ao seu lado, de cabelos precocemente grisalhos, a segunda na formação seta do lado direito. _E este daqui é Kenji, o íder da nossa equipe defensiva._ era um homem queimado de sol, de aparência selvagem, o segundo no braço direito da seta. _Eles poderão apresentar os magos de suas respectivas equipes depois._ Fleur focalizou Gerard, e Layla em seus braços. _O que houve com Layla?_

_Abrir três portais, nos ajudar com a missão especial e lutar no nosso mal fadado encontro com a Fairy Tail a deixaram cansada, mestra._

Fleur ergueu uma sobrancelha.

_Encontro com a Fairy Tail?_

Akane e Aoki assentiram, de cabeça baixa.

_Bem... Vocês podem me explicar essa história agora, enquanto nós terminamos de arrumar o nosso adiantado café da manja. Kenji, leve Gerard até o quarto de Layla, e trate dos ferimentos dela, tudo bem? Esperamos vocês daqui a pouco._

O cara chamado Kenji assentiu, e, com um aceno de mão chamou Gerard a segui-lo.

O casarão era uma enorme imensidão de corredores e salas que faria qualquer estranho se perder, mas Kenji parecia conhecer bem o lugar, pois não hesitou em nenhum momento enquanto atravessava salões e subia lances de escadas. A maior parte do trajeto foi feita em silêncio, mas ao atravessarem uma sala que fedia à urina de ratos, o líder da equipe defensiva suspirou, e observou Layla com olhos baixos.

_Ela teimou em ficar, não é?_ perguntou, baixinho. _Layla costuma exagerar um pouco._

_Akane e Aoki tentaram convencê-la a ir embora, mas ela estava decidida a não permitir que as magas da Fairy Tail a seguissem._

_Layla nunca soube a hora de parar._ concordou Kenji, em tom fraternal. _Um espírito incontrolável... Embora eu ache que ela se força a limites extremos demais._

_Eu poderia ter ficado, mas sou um fugitivo, e a Fairy Tail me conhece._ desculpou-se o de cabelos azuis. _Não seria nada interessante ser pego._

_Ela não aceitaria sua ajuda, Gerard._ eles pararam em frente à uma porta de madeira apodrecida. _Aqui é o quarto que preparamos para ela. Entre._

Era um aposento sombrio, de paredes lisas e cama de lençóis puídos e rotos. Por ser num dos andares mais altos da casa, a janela permitia uma bela visão de toda a cidade.

Com cuidado, Gerard depositou Layla, onde ela imediatamente se aninhou. Examinando seus ferimentos, Kenji e Gerard descobriram uma fileira de cortes nos braços e antebraços, além de alguns arranhões superficiais no pescoço e um particularmente mais fundo na altura da barriga.

_Bem..._ Kenji suspirou, se afastando. _Acho que vou ter que buscar alguns medicamentos._

_Achei que vocês tinham magos de cura por aqui._

Kenji deu um sorriso.

_Fleur domina magia de cura, mas não gosta muito de usá-la. E, além do mais, meu amigo... A gente não pode realizar milagres._

Enquanto o mago saía, Gerard também sorriu, e descobriu que gostava de Kenji. Era raro encontrar pessoas que tratassem um fugitivo conhecido por crimes hediondos com tanta descontração.

Layla, na cama, gemeu, e a atenção do Fernandez imediatamente se voltou para ela. Piscando várias vezes, ela focalizou o rosto dele e torceu os lábios, num fantasma vago de sorriso.

_O que você está fazendo aqui, idiota?_ os olhos dela esquadrinharam o local. _E onde exatamente é aqui?_

_Estamos no seu quarto, na sede de sua guilda em Kiarr... E nós somos aliados agora. É natural que eu esteja aqui, não acha?_

_Oh, realmente._ ela tocou o próprio rosto, e fez uma careta ao notar a falta da capa. _Meu capuz..._

_Não vejo necessidade dele. Você é muito bonita._

Layla arregalou os olhos e depois riu, gostosamente.

