– Você…

Sua voz demonstrava um misto de surpresa e leve incredulidade. Ser chamada pelo nome ao qual emanava toda a sua essência era algo que ela jamais esperava que aconteceria daquele ser tão frio.

– Você… me chamou de...--

– De Akane. Admito que vai demorar um pouquinho para me acostumar, mas é o seu nome, não é? — Comentou, e o olhar ligeiramente surpreso de Akane retornou a um estado neutro, a fim de não se fragilizar demais diante de seu pai.

Ao ver seu semblante, Souichiro acabou por dar um sorriso levemente nervoso, como se pudesse ler através do coração da filha.

– Não fique zangada comigo, por favor. Eu disse que vai demorar um pouquinho, mas vou fazer o meu melhor para te tratar da forma que você deveria ser tratada. — Concluiu ele; porém, mesmo ele tendo dito aquilo, para a moça certamente não seria o suficiente.

– Você sabe que palavras bonitas não resolvem e não vão me cativar, não sabe? — Akane questionou, seu olhar afiado, e seu coração, ainda muito defensivo em relação a ele. Porém, por dentro, se sentia estranha, como se suas estruturas estivessem sido levemente abaladas por conta da descrença daquele momento pelo qual tanto aguardou.

– Eu sei. Como eu disse antes, vou fazer meu melhor para poder te tratar direito, como a filha que eu por anos rejeitei, mas que esteve sempre aqui do meu lado. Não só com palavras, mas também com ações.

Com um sorriso terno e apoiando seu queixo sobre sua mão, olhou com cuidado a pessoa a sua frente. Observou cada traço de seu rosto, os fios de seu cabelo, o olhar, até mesmo as roupas e o porte de seus ombros e mãos.

– O que está olhando tanto? — Perguntou com desconfiança, seu rosto com uma expressão de repúdio. Em um gesto de curiosidade, pegou a mão da menina; ele sentiu seu toque delicado, enquanto ela, o toque áspero de suas mãos, as mãos de um homem de meia idade. Mãos aquelas que trabalhavam dia após dia para garantir o sustento da família.

Aquele toque, aquela sensação traziam tantas memórias. Memórias de quando era feliz com seu pai, quando brincavam no quintal de casa antes de Yuuki a vir buscar para brincarem juntos. Memórias de tantos bons momentos que Akane acabou por deixar uma lágrima escorrer, ao qual seu pai certamente notou.

– Akane? — Ele a chamou mais uma vez por seu nome, a tirando levemente de seu transe, sentindo a lágrima descer de seus olhos.

– N-Não é nada. — Levantou-se em um golpe, e sem dar mais explicações, saiu correndo do restaurante. Ela nem mesmo deu chance para que seu pai pudesse perguntar alguma coisa.

Ali, do lado do assento aonde Akane estava, a mesma presença gentil que acenava ao lado da psicóloga ali de pé se encontrava. Todavia, Souichiro não conseguia vê-la, tampouco sentir sua estadia. Ele somente suspirou e se levantando, foi até o caixa para poder pagar a conta, fazendo a presença se dissipar.

Ao sair, percebeu que do céu nublado, alguns flocos de neve caiam: enfim, chegava o inverno, e com ele, a chance de Souichiro de derrubar de uma vez por todas a última fronteira que separava ele de sua filha. Olhando para o mesmo céu, refletindo, perguntou:

“Querida… acha que é tarde demais para mim?”

Novamente, aquela presença se apresentou por ali, e vendo que ele olhava para o céu, veio por trás e o envolveu em um terno abraço.

“Nunca é tarde demais para começar, Souichiro… Sempre soube que você tinha bondade em seu coração.”

Suas palavras, com um tom carinhoso, não conseguiam alcançar os ouvidos de Souichiro, por mais perto que estivessem.

— Me pergunto o que você me diria neste momento… Talvez que sou um péssimo pai… ou talvez você ainda acreditasse que há tempo para eu tentar… — Tornou a refletir observando o céu se escurecendo. Naquele instante, uma lágrima escorreu por seu rosto, comovendo a presença, que não o largou de seus braços, por mais que este não pudesse senti-la.

