Amianto - Songfic
1 Capítulo único
Notas iniciais
Com a confiança tão grande que quase parecia irradiar do seu corpo, Enzo descia as escadas daquele prédio comercial que, estranhamente, ficavam do lado externo.
Havia acabado de passar pela primeira seleção de estágio que se inscrevera e havia se saído tão bem que tinha quase certeza que estava dentro. Com toda a alegria provinda daquilo, o rapaz, que sempre se empolgava fácil com as coisas, estava tão animado decidiu que com toda aquela hiperatividade não seria capaz de ficar parado à espera do elevador.
E foi enquanto descia as escadas externas num ritmo acelerado e com um sorriso alegre no rosto que Enzo se deparou com uma garota sentada perigosamente na sacada do sexto andar, com os tênis postados ao seu lado e as pernas balançando no ar. Ali era tão alto que o rapaz sentiu um frio na barriga só de se imaginar no lugar dela.
Com receio de fazer uma apresentação inesperada demais e surpreendê-la ao ponto de fazer com que ela se desequilibrasse e caísse, Enzo voltou alguns passos, abriu a porta que dava para o corredor do sexto andar e em seguida a fechou com um ruído. A garota virou-se e olhou calmamente para o rapaz, como se estar sentada ali fosse algo muito casual.
– Moça, — ele chamou — desce daí. É muito alto.
– Eu sei. — Ela disse como se estivesse respondendo a um comentário sobre a cor do seu suéter.
– Vem. — Enzo pediu, estendendo sua mão para ela, mas ainda mantendo certa distância.
A garota nem pareceu notar o pedido. Com as pernas ainda balançando no ar e o olhar voltado para a avenida à distância, ela parecia só alguém apreciando a vista. Talvez ela estivesse mesmo fazendo isso.
– Qual o seu nome? — Enzo perguntou.
– Isabel.
– É um nome muito bonito. Um nome de princesa. — Enzo tentou continuar a conversa, mas tudo o que recebeu em troca foi um sorriso meio debochado de Isabel. A resposta só veio depois de um minuto.
– Sim. Só o primeiro nome de uma princesa que tinha outros seis além desse.
– Bom, ainda é o primeiro nome dela. Mas isso não importa. Você não quer saber o meu nome também? Venha, deixe eu ajudar você a descer daí. Vamos pra algum lugar pra gente poder conversar.
– Você não vai desistir? — Ela perguntou, parecendo cansada e prestes a ceder.
Tudo o que Enzo queria era que ela cedesse de uma vez. Ventava muito naquele dia, os cabelos ondulados e cor de chocolate de Isabel agitavam-se numa bagunça e o rapaz não sabia como o par de tênis da garota ainda não havia sido derrubado da sacada. Ele temia que ela, relativamente magra, se desequilibrasse por conta do vento forte também.
– Não vou desistir. Você gosta de chocolate quente? No caminho pra cá eu vi um café logo do outro lado da rua. Vem, deixa eu te levar até lá pra gente conversar um pouco.
– Você está flertando com uma garota que está tentando cometer suicídio? — Isabel perguntou, séria, e devido à situação Enzo nem pôde perceber que ela estava brincando.
– Se isso fizer você descer daí, sim. Caso contrário, não. Mas por favor, mulher, saia dessa sacada. Deixa eu escutar tudo o que você tem a dizer enquanto a gente toma um chocolate quente.
Suspirando como se tivesse sido derrotada, Isabel saltou para dentro do prédio e calçou os tênis. Ela agia como se não estivesse, há poucos segundos, muito perto de se jogar do sexto andar.
– O que você está fazendo aqui, afinal de contas? — Ela perguntou como se só agora houvesse notado de verdade a presença de Enzo. — Quase ninguém usa as escadas desse prédio.
– Eu estava eufórico demais para esperar o elevador. — Ele admitiu enquanto os dois iam descendo escada abaixo.
– Ah. Deixe-me adivinhar... Foi bem em alguma entrevista de emprego. Isso ou acaba de pegar o resultado de algum exame e descobriu que não tem nenhuma doença terminal.
