Amethyst no Hana - A Flor de Ametista Original

53 Capítulo 52 - Fragmentos do Inefável


Enquanto isso, não muito longe dali, Yuuki e Akane estavam agora em um parque infantil. Ela sentou-se no banco, e ele sentou-se ao lado dela. Por um tempo, ela ficou olhando Yuuki ternamente, o deixando um pouco perdido.

– O que? — Questionou ele, sem entender bem o que estava acontecendo.

– Nada… só queria aproveitar o momento, e olhar pra você. — Retrucou ela, com um sorriso em seu rosto, sua voz tendo saído suavemente de seus lábios.

Ela então deixou de encará-lo, e enquanto fitava à frente, relaxou seu rosto nos ombros de Yuuki, que não se queixou; somente aproveitou o momento.

– Me desculpa, Yuuki-kun… — Seu pedido chamou a atenção do menino. — Eu disse aquelas coisas lá… fiquei um pouco exaltada, e acabei fazendo você lembrar de coisas que você não queria… — Complementou, e foi aí que ele acabou surpreendendo ela por repousar de leve sua cabeça na dela.

– Está tudo bem, Akane… as vezes, certas pessoas precisam escutar algumas coisas… — Os olhos da menina brilharam pela compreensão de Hisashi. Seu sorriso se abriu um pouco mais, e um conforto se instalou em seu peito.

– Você tem um jeito tão especial de falar certas coisas… e isso acalma meu coração.

– Você acha? — O menino a interrogou, seu tom tão sereno quanto o dela.

– Tenho certeza. Quando estou junto a você, eu me sinto tão mais… segura… — E então, ela virou seu rosto, encarando-o em seus olhos. Havia certo rubor em ambos os rostos, suas respirações podiam ser sentidas por estarem próximos.

Nenhuma palavra era dita, pois não se fazia necessária. A troca de olhares hipnotizantes acabaram por os aproximar lentamente. Pouco a pouco seus lábios estavam cada vez mais próximos de se encontrar, até que Yuuki acabou se lembrando novamente do que Akane havia dito anteriormente, e até mesmo em seu reencontro com ela.

“O que aconteceria se eu tirasse minha roupa no meio de um monte de mulheres e elas vissem que, aonde deveria haver uma caverna, tem uma chave de fechadura ao invés?”

“Eu sou um menino, sabia?”

E então, gentilmente pôs a mão sobre o rosto de Akane, a impedindo a tempo.

– Yuuki-kun? — A moça estranhou sua atitude, piscando algumas vezes em confusão.

– A-Ainda não… Ainda… não é a hora certa… — Mentiu, desviando o olhar; todavia, não havia um sinal de rubor em seu rosto. Aquilo a preocupou, mas ela simplesmente deixou aquilo para lá.

– Bom… vamos voltar? — Retrucou ela com um sorriso, como que para desfazer o clima quebrado e retomar de forma animada e amigável. Eles então levantaram e começaram a caminhar de volta em direção ao dormitório.

No meio do caminho, pela calçada, uma figura familiar se apresentou mais a frente.

– Ei, aquele ali não é seu pai? — Yuuki apontou para o homem, quando Akane, que estava com um sorriso no rosto, o desfez de forma ligeira, e deu um leve tapa na mão dele, o reprimindo por apontar o dedo para seu pai. O homem, que os viu, sorriu de forma terna, vendo o quanto pareciam se dar bem, e ainda confiante desde as palavras de sua psicóloga, se aproximou deles.

– O que você quer? — Perguntou, cruzando os braços; seu semblante não parecia nada amigável, seus olhos afiados pareciam analisar cada movimentação que ele estivesse disposto a fazer. Mas ele naquele momento somente desejava paz, não guerra.

– Eu estava pensando… será que nós não podemos conversar?

A menina não deixou sua guarda baixa, e permaneceu firme em sua atitude.

– Conversar? Sobre o que?

Yuuki sentiu que aquele assunto parecia sério, e que ambos precisavam de um espaço em particular, então ele começou a se afastar. Akane, que não é boba nem nada, notou o movimento do garoto e de soslaio o olhou.

– Yuuki-kun, aonde vai? — Surpreendeu-o com sua questão, chamando também a atenção de Souichiro.

– Bem… é que eu senti que era um assunto mais entre pai e filha… então eu--

– Fica. — Ela o interrompeu sem dó, mas ele se opôs a sua ordem, dizendo que independente do que fosse, sabia que não deveria atrapalha-los. Ele então se despediu do pai da menina se arqueando levemente e foi-se embora para o dormitório.

