Amnésia

9 Preparações: Aliança, ataque e defesa


Notas iniciais
Olá, minhas leitoras maravilhosas, lindas e gostosas e enfim... Como vão?
Para me redimir com a minha, leia-se, mancada com vocês, venho eu com o maior capítulo que escrevi até agora: quase 10.000 palavras, segundo o leitor do Word. Não tinha planejado ele tão grande, mas as palavras vieram e vieram (ebaaaaaaaaaaa) e na hora que eu vi, estava essa coisa gigantesca aí. Espero que gostem *-*
E como uma piadinha, há referências de elementos de três outros animes dentro desse capítulo. Sei lá porque eu estou avisando isso, mas...
Tenho outras coisas para falar, mas isso é nas notas finais. Por enquanto, fiquem com o capítulo, espero que gostem!

Há um princípio básico para ser mestre da Fairy Tail” explicara Makarov Dreyar, anos antes, para Gildarts e Luxus. “É o de que, se a Fairy Tail estiver sob ataque, você deve, sobretudo, acima de qualquer estratégia, manter a calma e não arrancar os cabelos. Se conseguir colocar esse princípio em prática, o resto será mero detalhe.”

Na época em que Makarov dissera aquilo, nem Gildarts nem Luxus tinham entendido muito bem o que aquela dica significava. Mas, sete anos depois, tendo apenas dez minutos para organizar um bando de magos jovens e assustadiços para a batalha, Gildarts Clive, temporariamente mestre da Fairy Tail, entendeu do pior jeito o que o mago mais velho queria dizer. Todos os magos novatos da Fairy Tail tremiam de medo, enquanto o mais velho, a um passo de ficar terminantemente careca, tentava injetar-lhes algum ânimo.

Não estava funcionando, no entanto, e o pobre Clive, que não tinha a menor veia para liderança, se sentia num humor péssimo, causado também pela pressão e pelo tempo limitado. Adepto eterno da política de batalha conhecida como “quebrar e destruir”, montar estratégias não era sua tarefa favorita, e colocá-las em prática menos ainda.

Soltou um urro de frustração. Para onde tinha ido a regra primária da Fairy Tail, a de dar sua vida por uma causa que todos que acreditavam? Onde estavam os magos dispostos dar a sua vida com os quais ele batalhara anos antes?

_Você não parece muito satisfeito._ debochou Bickslow, se aproximando. _Sua expressão é de quem bebeu cerveja choca._

Gildarts deu um pequeno e cansado sorriso.

_Estou velho para ficar lidando com criancinhas assustadas._ ele admitiu. _Eu estava acostumado a lidar com Natsu e os outros, que nunca tiveram medo de nada... Desgosta-me ver como nossos magos são assustadiços._

_Ah, não os culpe tanto!_ exclamou o outro, descontraído. _Só estão pouco acostumados com essas situações. E você também está exagerando um pouco. Nem todos eles são assim. Veja só a Nova Shadow Gear!_ Bickslow apontou para Romeo, Miako e Tobias, que se aqueciam, animados. _Estão salivando por alguma emoção._

_Influência do Natsu._ Gildarts desdenhou, rindo. Bickslow o acompanhou. _E como anda a defesa da guilda?_

_Fried está terminando as runas. Vão impedir que qualquer um entre na guilda, e também que qualquer criança saia. Elas estão assustadas, e não queremos correr o risco de uma mais corajosa se embrenhar na batalha._

_Isso é bom._ Gildarts olhou para frente, focalizando algum ponto distante das montanhas que cercavam Magnolia. _E onde estão Harriet e Jiro? Ainda não voltaram? Lembro-me de ouvi-los dizer que iam observar para saber de que lado viriam os magos..._

_Estão acima de nós._ Bickslow apontou para cima. _Bem acima. Jiro usa magia de vento. Está observando a panorâmica de Magnolia e além. É um mago muito útil._

_De fato._ Gildarts levantou a cabeça, observando o céu estrelado acima deles. _Seria ele aquela figura que vem descendo? Eu não estou conseguindo ver muito bem._

Bickslow abriu a boca para responder, mas não foi necessária qualquer palavra da parte dele; dois segundos depois, Jiro e Harriet pousavam no chão, suavemente, portando expressões sérias.

Jiro era um homem comprido e magro, com cabelos negros sempre em desordem e um rosto infantil, o contrário oposto de sua namorada, uma baixinha atarracada de pele bronzeada, pele queimada de sol e longos cabelos loiros oleosos, que ela mantinha sempre presos num rabo de cavalo baixo. Os dois usavam magias parecidas, ligadas ao vento, mas enquanto Jiro podia criar o vento e manipulá-lo de acordo com a sua vontade, Harriet usava um instrumento especial para isso, que consistia de três bastões interligados, com uma lâmina comprida e afiada como uma navalha na ponta. Por usarem magias muito semelhantes, que se completavam, o trabalho em grupo dos dois era impecável, e sua eficácia tinha garantido para a Fairy Tail muitos triunfos.

Gildarts tinha encontrado com eles uma ou duas vezes, mas gostava deles, do seu estilo e do modo como eles o encaravam; com óbvio respeito e admiração, mas ainda sim como igual. Gildarts odiava que as pessoas o idolatrassem.

_O que têm para nós, Jiro e Harriet?_

Harriet espetou a lâmina no chão, apoiando-se no bastão de madeira com o cotovelo.

_Estão vindo do leste._ ela relatou, lacônica. _Mas vão se espalhar e atacar por todos os lados. Fried foi bem preciso, eles contabilizam no total 123 homens e vão chegar em mais ou menos oito minutos, se meus cálculos estiverem corretos._

_E qual é a guilda em questão?_

_Não é uma guilda só._ Jiro explicou. _São quatro. A maior parte carrega um símbolo que eu nunca vi: uma cruz sobreposta a um C. Não é uma guilda que eu conheça, desculpe-me. A outra parte é formada por magos da Akuma No Mi, da Hollow e da Akatsuki, destruídas por Gray e Juvia... É de se esperar que eles queiram vingança._

_Realmente. Nada de surpreendente._ Bickslow se aproximou. _Vocês foram muito bem. Agora vão querer integrar as fileiras? Estamos praticamente prontos para um ataque._

Harriet deu um meio sorriso.

_Só se eu ficar na linha de frente._

_Há um lugar para vocês, eu garanto._ Gildarts apontou a primeira linha, formada por magos mais velhos e os Classe S. _Preparem-se._

Eles assentiram, e caminharam para junto aos magos que se preparavam. Àquela altura, Gildarts já podia vê-los, a extensa massa negra que vinha rapidamente em direção à guilda. Todos eles tinham vestiam preto, o que os camuflava nas sombras da noite, e tinham expressões furiosas e decididas no rosto. Eles vinham como uma ponta de lança, e, comandando todos eles, vinha um gordo e suado homem, com um rosto coberto por cicatrizes de guerra.

_É daquele ali que você vai se encarregar._ observou Bickslow, sabiamente. _Picaram esse cara como um legume, só pode!_

_Bom, acho que é isso mesmo._ Gildarts deu um passo à frente, e virou-se para os magos que esperavam, tensos e prontos para batalha. _MAGOS DA FAIRY TAIL! A MULTIDÃO VEM, E NÃO VAI SER FÁCIL! MAS NÓS SOMOS PERFEITAMENTE CAPAZES DE DERROTÁ-LOS, ENTÃO DEEM TUDO DE SI, TUDO BEM?_

_SIM!_ ecoaram os magos, corajosamente. _VAMOS DAR TUDO DE NÓS!_

Gildarts sorriu. Os magos já estavam a cem metros de distância, e era questão de poucos segundos até que a batalha começasse.