“Oh, querido. Por favor, não chore. Você sempre teve o tempo para se redimir, somente não percebeu sua preciosidade. Agora que você o enxerga, mostre a ela que você ainda a ama, da mesma forma quando ela ainda era criança. Só se permita vivenciar esse momento. Não sofra, por favor…”

Os flocos de neve desciam vagarosamente aquele céu, Souichiro caiu de joelhos e não pode segurar mais: Chorou. Seu sofrimento era indubitável, lembrando-se de quando Akane era criança, como Akira, e como ela o amava. Memórias deles correndo no quintal da casa, brincando no parque, todas elas o inundaram por dentro. Como uma conexão, a presença também deixou-se lacrimejar, pois também lembrava de áureos tempos.

– Me perdoe… por favor… me guie… me ajude a não falhar mais com ela… — Clamava Souichiro entre prantos, sua voz carregada de uma imensa dor, um corte profundo em seu peito. Mesmo lacrimejando, a presença ainda mantinha seu sorriso gentil.

“É o que tenho feito desde sempre. Porém, só depende de você para seguir o caminho e se redimir com Akane…”

E assim como a neve se desfaz ao tocar o chão, a presença se desvaneceu dali, o deixando sozinho. Secou suas lágrimas e levantou-se, a ir de volta para casa.

Um pouco longe dali, a passos apressados corria Akane sem perceber direito os flocos de neve a cair. Tanto correu que, de tão distraída, tropeçou e caiu; um contraste rápido de sensações. Se apoiando sobre suas mãos e joelhos, as lágrimas rolavam como se não houvessem fim. Quanto mais Akane as secava, mais elas caiam por conta das memórias do passado.

– Pai… Mãe… — Ela choramingava, em silencioso pranto, pouco a pouco se levantando e vendo a neve a cair. Foi então que um turbilhão de memórias a invadiu: da casa para o hospital, e do hospital para o cemitério.

Cobriu suas mãos e permitiu-se chorar ainda mais com trágicas e dolorosas recordações. Sentiu como se uma afiada espada tivesse atravessado seu peito, e caiu de joelhos. A presença gentil, que antes estava junto de Souichiro, agora repousava sobre a jovem garota, a envolvendo em seu braços.

“Não se preocupe, querida… eu estou aqui para você…” — Dizia com voz terna, quase de um sussurro. Diferente do homem, de alguma forma, Akane podia sentir uma energia maternal no ambiente, apesar de não ver nada olhando ao redor e nem conseguir ouvi-la. Seu pranto fora lentamente e gradualmente cessando, secando suas lágrimas e dando lugar a uma sensação de conforto apesar da tristeza que sentia.

No dormitório, como estava começando a ficar tarde, Yuuki se preocupou. Avisou a professora que estava saindo para buscar Akane, e então saiu do dormitório. Mas não muito longe dali, a encontrou sentada sobre os joelhos no chão, olhando para cima.

“Parece que ele veio te buscar…” — E assim como com Souichiro, a presença mais uma vez desvaneceu como a névoa que se dissipa no ar, assim como a energia cujo Miyagi conseguia sentir também sumiu; todavia, aquilo não retirou de si seu conforto.

– Akane!!! — Gritou Yuuki ao fundo, correndo até a moça e se ajoelhando em sua frente. — Está tudo bem? O que houve?

– Não é nada, Yuuki-kun… — Comentou ela, acenando para ele e deixando assim exposta suas mãos levemente feridas, assim como seu joelho.

– Como assim, não é nada? Olhe suas mãos! Seus joelhos! Não podemos ficar aqui, vamos. — Exclamou, se abaixando a fim de dar apoio a ela em suas costas, o que a fez corar.

– Eh?! Y-Yuuki-kun, eu não preciso, eu estou bem--

– Não seja teimosa, só venha, Akane. — Yuuki proferiu, com um tom sério. Apesar disso, algo a preocupava.

– Mas aí, aquilo vai…

– Eu não me importo nem um pouco com aquilo! — Bradou, assustando de leve a moça. Ele então suspirou, pedindo desculpas. — O que me importa nesse momento é seu bem estar. Agora vamos.

Sem ter muito para onde correr, aceitou sua ajuda e subiu em suas costas. Ele então segurou suas pernas enquanto ela envolvia seus braços ao redor do pescoço do menino. O contato de suas costas com seu shorts a fez involuntariamente reagir, a fazendo ruborizar de vergonha e esconder seu rosto no único lugar que havia naquele momento: nas costas do garoto. E assim, continuaram seu rumo em direção ao dormitório.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.