American Gurls
43 Forever Dreamers.
Notas iniciais
Playlist:
Barbara
A vida andava como uma montanha russa que só subia. Às vezes dava uns loops, mas só para dar emoção à trajetória.
Depois que Logan e eu casamos, nós mudamos de Palm Woods, assim como todos os nossos amigos. Tínhamos nossa própria casa, mas não nos livramos tão fácil dos outros três casais, pois morávamos todos na mesma rua. Acabou que não foi tanta mudança assim, né.
A banda Big Time Rush acabou logo depois. E cada um dos quatro seguiu seus sonhos antigos. Logan está estudando para ser médico, falta pouco para ele se graduar. James é multifuncional: canta solo; é modelo e há pouco lançou sua própria linha de roupas masculinas e bandanas. Carlos voltou a jogar hóquei, virou jogador profissional. Já Kendall, quem eu achei que ia voltar a jogar também, escolheu a carreira solo e só assiste os jogos de hóquei mesmo.
Sobre as garotas, Jessica continua construindo seu império na música, montou até sua própria gravadora. Jo é cada vez mais uma atriz renomada, até trabalhamos juntas algumas vezes. Dria teve que cessar seus trabalhos como modelo pelo menos por um tempo até voltar à forma, por causa de uma menininha que está crescendo em sua barriga. Bem, e eu estou expandindo meu trabalho. Continuo me dedicando à outras séries, mas as propostas de filmes não param de chegar.
É, a vida anda boa de verdade.
Nós decidimos alugar uma casa em Maui, no Havaí, para passar o verão. Depois das diversas aventuras em que nos metemos durante quase três meses, entre elas: escalar; saltar de bung jump; surfar (ou "tomar caldo" como eu prefiro chamar); fazer trilhas no meio da floresta; visitar cachoeiras e fazer mergulhos incríveis no mar; no nosso último fim de semana, tivemos uma ideia tranquila para animar a nossa sexta-feira. Dispomos quatro toalhas circularmente pela areia da praia. As garotas e eu ficamos colocando os marshmallows nos espetos enquanto os garotos foram buscar lenha. No fim, fizemos uma fogueira para aquela fria noite e sentamos em volta dela.
Usamos as toalhas que sobraram como cobertores, pois nossos casacos não surtiam o efeito desejado contra o frio. Cada casal compartilhava uma toalha, ninguém reclamou. E depois de nos entupir de mashmallows e contar histórias malucas, Jessica e Kendall trouxeram seus violões para a nossa roda e começamos a cantoria em coro desenterrando algumas musicas. Começamos com Cover Girl, Worldwide, Crazy For You e depois Jessi tomou a liberdade de tocar uma de seu álbum. Em seguida, ela cantou sozinha Brick by Brick da Katy Perry, e meus olhos se encharcaram de tão lindo que foi. Aquela música era a cara dela. Depois ela desenterrou California King Bed da Rihana, e em seguida You And I da Lady Gaga, trocando na música as palavras "Nebraska" por "Minnesota". Nós batíamos palmas acompanhando a canção até o final, quando todos nós enlouquecemos gritando:
– You and I! You-you and I! I'd rather die! Without you and I!
Após passar o momento Rock 'n Roll, Jessica terminou docemente com os olhos fixos em James.
– It's been a long time since I came around. It's been a long time, but I'm back in town. And this time I'm not leaving without you...
Batemos palmas e assobiamos quando James beijou Jessica no fim da música.
– Qual cantamos agora? — Kendall perguntou. E após um momento de silêncio, Jessica se pronunciou.
– Eu já sei. — Ela disse olhando para mim com um sorriso no canto da boca. — Mas vou precisar da sua ajuda, Barbie. — Eu quase me irritei por ela ter me chamado daquela maneira, mas assim que ela começou a tocar as primeiras notas no violão, eu reconheci logo de cara.
Era a canção tema da minha serie. Se chama American Girl, do Tom Petty, mas quem canta na abertura é a Taylor Swift. Eu conhecia a música inteira, mas os outros só sabiam pouco mais que o refrão, porque era só o que tocava na introdução da serie.
Mesmo não tendo a voz incrível da Jessi, eu me esforcei para cantar a primeira estrofe.
Well, she was an American girl
Bem, ela era uma garota americana
Raised on promises
Criada por promessas
She couldn't help thinkin' that there
Ela não conseguia deixar de pensar que
Was a little more to life
Havia um pouco mais para a vida
Somewhere else
Em algum lugar
After all it was a great big world
Apesar de tudo, era um ótimo grande mundo
With lots of places to run to
Com vários lugares para correr
Yeah, and if she had to die tryin'
É, e se ela tivesse que morrer tentando
She had one little promise
Ela tinha uma pequena promessa
She was gonna keep
Que ela iria manter
Pelo menos no refrão eu contei com a ajuda de todo mundo.
