Amethyst no Hana - A Flor de Ametista Original
50 Capítulo 49 - Os Ventos da Redenção
Sua visão começou a clarear do breu, revelando estar em um lugar familiar. O tom das cores parecia um pouco mais suaves do que o comum; estava em sua antiga casa, na sala de jantar. De um lado, uma figura feminina cuidava das louças e da comida. Não era possível ver seus olhos, somente seus lábios, em um semblante sério. Ao olhar para o lado oposto, estava uma criança, de cabelos curtos. Esta vestia uma camisa sem manga rosa, e shorts claros, olhava para fora pela janela. Era Akira, ele sabia disso. Estava convencido. Porém, brevemente ao lhe chamar, foi interrompido pela criança.
– Akira não está mais aqui. — Essa frase fez ele congelar, tendo o mesmo dado somente um passo em relação à pequena, engoliu a seco suas primeiras palavras.
– Mas você é o Akira--
– Eu não sou Akira. — Mais uma vez, fora interrompido pela voz do pequeno ser, que não se virava para encarar seu pai. Seu tom permanecia sério e determinado, mesmo que para uma criança.
– Querida… esse menino está enlouquecendo, não é? — Olhando para a figura que estava na cozinha, lhe dirigiu as palavras, esperando que esta fosse confortá-lo ou confrontá-lo. Porém, esta fingiu que ele não existia, e não disse uma palavra.
– Eu não sou um menino. — A criança quebrou o silêncio. — Eu sou uma menina. — Afirmou sem mudar sua postura vocal, gerando certa reação no homem. Este tentou reafirmar que a criança não era, porém, foi interrompido mais uma vez, afirmando que era, e que ele se recusava a ver.
– Papai. — Uma voz de criança veio por trás de si, chamando a atenção daquele que se virou para observar. A confusão permeou sua mente, pois aquela criança também era Akira, da forma que ele lembrava e conhecia.
– Aki… ra? — O homem questionou, desorientado ao olhar para o menino que ali estava a sua frente.
– Aconteceu algo? O que tem a onee-chan? — Com toda a inocência que uma criança poderia ter, assim perguntou Akira. Piscou seus olhinhos em curiosidade, não entendendo a situação.
– Akira… essa pessoa não é uma onee… …chan… — Igualmente confuso, tentou explicar ao pequeno menino e, ao olhar de volta para onde Akane estava, vislumbrou a mesma adolescente cujo brigou por anos e anos a fio.
A bela jovem, que estava de costas para ele, se virou e em passos serenos, caminhou em direção ao pequeno. O pai não pode se conter e acompanhou com o olhar a menina; o pequenino, sem hesitar, comentou o quão linda era sua irmãzona. Em um gesto de ternura, ela então o abraçou por trás, também com um sorriso no rosto. Todavia, sem o pequeno perceber, o semblante de Akane tornou-se de alegria em tristeza.
– Por quê você está procurando por outra pessoa… sendo que eu sempre estive aqui… pai...
Proferiu a menina aquelas palavras em direção ao pai, e este sentiu como se cada palavra fosse uma lança não somente afiada, mas também pesada a atravessar seus ombros e peito. Tudo aquilo então se dissipou enquanto acordava levemente suado e ofegante. O que queria dizer tudo aquilo? Akane era mesmo real? Se era, aonde estava Akira, seu filho? Eram tantas perguntas cujo não tinha bem as respostas na mão.
Tendo se arrumado, pegou as chaves de seu carro e o dirigiu até seu trabalho. No escritório, antes de começar a trabalhar, cumprimentou os outros funcionários. De alguma forma, havia uma energia diferente naquele ambiente por conta dele.
…
No horário de almoço, ele então se juntou com alguns colegas de firma, se sentando a mesa com eles. Após terem almoçado, o homem pediu para que um de seus colegas ficasse, pois gostaria de conversar com ele.
