Amizade Amaldiçoada
4 Capítulo 3 - Poderia eu finalmente ter uma vida normal…?
Notas iniciais
Acordei naquela terça com uma sensação que pensei nunca sentir novamente, felicidade. Estava feliz por finalmente ter arranjado possíveis novos amigos. Levantei da cama me sentindo mais animada que o costume. Não lembro de tudo que fiz na noite anterior. Só recordo de ter deixado um bilhete aos meus tutores falando sobre meu dia e dos novos amigos. Por alguma razão, desde que estou com eles, me pedem para escrever em um papel como foi meu dia.
Depois de me arrumar, desci as escadas, Afinal, meu quarto ficava num tipo de sótão, o único quarto em piso superior da casa. Mas não reclamo, gosto do silêncio que fica por ali. Fui até a cozinha e, como sempre, meus tutores já haviam saído para trabalhar. Encontrei em cima da mesa um simples café da manhã para mim e um bilhete, como era de costume. Li o bilhete enquanto comia o sanduíche. Era um bilhete simples, falando que estavam felizes por eu ter feito amizades e que, mesmo que não parecesse, gostavam de mim. Bom, o jeito deles de dizer que gostam de mim, raramente me vendo, é algo que as pessoas achariam estranho. Porém, eu gosto. Foram os únicos que ficaram comigo por tanto tempo e entendendo que eu não gostava muito de ficar perto das pessoas.
Mas tinha um detalhe a mais naquele bilhete que eu não havia percebido. Junto com o papel, estava um pequeno envelope. Estranhei, normalmente só me deixavam um envelope daqueles quando me deixavam o dinheiro para o almoço diário para o mês. Virei o papel do bilhete que ainda estava na minha mão, e vi um "OBS", dizendo que, já que eu havia feito amizades, precisaria de um celular. Como eu nunca havia pedido um, decidiram por conta própria deixar um valor para isso, mas que eu não me sentisse obrigada a gastar. Sorri. Essa, de certa forma, é realmente a forma de meus tutores falarem que gostam e se preocupam comigo.
Coloquei o envelope na mochila, junto com um sanduíche que estava embalado num plástico filme. Tomei rapidamente meu leite com achocolatado e saí de casa, para um novo dia na Ainishi.
Cheguei mais cedo que o outro dia, havia até mesmo menos alunos na rua que antes. Talvez esse seja um bom horário para começar a vir todos os dias. Poucas pessoas, poucas ou, com sorte, nenhuma morte.
Uma pena que alegria de amaldiçoada dura pouco.
Assim que terminei de atravessar a rua, chegando na frente do portão da escola, escuto uma buzina. E, com o canto do olho, vi um garoto de bicicleta perdendo o controle e caindo na frente de um carro. Fiquei paralisada por um momento, vendo o grupo de alunos e alguns adultos de outros carros se formando em volta de onde ocorreu o acidente. Mais uma morte. E, desta vez, eu estava mais longe que o costume. Olhei para o outro lado da rua, e ali estava a pessoa que as vezes enxergo, quando não é um pequeno gato. Nunca consegui ver o rosto, apenas enxergo uma sombra e algo que parece um sorriso, sumindo logo em seguida.
É, parece que o "raio" da maldição está aumentando. Será que realmente foi uma boa ideia fazer amizade com aqueles dois? Apenas suspirei, tentando conter as lágrimas que tentavam sair. Incrível como um "acidente" pode acabar com a felicidade que acordei pela manhã.Caminhei para dentro do prédio e, em uma última olhada, consegui ver uma mancha vermelha e alguém chorando.
—Desculpe. -Falei, baixinho, para mim mesma. Ou achei isso.
—Falando sozinha agora? -Dei um pequeno pulo pelo susto que levei, percebendo que Atom estava atrás de mim.
—Não exatamente. Só me desculpando por aquilo ali. -Falei apontando discretamente para o acidente que havia acontecido.
