— Beijar? — Ambos Akane e Yuuki disseram juntos, por mais distantes que pudessem estar, o que indiretamente mostrava sua conexão. E isso se provou ainda mais concreto quando se lembraram do dia em que, debaixo da ponte, ela o aplicou um beijo em sua bochecha. Os dois acabaram por se avermelhar.

— Bem… teve uma vez… — Replicou Akane, enrolando o cabelo nos dedos, o que Shizue fez questão de notar. Já estava com certo brilho em seus olhos.

— ...debaixo da ponte… ela…

— ...debaixo da ponte… eu… o dei um beijo na bochecha… — As expectativas de Shizue foram levemente frustradas em dobro, pois ela esperava que o beijo fosse nos lábios. Contudo, ainda mais frustrante foi que ela não conseguiu testemunhar tal cena adorável. “Por que eu não estava lá nesse momento?!” — Pensou ela, quase mordendo a fronha da cama de tanta raiva.

— Ah sim… um beijo na bochecha… não parece ter sido nada demais.

— Como assim, nada demais?! Ela me beijou duas vezes na mesma bochecha! Duas! Meu coração parecia que iria pular pra fora… — Indagou Yuuki, se sentindo indignado pelo pleno desinteresse de sua professora com seu relato.

— Beijos na bochecha já são bons… mas já chegou a imaginar ela beijando sua boca? — A mulher o questionou, sorrindo pretensiosamente enquanto o encarava.

A cena tornou a vir a mente do garoto, porém, seu foco estava mais nos lábios de Miyagi: pareciam reluzir, chamando sua atenção. Todavia, não fazia ideia da sensação, já que nunca pensou sobre a cena, somente acenou negativamente com a cabeça.

— Nem mesmo sonhar? — Insistiu ela, e ele reafirmou que não. A mulher então o disse para ter aquilo em mente como o próximo passo para o relacionamento dos dois.

Na casa de Nakajima, ambas conversavam sobre o mesmo assunto. Conforme compartilhavam palavras, Akane foi por deveras franca com sua amiga, partilhando de não ter nem sequer imaginado sobre beijar os lábios do rapaz. Todavia, ainda que ela quisesse, ela temia que a mente de Yuuki poderia o trair no último momento, o fazendo desistir da ideia. Vendo sua angústia, tomou as mãos da menina e a assegurou de que, baseado na cena que ela vislumbrou a horas atrás, ele pensava diferente do que ela temia. Pouco a pouco, foi ficando mais relaxada e despreocupada. Deitou-se no futon e foi dormir.

Aquela noite, Akane sonhou. Diferente de todos os outros sonhos, aquele provaria ser um sonho intenso para ela. Em seu sonho, se via no seu quarto em sua casa, e com Yuuki ainda por cima. Este, sem muita hesitação, aproximou-se dela e a beijou. Seu coração palpitou, sentia como se houvessem borboletas em seu estômago. O beijo fora acalentando os dois a ponto de levá-los à cama.

— Yuuki-kun, não… — Advertiu a garota, com um pouco de medo e insegurança.

— Você também quer isso, não quer?

— B-Bem… sim, mas…

— Então não se preocupe, eu serei gentil com você. — Replicou ele, acariciando o rosto da moça, e lhe aplicando mais um beijo aos lábios. Com um sorriso terno no rosto, fez com que ela se acalmasse e confiasse nele.

Esta, então, fora despida, revelando ao rapaz como viera ao mundo. Naquele momento, ele não se incomodou por detalhes. Ambos então se entregaram ao amor, e Yuuki a tomou por mulher. Parecia inacreditável de tão real e lúcido que aquele sonho estava sendo. Por um breve momento, Akane perdeu a vista sobre a linha tênue que dividia o sonho em realidade. A dor que inicialmente os juntou, lentamente se tornara em êxtase, e justamente no ápice de seus sentimentos mais profundos, o sonho se desvaneceu e a realidade tomou conta.

Akane acordou, levemente ofegante, seu coração batendo forte. As imagens de seu sonho ainda pareciam vívidas em sua mente. Olhou em volta e somente viu Shizue, a dormir em sua cama. Por fim, checou em seu shorts, e sentiu dali mesmo que algo estava errado. A vergonha tomou ser; ela rapidamente se levantou e foi tomar um banho. Como já havia amanhecido, Shizue também tornou a levantar-se.

Na casa de Hibiki-sensei, ao despertar, Yuuki se deparou com uma Sensei descoberta com roupas desleixadas. A forma como sua pele estava um pouco mais exposta do que o normal acabou puxando os olhares de Yuuki, antes deste perceber que bisbilhotar a mulher em um estado mais vulnerável era errado. Tratou de desviar seu olhar e seguir sua rotina matinal.

Alguns minutos depois, ela enfim acordou, uma de suas alças caídas para o lado. Estava tão sonolenta que somente conseguiu perceber a alça de sua blusa. Sentou-se à mesa com o garoto enquanto tomava o café da manhã.

— Yuuki… — O rapaz lhe deu atenção assim que chamado. — ...você olhou os meus peitos, não foi?

A questão deixou ele com um misto de medo e vergonha. Imediatamente, ele fez questão de negar com todas as forças e a pedir desculpas. Mal sabia ele que essa era exatamente a reação que a mulher queria que ele tivesse. Um sorriso pretensioso surgiu em seu rosto em vista da oportunidade.

— Quer ver mais? — Provocou ela, puxando um pouco seu decote abaixo, revelando mais pele, e o deixando completamente avermelhado.

— S-Sensei… o-o que aconteceu com você dizer que só via a gente como criança? — Desesperado, ele indagou, seu coração a mil pela situação.

— Ah, aquilo? Era só uma desculpa… vocês são bem crescidinhos, então compreendem bem… — Ela replicou, ainda fingindo seduzir o pobre rapaz, para sua infelicidade.

— E-Espera, uma desculpa? E-E quanto a você dizer que sentia asco de quem tentasse dar em cima de alunos?

— Aquilo também era uma desculpa. — Ela apoiou os cotovelos a mesa, inclinando-se levemente a frente. Era possível ver um pouco mais adentro da camisa dela daquele ângulo, o fazendo engolir saliva por nervosismo.

— E-Eh… S-Sensei… então… você está d-desesperada?

— Não diga isso. Faz tanto tempo que não vem um homem na minha casa…

— N-Não acha que seria melhor alguém com mais experiência?

— Pelo contrário, eu gosto de garotos novos como você… — Era tudo que Yuuki não queria ouvir. Para piorar a situação, a mulher comentou que “ele dava um belo caldo”. Porém, não conseguiu manter sua fachada por muito tempo, e então acabou por caçoar do garoto enquanto ria. Yuuki não gostou nada daquilo, todavia, Hibiki lhe assegurou que aquilo não passava de uma brincadeira.

Para que ele se acalmasse, ela o convidou para que ele fosse em uma loja de conveniência para que este pegasse um picolé. Assim que ambos desceram as escadas do complexo do apartamento, uma figura familiar (ao menos para Yuuki) topou com os dois.

Cherry-kun