American Idiot
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Annabeth
A chuva caia em cascatas, era absurda a quantidade de agua que vinha do céu. O asfalto, em poucos minutos, já estava escuro e preenchido por pequenas posas. Eu desviava delas lentamente, minhas roupas, já encharcadas, pesavam no meu corpo, e minha mochila escorregava do meu ombro. Travei meus passos e olhei para o céu negro, deixando as gotas baterem com força nas minhas bochechas. Apesar de tudo, a sensação era incrivelmente agradável, permitia que eu sentisse o mais raro de todos os sentimentos. Liberdade.
Continuei a caminhar lentamente, não sentia a necessidade de chegar ao colégio, naquele momento, nada mais importava. Só a chuva.
Por mais estranho que isso pareça, não pude evitar pensar no quanto de H2SO4 fazia parte de toda aquela chuva. Morar na cidade às vezes era uma desgraça, porém, atualmente, no campo já não devia ser tão diferente.
Avistei ao longe o prédio branco e azul escuro que era a escola para moças e rapazes superdotados. Atravessei a rua de cabeça baixa, mesmo depois de cinco meses, ainda não estava acostumada a tudo aquilo. Apesar de gostar muito de estudar, eu não fazia parte desse mundo, me sentia preza e sufocada a maior parte do tempo, porém, dentro daquelas salas e corredores, essa sensação se intensificava. Era como se estivesse no pior dos estágios de afogamento, aquele em que o desespero esta maior do que nunca, seus pulmões doem tanto em busca de ar que parecem que vão explodir. E o pior de tudo, por ainda restar um pingo de vida, a consciência ainda não abandonou seu cérebro, tornando tudo o mais aterrorizante possível.
Era assim que eu me sentia dez horas durante os cinco dias da semana e mais cinco nos sábados. Estremeci, o esperado era que tudo isso fizesse a diferença, porém, estava cada vez mais impossível sobreviver naquela escola.
Abri o portão e andei a passos largos pelo caminho de pedra cercado pelo gramado verde, agora encharcado. Levaria uma bronca daquelas, nunca cheguei tão atrasada assim em uma segunda feira. Ainda mais com as roupas molhadas. Estava ferrada.
Abri a porta lentamente e espiei os corredores, apenas com a cabeça para dentro do recentemente reformado prédio. Estava vazio, pelo menos isso. Respirei aliviada. Agora era só chegar até o meu armário, trocar de roupa e esperar para poder entrar na segunda aula. Claro, sem ser vista por ninguém. Bom, as chances eram mínimas, mas ainda havia chances.
Respirei fundo e entrei na escola. Andava o mais rápido possível pelos corredores, sempre evitando as câmeras de segurança. Olhava freneticamente para os lados, até finalmente virar à esquerda e parar no armário 437. Primeira etapa concluída. Coloquei rapidamente a senha no cadeado e comecei a procurar minhas roupas reservas. O barulho das gotas pingando da minha jaqueta e dos meus cachos loiros era ritmado e ecoava pelos corredores. Franzi o nariz. Era melhor andar mais rápido.
Peguei um jeans e uma camiseta qualquer, a jaqueta da escola estava completamente molhada, bom, ponderando entra a bronca por estar sem uniforme e a de matar aula, a primeira era a mais aceitável. Fechei o armário e corri para as escadas que levavam ao subsolo, onde a quantidade de monitores era nula e a de câmeras era bem menor, o banheiro, consequentemente, deveria ser menos frequentado.
Chegando ao último degrau olhei para os dois lados e me certifiquei de que naquele andar encontrava-se apenas eu, o banheiro acoplado ao vestiário e a piscina. Segunda etapa quase concluída. Andei pelo largo corredor agarrada as minhas roupas e ajeitando a minha mochila vermelha nas costas. Quando cheguei a uma bifurcação olhei para os dois lados, duas portas brancas e as duas sem identificação. Minha respiração estava pesada e meus cabelos molhados caiam em meus olhos. Afastei-os impacientemente e tentei pensar. O cheiro de cloro invadia os meus sentidos. Uma seria a do banheiro masculino e a outra do feminino certo? Bom, era o mais provável.
Ponderei por um tempo qual seria qual. Estava demorando muito, tinha que me apresar. Decidi pegar a da direita, não importava muito, os dois provavelmente estariam vazios e, qualquer coisa, eu conseguiria lidar com um banheiro masculino por cinco minutos. Segurei na fria e prateada maçaneta e girei-a, entrando decidida no banheiro, fechando a porta atrás de mim. Respirei fundo. Segunda fase completamente concluída. Salva por alguns minutos.
Joguei minha mochila de lona ainda molhada no chão e coloquei minhas roupas secas no banco mais próximo. Não daria tempo de tomar um banho quente então tratei logo de tirar minha jaqueta com a insígnia do Colégio Half Blood e joga-la ao lado de minha mochila. Precisava de algo para me secar e comecei a andar em busca de alguma toalha por entre os armários prateados do vestiário. Eu andava em direção aos chuveiros e quando ia virar na grande passagem acabei batendo a cabeça e caindo com tudo no chão. Fechei os olhos e esfreguei a minha cabeça. Mas o que acabou de acontecer?!
Ouvi uma voz praguejando baixinho. Abri os olhos repentinamente e encarei all-stars prestos de cano alto na minha frente. Comecei a subir os olhos devagar passando pelos jeans azul escuro e parando no rosto de um moreno sem camisa, com cabelos molhados e com uma toalha enrolada no pescoço. Ele também esfregava a cabeça e estava de olhos fechados.
