Amizades passageiras
1 Capítulo 1
Estrelas cadentes
Hoje tentei entender com meu senso racional tudo aquilo que aparentemente era ilógico, as amizades passageiras foi uma das primeiras questões que levantei enquanto debatia com os meus “eus” interiores.
— O tema de hoje são as amizades passageiras, o que você acha disso Razão? – perguntei ao mais cético de todos os meus eus.
Ele pensativo coçou a cabeça, olhou para cima, olhou para baixo, coçou o queixo e com ar de filosofo veio fazendo citações (uma recente mania que as vezes enchia o saco), dessa vez o citado foi Heráclito.
— “Nada é permanente, exceto a mudança”, é da natureza dos homens buscar a mudança, por isso não se prendem à nada, nem mesmo às amizades mais antigas – disse com pose de quem sabia tudo de tudo – é o que o Sábio pensa, logo é o que eu afirmo.
— Hahahahaha! – riu o Sentimento, não que tenha achado engraçado, imagino que tenha sido mais em tom de deboche, e então continuou – é aí que sem engana! Pois se a amizade é verdadeira, muda-se o mundo mas não muda-se o sentimento! Sei disso, e sei bem!
Então Razão e Sentimento começaram a discutir! Um alegando a frivolidade dos homens, outro afirmando a calor da amizade, e nenhum conseguiu de fato responder minha pergunta. Foi então que a Poesia, em seu tom lacônico pediu vez para falar na roda, e pacientemente assim que todos se calaram eu me atentei em ouvir.
— Talvez não sejam as amizades passageiras, mas sim o tempo – disse em tom sereno e depois continuou – Não importa o tempo que duram mas sim o valor que elas tem, as vezes uma amizade duradoura não tem o mesmo valor que um encontro único e memorável.
Razão e Sentimento refletiram, não pude deixar de refletir também, mas a Poesia era a pacificadora, era o ponto comum entre Razão e Sentimento, e sempre que ela falava deixavam duvidas que tanto um quanto outro se empenhavam em responder.
— Mas não faz sentido! – disse a Razão – Se é bom tem de durar, ou pelo menos tentar fazer com que dure?!
— Será mesmo? – pronunciou a Ironia, a mais pirracenta, sempre que falava causava intrigas – O que é bom dura mesmo? Pensei que fosse o contrario!
Pelas trocas de olhares pressenti que acabaria em briga, a Ironia jogava de uma forma perigosa, voltava sempre as mesmas palavras para os emitentes, porem de forma distorcida, tinha o talento de fazer um inferno simplesmente trocando seis por meia dúzia.
— Calma aí galera! – me pronunciei apartando o que seria uma tremenda discussão – Ironia! Se não for para ajudar melhor então que você fique calada! Entendeu?
A muito contragosto esta se sentou em um canto onde ficava desdenhando da Razão sempre que esta olhava em sua direção, a Razão já contrariada continuou seu discurso:
— O que estou tentando dizer, é que se realmente fossem tão valorosos esses momentos, as pessoas tentariam fazer com que se repetissem constantemente, e não deixariam que simplesmente passassem.
— Mas as pessoas não deixam passar – disse o Sentimento como se finalmente entendesse um enigma bem difícil – Pensa bem comigo, as pessoas criam oportunidades, o tempo todo, as vezes as coisas não dão certo, mas é a vida, se aprende acertando e errando, e nem sempre se acerta infelizmente.
— Vocês ainda não entenderam aonde quero chegar! – disse apoiando a cabeça sobre as mãos e esfregando as sobrancelhas – Não quero entender por que algumas amizades não duram, mas sim por que existem amizades passageiras, que simplesmente passam por nós, como se fossem um... um... como é a palavra?!
— Cometa – disse a Ironia meio acanhada – estrela cadente, primavera, nuvens, coisas desse tipo, não é?
Vez ou outra a Ironia me compreendia como ninguém, acho que principalmente nas coisas com relação aos Eus interiores.
— É, cometas, estrelas cadentes, obrigado Ironia – disse realmente agradecido, e me sentindo um pouco mal por tê-la tratada com certa ignorância agora a pouco, afinal, era o seu jeito de ser, e eu a muito deveria tê-la aceito assim como ela era – Resumindo, agora me entenderam?!
A Poesia sorriu, olhou para a Ironia que também sorriu de volta, e com uma troca de olhares de cumplicidade olharam para a Razão e o Sentimento, todos pareceram entender, embora o Sentimento tivesse demorado um pouco mais que os outros.
Aproximaram-se de mim e a poesia foi a primeira a falar.
— Johnny, estamos entendendo o que você está querendo dizer – disse me abraçando fazendo com que o peso que eu sentia nos ombros cedesse – Agora entendemos o que você está sentindo e vamos te explicar com clareza o que está passando.