_Bem..._ ele suspirou, resignado. _Acho que é hora de terminar logo com isso._

A multidão avançou.

Gildarts foi o primeiro, com a destreza de um animal, e se jogou sobre o gordo da frente, os dois iniciando uma batalha ali mesmo. Logo depois, as fileiras inimigas chocaram-se violentamente contra as fileiras da Fairy Tail, e um grito de dor foi ouvido, sendo o gatilho para outros, sucessivamente. Voava sangue, poder mágico, corpos sendo jogados de lá para cá, o barulho desagradável de espadas se chocando, poderes mágicos se enfrentando e corpos se esbarrando. Todos eles conseguiam sentir o cheiro que só aqueles que batalhavam sentiam, um cheio que misturava suor, adrenalina, sangue e medo.

Todos estavam dando tudo de si. Era ali que eles provariam que eram magos da Fairy Tail, e não meros aprendizes de magia que estavam ali por acaso.

E era ali que começava a primeira batalha realmente notável daquela guerra, a primeira de muitas outras que viriam a seguir.

_***_

Há aproximadamente dois quilômetros do Conselho Mágico, escondidos atrás de uma árvore e sentados em semicírculo, três magos dialogavam baixo, enquanto um quarto, de olhos fechados e sentado na posição de lótus, ofegava, como se estivesse acabado de cumprir uma maratona. Tinha um círculo mágico gigante rodando sobre sua cabeça, e o poder mágico evaporava tão depressa que era quase possível vê-lo abandonando o corpo. O ângulo de suas sobrancelhas estava tenso, e sua boca se crispava como se ele estivesse sentindo dor.

Apesar da cena nada bonita, nenhum dos outros três parecia prestar atenção na dor do homem. Conversavam descontraidamente sobre coisas banais, ignorando completamente o suplício do outro. Apenas quando ele começou a ofegar muito alto, arquejando de dor, que os outros o observaram, pouco preocupados.

_Arima está correndo uma maratona._ disse Yue, com sua voz infantil. _Só pode. Olha só como ele ofega!_

_Não zombe, Yue. Isso deve ser muito cansativo._ repreendeu-lhe Kenji, calmo. _Arima, quanto tempo você acha que ainda agüenta?_

Arima desfez a expressão tensa, abrindo seus olhos quase imperceptivelmente. Só esse pequeno esforço fez o círculo mágico ondular e quase desaparecer, o que dava uma boa noção do quão cansado o mago estava.

_Quinze minutos. Ou menos._ ele grunhiu, fechando os olhos novamente. _A reunião já acabou, mas o Presidente está acertando alguns detalhes, eu preciso ouvir._

_Se Layla estivesse aqui, poderia ajudar._ Aoki murmurou, balançando-se para frente e para trás. _Ia deixar Arima novinho em dois segundos._

_Mas ela não está._ Yue cantarolou, alegremente. _Então vamos ter que improvisar. Eu já espalhei minhas tubulações, qualquer estranho vai ficar inconsciente e sem poder mágico em dois segundos quando pisar aqui._

_Ótimo. Estamos protegidos._ Kenji se recostou na árvore. _Quais as novidades, Arima?_

_Deixe-me ouvir. Meu poder mágico está a um passo de acabar._

Kenji deu de ombros, Aoki suspirou e Yue deu um risinho inocente, mas ninguém disse mais nada por alguns minutos, sendo ouvido apenas o som de suas respirações ruidosas. Depois de algum tempo, porém, o barulho de sapatos arrastando-se na terra despertou todos eles, que se puseram imediatamente em alerta, Yue em posição felina, as mãos espalmadas no solo prontas para sugar qualquer poder mágico, as sombras dos espelhos se formando ao redor das mãos de Kenji e Aoki com a membrana mágica começando a surgir entre suas mãos abertas.

_Quem está aí?_ gritou Aoki. _Apresente-se!_

Nenhuma resposta; só o barulho dos sapatos se arrastando, cada vez mais próximo.

_Magia de Tubulação Mágica..._ começou Yue, impaciente, suas mãos começando a brilhar. _Sucção!_

_Ei!_ finalmente a voz respondeu, irritada, apenas alguns metros distante. _Dá para você parar de sugar meu poder mágico, Yue? Vou cair inconsciente em dois minutos se continuar com isso._

E, terminadas essas palavras, Layla entrou no espaço, o manto abaixado, uma expressão irritada e cansada no rosto. Encarou Kenji, Aoki e Arima apenas superficialmente, grudando seu olhar mais assustador em Yue, que arregalou os olhos.

_Oh, oh, oh, desculpe-me, Laylinha, eu achei que era um inimigo._ ela apressou-se a desculpar, desajeitada. _O que você está fazendo aqui?_

_Vim ajudar Arima. E não me chame de Laylinha._ ela fez uma careta. _ Não que eu realmente queira ajudar esse metrossexual pervertido, mas que escolha eu tenho? Fleur disse que ele vai cair inconsciente em cinco minutos se continuar desse jeito. _

_Vou mesmo._ ele grunhiu. _Vai me ajudar ou não?_

_Sua impaciência é uma arte, Sakai._ Layla estendeu o braço para frente, seu semblante se contorcendo em concentração _Ventos que trazem e levam, devolvam ao corpo aquilo que lhe foi retirado..._ ela recitou, girando a mão três vezes no mesmo lugar, e todo o ar em volta de Arima ganhou uma tonalidade azulada. _Magia de Manipulação Mágica: Reversão!_

O espetáculo a seguir foi lindo, e todos, apesar de não ser a primeira vez que viam a magia, ficaram impressionados: o ar azulado começou a se mover, como se tivesse vida, criando lindas ondulações no ar, em padrões encantadoramente curvilíneos. Aos poucos, o começou a cercar o corpo do mago, se espalhando como fios de um organismo, e em poucos segundos Arima parecia completamente envolvido numa rede azulada, de partículas que continuavam a se mover de modo gracioso e fluido.

Aos poucos, o corpo absorveu o ar azulado, e à medida que isso acontecia, o círculo mágico acima de Sakai ficou mais nítido, o ângulo das sobrancelhas se desfez, o cansaço óbvio do rosto sumiu gradativamente, e no exato momento em que todo o poder mágico foi absorvido, Arima abriu os olhos, cumprimentando Layla com um lindo sorriso, que não pareceu comovê-la nenhum pouco.

_Obrigado, gata._ ele piscou. _Estava a um passo de cair no abismo..._

_Devia ter ido para o inferno de uma vez, isso sim._ ela retrucou, fazendo Kenji, Yue e Aoki rirem gostosamente. _Porque ainda está aqui?_

_Você é cruel, Layla._ Arima murmurou, manhosamente. _Muito cruel._

_Só não suporto cantadas e flertes de qualquer espécie._ ela replicou, grossa, revirando os olhos. _Agora corte a conexão com o humano que você está manipulando. Vim aqui para buscar vocês. O dia de trabalho terminou._

_Ora, ainda bem, estou com uma fome desgraçada._ Kenji lambeu os lábios, e depois olhou para os magos._Yue, recolha suas tubulações. Arima pode acabar por aí._

Yue sorriu.

_Ok, estou cansada, esse dia foi um saco. Magia de Tubulação: Recessão!_

Brilhando, a pele do braço dela se apertou sobre os ossos, enquanto era possível ver as tubulações se embrenhando por debaixo dela, como veias. Durante vários segundos, as tubulações continuavam entrando e deslizando sob a pele (um espetáculo um pouco nojento para os desavisados) até serem completamente absorvidas pelo corpo. Ela riu, como se aquilo fizesse cócegas.