_Obrigada pela cantada barata, Gerard._ ele a fuzilou com os olhos, mas acabou rindo também. _Onde estão Aoki e Akane, afinal?_

_Bancando os anfitriões para Meredy e Ultear, e também explicando nosso breve encontro com a Fairy Tail. Kenji foi buscar medicamentos para seus cortes._ ele deslizou a mão pelos machucados. _De onde veio isso?_

_Provavelmente fragmentos de um escudo quebrado._ disse a voz de Kenji, entrando novamente no cômodo com uma bandeja cheia de bugigangas. _Acertei, Layla?_

Ela sorriu.

_A falta de prática é a inimiga de um corpo ileso._ disse ela, enquanto Kenji se sentava ao seu lado. _Fazer o quê. Cada um com os seus pontos fortes._

_Acho que não entendi._ disse Gerard, perdido. _Expliquem, por favor?_

_Bem, é bem simples._ Layla começou enquanto Kenji cobria seu braço com uma pasta gosmenta e o enrolava em ataduras. _Eu estou no time ofensivo porque meus poderes são exclusivamente voltados para ataques, e não para defesas. Em nossa guilda, é assim que as coisas funcionam: os times são divididos por afinidade de poderes. Sendo eu, Aoki e Akane portadores de magias ofensivas, nós formamos um time especializado em ofensivas. Uma vez que Kenji, Shirou e Yue usam, os três, usam magias mais voltadas para defesas, eles formam um time especializado em defesas. E já que Arashi, Arima e Jun usam os três poderes mais voltados para controle de corpo, os três formam um time especializado em invasões e espionagem. É claro que existem algumas exceções, é obvio, como eu, que consigo formar escudos, e Shirou, que consegue usar magia de gelo e vidro, mas isso são apenas opções. Nós nos focamos apenas em nossos pontos fortes, e os desenvolvemos ao máximo._

_É por isso que os meus escudos são muito melhores do que os da Layla, e as ofensivas delas são muito melhores do que as minhas._

_Ah, compreendo. Aqui as coisas são mais complicadas._ Gerard sorriu. _Na Crime Sorciére, esses tipos de divisão não existem._

_Com apenas três magos, era de se esperar, Gerard._ Layla se levantou enquanto Kenji terminava de amarrar as ataduras. _Mas vocês parecem ser uma pequena família feliz, também._

_De certa forma, sim. Ultear é a nossa grande e chata mãe, e Meredy é a minha agradável irmãzinha._ ele riu. _Não deixe que elas ouçam isso._

Kenji riu.

_Não vamos permitir._ ele se levantou e colocou a bandeja em cima do criado-mudo. _Agora, que tal descermos? Vou apresentar você aos outros._

Ele saiu e Layla o acompanhou, dando de ombros. Gerard foi logo atrás, conversando baixo com Layla, pegando detalhes sobre a situação que tinha desencadeado a aliança entre as duas guildas. Ao chegarem no mesmo salão de outrora, encontraram ali uma comprida mesa, com quinze cadeiras dispostas em volta, e bandejas e mais bandejas de comida, que levitavam suavemente, como se mãos invisíveis as segurassem.

_Alguém aqui usa levitação?_ sussurrou ele, baixinho, para Layla.

_Fleur._ explicou ela, brevemente. _Não estranhe._

Logo, Kenji apresentou Gerard para a sua equipe, formada por Yamaguchi Shirou, um homem tipicamente esquimó, que usava Magia de Gelo e Vidro (capaz de agüentar cargas pesadas, sendo um escudo puramente físico, mas também útil para ofensivas), e Kikuchi Yue, tão franzina que ainda parecia uma menina, que usava Magia de Extensão Mágica, capaz de criar espécies de “tubulações” que se infiltravam debaixo da terra, sugando o poder mágico daqueles que ela desejasse.

