— Oh, os pombinhos voltaram… e então? Como foi o encontro? — Questionou Hibiki, com um sorriso pretensioso em seu rosto.

— Foi bom, sensei. — Miyagi respondeu a mulher, com serenidade em seu tom de voz.

— E aí… rolou beijinho? Hein? — Fez questão de provocar os dois. De ambos, somente Yuuki se avermelhou. Akane, porém, permaneceu tranquila.

— Não, sensei… ainda não…

— Ah, pois então é bom vocês se apressarem, viu? Porque do jeito que ele tá te olhando, ele não vê a hora. — Takeuchi brincou descontraidamente com os sentimentos de Yuuki, o deixando ainda mais envergonhado, querendo silenciá-la. Aquilo fez Akane dar uma breve risada, chamando a atenção dele. Com um sorriso terno, ela o fitou de volta e respondeu, com ternura:

— Quando tiver de acontecer, na hora certa, vai acontecer.

Antes envergonhado por conta do comentário da sensei, agora este desviou o olhar, sem dizer uma palavra sequer. Eles então aproveitaram para se banharem e então irem jantar.

Algumas horas após o jantar, cada um foi para seu quarto, e se pôs em sua cama a dormir. Caindo em sono profundo, Akane mergulhou em um vazio preto, até repousar suavemente em uma superfície que aparentava ser água. Todavia, por mais líquida que fosse, esta base era sólida, como se ali fosse um poço raso de água sobre um chão comum.

— O que é esse lugar? — A moça se perguntou, olhando em volta, e não vendo nada além de escuridão. Tentou chamar por Yuuki, mas ninguém respondia. Fez o mesmo com Shizue, Emiko, Megumi e até mesmo Hibiki-sensei. Não houve resposta de nenhum deles.

Sozinha, começou a ficar com medo daquele ambiente. Até mesmo seus passos naquele silêncio a deixavam aterrorizada. Por um momento, decidiu parar. O que escutou em seguida fez seu coração disparar: passos. Passos estes que eram lentos, mas constantes. Olhou em volta, mas tudo que via era o vazio escuro.

— Quem está aí?! — Exclamou a moça, ainda apavorada. Os passos ainda seguiam firmes e constantes, e pareciam estar se aproximando, todavia, ela não via ninguém ao seu redor. Mais uma vez perguntou, mas nada de ter sua resposta. — Se isso for uma brincadeira, é uma brincadeira de muito mal gosto, viu?! — Completou ela. Os passos continuavam no meio daquele silêncio, ao qual ela não esperava nada mais.

— A k i r a … — Uma voz distorcida soou por detrás, como se estivesse próximo à moça. Ela se virou para encarar a direção da voz, mas nada viu. Apesar disso, ela havia uma certeza.

Só existe uma pessoa que ainda me chama assim…” — Temeu ela em pensamento, quando dois brilhos vermelhos se mostraram diante da escuridão.

— A k i r a … — Mais uma vez, a voz distorcida chamou, em direção a Akane, que se arrepiou dos pés a cabeça. O brilho nos olhos da moça havia sumido, dando lugar ao pânico que a envolvia.

Como forma de seu instinto de luta ou fuga, ela então começou a correr na direção oposta.

É ele… é ele… é ele…” — Ela pensou, em pânico enquanto corria. Os passos atrás dela também começaram a se apressar, a perseguindo.

— V o c ê n u n c a s e r á u m a g a r o t a, A k i r a … — Aquela voz terrivelmente distorcida continuava a reverberar, apavorando a moça que continuava a fugir. Porém, em um desses momentos, o chão que antes estava sólido e firme começou a se tornar como lama, dificultando seus passos mais e mais.

Aquilo piorou o estado de Miyagi, que temendo, começou a chorar enquanto ainda tentava escapar. E então, um passo; foi o que bastou para prendê-la no lugar. Tentava sair dali, fazia toda a força que podia, mas nada adiantava. Seu perseguidor, a passos lentos se aproximava, sua figura se mostrando diante da pequena luz daquela escuridão, exceto por sua face.

— É i n ú t i l … v o c ê n ã o p o d e f u g i r d a v e r d a d e … — A voz, agora levemente menos distorcida e mais familiar aos ouvidos da garota, exclamou.

— Não… — Quietamente ela disse, entre lágrimas. — Se afaste… se afaste… — Pedia ela, sem muito sucesso, pois a criatura se aproximava com a intenção de agarrá-la. — Se afaste! … — Ela exclamou, mas não adiantou. No desespero de sua alma, um grito emanou com tudo o que tinha dentro de si, quebrando barreiras e exalando o puro terror que sentia naquele momento.

— Não!!! — Miyagi despertou assustada, no meio da madrugada. Estava ofegante, suando frio, seu coração estava à mil. Seus olhos arregalados, olhando a parede do quarto escuro, com medo. Levantou-se o mais rápido possível e acendeu a luz de seu quarto.

Passos puderam ser ouvidos, e então batidas na porta.

— Akane-chan, está tudo bem? — Uma das moradoras a chamava na porta do quarto.

Ela lentamente abria a porta, se deparando com uma jovem moça com um olhar preocupado.

— Eu ouvi um grito vindo do seu quarto. Como sou do quarto ao lado, me preocupei e vim saber a respeito.

— F-Foi só um pesadelo… não se preocupe… eu estou bem… — Miyagi comentou, tentando apaziguar a moça.

— De verdade?

— De verdade.

— Então tudo bem. Se precisar de alguma coisa, por favor, não hesita em chamar, tudo bem? — Sugeriu a moça para Miyagi, que concordou com a cabeça. A jovem então retornou para seu quarto, fechando a porta.

A moça então, em uma tentativa de se manter mais calma, respirou fundo e aguardou alguns instantes. Enquanto ela aguardava, ela decidiu checar as horas, e percebeu que já havia passado da meia-noite; eram 3:00. Sabia que tinha que dormir, pois amanhã havia de acordar para o colégio, todavia, algo dentro dela dizia que sozinha ela não conseguiria mais dormir aquela noite.

Ficou de ouvidos atentos ao seu arredor, e percebendo a quietude, saiu de seu quarto sem fazer um som sequer. Em passos sorrateiros, desceu a escada com todo o cuidado, vislumbrando enfim a porta que dava para o quarto do menino no primeiro andar. Ao entrar, viu o garoto a dormir pacificamente, e sem causar alarde nenhum, somente se esgueirou e se adentrou debaixo da coberta com ele. Inicialmente, tentou fechar os olhos e dormir, todavia, ainda estava com medo. Todavia, após sentir o braço de Yuuki a lhe envolver, se sentiu mais tranquila, dormindo como um bebê.