—Hum… Não me parece ser culpa sua. -Falou olhando para onde mostrei. -Afinal, não era você dirigindo o carro e muito menos quem empurrou a bicicleta.
—Você não entendeu! -Falei olhando pra ele, com a expressão triste. -Se eu não estivesse aqui, isso não teria acontecido!
Atom suspirou, colocando sua mão em minha cabeça.
—Não fique se culpando tanto. Quanto mais fizer isso, pior fica para você. Vem, vamos para a sala, assim você esquece o que aconteceu. -Ele falou enquanto me puxava para dentro do colégio.
Não seria fácil esquecer o que aconteceu, mas eu não tinha muita escolha. Apenas aceitar que aconteceu, novamente, e que não tem nada que eu pudesse fazer para impedir. Ao menos não por hora. Talvez, com Atom e Izay me ajudando, talvez eu conseguisse achar alguma maneira de impedir essas mortes inocentes.
Antes que eu me desse conta, estávamos na frente da sala. Fiquei parada um tempo na frente da porta. Não estava com muita vontade de entrar, mas eu não tinha muita escolha, já que Atom estava logo atrás de mim, e notei mais alguns alunos que chegavam. Decidi entrar e ir direto para minha mesa, assim ninguém falaria comigo.
Ou ao menos era o que eu pensava.
—Lana! Bom dia! -Olhei para o lado, e encontrei Izay do meu lado.
—Bom dia. Chegou cedo hoje.
—Ah! Sim. Hoje não tive nenhum imprevisto pelo caminho.
Ele disse isso dando uma pequena risada no final. Fiz uma expressão triste e olhei para minha mesa quando ele falou isso. De certa forma, eu sabia qual era o "imprevisto" que ele estava falando. Afinal, quando ele estava chegando, por minha causa ele sofreu um acidente, fazendo com que ele chegasse atrasado.
Ele notou algo errado e logo percebeu o que disse:
—Ah! Não se preocupe que não foi nada por sua causa não! Digo, ontem antes mesmo de encontrar com você, cai umas duas vezes pelo caminho, sem contar que logo que sai de casa eu cai numa poça de lama, me fazendo voltar pra trocar de roupa. -Falou dando de ombros. -Então não se culpe, ok?
—É sério isso? -Soltei um pequeno riso. -Não é possível que tudo isso aconteça com uma pessoa.
—Vai por mim, isso não é nada do que passo normalmente. -Falou rindo um pouco. -Atom e G são provas disso, não é mano?
—Ah, sim. Com certeza. Esse aqui é um imã de má sorte.
—Pois é. Má sorte me ronda mais que urubu em carne podre. -Falou rindo em seguida.
—Isso parece meio triste. -Falei, por mais que tivesse rido com a comparação. Até que notei algo. -Ah e... quem é G?
—Hum, você não conhece ele ainda. -Falou Atom parecendo pensar. -G é um apelido para Guinm.
—Faz um tempo que ele não aparece na escola. Me pergunto se ele está bem... -Disse Izay, sentando em seu lugar, já que ele ainda estava em pé.
—E por que ele não está vindo para a escola? Aconteceu alguma coisa? -Perguntei enquanto sentava de lado em minha cadeira, para poder enxergar os dois, já que sentavam atrás de mim
—Acho que foi um tipo de acidente, ninguém sabe ao certo. Ele não aparece desde então. Não tivemos oportunidade de perguntar o que aconteceu. -Atom falou, sentando também, ao lado de Izay.
Soltei um breve "hum" enquanto pensava nessa pessoa. Será que ele era parecido com esses dois? Ou seria alguém completamente diferente? De qualquer forma, acho que ele seria uma pessoa que não se aproximaria de mim. Fiquei observando as pessoas a minha volta, vendo como essa escola era diferente de todas as outras que eu já havia ido.