_Realmente, um saco._ concordou Arima, o círculo mágico em cima de sua cabeça gradativamente desaparecendo. _Mas Layla, querida e amada me recuperou as forças e..._

_Vai se ferrar._ ela o interrompeu, causando mais um ataque de risos em todos. _ Olha, eu vou abrir dois portais. Um deles vai diretamente para a nossa sede em Kiarr. Você, Aoki e Yue entram nesse. Eu e Kenji vamos por outro para outro lugar._

Yue fez muxoxo.

_Porque fomos excluídos de novo?_

_Porque essa NÃO é uma missão para Classe A, nem Classe S, Yue. Fleur tem tarefas para vocês lá. Nós vamos cumprir a nossa. Simples._ ela estendeu a chave para frente e recitou o encantamento, indicando o portal com o dedo para os três magos inconformados. _Entrem._

Yue bufou alto, mas entrou rapidamente, sumindo no buraco negro. Arima a seguiu, piscando sedutoramente para Layla antes de sumir. Aoki, no entanto, não se moveu, encarando Layla com olhos cerrados.

_Você não vai me deixar ir?_ ele perguntou. _Somos uma equipe, sim?_

Ela ponderou a pergunta por alguns segundos.

_Aoki, ela tem uma tarefa para você, diferente da minha._ acabou dizendo, sem realmente responder a pergunta que ele fizera. _Não complique as coisas._

Ele suspirou. Há anos perguntava se ela realmente os considerava como um time, mas nunca tinha tido sua resposta em todas as vezes que perguntara. Gostaria de ter a oportunidade de agradecer a Layla pela evolução que ela tinha lhe proporcionado em seis anos, mas como? Sentimentos eram algo que ela repudiava completamente; há muito abandonara os bons. Além do mais, Aoki ainda tinha a impressão de que ela não os havia perdoado completamente pelas implicâncias e gozações.

Isso era algo que ele vinha tentando consertar, e sabia que discordar dela não seria algo nada bom para melhorar seu conceito. Meio magoado, definitivamente cansado e pouco resignado, Aoki deu de ombros.

_Você vai me manter informado, pelo menos?_

_Não será necessário._ Layla apontou o portal. _Fleur vai te dizer tudo. Eu te diria também, mas o tempo é corrido, temos dois minutos para estarmos em Jibrille para cumprir o que foi ordenado então..._

_Entendo. Até mais, partindo do pressuposto de que você vai voltar._

_Eu tenho um lugar para qual voltar. Estaremos lá pela manhã._

_Tudo bem._

Ele desapareceu pelo portal, que Layla fechou logo depois. Suspirando entediada, ela abriu outro, determinando o destino para Jibrille.

_Jibrille?_ Kenji perguntou, encarando a abertura negra com confusão. _Mas já?_

_Fleur acha que quanto antes fizermos nosso contato com eles, melhor._ ela explicou, monocórdia. _Arashi está nos esperando em Jibrille._

_Vamos pegá-los desprevenidos._ ele argumentou. _E furiosos. Pode gerar uma briga._

_Oh, isso é tudo o que eu estou esperando._ Layla argumentou, subitamente alegre, estralando os nós dos dedos com uma expressão maliciosa. _Uma briga. Você tem idéia do quão poderosos esses magos são? Há anos eu procuro um inimigo à altura._

Kenji balançou a cabeça, incrédulo.

_As vezes me pergunto porque você nunca pensou em entrar para a Fairy Tail._ murmurou, comicamente sério. _Os espíritos de luta são muito iguais. Pergunto-me que tipo de combinação explosiva daria você e um mago da Fairy Tail num combate._

_Vá para o inferno, filho da mãe._ ela praguejou, cerrando os punhos. _E entre logo nessa droga de portal, antes que eu distraidamente me esqueça que nós somos amigos e distraidamente comece uma briga com você, que distraidamente vai nos atrasar e vai deixar Fleur distraidamente irritada._

A espontaneidade das afirmações fez Kenji rir alto, e por vários minutos, ignorando completamente a carranca irritada que Layla lhe mandava. A nuvem de poder mágico já se acumulava no punho da maga, e um soco dela naquele momento seria capaz de derrubar um prédio. Ciente dessas informações, ele sabia que deveria parar de rir imediatamente, e se tornar sério, mas era difícil; sabia do carinho que ela tinha por ele, o que a tornava imediatamente mais amolecida em sua presença, e dava mais liberdade para ele irritá-la mais do que os outros conseguiam.

O que não queria dizer que ele pudesse provocá-la para sempre, porém.

_Oh, é verdade, eu tinha me esquecido..._ ele olhou para o portal, parecendo desanimado. _Vamos trabalhar na diplomacia... Seja boazinha, tudo bem? Se eles quiserem briga, deixamos você ser a porta voz. Mas não vamos procurar mais confusão do que já fizemos._

Layla deu de ombros, uma expressão travessa em seus olhos.

_Então eu só preciso torcer com todas as minhas forças para que eles causem encrenca?_ ela parecia quase uma criança que lida com a possibilidade de ganhar o doce favorito. Kenji balançou a cabeça, rindo e confirmando ao mesmo tempo, e ela deu um sorriso alegre. _Vou torcer tanto para isso que vai acabar acontecendo, você verá! Eu e Natsu Dragneel vamos nos matar. Só espere para ver._

Ele afagou os cabelos dela com carinho, meio que desprezando as suas palavras, mas não querendo dizer isso em voz alta, e entrou no portal, sem dizer mais nenhuma palavra. Não acreditava que a Fairy Tail fosse procurar briga naquele momento; eles estavam sobre ataque naquele exato minuto, e precisariam de toda a diplomacia que podiam reunir para conseguir aliados. Além do mais, o que a Light Dragon estava oferecendo era algo imperdível e irrecusável em qualquer guerra, e o lado do Conselho deveria se ajoelhar de gratidão por terem sido os escolhidos; embora nem mesmo Kenji entendesse muito bem os motivos pelos quais Fleur estava se aliando ao lado “do bem”.

É, concluiu ele, calmo, eles não serão burros o suficiente para procurar uma briga a essa altura.

As horas, no entanto, provariam o quanto ele estava amargamente errado, e o quanto Layla tinha potencial para ser uma clarividente muito talentosa num futuro não muito distante.

_***_

Ele estava no meio de uma multidão de rostos sem definição, indo e vindo de foco, rostos que pareciam zombar e ter pena dele ao mesmo tempo. Tinha o corpo coberto por feridas, e se sentia como se acabasse de ter sido feito de saco de pancadas para um gigante: moído e cansado. Não tinha ânimo para revidar as implicâncias, nem para se defender das ofensas que chegavam aos seus ouvidos.

Ele só queria prosseguir, sair da multidão.

E continuou andando, de cabeça baixa, ignorando tudo, não querendo ver, não querendo ouvir, não querendo reagir. A saída estava próxima, e ele podia ver uma clareira numa floresta, calma, silenciosa. Seus olhos se arregalaram, e ele apressou o passo, querendo chegar o mais rápido possível.

Quando estava praticamente longe de tudo aquilo, já se sentindo melhor por sair daquele inferno, o grito cortou a multidão, como uma navalha. O ar pareceu sangrar enquanto as palavras ecoavam na mente dele derramando uma tonelada de remorso e desesperança sobre seus ombros.

