Ameaça

2 Capítulo 2


— Acha que ele vai ficar bem...?

— Que pergunta. Claro que vai.

— Sua confiança é tão convincente...

— Mas eu tenho certeza que ele vai ficar bem!

Um suspiro exasperado.

— Dá para vocês dois ficarem quietos e pararem de brigar?

Um barulho incompreensível e murmúrios seguiram a aparente ordem.

— Não é como se o Kaoru ouvisse a gente...

— E como você sabe se ele ouve?

— Shhhhh.

O silêncio durou um pouco mais dessa vez. Kaoru ouvia as vozes e compreendia alguma coisa do diálogo que acontecia, mas não sabia direito quem falava. Conhecidas, mas não conseguia colocar em ordem.

Aproveitando o pequeno momento de calmaria, experimentou abrir o olho esquerdo. Deu de cara com uma lâmpada fortíssima, ligada bem acima da sua cabeça. Arrependendo-se profundamente de ter aberto o olho, fechou-o rapidamente. A luz havia piorado a dor que sentia na cabeça.

— Kaoru acordou?

— Anh?

— Vocês não viram? Ele abriu os olhos...

Barulho de cadeiras sendo arrastadas devagar. Kaoru havia reconhecido a última voz.

— Kaoru... Me wo akete...

Toshiya.

— Toshiya?

— Hai.

— A luz... Desligue.

— Nani? Ah... Entendi.

Kaoru ouviu um interruptor ser pressionado. Mais confiante, abriu os dois olhos. O cômodo estava bem mais confortável para a sua visão. Piscou algumas vezes, recobrando o foco. A imagem que apareceu na sua frente mostrava um rosto bonito, mas apreensivo e preocupado. Mesmo nas sombras era possível notar aquilo.

— Kaoru-kun, está tudo bem?

O líder virou a cabeça lentamente, desviando os olhos do rosto do baixista. Encontrou Shinya, com um semblante de preocupação parecido com o de Toshiya. Mas parecia ligeiramente irritado com alguma coisa.

— Hai, tudo bem. Eu acho.

Sentindo-se melhor no escuro, ergueu-se lentamente na cama, sendo prontamente ajudado por Shinya e Toshiya. O baixista arrumou os travesseiros atrás das suas costas, conduzindo Kaoru gentilmente para trás depois, até ter certeza que estava confortável.

O guitarrista olhou rapidamente o quarto. Estava dentro de uma sala do estúdio, que havia sido equipada como um consultório médico. Ninguém lembrava exatamente por que a decisão de um consultório ser montado havia sido tomada, mas Kaoru sentia-se grato por ter uma cama ali.

À sua direita, havia apenas Toshiya, que provavelmente estivera sentado em um banco ao lado da cama. Logo depois, a parede. Do outro lado, Shinya estava parado em pé, ainda olhando Kaoru. Atrás dele, havia espaço para uma janela e um sofá, onde Die se encontrava sentado, rolando um cigarro apagado entre os dedos. Kaoru não avistou Kyo.

— Shin?

O baterista piscou.

— Hai, Kaoru-kun?

— O quê aconteceu? Parece zangado.

Os olhos do outro homem se arregalaram. Kaoru havia notado aquilo?

— Iie, daijoubu da yo.

— Ele está zangado comigo, Kaoru. — ele viu Die se levantar e se aproximar da cama, parando ao lado de Shinya — Porque ele acha que eu fui o responsável por você estar aqui.

Shinya não verbalizou uma resposta, apenas suspirando com raiva e andando até a janela, prestando atenção anormal à paisagem do lado de fora.

— Responsável?

O olhar de confusão no rosto de Kaoru parecia ser evidente, porque sentiu sua mão direita ser envolvida pelas duas do baixista. Toshiya se sentou no banco novamente, com a mão de Kaoru entre as suas.

— Não se lembra do que aconteceu?

Kaoru inclinou a cabeça para ver Toshiya melhor.

— Lembro... De ter desmaiado. Na sala, lendo correspondência. Foi isso?

— Foi. — um aceno de cabeça por parte do baixista confirmou as palavras do líder — Mas lembra por que desmaiou?

Kaoru sentiu um estalido na sua cabeça. Provavelmente, era a sua cabeça voltando a funcionar.

— A caixa!

— Isso.

Kaoru olhou para a divisória que separava a cama onde estava do resto do \"consultório\", por onde Kyo havia entrado. Sem aviso, ele jogou uma lata de cerveja para Die, que a pegou no ar com habilidade. O vocalista aproveitou a mão livre para abrir a outra lata que tinha consigo.