As pessoas tinham seus grupos, e dificilmente se misturavam. Sem contar que havia uma certa organização dos grupos, não havia aquela "baderna" que normalmente se via nas escolas. Notei alguns tipos de grupos, algo que chamariam de "populares", já que usavam roupas com estilo mais "fino" que o restante, e onde se encontrava a garota do dia anterior, acho que o nome era Jheny. No outro lado da sala, notei outro grupo, completamente diferente, algo que chamariam de "nerds", porém não no sentido de inteligência mas, sim, no de gostarem de video-games e coisas relacionadas. Ou outros eram de grupos menores, porém não havia nada que se destacasse neles.
Voltei a atenção aos dois que estavam conversando logo atrás de mim. Logo lembrei do envelope que tinha na minha mochila, esperei uma brecha na conversa dos dois e os chamei. Quando olharam pra mim, fiquei um pouco nervosa, mas logo falei.
—É que… Bom, meus tutores me deram dinheiro para comprar um celular e queria saber se vocês poderiam me ajudar a escolher um… Sabe, eu nunca tive um celular, então não sei escolher um que seja bom…
—Claro! -Notei que Izay falou com um sorriso. -Não tenho nada para fazer mesmo. E você mano?
—Não tenho nada, também. Acho que vou com vocês. -Soltei um sorriso quando falaram isso. -Pra quem não queria amigos, você está aproveitando.
—Ah! Se não quiserem ir não tem problema. Não quero que pensem que estou me aproveitando da boa vontade de vocês. -Falei, realmente começando achar que estava exagerando.
—Não se preocupe, estava sendo sarcástico. -Falou Atom, parecendo preocupado com o que disse. -Mas vejo que não está acostumada com isso.
—Eu não falava com as pessoas. Não sei lidar com certas coisas… -Falei me ajeitando na cadeira. -A aula já vai começar, depois conversamos…
Ainda teve um tempo até realmente começar a aula, porém fiquei com a cabeça apoiada no braço. Havia perdido a vontade de conversar, sem contar com a desconfiança que estava abusando da amizade dos dois. Afinal, eu ainda não sabia muito bem como lidar com isso.
O restante da aula passou tranquilamente, logo dando o sinal do intervalo. Minha cabeça estava doendo, por estar tentando entender a disciplina que custava a entrar na minha cabeça. Nunca gostei de geografia e história por causa disso, me deixam completamente exausta pois nunca consigo compreender. Respirei fundo e guardei o caderno na mochila. Fiquei pensando se ficava na sala ou dava uma volta pelo colégio. Decidi ficar na sala mesmo, para que não acontecesse nenhum acidente pelo caminho.
Devo confessar que acho extremamente solitário ficar sozinha na sala, mas de certa forma eu estava acostumada. E, justo quando achei que eu estava conseguindo novos amigos, faço a bobagem de pedir para me acompanharem em uma compra. Onde eu estava com a cabeça? Nos conhecemos no dia anterior! É óbvio que eles iriam pensar que eu estava sendo aproveitadora.
Peguei o caderno da próxima matéria e fiquei rabiscando no canto da folha. Não havia muito o que eu pudesse fazer no momento, já que os livros que tenho em casa, já li todos. Talvez eu compre um livro quando for ao shopping depois da aula, depois de comprar um celular. Mesmo que eles não forem comigo, pretendo ir mesmo assim, por mais que o medo que pessoas morram por minha causa.
—Ei. -Escutei, no mesmo momento que uma mão passou na frente dos meus olhos. -Estou falando com você.
—Desculpe, estava distraída. -Olhei para a pessoa que tinha me tirado de meus pensamentos. Era Atom, com Izay ao lado dele. -Ah, é você. Precisa de alguma coisa?
—Estava te perguntando se você tem alguma ideia de onde vamos.
—Hã? -Perguntei confusa. -Achei que vocês não quisessem ir.
—Não falamos isso. -Disse Izay, puxando a cadeira dele e colocando ao lado da minha mesa. -Você que entendeu errado.
—Sim. Eu estava brincando quando disse aquilo. Sério. Você precisa aprender o que é Sarcasmo, Ironia e a diferença entre eles.