_PROMETAM-ME QUE VÃO ME ENCONTRAR!_ ela gritava, de algum lugar. Lucy. _PROMETAM-ME QUE VÃO ME FAZER LEMBRAR TUDO NOVAMENTE!_ ele se virou para trás, chamou seu nome, mas não havia resposta. A voz dela era um eco distante, constante, ininterrupto. _PROMETAM-ME!_

_LUCY! ONDE VOCÊ ESTÁ! ESTAMOS PROCURANDO POR VOCÊ, LUCY! APAREÇA PARA NÓS NOVAMENTE!_ gritou ele em resposta, tentando encontrá-la, embrenhando-se novamente na multidão. Mas de repente, todas aquelas pessoas não se moviam, eram como estátuas barrando o seu caminho, e estavam cada vez mais próximas, sufocando-o, afastando-o de Lucy, atrasando-o. _LUCY! DÊ-ME UM SINAL!_

Não houve resposta. Nunca havia. Mas um grito de dor atravessou a imensidão que os separava, e num momento de desespero, ele liberou toda a sua magia, as flamas lambendo seu corpo.

De repente, porém, tudo era desespero.

Todos os corpos da multidão estavam mortos. Onde ele pensou estar invocando fogo, havia sangue. E no meio de todos aqueles cadáveres estava Lucy. Vestida de preto, com pesada maquiagem e uma trança apertada em seus cabelos muito mais compridos do que ele se lembrava, sorrindo com um desprezo que ele não se lembrava de ter visto nela. Estava observando todos os cadáveres com interesse, brincando com uma faca nas mãos, e quando se virou para observá-lo, havia alguma coisa em seus olhos que o fazia recuar. Força. Desprezo. Maldade.

_Olá, Senhor Dragneel, da Fairy Tail._ ela disse, suas palavras ondulando entre eles como um presságio maldoso. Veneno. _Eu ainda estou esperando o momento da minha vingança._

_Quem é você?_ balbuciou. _Você não é a Lucy._

Ela deu um sorriso misterioso.

_Talvez eu seja. Talvez eu esteja tão perto quanto você possa me tocar, mas você nunca vai se dar conta disso._ um brilho assassino tomou conta de seus olhos. _Mas eu estou espreitando você. E quando menos esperar..._

Ela deslizou a faca rapidamente pelo próprio pescoço, decepando-a, com aquele sorriso maligno.

Ele gritou.”

Natsu abriu os olhos e sentou-se na cama de um só impulso, ofegante e desesperado. Olhou em volta, esperando ver pilhas de cadáveres e sangue, mas só havia a madeira empobrecida dos armários do hotel de Jibrille, as paredes descascadas e sem vida, o cheiro flutuante de mofo pintando o ambiente. Durante vários minutos, esperou que tudo aquilo se desfizesse em desespero novamente, mas quando percebeu que estava realmente ali, se permitiu um longo e cansado suspiro, caindo de volta na cama. Uma rápida olhadela no relógio de lacrima que Erza carregava lhe revelou as horas, e também lhe trouxe uma onda de desânimo: ainda eram uma e meia da madrugada, e ele sabia que não conseguiria mais pegar no sono.

Era sempre assim, desde que Lucy desaparecera dez anos antes, e ele se tornou um Classe S apenas para facilitar a sua busca para encontrá-la. Todas as noites, ele tinha o mesmo pesadelo, e depois que acordava, sempre assustado, sempre pensando nela, nunca conseguia dormir. Era como se, onde quer que estivesse, Lucy estivesse lhe cobrando a sua promessa, sempre lhe perguntando “aonde você está, e porque ainda não veio me buscar?”. Era horrível, mas com o passar dos anos, ele aprendeu que a única coisa que poderia fazer era torcer para dormir o máximo possível antes do pesadelo aparecer, e arranjar com o que se ocupar depois que acordasse.

Só que, nunca, em dez anos, o sonho tinha evoluído em algum lugar para depois do grito; aquela silhueta estranha, que se parecia com Lucy e tinha a mesma voz dela, a mesma aparência, mas que simplesmente não podia ser ela nunca havia aparecido antes. Nem a montanha de cadáveres. Ele ficou se perguntando qual era o significado daquela aparição, e porque ela falou nas palavras “vingança e morte”.

Não havia porque se vingar. Ele estava procurando por ela, mais arduamente do que qualquer outra pessoa na mesma situação estaria, e de certa forma, vivera os últimos dez anos de sua vida em função disso. Em silêncio, Natsu lembrou-se das inúmeras missões que pegou só porque cobriam áreas diferentes, áreas que permitiam que ele procurasse, que tirasse cada pedaço de palha do palheiro e remexesse nele separadamente. Mas por mais que procurasse, que remexesse, ainda não encontrara uma agulha, e depois de tanto tempo, estava começando a desistir de procurá-la, também.

É claro que sabia que jamais abandonaria sua promessa. Ele prometera, jurara para ela que tudo ia ficar bem, e iria até o fim com isso. E, mesmo quando ele passava longos períodos no ócio, a depressão e o desânimo a pintar-lhe o espírito, sempre havia a luz branca de Lisanna, que havia se relevado uma otimista incurável e uma poderosa encorajadora, e os sonhos a atormentar-lhe as noites, e lembrar-lhe que não, não estava terminado, que as coisas deveriam continuar e que ela ainda continuava esperando que ele cumprisse a sua promessa.

E era por isso que o acréscimo no sonho o assustava. Não gostara de ver uma Lucy tão... contaminada, mesmo que fosse apenas num sonho difuso. Sempre gostara de lembrar dela com o sorriso que sempre via em seu rosto, na alegria meio idiota que ele sentia emanar dela, dos momentos em que ela se irritava, só para depois sorrir novamente como se não fosse nada. Gostava de se lembrar dela como a fraca maga dos espíritos estelares que ele conhecera.

Não uma louca e venenosa mulher, como ela tinha se mostrado no sonho.

Sempre haveria a possibilidade de ele encontrá-la como uma amargurada. Que ela achasse que ele havia se esquecido dela. Que ela simplesmente não quisera voltar. Mas Natsu preferia se agarrar à eterna esperança de que a encontraria intacta, como nas suas melhores lembranças, e eles seriam amigos outra vez. Porque por mais que dissesse que fazia aquilo por causa apenas da promessa que fizera, estava mentindo; fazia aquilo também por si mesmo, por seu egoísmo, pelo seu bem estar. Ele queria sua velha amiga de volta. E iria até o inferno para buscá-la.

Suspirou, e acendeu uma pequena na palma de sua mão, com a qual ficou brincando entre os dedos. Estava com saudades de Lucy, dos dez anos de ócio, mas não desmerecia as coisas que essa busca tinha lhe dado de bom. Maturidade, poder, juízo; eram inegáveis aliados. E também havia Lisanna: sempre ao seu lado, o encorajando, apontando novas evidências, novas viagens, novos lugares para ir, novas pistas para seguir. Ela estava sempre ali, como uma âncora, um ombro para chorar, uma amiga para conversar, e, com o passar do tempo, uma mulher que ele realmente admirava.

Apagou a chama e levantou-se da cama, olhando o relógio de lacrima novamente: quinze minutos faltando para as duas. Naquelas noites de insônia, o tempo passava devagar, muito devagar, e ele sabia que demoraria uma eternidade para que amanhecesse, e o seu dia realmente começasse. Com passos lentos e vagarosos, Natsu caminhou até a janela, observando a pequena aldeia de Jibrille, suas casinhas antigas que não pareciam acompanhar o resto do desenvolvimento acelerado de Fiore. Havia alguma coisa ali, nas casinhas antigas, no modo pitoresco como tudo era feito, sem magia, aos trancos e barrancos. Natsu sorriu. Eles se viravam bem. À luz da lua, Jibrille parecia realmente bonita, sem nenhum vulto em suas ruas estreitas e suas ruelas sinuosas.

Até que os olhos de Natsu captaram algo.