Ainda com a mão em minha cabeça encarei-o. Ele abriu os olhos e me olhou surpreso. Seus olhos levemente arregalados eram verde mar. Perdidamente fascinantes.
– Quem é você e o que esta fazendo aqui?
Arrogante. Típico.
Desviei o olhar e resmunguei. Só me faltava essa. Minha cabeça doía, menino mais cabeçudo.
Espalmei minhas mãos nos chão de ladrilhos e me icei para cima. Em pé, olhei para minha calça e limpei-a levemente, observando a mancha embaçada no chão, provocada por minhas roupas molhadas. Levantei o olhar para seu rosto confuso.
– Tudo bem, aceito suas desculpas. – Falei, ignorando o que ele havia dito antes. Passei por ele, ainda estava em busca de alguma toalha. Parei em frente a um armário de alumínio e inspecionei-o. Snorkels, óculos de natação, pés de patos e pequenas pranchas. Bufei, nada de tolhas. Virei e dei de cara novamente com o moreno.
– É sério, você não pode entrar aqui. – Ele franzia as sobrancelhas, sério.
Cruzei os braços.
– E por que não? Você é o diretor agora?
– Não, porque aqui é o banheiro masculino e o treino de natação começa em dez minutos.
Bufei irritada.
– Esta bem, vou para o banheiro feminino. – Disse, passando por ele e saindo da ala dos chuveiros.
– Hey, loira. – Virei à cabeça para olha-lo. Ele sorria cinicamente. Idiota. – Não tem banheiro feminino nesse andar.
Bati com minha mão na testa e logo me arrependi. Maldito galo.
– Ai... – olhei para ele novamente. – Como assim não tem banheiro feminino? E a outra porta?!
Ele cruzou os braços sobre o peitoral.
– Sala do treinador. E não tem banheiro para as mulheres porque elas não vêm aqui, o time de natação é apenas masculino.
Olhei para o teto. Só podia ser brincadeira, eu tinha menos de dez minutos para me secar e conseguir pegar a segunda aula sem ser percebida e esse garoto queria me expulsar do banheiro.
– Olha... – Falei me aproximando dele e me concentrando ao máximo para olha-lo do pescoço para cima. – Eu só vou usar o seu precioso banheiro por uns dois minutos e depois eu sumo daqui ok? – Eu sei que estava sendo presunçosa, mas esse menino me irritava.
Ele sorriu despreocupado e me olhou nos olhos.
– Se esta tão desesperada assim... – Levantei uma sobrancelha. Abusado.
Peguei minhas roupas no banco e caminhei até uma das cabines. Quando ia entrar travei meus calcanhares e girei nos mesmos. O idiota me encarava com seus lindos olhos, ainda de braços cruzados.
– É... será que você teria uma... – Eu pigarreei, odiava gaguejar.
Ele riu, um riso contido, porém gostoso de ouvir. Tirou a toalha de seus ombros e jogou para mim, deixando seus corpo mais a mostra.
– Esta meio molhada, não tenho outra e não espera ter que dividir.
– Obrigada. – Disse de mau gosto e entrei na cabine. Meu rosto estava estranhamente quente. Balancei a cabeça, relevante.
Sequei-me o mínimo possível com a toalha do estranho, que infelizmente tinha um cheiro agradável e viciante de maresia. Revirei os olhos, era só o que me faltava. Coloquei a roupa seca e sai da cabine encontrando o garoto, agora com a camiseta laranja do colégio, sentado no banco ao lado das minhas coisas. Ele franziu levemente a testa.
– Sem uniforme?
– Se você não percebeu, estava totalmente encharcado. – Joguei a toalha de volta para ele e guardei a minha roupa molhada envolta de saquinhos plásticos dentro da mochila.
– Caiu na piscina por acaso? – Ele perguntou enquanto se levantava.
– Não, só passei pelo fim do mundo lá fora.
Ele sorriu e se afastou, andando até os armários, depois voltou com uma jaqueta branca do colégio.
– Aqui. – Ele jogou-a para mim.
– O que? – Peguei-a desajeitada.
– Para você não tomar castigo pelo uniforme. – Alternei o olhar entre a jaqueta e ele, descrente.
– E por que eu deveria aceitar?
Ele revirou os olhos verdes.
– Pare de ser durona e aceite logo. Depois é só devolver para o capitão do time.
– Que seria...?
Ele andou até mim e estendeu a mão.
– Prazer, Percy Jackson e capitão do time de natação.
Eu sorri, impossível conter.
– E idiota de plantão. – Apertei sua mão. – Annabeth Chase, encrencada por gostar de andar na chuva.
– E chata de carteirinha. – Ele completou ainda segurando a minha mão. Encaramo-nos por alguns segundos, até que um leve sorriso surgiu por seus lábios. Aquele sorriso conseguia ser mais bonito que seus olhos. Eu sorri de volta, espontaneamente.
Me sentia hipnotizada, estava em transe e estranhamente confortável. As mãos ainda interlaçadas. Até que o sinal tocou e eu me dei conta. Estava atrasada, de novo. Arregalei os olhos e soltei relutante sua mão.
– Ah... obrigada... eu acho. – Disse apresada enquanto vestia a jaqueta e andava rapidamente até a porta, joguei minha mochila nas costas e a abri.
– Não foi nada... – O ouvi falar baixinho. Sorri de costas para ele e terminei de atravessar a porta, fechando-a atrás de mim. Respirei fundo novamente aquele cheiro de cloro, agora misturados ao do moreno. Comecei o meu caminho até a aula de Química Avançava, desembaraçando meus fios loiros com os dedos. Sorria enquanto pensava no quão idiota era Percy Jackson.
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