Arashi também foi cumprimentá-lo e apresentar sua equipe, formada por Sakai Arima, um belíssimo homem de cabelos loiros e rosto impecável, que usava Magia de Transferência Mental, que o tornava capaz de temporariamente assumir a mente de alguém. Era uma magia muito parecida com a de Arashi, que permitia que a maga assumisse a alma de qualquer corpo, mas a de Arima não tinha uma área de abrangência tão grande e era mais usada para manipular a mente de certo indivíduo, plantando em sua mente idéias que ele não tinha antes. Já Okamuto Jun, uma mulher corpulenta de rosto terminantemente mal humorado, usava Magia Manipulação Sensitiva, que podia manipular os sentidos de qualquer pessoa num raio de determinados quilômetros. Podia tornar as pessoas temporariamente cegas, surdas, causar-lhe sensações incontáveis de dor e agonia. Depois de Layla, da qual todos a da guilda tinham certo medo, Jun era a mais temida entre os colegas, apesar de ter uma personalidade amável e educada.

A Gerard, todos formavam uma grande família feliz, e todos gravitavam em torno de Fleur. Tinha por ela o apreço por uma velha amiga, o respeito por uma mãe, a admiração por um mestre e a adoração por uma libertação. Parecia estranho ver como ela os unia, dando atenção a todos, sorrindo para todos eles e conversando com a grande família que eles deviam ser, com brigas e risos. Arima e Shirou estavam brigando num canto, se xingando loucamente entre socos e chutes, e quando Layla chegou para apartá-los, a expressão tão grave e assustadora, Gerard teve um vislumbre de muito tempo atrás, quando uma tocha gigante e um cubo de gelo se enfrentavam, e havia sempre uma espadachim furiosa para separá-los.

Por um segundo, ele viu, na Light Dragon, a Fairy Tail de muito tempo atrás.

_O que foi, Gerard?_ perguntou Layla, deixando para trás as figuras roxas e inertes de Arima e Shirou com naturalidade. _Está aí, com cara de besta, olhando pro nada, porquê?_

Ele balançou a cabeça.

_Só divagando. Faz muito tempo que eu estive em meio à tanta gente._

_O perfeito anti-social._ zombou ela. _Porque não damos uma volta? Até todo o banquete que Fleur está planejando ficar pronto, vai demorar um pouquinho ainda._

_Ela não vai se importar?_

Layla forçou a chave pela fechadura das portas, rindo.

_Claro que não. Ela não é minha mãe, embora todos a considerem assim._

Dando de ombros, Gerard a seguiu. O dia acabava de amanhecer, a cidade finalmente recobrava sua vida: pessoas andando pelas ruas, mulheres conversando entre si, homens a caminho do trabalho. Enquanto, nos fundos da mansão, Layla trocava de roupa, por algum motivo desconhecido, ele observou com nostalgia aquela vida, da qual ele nunca poderia fazer parte.

O que lembrava um detalhe no qual Layla não tinha pensado.

_Layla, eu sou fugitivo do conselho!_ gritou ele. _Como você espera que eu entre em contato com essas pessoas?_

_Jun vai cuidar disso para nós._ disse ela, jogando as roupas para ele por cima de uma pedra. _Por ser uma aldeia pateticamente pequena, é fácil para ela mudar os sentidos de visão de todo mundo para que eles enxerguem você de uma forma diferente. Fleur não escolheu essa cidade à toa._

_Fiquei sabendo que nem tem guildas mágicas por aqui._

_A mais próxima fica a duas cidades de distância. Nada com o que se preocupar. As pessoas daqui se viram bem sem magia._ ela saiu de trás da pedra. _Como estou?_

Gerard encarou-a de cima a baixo. Primeiramente, ele arregalou os olhos. Depois, se beliscou, se perguntando se aquilo era algum tipo de miragem. E, por fim constatando que tudo aquilo era real, ele riu, descontrolada e gostosamente, porque a cena era impagável demais para se deixar passar. Layla continuava com os cabelos presos em trança, só que dessa vez adornados por um delicado lacinho rosa, e usava saia xadrez e uma blusa rosa, cheia de babados. Combinava tanto com ela quanto carne combinava com açúcar.