– Hmm... A primeira opção, na verdade.
– É, eu já sabia. Só falei a outra para não te deixar constrangido.
Quando saíram pela recepção do prédio comercial e foram até a fachada, Isabel parou.
– Pois bem. — Ela disse. — Eu espero que você pague o meu chocolate quente, porque quando se está planejando suicídio você não costuma levar nenhum dinheiro.
E então ela riu. E Enzo riu também. E então ele pensou que em hipótese algum ela se parecia com uma garota que, há pouco, cogitava tirar a própria vida. Mas então ele lembrou que as pessoas realmente dispostas a isso não andam com uma placa com os dizeres "suicida em potencial" no pescoço.
Andaram até o café do outro lado da rua e sentaram numa mesa encostada à janela. De lá era possível ver toda a rua e também o prédio onde haviam estado, bem como a chuva que começava a cair bem fraquinha, acompanhando o fim da tarde.
– Sobre o que você quer conversar? — Enzo perguntou para Isabel depois que pediu chocolate quente e cookies para os dois.
– Eu não quero conversar sobre motivos. — Ela disse com um suspiro. — Eu odeio o tópico "motivos". Já sei... Vamos analisar um ao outro.
– Como? — O rapaz perguntou, confuso.
– Fazer uma análise um do outro. — Isabel falou, como se conversasse com uma criança. — Eu vou começar analisando você... Tendo em vista que aquele prédio comercial tem mais consultórios médicos e agências publicitárias, creio que você trabalhe na segunda área; você tem cara de hipster. — Ela disse, sincera. — Você deve morar com os seus pais, ouvir indie folk e gostar de escrever. Você tem cara de quem é assim.
Enzo olhou para Isabel meio atônito. Como ela fazia aquilo?
– Eu leio mentes. — Ela piscou, como se realmente estivesse lendo a mente dele.
– Oh! Então me conte, senhorita leitora de mentes: qual é o meu nome?
– Agora você me pegou. — Isabel sorriu. — Qual é o seu nome?
– Enzo.
– Eu não conheço nenhum príncipe com o seu nome, desculpe.
– Na verdade, o significado de Enzo é "príncipe do lar". — O rapaz também sorriu com a coincidência.
– Ah, então você mesmo é o príncipe. Muito prazer em conhecê-lo, vossa majestade.
– O prazer é meu, senhorita Isabel Cristina Leopoldina... Quais são os outros nomes da Princesa Isabel mesmo? — Ele perguntou, coçando a cabeça e bagunçando os cabelos castanhos.
– ...Augusta Micaela Gabriela Rafaela.
– Caramba, você gravou todo o nome dela? — Enzo perguntou, surpreso.
– Sim. Eu tinha que ter alguma base para dar respostas irônicas sempre que relacionavam o meu nome ao da Princesa Isabel.
Os chocolates quentes chegaram e Isabel levou um seu ávidamente à boca, parecendo se derreter quando o líquido quente escorregou garganta a baixo.
– E então? — Ela perguntou.
– O que? — Enzo respondeu, distraído.
– É a sua vez de me analisar.
– Ah, sim. — Ele semicerrou os olhos e encarou Isabel por uns longos segundos. — Bom, você tem cara dessas garotas que escutam indie rock. Você provavelmente escuta David Bowe enquanto toma um café e lê algum livro cult. — Enzo terminou de falar e, embora não percebesse, estava com uma cara de detetive fajuto.
Isabel riu alto.
– Bom, quase lá, garoto.
– O que eu errei? — Ele perguntou, frustrado. Estava tão confiante. Isabel deu de ombros e não respondeu, ao invés disso continuou bebericando seu chocolate quente.
– Por que você parou lá em cima e me pediu pra descer da sacada? — Ela perguntou a Enzo depois de uns longos minutos de silêncio entre os dois.
– Qualquer um faria isso. — Enzo falou, mas depois que Isabel continuou encarando-o, como se aquela resposta não fosse o suficiente, ele continuou. — Eu acho que eu estava contente o suficiente com a minha vida no momento para deixar que você acabasse com a sua. — Ele contou, por fim.