– E então, o que você queria falar? — Tornou a perguntar, seu tom ainda áspero para com Souichiro, que sabia do motivo pelo qual ela o tratava assim. Este casualmente a perguntou se podiam tomar um café a fim de conversar a respeito. Ela desconfiou um pouco, mas acabou por aceitar sua oferta, e foi com ele até um restaurante familiar próximo dali.

Apesar do ambiente acolhedor, o clima entre os dois era tenso. Especialmente por conta de Akane, cujo permanecia firme como uma torre inabalável. Souichiro, por sua vez, não aparentava mostrar desprezo em relação a ela, mas sim uma vulnerabilidade a qual ela jamais havia visto naquele homem. Ele sabia que devia a ela explicações, pois ela estava dando a ele uma última chance de ele se redimir com ela ou cortar o elo para sempre.

– Eu… — Sua voz parecia pesada, carregada de um fardo que lhe era necessário por para fora. Com um pouco de temor, hesitou sem poder. — Eu… falhei com você. Por muito tempo. — Concluiu ele, seus olhos ainda fixados a mesa, pois não conseguia encarar a filha com aquele peso dentro do seu coração.

– Ah é? E só agora que você percebe isso? — Akane proferiu, suas palavras saindo como navalhas afiadas em direção ao homem que tanto a fez mal.

– Eu sei que nada que eu disser vai apagar as manchas do passado. Sei que deveria ter buscado te entender melhor, deveria ter buscado ajuda antes--

– E por que não fez? — Questionou. Suas mágoas estavam agora como uma ferida aberta dentro de seu peito. Ele até queria responder, mas não sabia como. — Eu te digo porque você não fez: porque você, pai, decidiu por conta própria se fechar. Você preferiu aceitar aquilo que era bom para você, mas nisso, você rejeitou a verdade que estava bem diante dos seus olhos. A minha verdade. Quem eu verdadeiramente sou. Você… me rejeitou, pai.

Mais uma vez as palavras dela o encurralaram de forma sufocante. Todo o ressentimento que ela tinha a seu respeito estava sendo posto em cada palavra que proferia contra ele. Respirou fundo e então deixou o ar sair, o que deixou a moça em alerta, pois para ela, qualquer movimento dele era algo a se tomar atenção como um potencial risco.

– Você tem razão. — Com uma voz calma, ele direcionou seu olhar ao dela. — As suas palavras são as mesmas que Mutou, um colega de trabalho e Dra. Aoyama, minha psicóloga, disseram para mim. — Concluiu, enquanto lentamente observava a pessoa a sua frente.

– Você poderia ter percebido isso sozinho, sem precisar de outras pessoas, não acha? — Miyagi o criticou, levantando uma sobrancelha.

– Eu sei, eu sei. Mas você tem que entender também que para um adulto como eu, não é um processo muito fácil de lidar com todas essas mudanças. — Respondeu ele, seu olhar parecia sério, mas seu coração estava lutando por si.

– Difícil? Difícil, você diz? Você sabe o que “difícil” quer dizer? — Riu de forma sarcástica e amarga, sentindo o gosto de fel em sua boca. — Difícil é você ser quem é, e ter orgulho de ser quem é, por mais que outras pessoas te odeiem ou não te aceitem; especialmente aqueles aos quais somos mais próximos. — Proferiu como se fossem espinhos em direção ao pai, espinhos contendo toda a mágoa por anos guardada, sem dó nem piedade. Apesar disso, Souichiro sabia que ouviria palavras nada gentis vindos de sua filha. Somente respirou fundo, tentando manter a calma diante da tempestade que lhe afrontava.

– Mais uma vez, você tem razão. Sei que isso não vai mudar sua imagem sobre mim, mas te peço… — Ele então direcionou seu olhar ao dela. — … por favor, me desculpe… Akane.

E então, tudo se tornou em silêncio. As vozes, o som de copos, talheres, passos, até mesmo o som abafado do trânsito lá fora, tudo fora reduzido a nada. Naquele instante, era como se o restaurante inteiro, exceto por eles dois e sua mesa, não existissem mais. Os olhos de Akane levemente arregalaram ao ouvir sair da voz de seu pai o seu nome. Não o de nascença, mas o nome o qual ela escolheu para sí; aquele ao qual carregava sua identidade, sua essência, o seu ser em sua plenitude.

– Você...