Na rua principal, uma espécie de avenida que partia a cidade em dois, três vultos encapuzados caminhavam, numa procissão lenta e ininterrupta, em direção ao hotel. Mesmo de longe, Natsu conseguia sentir o cheiro de perigo que emanava deles, da sua postura altiva e calma enquanto caminhavam e do modo como eles não interagiam entre si, os rostos cobertos, sem dar abertura para espiadas. Em dúvida, Natsu ficou alguns segundos analisando-os, tentando decidir se os classificava como algum perigo potencial, ou como simples viajantes que não queriam ser incomodados, mas quando um movimento da figura do meio balançou a capa, revelando a bainha da espada que levava consigo, pareceu muito óbvio que eles não estavam ali para nenhuma passagem rápida.

Analisou-os por mais um minuto. Estavam a mais ou menos duzentos metros do hotel, e não pareciam estar com pressa. Se continuassem naquele ritmo, demorariam mais dez minutos ou menos para chegarem até a aliança, o que parecia um tempo perfeitamente razoável para ele acordar todo mundo. O único medo de Natsu era aquilo não dar em absolutamente nada, e depois ter uma cambada de gente brava com ele por ter sido acordada (leia-se Erza) sem nenhum motivo em particular, o que significava que ele precisava de uma segunda opinião.

Suavemente, ele se afastou da janela, aproximando-se da cama de Levy. Esta tinha os cabelos desgrenhados, sem a fita a domar-lhes a frente, a franja cobrindo seu rosto como uma cortina azulada, e abraçava uma flor de metal no peito, como um ursinho de pelúcia. Analisando a arte com atenção, Natsu reconheceu os contornos rígidos das esculturas de metal de Gajeel fazia, e conteve um risinho; a paixão dele pela maga de Escrita Sólida já vinha de anos, mas nunca tivera coragem para admitir, ainda mais quando ela começou a namorar Jet, e tinha aquela droga de orgulho que atrapalhava tudo. Mas vendo aquela flor, e as circunstâncias, Natsu já enxergava futuros retruques para as implicâncias de Gajeel, e se sentiu satisfeito.

Cutucou a maga no ombro.

_Levy._ chamou, baixinho, torcendo para não acordar Erza e morrer tão precocemente. _Levy... Levy..._ ela gemeu, se remexendo desconfortavelmente na cama, mas não acordou. Natsu bufou. _Levy... Tem uma coisa grave acontecendo..._ Levy resmungou alguma coisa, mas nada de acordar, e o Dragneel, frustrado, sentiu que ia ter que apelar para níveis extremos. Aproximando a boca do ouvido dela, sussurrando lenta e claramente, ele tentou sua última estratégia pacífica. _Levy... O Gajeel... Sabe o Gajeel? Pois é. Ele está aqui do meu lado... Completamente... Cara, é nojento imaginar isso, mas, enfim, tudo pelo bem da Fairy Tail... Gajeel está aqui do meu lado completamente nu._

O efeito foi imediato. Assim que Natsu proferiu as palavras “Gajeel” e “nu”, nem um balde de água gelada faria Levy se levantar mais rápido. Seu movimento na cama foi tão brusco que nem mesmo Natsu pode prevê-lo, o que causou um desconfortável choque entre as cabeças dos dois, e fez Levy conter um gemido.

_O que o Gajeel está fazendo aqui?_ perguntou ela, olhando avidamente em volta. _Cadê ele?_

_Em lugar nenhum._ Natsu riu, enquanto esfregava o lugar dolorido. A cabeça de Levy era inesperadamente dura. _Eu só fiz isso para você acordar logo._

_Quer dizer... Que você me acordou às quinze para as duas da manhã... Sem nenhum motivo aparente... Só para me sacanear?_ ela o encarou, com um olhar digno de Erza em seus piores dias, e ele se sentiu encolher involuntariamente. _Você faz idéia do quão morto está? Vou gritar, acordar Erza e dizer que foi culpa sua._ o tom era pérfido, cruel, e Natsu começou a suar sem perceber. _Te encontro na próxima vida, porque..._

Ela não teve tempo de terminar: assim que abriu a boca para gritar, o instinto de desespero de Natsu já tinha entrado à ativa, e ele se jogou contra ela, tapando sua boca com a mão. Levy esperneou e tentou gritar, mordendo fortemente a mão dele logo depois, mas ele não a retirou de lá; era inegável que preferia perder a mão para uma Levy estressada do que perder a vida para uma Erza enfurecida, o que certamente aconteceria se qualquer um dos dois gritasse.

_Há movimentos suspeitos lá fora._ ele explicou, rapidamente, enquanto ela colocava ainda mais força nos dentes, cortando a pele. _Três vultos encapuzados. Um deles está carregando uma espada. É estranho, não acha? Eu preciso que você acorde os outros! Eles não estão aqui para nos dar um oizinho, pode apostar!_

Os olhos dela se arregalaram, enquanto o aperto dos dentes afrouxou. Aliviado, constatando que estava cortada e sangrando, Natsu puxou a mão de volta, enquanto se levantava e ia até a janela, avaliando cuidadosamente os três vultos, que continuavam andando num ritmo constante, sem pressa.

Logo, Levy estava ao seu lado, de cenho franzido, observando a mesma cena. Parecia tensa e preocupada, principalmente quando o vulto do meio, com o qual Natsu tinha visto a bainha de uma espada, tirou o instrumento dela, erguendo a lâmina no ar, aparentemente para examiná-la.

Na luz da lua, a espada refletiu perigosamente seus raios, estranhamente jogando prismas para a capa de seu dono, como se a lâmina não fosse feita de metal, e sim de pequeninos e entrelaçados pedaços de vidro. Apesar de não se assemelhar em nada com as espadas que Erza invocava em suas batalhas, aquela parecia ser tão ou mais mortal que elas, em sua frágil e afiada estrutura que os olhos de águia de Natsu não deixaram passar.

_Isso é perigoso._ disse Levy, a voz tremendo um pouco. _Muito perigoso. Vamos acordar os outros._

_Acorde-os você._ ele retrucou, sem retirar os olhos da espada, que o vulto voltou a embainhar. _Vou ficar aqui e observá-los. Não posso arriscar deixar que eles façam algo para nós... Tenho que ficar de olho para revidar em caso de ataque._

Ela pareceu considerar a idéia por alguns minutos. Sua expressão deixava claro que não achava uma boa idéia deixar logo Natsu para “vigiar” inimigos, mas na falta de opção melhor, acabou concordando, com um suspiro cansado.

_Deixamos Erza por último?_ perguntou, quase num murmúrio. _Quer dizer..._

_Claro que sim._ ele disse, como se ela tivesse perguntado uma coisa muito idiota. _Temos que proceder com muita calma quando se trata de Erza... Dez, vinte, trinta anos, isso não faz diferença quando se trata de interromper o seu sono._

Levy tremeu, como se tivesse se lembrado de algo muito ruim.

_De fato. Você me promete que não faz nenhuma besteira? Que não vai procurar briga? Que só vai vigiar?_

Não.

_Sim, claro que prometo._

_Então está bem. Já volto._

Ela deu meia volta, abrindo silenciosamente a porta e saindo. Natsu podia ouvir seus passos no outro cômodo, arrastando-se pelo chão de carvalho velho, mas não deu muita atenção; tinha os olhos cravados na figura do meio, nos seus movimentos calmos, mas perigosos e contados. A capa larga, somada à luz fraca que penetrava entre os vultos, deixava poucas pistas a se deduzir sobre quem poderia ser, o que o irritava: homem ou mulher, psicótico ou sádico, idealista ou objetivo? Havia muitas coisas a se descobrir sobre um inimigo ao encarar seus olhos, e a pior coisa do mundo era lutar com uma pessoa que você não podia analisar, pelo menos na opinião do Dragneel.

