Amigos a Parte
1 Um
Notas iniciais
vamos ver se vcs gostam da idéia!!
O despertador tocou as seis em ponto da manhã. Lucas resmungou. Estava com muito sono ainda (afinal, chegara ao apartamento há apenas uma hora e meia). Com os olhos fechados, tateou em busca do objeto ao lado da cama, em uma cômoda. Encontrou-o, em seguida, dando um tapa forte no aparelho. O barulho ainda continuou.
- Mas que merda... – resmungou novamente. Dessa vez abriu os olhos e sem muita paciência, arrancou o objeto da cômoda. Não pensou duas vezes: jogou-o no chão. Finalmente então pôde sentir uma aura de paz. Respirou aliviado, voltando a se cobrir e minutos depois, a dormir.
Acordou três horas depois. Mas dessa vez não foi o despertador que o despertou e sim a claridade do sol. Alguém havia aberto a cortina do quarto.
- Sinto muito cara, tá na hora de acordar. – falou Gabriel.
Lucas abriu os olhos e encarou o amigo em pé, na sua frente.
- Poxa, já chegou? – perguntou sonolento.
- Sim. Consegui um vôo mais cedo. – o rapaz atravessou o outro lado do quarto, abrindo mais cortinas. Sentiu então que pisara em algo. Abaixou os olhos. – Lucas, não acredito!
- O que?
Gabriel levantou um objeto. O próprio despertador totalmente quebrado.
- Você tá me devendo um despertador. E urgente!
Lucas riu. Era um dos motivos de gostar do amigo: ele não se esquentava com coisas bobas, aliás, era sempre nestas situações uma pessoa irônica.
- Tudo bem. Eu compro um pra você hoje. – respondeu.
Gabriel pareceu satisfeito. Deixou o objeto quebrado em cima da cama, imediatamente levantando as colchas, falando:
- Vamos rápido que faxineira já ta vindo...
- UOU! – um grito do amigo, puxando na mesma hora a colcha. – Cara, eu tô pelado.
Gabriel respondeu ironicamente:
- Como se eu nunca tivesse visto você pelado.
Lucas riu, lembrando-se de uma vez em que o amigo tivera de ajudá-lo a entrar de baixo do chuveiro. O motivo? Bebida, é claro.
- E você nem ouse reclamar... – continuou rindo. – Por que eu nem tive a audácia de abusar de você.
- Eu sei que você não faria isso. – respondeu sereno. Lucas podia se sentir um rapaz de sorte: tinha um amigão (entenda-se melhor amigo) que era gay, mas que nunca (eu disse nunca), nunca se aproximara o bastante para uma cantada ou algo parecido. O tratava como um verdadeiro amigo se trata o outro. – Mas, será que você podia me dar licença? Só pra me trocar?
- O apartamento é meu e você ainda me pede isso?
- Biel... – pediu com jeitinho.
- Tá bom. – saiu do quarto, logo gritando. – Mas não demora!
Lucas assentiu. Saiu das colchas e começou a vestir a roupa da noite passada.
Ambos agora tomavam café. Lucas, os cabelos pretos um pouco arrepiados, corpo musculoso (graças ao constante uso de academia) usava uma camisa pólo vermelha listrada de branco, calças jeans e tênis. Tinha 22 anos.
- Mas me fala, como foi o congresso? – perguntou.
- Ah, foi bom. – respondeu meio desanimado. – Não sei não, acho que não valeu tanto a pena assim não...
Acontece que Gabriel cursava matemática e por suas boas notas no curso, conseguira como prêmio a visita a um congresso no Rio de Janeiro. O tema era: como facilitar a matemática na escola. Mas o rapaz de 20 anos não se sentira muito animado com as diversas palestras dos mais profissionais do ramo. Achara-as muito cansativas. Sentou-se na mesa da cozinha com uma xícara de café. Lucas tomava o mesmo.
- Ainda não sei como você agüenta fazer matemática pura. – comentou o maior.
- É. – respondeu mais uma vez ironicamente. – Nem eu sei.
Lucas então começou a contar da noite passada. Fora em uma boate recém-inaugurada no centro de São Paulo.
- Por isso que eu dormi aqui. – respondeu. – Ficava pertinho.
