Amethyst no Hana - A Flor de Ametista Original
51 Capítulo 50 - Uma Chama no Horizonte
“Talvez… eu precise mesmo de ajuda…”
Era o que pensava Souichiro, após lembrar não somente as palavras de sua filha, mas também as palavras de Mutou. Saiu daquele breve transe e retornou para seu apartamento, trocando seus sapatos no corredor inicial. Sua rotina era sempre a mesma: Chegar em casa, preparar algo rápido para comer, assistir a televisão para poder se distrair e não se sentir tão sozinho e enfim, dormir. Todavia, algo parecia diferente aquela noite.
Souichiro não sentia nada. Estava tão imerso em seus pensamentos que não conseguia sentir o gosto ou cheiro da comida. Ao sentar para ver TV, nada lhe interessava; passava de canal em canal, e nada o agradava. Ao desligar a televisão, tudo que sobrou foi o silêncio do seu apartamento, acompanhado do som abafado dos carros a passarem lá fora.
Olhando para a TV desligada, vislumbrou seu reflexo na tela escura; ali estava um homem de cabelos grisalhos desarrumados, barba por fazer, e os olhos cansados, assim com sua alma. Cansados não por conta do trabalho, mas sim de suas escolhas as quais não o deixaram perceber sua negligência pertinente a própria filha. Insistia que enxergava muito bem a realidade, sendo que havia uma trave diante dos próprios olhos.
Pegou o telefone e começou a discar o número que Mutou havia lhe dado de uma psicóloga que conhecia. Porém, ninguém atendia. Tentou outra vez na esperança de obter sua resposta, entretanto, já sabia o que lhe aguardava. Desistiu, se pôs a deitar e devido ao enfado, somente se permitiu descansar.
Não muito longe dali, no dormitório Nozomi, Miyagi sentava em sua cama, observando a noite silenciosa lá fora. Ficava a pensar sobre o pai, ainda mais após aquele breve encontro que teve com o mesmo algumas horas atrás. Tirou tal pensamento da cabeça pois sabia que ele não havia de mudar assim tão facilmente. Saindo de seu transe, deitou sua cabeça no travesseiro, e fechou os olhos, repousando sem se preocupar muito.
Naquela noite, Miyagi sonhou que seu pai, após anos, havia lhe chamado pelo nome ao qual se identificava. No sonho, em seu coração, sentia-se mui alegre por finalmente ser reconhecida. Abraçou o pai, emocionada por tanto aguardar aquele dia. Porém, tudo fora se desvanecendo, trazendo-lhe a realidade a tona. A emoção, contudo, não se ateve somente ao sonho que teve, irrompendo na realidade.
– Pai… — Lacrimejou, despertando. Era difícil acreditar que aquilo era um sonho, pois foi muito real aos seus olhos e outros sentidos. Levantou-se, pegou seu uniforme e foi descendo as escadas.
No corredor do dormitório, quando ela estava prestes a adentrar o banheiro, a Sensei que estava por ali a avistou e chamou sua atenção.
– Miyagi, o que está fazendo? Hoje não é dia de aula. —Avisou Hibiki-sensei, deixando a moça constrangida, retornando imediatamente para seu quarto para guardar seu uniforme escolar. Foi até a sala de jantar e sentando-se junto dos outros alunos, tomou seu desjejum; seus olhos ocasionalmente se encontrando com os de Yuuki.
Poucas horas após o café da manhã, o menino estava sentado na varanda do dormitório, observando o céu levemente acinzentado. Estava calor, porém, por conta do clima nublado, não estava tão quente quando era para ser.
– Que tal um passeio, só eu e você? — Questionou Akane, por detrás dele, o surpreendendo; pensara estar sozinho quando ela apareceu.
– Isso é…
– Se não é um encontro, eu não sei mais o que é. E então? —Tornou a perguntar com um sorriso convencido em seu rosto. Claro, ele aceitou sem hesitar. Levantou dali e foi até seu quarto para se trocar.
Devidamente arrumado, saiu com ela do dormitório. Lado a lado, ela então agarrou seu braço, o trazendo mais perto de si, deixando o garoto corado. O clima frio a encorajou a ficar próxima do menino, do jeito que queria.