— A verdade é que você olhou a sua volta hoje não foi? Viu aquele monte de babac... – gemeu a ironia após levar um soco no braço dados pela Razão e pelo Sentimento – Ai! Isso dói! Me desculpe... você viu aquele monte de gente atoa juntos, e ficou pensando por que não tem um monte de trombadinhas junto contigo também. Ows! Parem de me bater!
Lagrimas teimavam em escorrer pelos cantos dos olhos, mas mesmo assim não pude deixar de sorrir, então depois que finalmente conseguiram calar a Ironia e amarra-la em algum canto a seu contragosto a Razão veio dizer sua parte:
— Mas sinceramente, você não deveria se preocupar com isso! – dizia com pose de sabido – Como diz o filosofo... – todos, inclusive a Ironia, que estava amarrada em algum canto perto dali interrompeu a Razão dizendo em uma só voz “Sem citação!”, e a Razão contrariada continuou – O que estou querendo dizer é que você fez coisas importantes para estas pessoas, e por mais que elas não estejam contigo todo o tempo, ou você com elas não significa que eles te amam mais ou menos, só quer dizer que não é o fato de não estar presente que te faz ausente.
Estava ainda mais confuso, por que a Razão tem sempre mania de falar complicado? Não podia ser mais direta como a Ironia, ou talvez mais singelo como o Sentimento? Minha cabeça girava e eu não sabia mais o que pensar, e como se lendo meu pensamento veio o Sentimento completar o que tinha pra dizer:
— O que estamos querendo dizer, todos nós, é que você é importante à sua maneira Johnny, assim como os cometas, as estrelas cadentes, ou mesmo as estações do ano que vem e vão.
O sentimento me fez levantar e começou a caminhar comigo por entre as vias de pedra do parque, estava um dia bonito, embora até aquele momento eu não houvesse percebido.
— O fato de sua presença muitas vezes ser passageira, não faz da sua amizade passageira, você os tem como se fosse algo para durar para sempre, e por isso muitas vezes dura, é um fardo que você optou por carregar, o de trazer a paz, a felicidade, a alegria, e mesmo a aceitação à aqueles à sua volta, mesmo quando isso significa custar a própria paz, felicidade, ou alegria.
Não adiantava conter as lagrimas, elas exigiam ser derramadas, fugir do meu coração e se libertarem para o mundo, eu simplesmente permiti.
— O que te parece momentâneo é na verdade muito mais do que isso, é como no caso do Cometa, sua luz, sua beleza, é rara, sua influencia na terra é tamanha que sempre quando este passa a natureza muda, as marés sobem, e as pessoas se unem para ver um espetáculo no céu, a estrela cadente, é uma estrela que resolve descansar, abre mão de seu lugar ao céu para que uma estrela nova comece a brilhar mais forte e mais viva do que a anterior, mas mesmo assim antes de partir concede a quem a observa um pedido a ser realizado.
Eram belas palavras, nem percebi que o Sentimento andava de mãos dadas à Poesia.
— Resumindo – disseram todos, inclusive a Ironia – Pare de se preocupar e viva a beleza dos momentos únicos que você proporciona, já proporcionou, ou ainda há de proporcionar.
E me abraçaram, meus Eus interiores me compreendiam e me davam força para aceitar algo que sou, estava bem acompanhado, pelas melhores pessoas a quem eu já pude confiar.
Por fim surgiu minha Alma, que em tom sereno concluiu.
— É tua dadiva, ser parte da vida de cada um que cruza teu caminho, mesmo que pareça ínfimo, momentâneo, sempre será eterno aos olhos daqueles que vivenciaram. Cada abraço, cada palavra de carinho e sabedoria no momento certo, todos os sorrisos, lagrimas, abraços, tudo será lembrado no momento em que for preciso olhar pro céu e buscar o acalento das estrelas, na verdade não é você que não serve para estar com eles, mas eles que não podem estar com você, pois você está sempre com todos.
Uma ultima lagrima rolou por meu rosto, mas aquela era diferente era brilhante, salgada e não amarga como as outras, era uma lagrima de felicidade.
Ps.: O que eu quis dizer com esse texto é que existem vários tipos de pessoas nas nossas vidas, algumas parecem que vão estar para sempre nelas, são os nosso amigos íntimos, os nossos entes queridos, mas também há aqueles que passam por nós, que tem uma permanência consideravelmente curta em nossa vida, mas estas não são menos amadas ou menos importantes que as presentes, é como a garota de Ipanema, uma menina que passou por um poeta, talvez tenham cruzado os olhares, talvez ela tenha sorrido para ele, e hoje temos uma das musicas mais bonitas da nossa cultura, do nosso samba.
Permanecer sempre é muito bom, mas não são todos que permanecem, alguns são como cometas, vem, passam, deixam seu brilho, e vão embora passar por outras orbitas, outros mundos, outros planetas, mas vez ou outra voltam a passar trazendo a mesma mensagem de esperança, sorrindo, passando, cruzando olhares, abraçando, secando lagrimas, talvez não como a Garota de Ipanema, mas tão imortais quanto o samba.
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