—Nunca convivi com isso. Realmente não sei como reagir… -Disse me encolhendo. -Então não acham que estou abusando, mesmo conhecendo vocês ontem? -Perguntei, esperançosa novamente em ter amigos.
—De jeito nenhum. Vamos tentar falar de maneiras mais simples com você. Para que isso não aconteça novamente. -Izay disse dando um pequeno sorriso.
—Então, onde você pretendia ir? — Atom perguntou, pensando um momento. — Conheço um shopping grande por aqui, mas que não é tão visitado por ser novo.
—Eu ia no shopping da cidade ao lado. Só conhecia esse.
—Ah, sei que shopping é esse. Dizem que ele é mais em conta que muitos por aí.
—Certo. Podemos ir nesse. E é perfeito, já que Atom disse que poucas pessoas vão nesse.
—Então combinado. Vamos almoçar e depois vamos para lá. -No momento que Atomic disse isso, ouvimos o sinal do término do intervalo tocar. -E não tente fugir, se não te carrego novamente.
—Não me lembre disso! -Disse ficando envergonhada e olhando para a frente, escutando Atom e Izay rindo um pouco.
Após algum tempo que os dois haviam se ajeitado em suas mesas, o professor chegou. Notei que seria química, sorte que trouxe o caderno certo. O restante da aula passou extremamente rápido, logo dando o sinal para o término da aula. Guardei meus materiais rapidamente e dei uma pequena olhada pela janela. O tempo, que estava ensolarado, havia começado a fechar.
—Só espero que não chova hoje. -Murmurei, levantando de onde eu estava, pegando minha mochila e saindo da sala.
Não me importei em esperar os dois, pois sabiam que logo estariam atrás de mim. Apenas queria sair de perto das escadas enquanto os alunos ainda estavam matando tempo conversando nas salas. Não se passou muito tempo e escutei passos atrás de mim mas, por sorte eu já havia descido todas as escadas e já estava a caminho do refeitório.
—Você caminha rápido, hem. -Escutei a voz de Izay logo atrás de mim.
—Ao menos ela está indo no caminho certo do refeitório. -Logo em seguida escutei a voz de Atom. -Achei que ela ia pra outro caminho, para ser carregada de novo.
—É justamente por isso que estou indo para lá direto. Não quero ser carregada de novo! — Afirmei, andando um pouco mais rápido.
O caminho até o refeitório foi, de certa forma, animado. Atom ficava fazendo piadas sobre o dia anterior, o qual ele me carregou nos ombros. Quando chegamos no refeitório éramos os primeiros da fila. Mas logo em seguida outros alunos começavam a chegar. Entramos no refeitório e pegamos nossos pratos com a comida, que parecia estar super gostosa. Me encaminhei para a mesa de 4 lugares que ficava perto da saída do refeitório, e esperei pelos dois.
Izay chegou com um prato caprichado, mas normal. Já Atom, chegou com um prato que parecia que tinha uma montanha, de tanta comida. Fiquei parada olhando, até que ele perguntou.
—Algo errado?
—Não. É só que… não é muita comida pra uma pessoa só?
—Que nada. Isso é o normal que eu como. Às vezes até mais. Eu meio que preciso dessa quantidade. -Falou começando a comer.
—Entendi. -Resolvi acabar o assunto aqui. Não perguntei o que ele quis dizer com precisar e, se ele achar que deve, um dia me contará.
Assim que terminei de comer, notei que o refeitório estava lotado e com pessoas ainda esperando na fila para entrar. Comecei a ficar apreensiva, já que não gostava de ficar em lugares que tinha muita gente. Olhei para Atom e Izay, e notei que ainda estavam comendo e conversando.
Tentei ficar o máximo de tempo que consegui. Porém algo ficava me dizendo que era melhor eu sair dali. Chamei a atenção dos dois, que me olharam curioso, e falei que estava saindo dali.