– A-Akane… — Chamou-a, envergonhado.Ela sorriu de seu jeito tímido.
– Eu te disse, não te disse? Você sabe bem em qual direção nossa “amizade” está caminhando. —Comentou, convicta, deixando uma leve risada. — Só aproveite o momento, bobo. Hoje o dia vai ser nosso. Só nosso. — Completou, de nariz em pé. Ele concordou, desviando um pouco o olhar; seu coração palpitava enquanto caminhava ao seu lado, tão próxima. Sabia o que sentia, e já não estranhava mais, pois já a via diferente.
De repente, uma ideia tomou a cabeça de Akane, que puxou o menino consigo. Sem entender, ele somente a seguiu; afinal, que outra escolha ele tinha? Foi então que ele percebeu que ela o havia atraído a uma possível teia de aranha: o lugar que ela o puxou não era nada mais, nada menos do que uma casa de banhos termais.
– A-Akane, e-eu acho que isso não vai ser uma boa ideia… — Nervoso ele respondia, tentando se afastar do lugar.
– Ah, Yuuki-kun, por que não? Seria legal aproveitarmos esse momento juntos… — Ela o provocou, com um sorriso travesso em seu rosto. Sua pegada firme no braço do menino fazia com que os esforços dele fossem em vão.
– M-Mas isso é muito íntimo. E mais, eles obviamente não vão deixar. — Yuuki contestou, um pouco desesperado.
– Relaxa, vai ficar tudo bem. Vamos. — Concluiu, vencendo-o e puxando ele para dentro do estabelecimento. Ali dentro, haviam duas áreas separadas, uma para homens e outra para mulheres.
– Boa tarde, no que posso ajudar? — Questionou a recepcionista.
– Boa tarde. Um banho para dois garotos, por favor.
E ao ouvir aquilo, Yuuki tomou um breve susto, seguido rapidamente de uma decepção. A recepcionista, estranhando, olhou Akane de baixo a cima, a analisando com certo cuidado.
– Me desculpe, mas banhos mistos são proibidos nesse estabelecimento. — Concluiu sem hesitar, ajeitando seus óculos, para a infelicidade da moça.
– Mas não vai ser banho misto, são dois garotos que vão entrar, ele e eu. — Insistiu Akane, até mesmo utilizando pronomes masculinos, para mais infortúnio do menino. O jeito dela falar chamou um pouco a atenção da recepcionista.
– Você… é um garoto? — A mulher perguntou, de forma cética a respeito do dito pela garota, que afirmou sua palavra. — Certo, certo. E eu sou a imperatriz do Japão. — Concluiu sua nota de puro sarcasmo em direção a menina. Miyagi, claro, achou aquilo um absurdo.
– Acha que estou mentindo? — Indignou-se com a atitude da recepcionista. Yuuki, do contrário, já sentia que aquilo poderia ocorrer.
– Querida, boba é o que eu não sou. Já vi passar todo tipo de gente por aqui nesse balcão. Mas vou te dar crédito por sua ousadia. Regras são regras: nada de banhos mistos.
Ela então olhou para Yuuki, seu olhar afiado, como que carregado de julgamento. Este mal conseguia olhar de volta, tamanho era seu nervosismo naquela cena.
– Seu amigo aí pode entrar no lado masculino do estabelecimento. — Proferiu, retornando o olhar para a moça. — A senhorita, entretanto, não pode entrar com ele. Você deve adentrar o lado feminino do estabelecimento. — Procedeu. Hisashi, em leve temor, segurou o pulso de Akane, que lhe deu atenção.
– Akane… vamos ir embora… já está claro que--
– Não, Yuuki-kun… nós já vamos. — Expressou Miyagi, o interrompendo. Seu tom havia certo descontentamento. — Mas antes de ir, só gostaria de deixar uma pergunta para a madame...
E então, Miyagi direcionou seu olhar para a mulher de olhos afiados a sua frente, e posou um sorriso levemente jocoso.
– ...O que será que aconteceria se eu tirasse a minha roupa no meio de um monte de mulheres e elas vissem que, no meio das minhas pernas, aonde deveria haver uma caverna, tem uma chave de fechadura ao invés?
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