Oh yeah
All right
Tudo certo
Take it easy baby
Vá com calma, baby
Make it last all night
Faça durar toda a noite
She was an American girl
Ela era uma garota americana
It was kind of cold that night
Estava meio frio aquela noite
She stood alone on her balcony
Ela ficou sozinha na sua varanda
She could see the cars roll by
Ela podia ver os carros passando
Out on 441
Na estrada 441
Like waves crashin' in the beach
Como ondas quebrando na praia
And for one desperate moment there
E por um momento desesperado
He crept back in her memory
Ele rastejou de volta a sua memória
God it's so painful
Deus, isso é tão doloroso
Something that's so close
Algo que está tão perto
And still so far out of reach
E continua tão fora de alcance
Oh yeah
All right
Tudo certo
Take it easy baby
Vá com calma, baby
Make it last all night
Faça durar toda a noite
She was an American girl
Ela era uma garota americana
Observamos embasbacados Jessica fazer um solo de violão incrível.
Oh yeah
All right
Tudo certo
Take it easy baby
Vá com calma, baby
Make it last all night
Faça durar toda a noite
Oh yeah
All right
Tudo certo
Take it easy baby
Vá com calma, baby
Oh, take it easy now
Vá com calma agora
Oh yeah
All right
Tudo certo
She was an American girl
Ela era uma garota americana
Ao fim da canção, batemos palmas para nós mesmos. Foi difícil não me emocionar com aquela canção presente desde o início da minha carreira. Um filme da minha vida passava na minha cabeça junto com essa música. Em especial tudo que aconteceu desde que eu deixei a casa dos meus pais quando eu só tinha 16 anos, até hoje. Mesmo as coisas ruins, tudo fazia parte da minha história e eu me sentia plena por chegar onde cheguei.
Começamos a relembrar coisas da viagem como quando Dria, mesmo grávida, escalou mais rápido que James, que se tremia nas rochas. E quando eu fui tentar surfar e me afoguei mais que outra coisa. Ou quando Carlos dormiu pegando sol na praia e acordou coberto de areia. E com peitos. Mas não foi pior que quando Kendall dormiu pegando sol na piscina e ficou parecendo um casadinho, queimado de costas e branco de frente e teve que dormir de bruços por uma semana.
– Ai, que vergonha! Vocês me fizeram rir tanto que eu fiz xixi! — Reclamou Dria, ainda rindo. Ficamos estáticos, sem saber se ficávamos surpresos ou enojados. Porém, segundos depois ela parou e observou suas coxas encharcadas. — Engraçado que não saiu da minha bexiga.
– Como não? — Carlos perguntou, confuso.
– Puta merda... — Escapou da boca de Jessica. Acho que ela pensou o mesmo que todo mundo.
– Então... isso é líquido amniótico. A bolsa "estourou". — Explicou Logan, pacientemente. Até que sua calma evaporou. — Ela precisa ir pro hospital agora!
– Mas nós não sabemos onde tem um hospital aqui perto! Estamos no meio do mato, esqueceu?! — Disse Kendall.
– Oh, então aquelas dores que eu estava sentindo não eram gases... — Dria comentou, então começou a se contorcer de dor.
– Eram contrações, sua maluca! — Gritei.
Todos se levantaram afoitos.
– Se não vamos atrás de um hospital, alguém tem que fazer o parto! — Carlos propôs, ajudando Dria a ficar de pé. Os olhos de todos pairaram em Logan.
– Vocês acham que eu sei fazer um parto?!
– Bem, você é o único que faz medicina aqui. Alguma coisa você sabe! — Disse Jessica.
– M-mas eu nunca fiz um parto na vida! — O desespero estava tomando de conta de cada um, enquanto Dria não parava de reclamar de dor.
– Logan, a gente não tem tempo pra você decidir, ou você faz o parto ou você faz o parto! — Ordenei, empurrando seu ombro.
– Tá! Tá bom! Podemos pelo menos entrar em casa?!
James se ofereceu para carregar Dria (lê-se "empurrou Carlos quando o mesmo tentou"). Fomos correndo para dentro como um monte de desesperados. Logan ordenou que pegássemos tesoura e o máximo de toalhas possíveis. Dria foi colocada no quarto em que ela e Carlos estavam dormindo. Depois que arrumamos tudo, Dria não se importou que ficássemos todos no quarto sendo espectadores de um nascimento.