—Vou esperar vocês no mesmo lugar de ontem. Só não quero ficar aqui mais. Tem muitas pessoas.
—Tudo bem. Assim que a gente terminar, te encontramos. -Falou Izay, dando um pequeno sorriso, e Atom dando uma leve acena de cabeça.
Agradeci e levantei rapidamente da mesa, indo levar meu prato até o balcão. Quando eu estava na metade do caminho, pela pressa, acabei escorregando no chão do refeitório e deixando o prato cair das minhas mãos e, no momento que deu o barulho do prato quebrando, todas as pessoas que estavam ali pararam de conversar e olhavam para mim.
Comecei a escutar algumas pessoas cochichando, algumas debochando por eu ter caído ou algo relacionado. Por que as pessoas fazem isso? Nunca caíram na vida? Comecei a me levantar, e notei um pequeno corte na palma da mão, junto de um pequeno pedaço do prato. Fiquei abaixada, tentando tirar o vidro do ferimento e então, escutei mais cochichos:
"-A novata mal chega no colégio e já se faz de desastrada para ganhar atenção." -Não, eu não faço isso! Não quero atenção, nunca!
"-Isso que dá andar com aquele azarado do Izay." -Ele não tem culpa!
Meus olhos começaram a lacrimejar e, em seguida, vi uma mão ser estendida na minha frente. Olhei para cima e notei que Atom estava na minha frente.
—Vem, vamos sair daqui, já estão vindo limpar isso. -Estendi a mão para ele, mas percebi que era a machucada, e retrai ela rapidamente, usando a outra mão para segurar a dele. -Não adianta, vi esse ferimento, vamos passar na enfermaria.
Acenti com a cabeça e Atom me ajudou a levantar. Saímos do refeitório com todos os olhares ainda sobre mim, mas assim que passei pela porta da saída, todos voltaram a suas conversas, como se nada tivesse ocorrido. Soltei um pequeno suspiro, torcendo para que Izay não tenha escutado o que falaram dele.
Chegamos na enfermaria, e Atom foi pegar algumas coisas para limpar o ferimento. Não tentei impedir, estava distraída pensando, em como cada vez mais tenho certeza que as pessoas são ruins. Izay estava parado ao meu lado, com uma expressão de quem sabia o que estava acontecendo.
—Não estou achando a água oxigenada… -Escutei a voz do Atom enquanto fechava a porta de um dos armários. -Vou ali na sala dos professores pedir a enfermeira.
—Não precisa. Apenas água está bom. -Falei, tentando sair logo dali.
—Não mesmo, deixe ele procurar. É rápido, a sala que ele vai é aqui perto. -Disse Izay, me impedindo de levantar de onde eu estava.
Apenas concordei com a cabeça, afinal, seria difícil convencer eles que não precisava. Em seguida escuto a porta se fechando. Soltei um pequeno suspiro. Não queria que aquilo estivesse acontecendo. Apenas queria almoçar e sair com meus amigos. Mas parece que o universo nunca deixará eu fazer as coisas como uma "pessoa normal".
—É, realmente parece que você tem um segredo escondido. -Escutei Izay falar, mas a voz dele parecia diferente do normal. Mais séria.
—Segredo? -Perguntei, olhando para ele de forma curiosa. -Único segredo que eu tenho vocês dois já sabem. Por onde eu passo, pessoas morrem.
—Eu não falei nada. -Estranhou Izay, surpreso.
—Falou sim. Disse que eu parecia ter um segredo escondido.
—Não, eu não disse isso.
—Ah… Devo estar enlouquecendo de vez então… -Disse voltando a olhar para a minha mão com o corte. Ele não parecia sério, mas não parava de sangrar.
—Eu apenas pensei isso. -Ele disse no mesmo tom de voz de antes. Olhei na mesma hora para ele.
—O que? Pensou?
Ele olhou novamente para mim, mas dessa vez menos surpreso, como se tivesse entendido alguma coisa.