_Porque você está usando uma roupa dessas?_ ele perguntou, entre risos. _Você está ridícula!_

_Eu estou tão feliz de estar vestida assim quanto você está por ser um fugitivo do conselho, Gerard._ retrucou ela, azeda. _Fleur ordenou que todos nós nos vestíssemos de formas diferentes para confraternizarmos com os vizinhos. Estou me sentindo ridícula. Isso é tão... Fresco!_

_Realmente. Mas você está até bonitinha..._ um tapa na cabeça, e ele riu ainda mais. _Ok, você está o sinônimo de horrorosa e nós vamos dar esse passeio ou não?_

Layla deu um sorriso sem graça, e até eles chegarem ao portão, a expressão era tão azeda que Gerard preferiu nem olhar. Mas no momento em que eles colocaram os pés na pequena rua, onde algumas mulheres caminhavam com seus filhos, seu sorriso era tão falsamente convincente que ele ficou impressionado pela facilidade na atuação. Layla cumprimentou todos com simpatia exemplar, apresentando a si mesma e Gerard como um casal recém-casado, o que acalmou imediatamente as curiosas.

_Recém-casados?_ perguntou ele, assim que se viram longe de todas aquelas pessoas. _Você perdeu a noção?_

_Ora, porque não? Funcionou seis anos atrás. Nós parecemos um casal feliz._

_É, mas não estamos mais com vinte anos, Layla._

_Não é necessário me lembrar que estou perto de fazer trinta anos, senhor._ disse ela, secamente. _Mas eu não chamei você aqui para justificar os meus métodos de trabalho. Chamei você para perguntar sobre as suas memórias. Fiquei preocupada com isso._

Gerard parou e encarou-a, surpreso. Layla não era o tipo de pessoa que se preocupava com as outras, principalmente com ele, que nem mesmo era seu colega de guilda. Mas o olhar da mulher não tinha qualquer fantasma de malícia ou zombaria; ela tinha sido sincera.

_Bem... Quando nós nos encontramos, eu já tinha me lembrado de quase tudo._ disse ele, ainda meio surpreso pela declaração dela. _Só faltavam alguns detalhes da minha infância._

_E você se lembrou desses detalhes?_

_Acho que sim._ eles voltaram a andar. _Pelo menos, eu não tenho a sensação de que falta mais algo. Basicamente, eu fui um escravo da Torre do Paraíso, até o dia em que Zeref supostamente me possuiu. Passei oito anos da minha vida numa vida dupla entre a construção da Etherion e o papel de Siegrain no Conselho, mas disso eu já tinha me lembrado._ Gerard suspirou. _Para ser sincero, tem horas que eu desejo nunca ter me lembrado de nada._

_Eu sim._ retrucou Layla, o tom sério. _Eu não me lembrei de praticamente nada, só de como usar os espíritos estelares, e nem mesmo eles se lembram do meu passado._

_Mas para quê se lembrar? Você é feliz agora. Tem uma família. É poderosa. Não precisa de mais nada. Você não precisa de um passado apagado para assombrar os seus pesadelos._

_Eu não tenho pesadelos._ ela declarou, com desprezo. _Isso é coisa para fracos. Mas me lembrar seria algo legal. Assim, eu poderia ir atrás das pessoas que me abandonaram e matá-las, uma à uma._

_Como assim?_

_Eu com certeza tinha amigos, Gerard. Às vezes, em meus sonhos, eu ouço um eco, como uma lembrança, de alguém me prometendo algo, dizendo que tudo ia ficar bem._ uma pausa. _Pois é. Ninguém nunca me procurou para cumprir merda nenhuma de promessa, o que significa que essas pessoas me esqueceram. Eu as odeio, e vou me vingar por toda a amargura que me proporcionaram. Eles que esperem._

Ela não se exaltou em nenhum momento, o que fez Gerard pensar em quanta raiva ela mantinha suprimida, impedindo-a de vazar. Se Layla continuasse armazenando ódio, logo se tornaria uma bomba relógio, pronta para explodir à menor faísca. Seria algo destrutivo; Gerard se lembrava de Natsu, e no modo como seus poderes afloraram quando sua raiva explodiu.