– Nunca contei pra vocês que eu sempre quis um parto caseiro? Tô adorando isso! — Dria confessou. — Ai malditas contrações! Eu te disse pra nascer depois dessas férias, eu te disse! Custava ter esperado um pouco, Annabeth?
– Annabeth? — Indaguei.
– É! Não contei pra vocês — Ela deu uma pausa para grunhir de dor. Os olhos de Carlos quase saltaram pra fora, pois ela estava segurando a mão dele. — Que foi esse o nome que escolhemos pra ela? Annabeth Garcia. — Seu grito tomou conta do ambiente. Ofegante, continuou. — L-lindo, né?
– Logan! — Chamei. Ele havia ido no banheiro "esterilizar" as mãos, mas ele devia estar surtando lá dentro. Ele voltou correndo num instante. — É hoje que essa criança vai nascer, sabia?!
– Desculpa! Desculpa. — Logan sentou-se de frente para as pernas de Dria. — Com licença, Dria. — E levantou o lençol que a cobria.
Não era a imagem mais bela do mundo. Havia bastante sangue e dava pra ver um pedacinho da cabeça do bebê.
– Aquilo ali é o bebê? Que fofo... — James desmaiou no mesmo segundo, a visão foi um pouco forte pra ele. Jessi acordou-o depois de alguns gritos e tapas e ordenou que ele ficasse lá fora. Jo não aguentou e saiu do quarto também. Kendall fez cara de nojo, mas persistiu. Não sei se foi uma boa escolha, mas me sentei do outro lado de Dria e segurei sua outra mão. Era como eu podia apoiá-la nesse momento.
Lembrei-me de como descobrimos o sexo do bebê. Dria não queria saber e nem que nós soubéssemos também, mas Carlos não conseguiu aguentar a curiosidade e perseguiu o obstetra dela até arrancar a verdade dele, estragando toda a surpresa. E Dria adora surpresas. Ela só voltou a falar com ele depois que ele comprou uma pizza gigante só para ela.
– Agora, respire bem bem fundo e faça força enquanto eu conto até 10. — Mandou Logan.
Dria o obedeceu. Então eu me arrependi de estar segurando sua mão. Ela chorava de dor, Carlos chorava de dor, eu chorava de dor. E ela repetiu isso muitas vezes. Incontáveis vezes.
– Está quase lá, força Dria! — Logan anunciou, instantes depois, um choro de criança ecoou no ambiente.
Agora chorávamos, mas de alegria. James e Jo voltaram correndo. Logan embrulhou a criança numa toalha e chamou Carlos para cortar o cordão umbilical, que em seguida, pegou desajeitadamente sua filha nos braços e a trouxe para a mãe. Dria pegou a pequena Annabeth no colo e todos nós ficamos em volta dela. Era linda. Não havia uma pessoa que não estivesse chorando nesse quarto.
– Depois de tudo isso, definitivamente descartei obstetra da minha lista. — Disse Logan, limpando o suor da testa com o punho. Todos nós rimos em meio às caras vermelhas de choro.
Chorei por muita coisa, não apenas pelo fato da minha prima ter dado a luz, ou porque havia algum dedo da minha mão quebrado. Lembrei-me de eu já estive grávida, pensei em como seria minha vida se esse momento estivesse chegado. Se a minha filha tivesse nascido. A vida teria sido bem diferente. Mas, mesmo não sendo muito fã de acreditar que as coisas sejam assim, acabei me rendendo à ideia de que aconteceu por que tinha que ser.
Lembrei de todos os momentos difíceis involuntariamente. E pela primeira vez agradeci por eles terem acontecido. Pois eles ajudaram a me tornar quem eu sou hoje. Toda as dificuldades, todos os problemas, tudo valeu a pena. Eu tenho o amor da minha vida ao meu lado, tenho amigos incríveis que são como uma família para mim e uma carreira que vai decolar ainda mais. Apesar de estar tudo bem agora, eu ainda tenho grandes sonhos pra mim. A jornada pra chegar até aqui foi longa, mas ainda irei mais longe. Quem sabe ter um ou dois filhos daqui a alguns anos, comprar uma casa afastada do centro e trabalhar só em filmes para o resto da vida? Quem sabe?
A vida é tão inconstante, imprevisível e impiedosa, mas vale a pena ser vivida enquanto ainda se sonha. E eu garanto que não apenas eu, mas também Jessi, Dria, Logan, James, Kendall, Carlos, Jo... somos sonhadores eternos.
FIM.
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