—Sim. Apenas pensei. Parece que você… -Quando ele ia terminar de falar, escutamos a porta abrindo.
—Consegui, agora podemos fazer um curativo decente! -Disse Atom indo até onde estávamos. Vi que segurava uma garrafa com um líquido, que conclui ser a água oxigenada. -Vocês estavam falando sobre o que? -Perguntou, enquanto pegava com cuidado minha mão e analisava.
—Sobre...
—Sobre como estamos ansiosos para ir ao shopping. -Interrompeu-me Izay, olhando para mim com um semblante suspeito. Em seguida, escutei ele falando novamente, mas sem ele mexer os lábios. "-Não vamos contar isso a ele ainda. Vamos primeiro ter certeza."
Não sei como ele fez isso, mas notei que Atom não ouviu o que ele me disse. Talvez ele tivesse poder de telepatia? Não, isso só acontece em filmes. Mas mesmo assim, por algum motivo, deu um leve aceno com a cabeça afirmando. Do nada sinto uma pequena dor na minha mão e tentei puxar ela, mas algo a segurou.
—É, você está bem distraída, nem notou quando passei a água para limpar. -Afirmou Atom, enquanto analisava o efeito que líquido tinha na minha mão, que estava borbulhando. -Estava querendo infeccionar, passe água na torneira, para tirar o excesso da oxigenada, aí podemos enfaixar, para que não volte a sangrar.
Acenei um sim, levantando de onde estava e lavando o ferimento. Quando sequei a mão, Atom já estava com a faixa pronta para colocar na minha mão. Não recusei, apenas deixei que fizesse o curativo. De certa forma, estava aproveitando o momento, que alguém cuidava de mim, já que eu sempre fazia tudo sozinha.
Quando deu por pronto, dando um pequeno nó na faixa, eu disse que, se preferissem, poderíamos ir outro dia ao shopping. Porém os dois recusaram, disse que agora mesmo que devíamos ir, para nos distrair e divertir. Dei um pequeno sorriso. E fomos em direção a saída do colégio.
Quando já havíamos caminhado um tempo, paramos. Notei ser o mesmo lugar que, no dia anterior, Atom havia levado um tiro. Um frio percorreu minha espinha, como se alguma coisa estivesse para acontecer. Mas tentei não levar isso muito a sério. Olhei para meus amigos, que pareciam estar conversando sobre alguma coisa que eu não entendia.
—Então… Atom… -Ele olhou para mim. -Eu não sei onde fica esse novo shopping… Eu só conheço o da outra cidade.
—Ah, sim! Verdade. Eu conheço um atalho.
—Cuidado para não se perder, mano.
Olhei curiosa para Izay, não lembro dele chamar o Atom assim antes. Talvez devia ser isso que estavam conversando e eu não estava ouvindo. Seguimos Atom até a parte de um lugar que havia uma construção do lado do caminho.
—Tem certeza que aqui é seguro? -Perguntei, um pouco acanhada.
—Ah, é sim. Eu passo por aqui todo dia pra ir à escola. Eles deixam essa parte livre justamente para pedestres. E, bom, o shopping é logo ali na frente.
—Certo… Vamos um pouco mais rápido, isso ainda parece perigoso.
Os dois riram. Mas eu estava preocupada! Sou um imã para mortes e ainda estamos passando por um lugar de obras. A qualquer hora um funcionário poderia cair lá de cima ou… Infelizmente não consegui terminar nem meu próprio pensamento, pois escutei um miado de gato e, em seguida, alguém distante gritando:
—Cuidado!
Nesse momento, olhei para cima e vi várias vigas de ferro caindo. Fechei os olhos esperando o impacto e a inevitável morte. Porém, o que senti, foi duas mãos me empurrando para trás. Abri os olhos só para ver, novamente, um dos meus amigos morrendo e, na esquina distante, a mesma sombra que sempre estava presente quando ocorria alguma morte.