Isabel pareceu ponderar a resposta e depois de um tempo decidiu que ela era o bastante.
– E você? Por que veio comigo?
– Você me pareceu ser um cara bacana com esse suéter largo, cabelos bagunçados e óculos de aros grossos. — Isabel contou.
– Hm. E você não vai mais tentar fazer aquilo, certo? Você poderia realmente cair ali.
– Nós somos programados pra cair, moço. — Isabel falou como se citasse a frase de algum livro. — Se não literalmente, figuradamente, mas de qualquer forma somos programados pra cair. Trouble is the only way is down. — Ela cantarolou baixo.
– Mas... Você não pode fazer isso com a sua vida. — Enzo insistiu. — Existem momentos realmente difíceis, isso é verdade, mas eles passam.
– O que é a vida para você? — Isabel perguntou, sorrindo. Enzo percebeu que ela sorria em situações peculiares, quase sempre um sorriso presunçoso.
– A vida é muito difícil de explicar em um conceito... Mas eu sou bom com analogias. Então eu diria que a vida é como uma mãe que faz o jantar e obriga os filhos a comer os vegetais, porque ela sabe que isso fará bem pra eles. Mesmo que eles odeiem os vegetais e fiquem chateados com a mãe por obrigá-los a isso.
– Uau... Você é realmente é bom com analogias. — Isabel olhava para Enzo com as sobrancelhas erguidas, surpresa e tentando gravar a frase em sua mente. — E a morte?
– A morte... A morte, nesse caso, seria como um pai que bate na mãe e priva os filhos de poder brincar no quintal. Algo assim.
– Oh. Você é mesmo bom com isso. Você será um ótimo publicitário, Enzo.
– Obrigado. — Ele sorriu sem nem perceber.
Depois disso os dois continuaram a tomar seus respectivos chocolates e comeram os cookies. Quando estavam prestes a terminar, Isabel tomou em suas mãos um dos guardanapos da mesa e o falou com Enzo.
– Você tem uma caneta? Você tem cara de quem anda com uma caneta.
Enzo riu. Ele realmente andava sempre com uma caneta em mãos. Tirou uma bem pequena e dourada de dentro de sua carteira e entregou a Isabel. Ela não pegou; ao contrário disso escorregou o guardanapo cuidadosamente dobrado até Enzo e apontou para ele.
– Anota o seu número aí. — Ela indicou.
– Porque você não anota no seu celular? — Ele perguntou, enquanto escrevia seu número.
– Se eu não levei dinheiro para cometer suicídio por que eu levaria o meu celular? Dã.
Depois que pediram a conta e Enzo pagou, os dois saíram rua a fora pela noite que começava a cair. Já não chovia mais, entretanto a avenida molhada e o vento gélido mantinham o clima de inverno.
Enzo insistiu em levar Isabel até em casa e essa, que a princípio relutou, terminou cedendo. Quando chegaram à casa da garota, os dois se despediram com um breve aceno e, já na porta de casa, Isabel gritou para Enzo:
– Obrigada!
Ele sorriu de dentro do carro e dirigiu pelo habitual caminho até a sua casa.
Não se falaram pelos próximos dias. Enzo não havia pego o número de Isabel e presumiu que quando quisesse falar com ele, ela entraria em contato.
Esse contato só veio acontecer três dias depois. O rapaz estava no cinema com os amigos e só quando saiu de lá ligou o celular. Quando o fez, se deparou com uma mensagem de Isabel, recebida havia pouco mais de duas horas.
O texto, bem direto, dizia:
"Fomos programados pra cair.
Desculpe."
Mais tarde, ao chegar em casa, Enzo se viu o telejornal local transmitindo a notícia de uma jovem que havia se jogado do sexto andar de um prédio comercial.
– Enzo, — sua mãe perguntou — esse não é o prédio onde você foi participar daquela entrevista de emprego?
– Foi, mãe. Foi sim. — Ele respondeu olhando atônito para a TV e para o celular em suas mãos, contendo as prováveis últimas palavras de Isabel.
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