Deu de ombros. Enquanto Layla estivesse controlada, nenhum problema. Mas o que ocorreria quando toda aquela raiva explodisse?

Ele não queria estar perto para ver.

_***_

Luxus Dreyar, quarto mestre da Fairy Tail, um homem sério e poderoso, conhecido como Senhor dos Trovões, que tinha sob seus comandos os magos mais poderosos daquela geração, andava pelos corredores da sede do conselho, tendo como destino o quarto onde dormiam a esposa e o filho, que tinham feito questão de virem com ele para o Conselho, mesmo em tempos tão perigosos.

Muitas vezes, Luxus pensava em quão sortudo era por ter Mirajane com ele. No começo, ela era uma das poucas que o tinha aceitado bem na guilda depois de sua volta, conversando com ele e travando uma amizade sólida, que remetia aos velhos tempos, quando ela ainda era uma menina gótica idiota e ele um adolescente arrogante. Até provar que tinha realmente mudado e ter novamente a confiança de todos, Luxus tinha tido apenas Mirajane, Erza e Levy ao seu lado, o que parecia bastante improvável, principalmente se tratando de Erza e Levy, a quem ele quase tinha matado em seus tempos de rebeldia, mas isso não parecia importar para elas. Com Erza, ele compartilhara o amor pela luta, o que se provava nos combates árduos que eles travavam, de brincadeira, no intervalo entre suas missões. Com Levy, ele dividia o amor pela leitura e pelo conhecimento, o que os tornava mais parecidos do que aparentava. E com Mirajane ele compartilhara uma atração anormal, adulta e sentimental.

Ele nunca esperara que ela retribuísse seus sentimentos, mas aconteceu, e tinha sido um dos momentos mais felizes de sua vida, e também o evento que dera sustentação a todos os outros. Fora ela quem o encorajara quando Luxus achava que não seria capaz de assumir a guilda, fora ela quem o apoiara quando ele achava que tinha tomado as escolhas erradas, fora ela quem perdoara seus erros e o ajudara a melhorar.

Fora ela quem concebera para ele a felicidade extrema de um filho. Tohru era a sua jóia, e via o pai como um herói, um exemplo a ser seguido. Luxus era tão bom pai quanto Mirajane era uma boa mãe, e todos da guilda consideravam o menino um afortunado por ter a família que tinha. Desde pequeno demonstrara um potencial mágico latente, e todos as provas indicavam que dali nasceria um poderosíssimo mago.

Luxus amava sua família mais do que tudo, e se orgulhava muito dela e de quem se tornara. Ele se orgulhava de ter conseguido deixar o avô orgulhoso, mesmo depois de todos os seus pecados e erros. Jamais suportaria perder as pessoas que mais amava no mundo.

Chegando a frente ao quarto que a mulher e o filho dividiam, Luxus sorriu. Ali dentro, estavam as duas únicas coisas das quais ele realmente precisava para viver. O resto era só um mero detalhe comparado àquelas duas figuras, ele pensou, enquanto abria a porta.

_Mira e Tohru, cheguei!_ anunciou ele, feliz. _Como estão os dois amores da minha vida?_

Mirajane não respondeu, e Luxus notou imediatamente que alguma coisa estava errada. O filho estava sentado no canto do quarto, chorando muito, enquanto Mirajane encarava o nada, parecendo chocada. Imediatamente alerta, e com os habituais instintos paternais novamente acesos, o Dreyar rapidamente pegou o filho no colo, onde ele começou a soluçar, soluços horríveis, de partir o coração, e sentou-se ao lado da esposa, abraçando-a pelos ombros.

