American Survivors
2 Capítulo Um: Bem-vindo à Nova Era - Parte 1
Notas iniciais
Capítulo Um
O clima estava denso demais para o que parecia uma “manhã ensolarada” de outubro, como dissera o meteorologista naquela manhã. Steve estava deitado em sua cama grande, bagunçada e fedorenta, cochilava enquanto assistia TV. Um som estranho o fez acordar, então preferiu voltar a olhar para a televisão, que apresentava uma reportagem sobre um alvoroço relacionado ao estranho comportamento de certas pessoas em algum local da cidade. Piscou lentamente os olhos verdes e passou a mão nos cabelos dourados e lisos. “O que poderá ter acontecido?”, pensou. Levantou-se preguiçosamente da cama e andou em direção ao banheiro, ainda estava sem roupa alguma – tinha o costume de dormir despido. O banheiro estava como sempre: imundo. Homens podem ser bem repugnantes quando querem, especialmente Steve. Entrou no box do banheiro, tomou um banho rápido e saiu de lá já vestido – uma camisa branca cobria seu peitoral musculoso e um par de calças escuras vestia suas pernas longas. Calçou os sapatos e andou até o criado-mudo, abrindo a gaveta e tirando de lá uma .45 Colt automática conhecida como “M1911”.
Apesar do frio, sentiu vontade de sair para arejar as ideias. Sentia-se sozinho. Não tinha esposa, filhos, sequer família. Seus pais haviam morrido quando ele acabara de completar nove anos de idade, causando uma dor que jamais seria curada. Verificou se arma estava carregada – estava – e desceu as escadas, pegando a jaqueta que estava jogada no corrimão. Abriu lentamente a porta da frente e sentiu a brisa gélida daquela manhã − não fazia ideia alguma do caos que se espalhava pelo país naquele exato momento. A rua estava vazia do jeito que Steve adorava, pelo menos poderia acender seu cigarro matinal sem que algum não fumante o incomodasse. Um barulho ecoou dos arbustos e ele olhou ao redor, vendo que estava completamente sozinho, mas sentiu que deveria retirar a arma do bolso da jaqueta para evitar qualquer tipo de surpresa desagradável.
Remexeu o bolso da calça jeans em busca de um cigarro e o tirou de lá assim que o encontrou, posicionando-o no canto dos lábios e acendendo-o quando alcançou seu isqueiro gasto. Deu uma breve tragada e começou a observar a extensão da rua, notando que ao final dela havia uma pequena moça com os cabelos ruivos desarrumados, agitando os braços e gritando algo que ele não conseguia compreender. Era magra e alta, seus cabelos ruivos eram lisos – apesar de estarem extremamente bagunçados – e uma franja reta cobria seus grandes olhos azuis esverdeados.
− Meu Deus! Finalmente alguém, minha nossa! Meu nome é Audrey, por favor, me ajude, por favor! – ela estava visivelmente alterada, o desespero evidente em sua voz. – Encontrei meu namorado com metade do corpo arrancada, não sei se você ouviu falar sobre alguma reação estranha que tem acontecido em alguns lugares da cidade, não sei quantas pessoas estão sabendo... – parou rapidamente para respirar e logo continuou. – Estava falando com uma amiga quando o sinal foi cortado, ela me contava sobre uma espécie de vírus ou algo do tipo que se espalhou pelo país. Você está sabendo? Diga alguma coisa!
− Acalme-se – o olhar de Steve era debochado. Não conseguia evitar, aquela cena toda o fazia rir, aquele desespero exagerado que ele só havia visto em seus treinamentos de guerra. Jamais ouvira tanta baboseira em tão pouco tempo. – Um vírus? Que tipo de vírus? Está brincando comigo? É algum tipo de piada?
− Piada?! Você acha que eu estou brincando? Claro que não! Minha amiga, Lisa, estava contando sobre uma garota que foi mordida por um colega de classe e, vinte e três horas depois, estava fazendo o mesmo com sua família. Não estou brincando, você tem que acreditar em mim. Agora a família da garota está morta, pois ela os comeu. – ela o olhou diretamente nos olhos, fazendo-o notar que seus olhos eram azuis com leves nuances de verde esmeralda. O que o fez acreditar em cada palavra que saía de seus lábios avermelhados.
O homem alto que estava intrigado com a ruiva olhou novamente para a rua, observando outra figura feminina. A garota seguiu seu olhar e ambos perceberam que uma moça de longos cabelos castanhos se aproximava, sua perna sangrava e parecia quebrada pelo modo como a arrastava.
− Acho que ela precisa de ajuda – Steve disse ironicamente.
− O que aconteceu com você? – gritou a ruiva, preocupada com a garota que parecia estar extremamente machucada.
− Espere – ordenou Steve, bloqueado a passagem de Audrey, que pretendia ajudar a morena. – O que aconteceu com a sua perna?
− Eu acho que quebrei. Minha família foi infectada pelo vírus, tive que matar meus pais, minha avó, meu irmão... – sua garganta se fechou ao lembrar-se de todas as mortes causadas por ela. – Eu me machuquei quando pulei da janela do segundo andar da minha casa, ela é bem alta. Estou coberta com o sangue deles.