Gabriel assentiu. Era costume do amigo as vezes chegar tarde da noite (as vezes, muito bêbado) no apartamento. Ele sabia onde a chave reserva era guardada, por isso não incomodava. Aliás, Gabriel jamais achou aquilo um incômodo. Gostava muito do amigo (como amigos, é claro) e zelava por sua segurança. Não o gostaria de vê-lo perdido por aí. Por isso, propôs aquela idéia: Lucas usaria a chave reserva e quando quisesse, poderia dormir no quarto de hospedes. Sem problemas ou complicações.
- Muita gente na boate? – perguntou.
- Nossa, lotada. – afirmou. – Muita gatinha também.
- Hum. Pegou quantas?
- Ahh, não sei. Acho que umas sete.
Gabriel riu.
- Você é muito galinha mesmo...
- Ahh nem vêm. – defendeu-se ele. – Quando você vai numa balada GLS, pega quantos caras?
Gabriel pensou:
- Hum... acho que no máximo três.
- Duvido.
- Sério. Sou muito mais passar a festa inteira com um do que ficar fazendo seleção.
Lucas concordou com o ponto de vista do amigo, mas sabia que no fundo pensava de maneira diferente. Para ele, não importava se ele encontrasse uma garota especial para passar a festa inteira com ela. O que importava é o quanto de gostosas podiam satisfazê-lo.
- Ahh e têm um detalhe... – continuou Lucas. – Uma dessas setes que eu fiquei era a Mariana.
- De novo?
Lucas concordou. Mariana era uma garota de cabelos loiros, com idade de 21 anos. Ambos haviam se conhecido na faculdade (ele cursando biomedicina, ela arquitetura). Veio as conversas, algumas cervejas, as sempre cantadas clichês dos garotos “mais maduros”, a primeira ficada. Dois dias mais tarde, Mariana o procurou e ficaram mais uma vez. Na terceira, combinaram de se encontrar em um cinema. Na quarta e última, acabaram encontrando-se por acaso na balada da noite passada. Mais amassos.
- Nossa, daqui a pouco você já pode namorar ela... – comentou Gabriel. Tomou um gole de café e olhou sério para o amigo. – Sério mesmo, você nunca pensa em namorar não?
- Por enquanto não.
- Hum.
Continuaram a conversar, dessa vez o assunto especifico sendo o próprio Gabriel.
- Mas e você? Como andam seus rolos?
- Rolos? – ele riu. – Até parece que eu sou igual a você.
- Mas e aquele cara, o tal Gustavo? Você sempre falava nele.
Gabriel bufou. Gustavo fora mais uma decepção.
- Nem rolou.
- Por que não?
Respondeu.
- Ele era bi.
- Ahh. – assentiu Lucas, sabendo o porquê do relacionamento não ter dado certo. Gabriel tinha uma regra: não se relacionava seriamente com bissexuais. – Mas... e daí?
- Ah Lucas, você sabe. Eles são muito complexos...
O maior riu.
- É sério. Imagina eu namorando um. Além de ficar sempre na dúvida se ele tá afim de mim mesmo, ainda tenho que me preocupar com os homens e as mulheres que vão dar em cima dele. Nossa, isso é muito complicado e sinceramente? Estou fugindo das complicações.
Lucas pareceu aceitar mais uma vez aquela resposta. Até entendia o amigo... mas não completamente. Achava aquela história de “sofrer em dobro” um completo drama. Vai entender os homossexuais...
Finalmente então se levantaram. Lucas agradeceu mais uma vez o amigo pela estadia.
- Que isso cara. Não foi nada.
- É sério mesmo Biel. Você me ajuda pra caramba. Nem sei como te agradecer por tanto...
- Pode parar. Você nunca foi de ser dramático.
Riram. Deram um abraço de amigos.
- Bom, eu tenho de ir mesmo. – informou o maior. – Tenho duas provas na segunda e não estudei nada ainda.
- Claro, claro... – falou Gabriel o levando até a porta. – Só por favor, não esquece do meu despertador!
- Vou comprar ele hoje. Deixo aqui pra você.
Despediram-se mais uma vez, Lucas novamente se desculpando pelo incidente com o objeto. Mais uma pequena prosa até o rapaz descer o elevador e seguir andando pelas ruas de São Paulo. Prometeu que chegaria em casa, pegaria dinheiro e imediatamente sairia em compra do tal objeto. Não era justo com Gabriel. Não mesmo.
Notas finais
beijinhos!
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