_O que houve, Mira?_ perguntou ele, carinhosamente. _Porque Tohru está chorando? Porque você está assim?_

_Luxus... Eles... Quase... Podiam... Matar... Nosso... Filho..._ soluçou ela, afundando a cabeça no peito dele. _Eles... Eles... Invadiram isso aqui!_

_Como?_ a voz de Luxus soou preocupada. _Quem quase matou nosso filho? Quem invadiu aqui?_

Pálida, soluçante e cheia de olheiras, Mirajane desencostou-se de Luxus e entregou-lhe o pacote que chegara momento antes, entrego pela guilda que dizia não ser sua inimiga.

Poucas vezes a mulher tinha visto seu marido ficar tão pálido. Ao terminar de ler, imediatamente apalpou o filho, preocupado, receando que ele estivesse realmente ferido.

_Você está bem, Tohru?_ perguntou urgentemente. _Você está bem? Não se feriu?_

_Que nada, papai!_ soluçou o filho. _Mamãe me xingou, porque eu fiz uma amiga secreta! Ela veio aqui e me entregou um presente! Porque mamãe ficou tão brava?_

_Mamãe só está preocupada. Esse presente não é nada legal, Tohru. Como era essa sua amiga secreta?_

_Eu não sei! Ela estava usando capa._

Luxus suspirou. Sentia-se borbulhante de raiva por dentro, mas não ia se descontrolar. Primeiro, precisava tomar as devidas precauções, e depois, só depois, diria tudo o que gostaria sobre aquela situação.

Com delicadeza, ele deitou a soluçante Mirajane na cama e colocou Tohru ao seu lado, o qual a esposa abraçou com força desesperada. Ele sabia o quão sensível era a mulher nos assuntos relacionados à família, e imaginava o quanto aquele incidente a tinha assustado.

_Magia do Sono._ sussurrou ele, a voz como um leve murmúrio, e bolhas saíram de suas mãos, indo explodir com suavidade em cima da esposa e do filho, que quase instantaneamente caíram no sono. _Quem diria, que eu um dia dominaria essa magia que eu já considerei tão estúpida?_

Como um verdadeiro protetor, ele beijou a testa da esposa e a do filho, e deu meia volta em direção à porta. Os funcionários do conselho, em plena atividade mesmo ao amanhecer, jamais veriam novamente o quarto mestre da Fairy Tail tão irritado, nem mesmo quando, futuramente, as circunstâncias se tornariam as piores possíveis para a sobrevivência dos magos que tinha sob seu comando.

Luxus Dreyar estava em chamas.

_***_

Muito longe dali, escondida em meio às nuvens carregadas que cobriam uma cidade qualquer, uma nave de proporções medianas cruzava o céu, com calma lânguida e preguiçosa. Em sua couraça, um símbolo orgulhoso se exibia para os pássaros que passavam em rasante: duas lanças cruzadas, e, no meio delas, uma rosa negra se abria, num sinal horripilante de morte e maldição.

Ali, naquela nave, funcionava a sede de uma guilda das trevas importante, que se mantinha tão despercebida nas trevas do mundo que apenas três outras guildas sabiam de sua existência. Entre seus próprios membros, se espalhava o boato de que aquela era a melhor e mais poderosa guilda existente, e, depois das recentes aquisições do esquadrão principal, alguns nem mais hesitavam: declaravam-se como superiores a tudo e todos, enchendo suas cabeças com idéias imperialistas e tolas.

O mestre, no entanto, era completamente alheio a esses boatos. Conhecido por ter um temperamento esquentado, ser pouco diplomático, um invocador insuperável e um lutador nato e poderoso, era uma figura que impunha respeito em qualquer pessoa, sentado em sua cadeira de honra no centro da nave, contemplando o nada com expressão impaciente, obviamente esperando alguém.

_Senhor...?_ anunciou um dos magos mais fracos, uma presença tímida e assustadiça. _Kenshin acaba de voltar. Devo permitir que ele entre?_

_E o desgraçado volta para casa._ a voz do mestre ressoou como um trovão, e o mago se encolheu._Mande o filho da mãe entrar e se retire._

O mago correu para arranjar a ordem, e em dois segundos, um mago entrava na sala. Era alto, esguio, de expressão idiotamente patética. Levava consigo uma lança comprida, com a qual fazia variados tipos de manipulação e invocação, e era praticamente um lugar-tenente na guilda, sendo um dos homens de maior confiança do mestre.