− Hum – Steve parecia desconfiado – É realmente isso?
− Eu estou dizendo a verdade! Pode verificar – estendia os braços para que pudesse ser revistada. Audrey aproximou-se e verificou cada canto de seu corpo. – Viu?
− Isso não quer dizer nada, não sei quais são os sinais – o pouco que Audrey sabia já havia sido revelado. Um pequeno grupo de pessoas infectadas que estava aumentando em um curto período de tempo. Se ao menos tivesse pensado em assistir o noticiário matinal...
− Você vê alguma mordida em meu corpo? Algum arranhão? Algum sinal daqueles monstros?
− Que monstros? – monstros comedores de carne humana, que poucos sabiam da existência até agora. Steve lembrava aos poucos o que vira na televisão mais cedo: “Ao que parece, um vírus muito poderoso tem se espalhado por todo o país, seus sinais iniciais mais comuns são pele levemente esverdeada, febre alta, fala confusa e logo”, a jornalista Emily Monroe fez uma pausa, “uma estranha vontade de carne. Mas o que eu deixo avisado é que não é apenas uma pequena vontade de qualquer carne, a carne em questão é humana.” – O vírus é transmitido através da mordida – disse mais para si mesmo do que para as duas moças.
− Sim – sussurrou a moça que estava machucada.
O olhar perdido do rapaz de repente se transformou em um olhar firme. Ele colocou a mão no bolso esquerdo da jaqueta e retirou de lá um pequeno pedaço de papel e uma caneta. Audrey e a garota de longos cabelos castanhos olhavam atentas para o que ele estava escrevendo, até que ele parou e entregou o papel à Audrey.
“East Capital Street, N° 354. Segunda casa à direita, portão preto”, dizia o papel pouco amassado.
− Caso precise da minha ajuda, é só me procurar. Até outra hora – Virou-se e andou pela rua deserta, indo em direção a sua casa. Passando pelas vitrines das lojas de aparelhos eletrônicos, Steve conseguiu ver que todas as televisões estavam fora do ar. Estranho. Tudo aquilo era muito estranho. Eram realmente bem ingênuos para enxergar o que realmente estava acontecendo.
Audrey olhava para o endereço escrito no papel amassado. Não acreditava como aquele homem poderia ser tão insensível. Como pôde lhe deixar sozinha com uma completa estranha que mal podia se aguentar em pé?! É claro que Audrey sabia usar uma arma de fogo como ninguém. É claro que sabia lutar para se defender sozinha, mas sabia que precisava da ajuda de alguém forte e capaz. Alguém como ela. Observou Steve caminhar rua adentro e correu apressada para segui-lo. Reduziu a velocidade de seus passos à medida que se aproximava do homem que havia entrado em uma casa, sua casa. A porta estava aberta − “knock knock” – e ela bateu duas vezes antes de entrar no local. Ele estava sentado em uma poltrona verde musgo, com o queixo apoiado nas mãos e o olhar perdido.
− Sei que talvez não precise da minha companhia... Mas eu preciso da sua. – disse a ruiva, com o olhar fixo em Steve. Ele levantou lentamente a cabeça e a observou. Passou rapidamente o olhar por aquele corpinho magro e pálido. Em outras circunstancias, ele poderia facilmente se sentir atraído por ela, mas sabia que aquele não era o melhor momento, nem lugar. Jamais seria.
− Ah, precisa de mim?! Diga o que precisa – pronunciou enquanto ainda coçava o queixo e arqueava a sobrancelha.
Ele notou uma garota desconhecida adentrar o local e a olhou confuso. De repente, a moça segurou o braço de Audrey, apontando para algo que estava do lado de fora da casa e perguntando o que era aquilo. Todos na sala ficaram boquiabertos ao se depararem com um homem devorando uma criança, uma pequena menina. O vestidinho rosa estava em pedaços, alguns até estavam nos dentes do homem que arrancava as tripas da criança. Poucos minutos depois, se ouviu um barulho vindo ao decorrer da rua – era a primeira garota, com a perna quebrada, que lutava para chegar onde todos estavam – o que chamou a atenção do “monstro”, que logo se colocou a correr em direção à garota, obviamente para devorá-la e despedaçá-la. “Aquela maldita garota”, pensou Steve. A ruiva olhou confusa para Steve, esperando que o mesmo tomasse alguma providência. Nada. Ele não pretendia salvar aquela frágil moça que lutava para sobreviver.
− Esperem aqui – disse a garota, retirando-se da residência. – Não saiam daqui, vou tentar trazê-la para cá. – correu o mais rápido que pôde, olhando assustada para a moça. Correu em sua direção, pegou em seu braço e o colocou em volta de seu pescoço, apoiando o peso de seu corpo no dela e a ajudando a entrar. – Você está bem? – perguntou, assim que a garota sentou no sofá. Steve apenas observava com um sorriso nos lábios.
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