Izay me segurou para que não caísse por causa do empurrão e, Atom, foi perfurado por duas vigas e, em seguida, esmagado por mais algumas. Só conseguia ver, por baixo daquele monte de ferro, uma das mãos dele. Por mais que ele tivesse sobrevivido ao dia anterior, não tinha como ter sobrevivido a isso.
Saí do "abraço" que Izay usou para me segurar, e fui até um local adiante e me agachei, querendo chorar. Novamente, aconteceu um desastre por minha culpa. Escutei Izay pedindo para que andassem logo e tirassem as vigas de cima do amigo. Os funcionários ainda estavam em choque, mas logo que um deles passou ao meu lado para pegar um guincho, escutei ele cochichar.
"-O cara sacrificou a vida pra salvar essa menina, que nem parece estar preocupada." -Eu estou preocupada! Por que falar isso estando ao meu lado?! Apenas segurei, mais uma vez, a vontade de chorar.
Fiquei agachada enquanto via a remoção das vigas de cima do Atom. Depois de tirar todas de cima dele, ficando a mostra somente as duas que estavam o perfurando, notei um pequeno movimento nas mãos dele. Dei um pequeno pulo de onde eu estava, pensando que eu havia visto coisas.
Cheguei mais perto e notei novamente o movimento nas mãos dele. Olhei, surpresa, no mesmo momento para o Izay, que parecia calmo como sempre. Tentava entender o que estava acontecendo. Foi então que tiraram as duas vigas que estavam prendendo o rapaz no chão. E, não demorou muito, notei que, aos poucos, os grandes buracos que ele tinha na parte das costas, começavam a fechar.
—Ele tá bem, só precisa de um tempo. -Escutei Izay falar do meu lado. Mas ele não parecia ter dito nada.
—Ele já está consciente? -Perguntei, baixinho, para Izay.
—Não. Os movimentos que estamos vendo é automático. Mas ele logo tá de pé.
Concordei, dando apenas um aceno com a cabeça. Foi quando lembrei que Atom havia interrompido Izay mais cedo.
—O que você ia me falar mais cedo? -Indaguei, ficando de frente ao Izay.
—Eu ia falar que você pode ler mentes. -Olhei perplexa para ele.
—Como?
—Veja bem, eu não falei nada na enfermaria, apenas pensei. E você respondeu ao meu pensamento. Na primeira vez, confesso que fiquei surpreso, por isso fiz novamente, e você respondeu, pela segunda vez.
—Não era você que fazia telepatia? -Mesmo parecendo loucura, perguntei.
—Não. Quem dera eu pudesse fazer isso. Poderia ter evitado várias coisas.
No momento que eu ia continuar a conversa, escuto um movimento atrás da gente. Algo como alguém sentando e murmurando que estava com dor. Me virei, e dei de cara com o Atom sentado, como se parecesse se recuperar de um tropeço.
—Nossa… Eu sei que eu estava precisando de ferro… Mas isso já foi loucura…
—Espera… O quê? -Olhei para ele perplexa. -Você acaba de reviver e está fazendo piadas?
—Há! Isso não é nada de mais. Eu sou mais resistente que ferro. Só estou com um pouco de dor nas juntas.
Olhei para os lados e notei os funcionários da obra paralisados. e comecei a escutar alguns pequenos cochichos.
"-Ele é um monstro!"
"-Como ele reviveu?! Eu vi ele morto!"
Não chamem ele de monstro… O verdadeiro monstro sou eu. Olhei para meus amigos, nenhum dos dois parecia ter ouvido isso. Ler mentes… não é possível, é…? Foi quando lembrei de algo.
—Gente! -Chamei a atenção dos dois, que me olharam curiosos. -Como vamos fazer com eles? Se eles estão assim, podem espalhar por aí! E aí a gente…
—Ei! Calma! -Izay falou enquanto segurava meus ombros. -Daqui a pouco uma pessoa vai vir e lidar com isso, OK? Por hora, vamos sair daqui.