Não que importasse. Ia dar porrada em todos eles, mesmo.

Os vultos estavam a mais ou menos cinqüenta metros do hotel quando todos os outros magos da aliança, exceto Erza, que ainda dormia sonoramente em sua cama, entraram no quarto, silenciosamente, medindo com a vida cada passo que davam até a janela.

Aprenderam rápido, pensou Natsu, de bom humor. Erza é realmente um leão de circo. Todos querem vê-la com seus truques, mas ninguém quer chegar perto o suficiente para ter a cabeça arrancada.

_O que é isso?_ perguntou Gajeel, baixinho, se postando ao seu lado. _Vi eles da janela do meu quarto. O que acham que estão fazendo aqui?_

_Um bando de suicidas, talvez?_ sugeriu Hibiki, mais atrás. Tinha a Arquivo ativada na sua frente, dois dedos pressionados nas têmporas, e uma expressão concentrada. _Estou tentando contatar a mente de Erza e fazê-la acordar por contra própria._ explicou, ao ver a cara de dúvida dos dois Dragon Slayers ao se virarem para ele._Assim, quem sabe, ela acorda menos irritada._

Gajeel fez um ruído de desprezo com a boca, virando imediatamente as costas para Hibiki como se ele fosse uma espécie nojenta e execrável de inseto, mas Natsu deu um sorriso empolgado, animado com a idéia do outro.

_Isso é brilhante!_ exaltou. _Pode poupar nossas vidas. Você é incrível!_

_Obrigado._ ele deu um sorriso modesto. _Vou dar o meu melhor._

Natsu sacudiu a cabeça, voltando seu olhar para a janela. Aquela altura, os vultos estavam praticamente embaixo dela, mas não davam sinais de que iriam parar. A postura dos Dragon Slayers se retesou, o que levou todos os outros a ficarem imediatamente alerta também, apesar de não poderem ver a paisagem da janela. Levy, pequena, talvez a menor deles, entretanto, conseguiu se espremer no pequeno espaço entre os dois, observando tudo com olhos de uma estrategista analítica.

_Não façam nenhuma besteira._ avisou. _Esperem._

_Descer lá e meter porrada em todo mundo se enquadra na categoria “besteira”?_ perguntou Gajeel, estalando os nós dos dedos, parecendo animado.

Levy lançou-lhe um pesado olhar de censura.

_Você quer que eu responda? Claro que sim! Fiquem quietinhos aí até que todos decidam o que fazer!_

_Ah, que pena._ disse Natsu, murchando visivelmente, e os magos presentes seguraram o riso; a cena era engraçada. _Estava até planejando quebrar a espada do car..._

Ele não terminou. Seus olhos se espicharam para fora novamente, assim como os de Levy e Gajeel, que observavam a parte de fora da janela com uma mistura estranha de confusão e horror. Os magos do lado de dentro tentaram se amontoar para ver alguma coisa, mas parecia quase impossível; Erza, em sua cama, tentava entender a situação, e todos resolveram se concentrar em evitar uma catástrofe relacionada a ela. Com Levy de conciliadora entre Gajeel e Natsu, se sentiam mais calmos para deixar que eles observassem tudo até que Erza estivesse bem informada, e conversasse com Jura o que seria feito naquela situação.

Não ficariam tão calmos se estivessem na janela, entretanto. Do lado de fora, o trio de magos encapuzados parou, a poucos passos da janela, mas não fizeram menção de mostrar seus rostos; o vulto da direita subiu a manga esquerda da sua capa até o antebraço, o do meio mostrou seu ombro, incrivelmente sem revelar seu rosto no processo, e o vulto da esquerda moveu milimetricamente a sua capa para o lado, revelando o lado direito do peito.

Os magos na janela se inclinaram confusos, e Natsu, atento, foi o primeiro a perceber o que eles estavam lhe mostrando: o símbolo de um L e um D espelhados, circundados pela figura de um dragão.

_Light Dragon._ rosnou Gajeel, se colocando em posição de ataque, mas sendo parado pelo braço fino de Levy. _Por quê?_

_Fique quieto._ ela sibilou, sem olhar para ele, seus lábios mal se movendo. _Eles estão aqui para uma aliança. Lembra?_

Gajeel rosnou mais uma vez, mas voltou à posição original. Levy mordeu com força os lábios, mas não disse nenhuma palavra, e, em seu nervosismo, nenhum deles se lembrou se olhar a reação de Natsu: silencioso, o mago tinha os punhos firmemente cerrados, as flamas lambendo seus braços, observando os três magos com uma expressão praticamente demente.

Os vultos, porém, não pareceram perceber isso. Após alguns segundos, ao aparentemente perceberem que não seriam atacados, os dois da direita e da esquerda deram um passo para trás, e o do meio deu um passo para frente; provavelmente, pensou Levy, nervosa, aquele seria o diplomático pacificador.

_Ao que parece..._ surpreendentemente, a voz era de mulher, e incrivelmente doce e suave. Era o tipo de voz que você esperaria de uma donzela, e não de uma pessoa que carregava uma espada tão perigosa. _Já perceberam quem somos. Não estamos aqui para lutar, mas há certas coisas a serem discutidas sobre a aliança travada entre nosso lado e o seu, e estamos aqui para colocá-las a limpo. A aliança já foi decidida no Conselho... Espero que não tenham problemas em relação a isso._

Ela é boa, Levy pensou, com respeito. Provavelmente já tinha pensado no que dizer. Mas... Não podemos entrar em combate agora... Eles são poderosos.

_Não temos nenhum..._

_TEMOS TODO O PROBLEMA DO MUNDO COM ISSO!_ Natsu gritou, subindo no parapeito da janela, os olhos furiosos, o corpo inteiro se transformando em chamas. _EU ME RECUSO A ACEITAR UMA ALIANÇA COM VOCÊS! VOCÊS PODERIAM TER MATADO O TOHRU!_

_Natsu..._ Levy deu um passo a frente, pretendendo impedi-lo, mas um par forte de braços envolveu sua cintura, prendendo-a firmemente no lugar. Conheceria o cheiro levemente metálico de Gajeel em qualquer lugar, e não precisava olhar para saber que era ele. Tentou argumentar. _Gajeel... Ele vai fazer besteira!_

_Não adianta._ ele sussurrou, em sua orelha, gravemente, fazendo-a tremer. _Só vai se queimar se tentar impedi-lo agora. Vamos assistir._

_T-t-t-t-t-udo bem._ gaguejou, ainda nervosa pela proximidade, sentindo novamente como uma adolescente de dezessete anos na pior hora possível. _E-e-e-le é idiota._

Houve um chiado, que ela identificou como uma risada disfarçada, mas isso se perdeu na discussão de Natsu com a mulher; o homem em chamas ainda esperava uma resposta da encapuzada.

_Aquilo foi algo puramente estratégico._ a voz doce se ergueu novamente, calma e pacífica. _Precisávamos de algo que forçasse os membros do Conselho a pensarem na nossa proposta. Nunca tivemos a intenção de ferir nenhum de seus magos, e se realmente tivéssemos, ele não estaria vivo neste exato momento. Não vamos discutir... Isso é uma aliança._

_MAS É CLARO QUE VAMOS DISCUTIR! EU SÓ VOU CONCORDAR COM ESSE SHOW DE CIRCO SE UM DE VOCÊS PUDER ME DERROTAR!_ Natsu flexionou o corpo para a frente, as chamas em suas pernas assumindo um padrão espiral rápido e contínuo, e, com um movimento treinado, deu o impulso, indo como um foguete na direção da mulher. _EU VOU MATAR VOCÊS!_

O espaço entre Natsu e a mulher diminuía progressivamente. Isso vai se tornar uma luta, Levy pensou, pesarosa. A última coisa que queríamos agora. A situação era o mais perto possível de desesperadora, e, apesar de tudo, a besta quadrada de Natsu não conseguia controlar seus impulsos.