_Mestre Keitarou._ saudou o mago, respeitosamente. _Terminei minha ação._

_Ora, ora, Kenshin._ disse o mestre Keitarou, descontraído. _Se aproxime, e me diga como andam as três guildas inúteis que sabem de nossa existência?_

_Frozen Wings foi exterminada há duas horas, pela aliança de guildas menores do conselho, mais especificamente por Raven Tail e Twilight Ogre._

_Quem diria que a Raven Tail um dia se viraria contra seus próprios conterrâneos. Será que eles passaram de vez para o lado da luz?_

_Não se engane, Keitarou. A destruição da Frozen Wings foi premeditada, uma vingança pessoal do Mestre Ivan._ Kenshin suspirou. _ Sweet Revenge também foi completamente carbonizada, mas não se sabe quem é o responsável._

_Ótimo._ Keitarou sorriu. _E os nossos indesejáveis conterrâneos de Light Dragon?_

A expressão de Kenshin se contorceu numa mistura cômica de exasperação e culpa.

_Sumiram como fumaça._ disse, temeroso. _Tinha conseguido algumas emanações de poder vindas de Works, mas não há mais nada lá. Calcula-se que mudaram novamente de sede._

_MAS COMO?_ gritou o mestre, e com um único soco, desintegrou toda a lateral da cadeira de ferro onde estava sentado. _Como aquela vadia consegue sumir desse jeito? Sumir como fumaça é nossa especialidade, e eu não admito que uma cadela como Otohime me supere nesse quesito! Como a desgraçada nunca é encontrada quando não quer sê-lo?_

_Não sei, Kentarou. Mas conhecendo Otohime como conheço, posso até mesmo adivinhar qual a posição que ela vai tomar nessa guerra._ arriscou Kenshin. _É um pouco previsível._

_E qual seria essa posição?_

_Light Dragon ficará neutra até que a situação force-a ao contrário, ou que algum dos lados faça para ela uma irresistível proposta. Otohime tem política e ambição notáveis, e sempre tende a apoiar o lado que a favoreça mais, ou não apoiar lado nenhum._ ele fez uma pausa, e depois concluiu. _A Light Dragon não será um problema para nós se tomarmos cuidado._

_Você tem certeza, Kenshin?_

_Absoluta._

_Então, nesse caso, podemos começar logo a ativação do robô? Todos os artefatos estão reunidos?_

_Sim._ Kenshin sorriu maliciosamente. _Foram dez anos, mestre, mas finalmente teremos nossa vitória sobre o conselho. Essa guerra ridícula que eles armaram para defender sua honra não será nada perante ao esmagador poder do canhão._

_Nesse caso..._ Keitarou também sorriu, demente. _Que comece a montagem._

Kenshin fez uma respeitosa referência e se retirou.

Keitarou se levantou de sua cadeira quebrada e foi até a janela, observando a minúscula vila que estava em baixo deles. Em pouco tempo, eles derrubariam todo o conselho e formariam um novo, em que só os melhores magos sobreviveriam. Tomando para si um pouco das idéias deixadas pela Grimoire Heart, Keitarou criaria um mundo no qual só os maiores tiram vez.

Espere por mim, conselho. Por mim e pela destruição total que virá junto comigo.

Era isso o que ele achava, obviamente.

Notas finais
E aí, gostaram?
Alguém ligou os pontos dessa guilda das trevas misteriosa com algum outro acontecimento? (Digam que sim...)
Espero que tenha agradado.
No próximo capítulo: Ur e Fleur, um pouco de Gajeevy (pouquinho...), as conversas deliradas de Layla e Gerard e a fúria fodástica de Luxus.
Beijos e até lá!