– Mutou… não sei se você vai saber me responder isso mas… o que você acha que quer dizer quando alguém te pergunta o motivo de você procurar alguém que já estava lá a muito tempo? — O homem lhe perguntou, franzindo o cenho com as mãos cruzadas na altura do nariz, de forma reflexiva.
– Está passando por problemas com mulheres, Souichiro? — Observador, Mudou perguntou-lhe, seu tom de voz passando confiança.
– Não é bem isso… Bem, digamos que é e não é… — Coçou a cabeça, um pouco sem saber como explicar. — É complicado, mas vou tentar explicar…
E então, Souichiro o explicou toda a situação com o filho, que agora jurava ser sua filha, também lhe contando do sonho que teve; Mutou prestava atenção a cada palavra que ele dizia, antes de enfim poder dar sua opinião.
– Sua filha tem toda a razão. — Calmamente pronunciou o homem de cabelos negros e barba rala após suspirar.
– Mas não é possível… — Souichiro comentou, desacreditado das palavras que vinham da boca de seu colega de trabalho.
– Souichiro… — Mutou procurava as palavras mais adequadas, reparando na expressão de cansaço daquele homem. — ...você alguma vez já tentou enxergar a situação com outros olhos? Já se pôs no lugar dela para ter uma noção?
Seu silêncio já atestava sua resposta mediante a aquelas perguntas, fazendo o colega de trabalho lentamente acenar negativamente.
— Era o que eu esperava. — Apoiou assim as mãos sobre a mesa, fazendo fitar a Souichiro seu olhar. — Sendo sincero, você… deveria tratar sua filha de forma adequada.
Olhava para o homem de maneira firme, como se desejasse que este absorvesse suas palavras.
— Com a história que você me contou, aliado ao sonho que teve… não é a toa que sua filha guarde essa mágoa. — Mutou suspirou. Parecia sentir o peso de tudo aquilo, mesmo não sendo ele que estivesse passando por aquela situação. Ainda assim, permaneceu sereno, enquanto o amigo abaixava a cabeça, tentando processar tudo aquilo.
— Você mesmo escolheu ignorá-la, se prendendo a algo que já não existe mais. E esse algo é o Akira. Ele não só é parte da sua memória, mas se tornou para além disso, um ideal de quem aquela pessoa é para você.
As palavras de Mutou carregavam para Souichiro sensações tanto reconfortantes quanto incômodas. Como um adendo, Mutou o aconselhou que o mesmo procurasse um psicólogo, a fim de tratar esse problema mais a fundo, levantando-se e então retornando para o prédio da firma, encerrando assim aquela conversa.
…
Horas após, tendo ele saído do trabalho, pensava enquanto retornava para seu lar. No meio do caminho, se deparou com Akane, o que instaurou um clima de tensão entre os dois. Ali, na calçada, o silêncio parecia reinar, enquanto ambos se encaravam; o coração de Souichiro parecia estar inquieto. O homem estava sendo preenchido por uma ansiedade cujo nunca sentira antes, ainda mais depois da conversa com Mutou. Estava dividido entre as suas convicções, e a realidade apresentada não somente por ela, mas também pelo colega de trabalho.
O que ele poderia falar naquele momento para quebrar aquele gelo? Um “Oi” talvez? Um “Me desculpe”? Não, aquilo não iria colar. Queria dizer algo, mas temia falar algo que pudesse piorar sua situação extremamente delicada com ela. Era como um barril de pólvora, e uma palavra mal escolhida seria a fagulha que faria o desastre se concretizar.
A moça então deixou de o encarar, retomando seus passos em direção ao dormitório. Por um momento, pensou que ela era tão fria a ponto de não ter lhe dado uma chance de tentar; todavia, afastou aquela mentalidade de si. Sabia que ela não seria injusta daquela forma, afinal, ela estava dando a ele a última chance de este se redimir com ela ou cortar aqueles laços por toda uma vida. Sendo deixado sozinho, olhando para a luz do poste a se acender, ele refletiu por um breve momento, antes de chegar a uma conclusão:
“Talvez… eu precise mesmo de ajuda…”
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