Os anos de missões não tinham domado a sua impulsividade, ela concluiu.

E, na sua preocupação, não notou que as mãos de Gajeel continuavam envolvendo a sua cintura, o queixo apoiado na curva do pescoço. Só notou que, mesmo em meio a todo aquele circo, que prometia se tornar um duelo preocupante em poucos minutos, ele ainda tinha a coragem de rir gostosamente, como se aquilo não tivesse a menor importância, como se fosse um espetáculo engraçado e divertido.

_Isso vai ser interessante._ o Dragão de Ferro concluiu. _Muito interessante._

_***_

Na sede da aliança temporária entre Light Dragon e Crime Sorciére, em Kiarr, tudo estava silencioso e calmo. Os magos que estavam monitorando a situação do Conselho tinham chegado há pouco mais de meia hora, e, depois de entregarem seus relatórios à mestra Fleur, se recolheram aos seus quartos, alegando fadiga. Ninguém os culpava; deveria ser realmente cansativo ficar o dia inteiro se camuflando nas sombras próximas ao Conselho, tendo que tomar cuidado com cada movimento.

Na verdade, todos os magos presentes na casa estavam recolhidos, com exceção de Ultear, que, sentada na posição de lótus no telhado, o vento das madrugadas jogando violentamente seus cabelos contra o rosto, meditava calmamente. O rosto transmitia a paz de um lago num dia sem vento, o que contrastava violentamente com a tempestade de sua personalidade, mas fazia anos que ela adquiria aquele hábito.

Na maior parte do tempo, a vida com Gerard e Meredy era interessante, dinâmica, divertida até. Eles estavam o tempo todo com um novo alvo, um novo local para destruir, uma nova guilda para investigar, e isso dava pouco tempo para conversas e afins. Mas no intervalo das missões, em que eles acampavam em cavernas escondidas, tavernas abandonadas e outros pontos inóspitos de Fiore, parecia quase insuportável a convivência entre os três magos. Meredy era demasiado implicante (parecia nunca ter saído dos treze anos), Gerard era demais deprimido (nunca superara Erza e o seu desaparecimento) e ela era demais irritada, o que ocasionava brigas quase horárias. Algumas eram engraçadas, mas depois de um tempo, você se cansava de tanta porrada, e passava a querer só um pouco de paz.

Foi aí que Ultear começou a meditar. Acreditava que aquilo ajudava no controle de seus poderes e no controle de sua irritação, e talvez realmente ajudasse, mas o motivo principal era que aquela hora da madrugada era o único momento do dia que tirava para si mesma, com silêncio e paz para esvaziar a mente. E após não pensar por uma hora, ela pensava sobre tudo o que acontecia em cada dia, digerindo lentamente cada acontecimento.

E a pauta daquele dia, assim que a Milkovitch desfez a posição do lótus e enterrou a cabeça entre os joelhos, foi unânime: Layla.

Ultear não era nenhuma tonta. Tinha visto muito da vida, das pessoas e dos seus comportamentos para entender o que Layla era, e os problemas que ela futuramente poderia ocasionar. Apesar de ter tranqüilizado Fleur naquele mesmo dia a respeito disso, Ultear era capaz de enxergar naquele jovem maga muito mais coisas perigosas do que qualquer outra pessoa, porque via em Layla um reflexo do que si mesma era dez anos antes: uma mulher amargurada e vingativa.

Só que, para a Milkovitch, aparecera Gray, um fantasma do passado que ela queria ignorar, e lhe fizera enxergar a verdade, consertando o seu espírito. Layla, entretanto, não tinha quem a salvasse do desespero no qual afundaria. Era um ser praticamente só, apesar das pessoas que a cercavam, e isso era ruim. Ultear encontrara o caminho da sua redenção ao longo dos anos, mas sabia que só o fizera porque tinha amigos, e aceitara que precisava da sua ajuda para isso; tinha a plena consciência de que sem eles não chegaria a lugar nenhum além do fundo do poço.

Gerard e Meredy a tinham salvado.

Mas quem salvaria Layla? Isso ela não sabia, e nem tentaria descobrir.

Ultear abriu os olhos, deslumbrando da vista que o telhado do casarão lhe dava, a cidade de Kiarr se estendendo parcialmente aos seus olhos. Remetia-lhe a uma lembrança antiga, das cidades inteiras que destruíra enquanto era uma Grimoire, e pesava-lhe o coração. Aquelas pessoas que ali viviam não tinham consciência de nada do que estava acontecendo no mundo, e não mereciam ter suas vidas retiradas, assim como aquelas que tinham sido mortas por suas mãos 10, 12 anos antes; só que, naquela época, aquilo não tinha feito a menor diferença.

Aquelas lembranças, no começo, eram muito vívidas, e ela chorava quase todas as noites. Com o passar dos anos, entretanto, se tornaram cada vez mais esparsas, à medida que o tempo passava, e ela sentia que sua redenção estava mais próxima, que sua lista de pecados a serem expiados estava menor. Aquela altura, praticamente não se lembrava mais daqueles tempos, mas não podia evitar uma onda desagradável de melancolia quando se lembrava da pessoa que era. Fazia-a se sentir nojenta, má, execrável. E era exatamente nessas horas que ela se sentia profundamente agradecida de ter Meredy e Gerard; eles sempre a puxavam para cima, melhorando seu ânimo e fazendo-a rir.

Tendo a imagem dos dois amigos em mente, encarou novamente a cidade, e bloqueando ao máximo as lembranças, pode até mesmo reparar em sua beleza. Sem guildas de magos legais estabelecidas por aquelas bandas, Kiarr era uma cidade pitoresca, turística, com casas artísticas e até mesmo exageradas. Havia um cheiro agradável e inebriante de carvalho e sereno no ar, que trazia uma estranha sensação de relaxamento, e ao se concentrar apenas nele, Ultear pode sentir seus ombros tensos caírem, uma sensação de moleza agradável tomando conta de cada partícula de seu corpo, deixando-o de repente sonolento e agradavelmente cansado.

Agradável demais...

_Arca do Tempo: Reversão!_ murmurou, sentindo o cheio regredir lentamente de suas narinas, levando a sensação de languidez junto com ele. _Alguém estava tentando me dopar..._

De olhos atentos, ela escaneou o local, mas não foi preciso tanto esforço: não tão longe da cidade, visivelmente em direção do casarão onde ela estava, vinha uma massa de magos vestidos de negro e vermelho, trazendo em suas mãos grandes lanças com rosas negras nas pontas. Não era preciso ser nenhum gênio para adivinhar quem eram.

Black Lance Rose, pensou Ultear, divertida. Parece que nos encontraram. E estavam tentando me dopar com gás sonífero... Amadores.

A massa era enorme, e vinha rapidamente. Por alto, a maga calculou aproximadamente oitenta magos, todos armados com as mesmas lanças (um acessório simbólico, ao que parecia), e se continuassem no mesmo ritmo, chegariam no casarão em menos de cinco minutos. Observando-os, Ultear se sentiu preguiçosa em acordar todos os magos presentes na casa e explicar-lhes a situação: aquilo iria ser chato e demorado.