Concordei com a cabeça. Era muita coisa pra processar para um dia só. Quando saímos da área de construção, notei uma pessoa vestindo uma capa preta conjurar um tipo de bolha e, em seguida, os funcionários voltaram ao seu trabalho. Antes que eu virasse a esquina e perdesse o contato visual, a pessoa virou para o meu lado e mandou um "joinha" com a mão, deixando aparecer um pouco de seu cabelo loiro, e escutei uma voz feminina falando "Tudo dará certo no final." e assim ela saiu do meu campo de visão. Tentei não pensar nisso, por enquanto, e resolvi me concentrar em me divertir com meus amigos.
Se passou horas que estávamos no shopping. Atom e Izay ficaram surpresos com a quantia que meus tutores me deram, e fizeram eu comprar um celular que, dizem eles, era o melhor até o momento. Não achava necessário ser o melhor, mas não reclamei. Em seguida, passamos na livraria, queria comprar algum livro novo para ler. Acabei comprando uma trilogia. Ao menos terei leitura durante um bom tempo.
Depois de tudo isso, fomos a praça de alimentação, fiz questão de pagar um lanche para nós três, já que um deles morreu por minha causa -por mais que tenha revivido, ainda me senti culpada- e o outro sempre tentando me acalmar e me fazer viver normalmente. Durante o lanche, eles me ajudaram a ativar meu número e, assim, trocamos os contatos.
Quando terminamos nossos lanches, resolvemos que estava na hora de voltar para casa. Eles disseram que não tinham hora, pois moravam no dormitório do colégio. Porém eu disse que tinha que estar em casa cedo, pois meus tutores não gostam de chegar antes de mim, por conta da minha "maldição". Então concordaram. Quando estávamos na porta do shopping, virei para eles.
—Eu vou para casa agora. Não deve ser longe daqui.
—Não, claro que não! -Exclamou Atom. -Não podemos deixar uma garota andar por aí sozinha a essa hora. Já está escuro.
Olhei para o lado de fora. Realmente já havia escurecido. Porém estava com medo que um deles morresse novamente. Izay, notando minha expressão de preocupação, disse:
—Se está querendo ir sozinha para ninguém morrer, não deveria se preocupar. Já mostramos que, de certa forma, não morremos.
—Mesmo assim… É muito desconfortável ver um corpo sem vida… Por mais que ele volte em seguida… -Falei lembrando do Atom mais cedo, com sangue e as vigas o perfurando.
—Ah, que isso. Se não for acompanhando, será indo atrás te vigiando. Você não tem muita opção. -Disse Atom, pegando a sacola da livraria de mim.
—Iam me seguir? Isso não é crime? -Falei soltando uma pequena risada, e eles soltando um pequeno sorriso. -Tudo bem, vamos.
Os dois me deixaram em casa, e fiquei no jardim vendo os dois se afastarem. Por mais que doa ver eles morrendo, acho que é a única forma de ter uma amizade. Quando não conseguia mais ver eles, entrei em casa.
Por sorte, meus tutores não haviam chego ainda. Escrevi, como de costume, como havia sido meu dia. No final, deixei o número do meu celular no final, caso eles quisessem saber. Subi as escadas até meu quarto e fui diretamente até o banheiro. Precisava de um banho depois de tanta coisa ocorrida.
Após tomar o banho e colocar um pijama, deitei na cama e resolvi mandar uma mensagem para Izay.
"Quem parece ter algum segredo é você."
Não demorou muito para que meu celular tocasse, mostrando uma nova mensagem, que era a resposta de Izay:
"Na hora certa, tudo fará sentido. Boa noite."
Suspirei. Não achava que ele fosse me contar, obviamente. Respondi com um boa noite. Fiquei olhando para a tela do celular, como se eu estivesse esperando alguma mensagem específica. Mas, claro, nada veio. Resolvi desistir, coloquei o celular no criado mudo e virei para dormir. Ago me dizia que as coisas só tenderiam a ficar mais confusas e malucas.
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