Amianto

1 Capítulo Único


Eu estava curtindo uma manhã preguiçosa. Não tinha compromissos para o dia todo, ventava frio e a minha cama parecia o melhor lugar do mundo. Eu já não dormia mais, porém, ainda estava deitado. Imaginei que nada me tiraria dali antes das dez da manhã. Entretanto, fora do meu prédio, às coisas pareceram estar agitadas. Ouvi vários carros chegarem e o murmúrio de muitas vozes fez com que eu imaginasse que havia uma multidão lá fora. Será que algum ídolo pop resolveu se hospedar logo aqui? Misturando-se aos murmúrios, sirenes. Isso me alarmou, e fez com que eu levantasse para averiguar.

Enrolei-me no meu roupão, lavei meu rosto e olhando no espelho vi que a minha cara pedia novamente a cama. Mas, uma estranha preocupação me invadia, veio em mim uma sensação de algo ruim estava acontecendo. Tinha certeza que não iria conseguir relaxar enquanto não tirasse essa preocupação da cabeça. Então, fui até a sacada e olhei para baixo. Como eu havia suspeitado, havia vários carros e pessoas aglomeradas ali, dois caminhões de bombeiros e algumas viaturas. Elas haviam interditado a parte da frente do prédio e alguns policias faziam o controle da população que tentava se aproximar. Um dos policiais usava um megafone, coisa que eu nunca tinha visto nenhum usar fora de Hollywood e começou a falar em tom calmo:

— Moça, por favor, saí da sacada. Volte para o apartamento, nossa equipe vai subir aí para te auxiliar depois disso. — A princípio, eu achei que ele falava comigo e devido à altura tinha me confundido com uma mulher. Mas quando olhei para o lado, vi a tal moça com quem o policial falava.

Ela estava sentada, perigosamente em cima da mureta que ficava ao redor da sacada, no apartamento ao lado do meu. Tinha cabelos castanhos, usava um blusão azul, bem maior que seu número, tanto que ele chegava quase a altura de seus joelhos, cobrindo boa parte do seu corpo. As mangas também eram grandes, cobrindo até a metade de sua mão. Era impossível saber se ela vestia algo por baixo, aparentemente apenas o blusão e um tênis preto. A moça estava de costas, com as pernas para dentro da sacada e o corpo inclinado levemente para trás como se almejasse se jogar.

Foi aí que eu entendi. A garota, que aparentava ser jovem, queria se lançar lá de cima, aquilo era uma tentativa de suicídio e eu estava bem ali ao lado sendo a pessoa mais próxima dela, e talvez a única que pudesse ajudar. Pois, se qualquer policial ou bombeiro chegasse de repente pela porta do apartamento, ela se jogaria automaticamente. Quando me viu, a Moça sorriu simpática, como se tratasse aquilo de forma casual.

— Olá vizinho. — Ela disse. Incrível nós nunca termos nos cruzado sendo que morávamos ao lado um do outro, nem mesmo seu nome eu sabia. Percebi que a jovem estava calma e resolvi conversar com no mesmo tom que ela para tentar convencê-la a não se jogar. Eu não fazia ideia de como iria fazer isso, mas se eu não tentasse, carregaria a culpa daquela morte em meus ombros. Simplesmente não poderia voltar para o quarto ou mesmo sair do prédio.

— Olá. Err...O que faz aí? — Era uma pergunta idiota, mas eu não fazia ideia do que falar. Estava extremamente nervoso. A garota deu um pequeno sorriso descontraído e olhou para o céu antes de me responder.

— Brincando de morrer. — A resposta era um tanto sarcástica quanto sombria. Ela conseguia ficar de maneira tão natural mas deixar claro que suas intenções de se jogar não eram falsas. Entrei na conversa dela, usando um pouco de sarcasmo, de modo que eu pudesse manter o diálogo com ela, evitando que ela se jogasse de imediato e dando tempo para os bombeiros e policiais pensarem em algo.

— Mas você não é muito nova para brincar de morrer? Anda, me diz o que há com você. — Estava decidido a fazê-la conversar comigo pelo máximo de tempo possível. Ela pareceu aceitar bem esse convite que eu fiz.

— O que há comigo? A vida é o que há.

— O que que a vida aprontou dessa vez?

— Ela simplesmente é uma vadia. — Sarcasmo sóbrio mais uma vez.

— Desce daí — falei casualmente — deixa eu te levar para um café, aí a gente conversa e eu tento te convencer que a vida não é isso. — depois de falar, vi que fui muito direto com ela. Fiquei com medo dela sentir pressionada e fazer algo precipitado, mas ela então sorriu de canto mais uma vez. Esse sorriso apesar de aparentemente simpático, parecia carregar tristeza nele, quase como se ela risse da própria desgraça.

— O que é a vida então? — Ela perguntou.

— Boa pergunta. — Eu disse. — Existem várias respostas, por isso que te chamei para tomar um café, enquanto nós debatemos. — Tentei mais uma vez convencê-la de sair de lá. Porém, ela começou a balançar os pés, de forma que seu corpo ficava instavelmente apoiado na mureta e o vento frio que antes aconchegava-me no conforto de minha cama, agora parecia um vilão que arranhava minha pele e poderia ser a cereja que faltava para que a moça perdesse de vez o equilíbrio. Ela me olhou e disse:

— Melhor olhar para baixo para ver se é uma boa altura. — Ela disse.

— Hey, não olha para baixo. Aqui é muito alto para você se jogar. Vem, eu vou te ouvir e te convencer que a vida não é tão vadia assim. — Refiz o pedido.

— Me responda então, o que a vida é?

— Eu lhe disse, existem muitas respostas, por isso quero que venha comigo e — ela me interrompeu.

— Me dê a sua resposta, não a dos outros.

Ela me pegou desprevenido. O que era a vida? Eu devia pensar rápido numa resposta, ela já parecia impaciente, foi então que de alguma maneira, palavras apareceram e foram formando frases em minha cabeça, então pude dar uma resposta, que parecia satisfatória.

— A vida é como...Como uma mãe. Ela faz o jantar e obriga os filhos a comer os vegetais, por que sabe que faz bem. Ou seja, por mais que a vida pareça estar ruim, e com coisas difíceis e duras de engolir, essas coisas tem os nutrientes para nos deixar mais fortes ao longo da nossa jornada.

— Se a vida é uma mãe, a morte é o que? Um pai?

— Sim, um pai. Mas não um pai amoroso que te acolhe nos momentos de desespero e sim um pai que bate na mãe e rouba dos filhos o prazer de brincar como se não houvesse um amanhã.

— Você não sabe o que eu passei! — Disse ela chorando, sua súbita mudança me espantou. Os policiais lá embaixo não usaram mais o megafone. Acho que eles viram a minha conversa com ela, de longe e presumiram que eu tentava ganhar tempo. Dirigir olhar para baixo com a minha melhor cara de desespero, para que eles notassem que eu estava com problemas.

— Tudo bem — balbuciei — Nem sempre estamos na melhor, mas — Outra vez ela me interrompeu.

— Moço, ninguém é de ferro. — Em meio ao choro ela ainda deu mais um de seus sorrisos carregados de tristeza. — Essa é a natureza do ser humano: somos programados para cair. — Então, soltou as mãos da beirada da mureta e deixou o seu peso ir para trás.

Notas finais
Espero que tenham gostado da história! Não deixe de comentar e dar um feedback, ok? É isso, fui!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!