Se colocou em pé, andando até a borda do telhado e, com um pulo ágil, entrou no quarto de hóspedes, logo abaixo. Era um cômodo pobre com paredes desgastadas, o carpete furado e um cheio enjoativo de mofo no ar, mas servia bem; em suas camas, Meredy e Gerard dormiam tranquilamente, desconsiderando todos esses detalhes.

Dava dó acordá-los. Mas que graça teria derrotar todos os magos sozinha? Além do mais, o entrosamento dos três era perfeito; Ultear acreditava que seriam suficientes para controlar a situação.

_Gerard, Meredy._ chamou, em alto e bom tom, sentando-se no parapeito da janela. _Acordem, suas lesmas tontas._

Gerard, o de sono incrivelmente leve, se levantou, preguiçosamente.

_Bruxa maldita. Porque está chamando?+

_Vá se ferrar, baba-Erza. Espere que eu já vou explicar._ ela voltou suas atenções para Meredy. _Meldy, acorde._

_ACORDE, PIRRALHA!_ Gerard gritou, o que foi bem mais efetivo; a maga mais nova levantou a cabeça bruscamente. Com um sorriso convencido, ele se virou para Ultear. _Viu? Temos que fazer tudo bonitinho, só que ao contrário._

Meredy grunhiu, sentando-se na cama. Seus cabelos róseos se assemelhavam a uma vassoura, e Ultear, num surto de maternidade, a achou incrivelmente fofa.

_Não sou pirralha, tenho 23 anos._ ela resmungou, em resposta ao colega. _E acho que você contraiu sarcasmicite da Layla no tempo em que passou com ela. Trate de se tratar urgentemente, esse tipo de doença deixa você insuportável._

_Bah._ ele riu fracamente. _Ignore isso._e olhando feio para Ultear, resmungou. _Porque nos acordou, bruxa feia?_

_Black Lance Rose encontrou a nossa sede._ a Milkovitch respondeu, ignorando o tom dele. _Há mais de oitenta homens vindo para cá nesse exato momento... Pensei que podíamos derrotá-los como um presentinho pela boa estadia da Fleur. Que tal?_

Gerard sorriu levemente, um sinal de que concordava, mas a reação de Meredy foi bem mais efusiva; de pijama de bolinhas, ela começou a bater palmas, entusiasmada, o que fazia um quadro extremamente infantil.

_Oba, quero lutar!_ guinchou. _Vamos lá!_

De pijama mesmo? Foi o primeiro pensamento de Ultear, seguido por: talvez ela derrote alguém só no excesso de fofura.

_Então vamos._ Gerard estalou os nós dos dedos. _Mostrar para eles que não se deve mexer com a Crime Sorciére._

_Agora._ concordou Ultear.

E foram.

_***_

Acima dali, muito acima, encoberta por uma suave camada de nuvens, a nave da Black Lance Rose parou seu curso, lentamente, e dentro da nave, alguns magos bêbados arquejaram em surpresa: raras eram as ocasiões em que a nave parava de se mover, porque eles não precisavam parar em nenhum lugar para conseguir suprimentos ou coisas do tipo. A nave era reabastecida pelas missões dos magos que iam fazer em terra, e por isso, seu curso raramente era interrompido, geralmente quando alguma coisa grave estava para acontecer.

Nenhum deles podia desconfiar do verdadeiro motivo pelo qual a nave parara; aquilo era uma coleta de cadáveres, ou assim esperava ser o mestre Keitarou quando mandou que o curso fosse parado exatamente em cima de Kiarr, onde exatamente naquele momento a primeira divisão do quarto esquadrão de magos fazia um ataque surpresa à guilda de sua prima, ou pelo menos o mais próximo de um ataque surpresa que ele conseguiria fazer, se tratando de Otohime, uma sensitiva nata que parecia prever ataques com próprio corpo.

Keitarou odiava Otohime desde que os dois eram crianças. O termo mais correto para descrever o sentimento seria inveja; os dois foram criados próximos, e Otohime sempre foi a melhor lutadora, a melhor aluna na escola, a primeira a se tornar maga, a primeira se tornar Classe S numa guilda legal e outras coisas. Em toda a sua vida, Keitarou sempre tivera a impressão de que ela estava um passo na sua frente, e isso o irritava profundamente: odiava ser superado, no que quer que fosse. Ele treinara, se tornara forte, se tornara temido, mas ainda sim não chegava aos pés de Otohime. Era de arrancar os cabelos.

Até criar a Black Lance Rose. De certa forma, aquilo foi uma forma de mostrar para Otohime, que assumira o nojento nome de Fleur, que ele podia sim ser melhor que ela, se quisesse. Até a chamou para se tornar um deles! E quando achou realmente que finalmente tinha sido tornado superior a ela, eis que a vadia criou a Light Dragon, uma cria de nove magos iguais a ela. Se uma Otohime já era desagradável, quanto mais nove! Ele quis manter distância.

Mas jamais pensou em matá-la, até descobrir que ela tinha se aliado ao Conselho. Nunca, em seus mais pérfidos e maléficos pesadelos, ele imaginaria que ela faria uma coisa assim, mas aquilo era tão Otohime que doía.

Só que ele não estava com paciência para jogos. Se era assim que ela queria as coisas, então elas seriam feitas exatamente daquele jeito. Jogos de gato e rato não eram a perícia do mestre Keitarou, mas ele os apreciava muito, e iria até o fim; o primeiro movimento seria dele, inclusive, atacando sua decrépita sede em plena madrugada como um pequeno aviso do que viria depois.

_Eu sou ótimo._ ele exclamou, sentado em seu trono de ferro parcialmente quebrado pelo seu último ataque de fúria. _E ela é uma vadia._

_Hora de ofender a Otohime?_ perguntou Kenshin, entrando no cômodo, com um macacão negro e as mãos cheias de graxa e um fluído negro que se movia constantemente, como se estivesse vivo. _Quero participar também._

Keitarou riu gostosamente.

_Todo momento é momento de ofender a Otohime, Kenshin._ respondeu, com despeito. _Ela foi feita para ser ofendida. Mas não vamos perder tempo com coisas triviais... E a montagem do Chiaroscuro?_

_Dois dias e ele estará completamente montado._ Kenshin suspirou, cansado. _A energia negativa de Zeref nas peças está quase me possuindo, mas estou firme e forte..._ ele foi até a janela e olhou para baixo, preocupado. _Tem certeza que vale a pena sacrificar a primeira divisão do quarto esquadrão com a Otohime? Nós sabemos que eles não têm chance._

_É só um aviso, Kenshin. Eu não tenho a menor dor no coração de sacrificar 88 magos. Eles que se danem... Quem sabe nos lembremos deles quando dominarmos o mundo?_ ele riu. _Vá montar o robô vá... É bobagem demais para a minha cabeça._

Kenshin fez uma careta, mas não desobedeceu a ordem: saiu da sala e voltou para a oficina onde o robô estava sendo montado.

Keitarou, entretanto, tinha um grande sorriso no rosto. Aquele era o início da sua ascensão: finalmente dominaria o mundo e superaria Otohime. O que mais poderia querer?

Notas finais
EEEEEEEEEEEEE aí?
Gostaram?
Amaram?
Acharam muito grande?
Enfim.
Há muitos comentários maravilhosos me perguntando quando vai haver o reencontro da Layla com o Natsu, e tal. Bem, no próximo capítulo, vai haver interação entre eles, mas aviso desde já que Natsu não vai saber "agora" que a Layla é a Lucy, ok?
Não aguento, tenho que dar spoilers!
No próximo capítulo... Batalhas! Fairy Tail vs Aliança das Trevas, Natsu vs Layla e Crime Sorciere vs Black Lance Rose.
Até lá!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.