— Kyo! Onde estava? — era a voz de Shinya, que lançou um olhar não exatamente aprovador para Die — Kaoru acordou... Faz algum tempo.

— Fora do prédio. Onde você queria que eu arranjasse cerveja gelada?

Suspirando, Kaoru decidiu falar antes que uma nova discussão começasse.

— Tudo bem, não tem problema. Mas Shinya... — Kaoru virou o rosto na direção do baterista — A caixa foi a responsável pelo meu desmaio, acho. Era uma ameaça, não?

— Era...

— E por que acha que Die tem alguma a coisa a ver com isso?

— Eu também gostaria de saber. — acrescentou o outro guitarrista, bebendo da lata. Kyo se encostou na divisória, apenas observando a cena.

— Por causa da promessa.

— O quê? — Die quase cuspiu o gole que havia tomado da cerveja — Kami-sama, Shinya! Por causa de uma promessa, acha que eu chegaria tão longe?

— Por que não? Afinal, a caixa foi mandada por alguém que sabia do endereço do estúdio, senão alguém de dentro. Não veio pelo correio, esqueceu?

O tom acusador na voz de Shinya fez Die dar alguns passos para trás.

— Shinya...

— Die, admita que faz sentido. — comentou Kyo depois de algum tempo de silêncio, arrumando os óculos escuros que estava usando.

— Faz, Kyo. Mas eu nunca aprontaria algo tão absurdo para o Kaoru.

— Para ganhar uma aposta? Uma promessa, ou o quer que seja? Não sei, Daisuke. — Shinya comentou secamente.

Kaoru viu o outro guitarrista morder os lábios, em uma expressão óbvia de descontentamento e dor. Apoiou a lata sem cuidado na mesa mais próxima.

— Shinya, se você realmente pensa isso ao meu respeito... Você não me conhece de verdade.

Sem mais palavras, saiu da sala, batendo a porta com algum barulho. Shinya apenas deu de ombros e se sentou no sofá, observando a lata de cerveja na mesa, abandonada.

— Que saída triunfal.

— Kyo... — Toshiya alertou o vocalista. O clima já estava bastante tenso.

— Shinya, você sinceramente acreditou que havia sido o Die?

O baterista deu um longo suspiro. Respondeu sem olhar nos olhos de Kaoru.

— Achei. Mas depois dessa reação dele... Eu já não tenho mais tanta certeza.

Um silêncio pesado se seguiu no quarto, e uma coisa que chamou a atenção de Kaoru eram os leves apertos que Toshiya dava na sua mão, ainda entre as dele. Olhando o baixista, notou que parecia absorto nos seus próprios pensamentos.

— Kami-sama...

Shinya estirou-se no sofá, deitando e olhando para o teto.

— Tenho certeza que Kaoru já está bem e agradece pela sua vigília. Pode ir atrás de Die se quiser.

Os outros três membros presentes se viraram para fitar Kyo. Shinya parecia levemente ruborizado.

— O quê foi? Disse alguma coisa?

Não podendo decifrar por completo a expressão de Kyo por causa dos óculos escuros, Kaoru decidiu não comentar nada. Mas se virou para Shinya, concordando silenciosamente com a cabeça.

Sem dizer nada, o baterista saiu sem barulho do quarto, levando consigo a lata esquecida.

Kyo deu uma risada baixinho, virando o último gole da sua própria lata e jogando-a no lixo, com um barulho metálico quando a lata bateu na parede antes de cair no cesto.

— Não corte a circulação dele, Toshiya.

E deixou o quarto.

O baixista ficou vermelho de repente, e soltou a mão de Kaoru. Parecia não ter notado que a estava segurando até Kyo falar.

— Totchi... Daijoubu?

O baixista levantou o rosto devagar, encarando os olhos preocupados de Kaoru. Levantou-se do banco, balançando a cabeça positivamente.

— Hai. Gomen, ne? Não tinha reparado.

— Não tem problema. — Kaoru sorriu.

Toshiya retribuiu o gesto com um pequeno sorriso dos seus.

— Sentindo-se melhor?

— Hai. Não sinto mais a minha cabeça doer. Aquela maldita luz... Me deu a impressão de eu estar de ressaca.

Toshiya sorriu mais abertamente.

— Entendi.

Kaoru se moveu para a ponta da cama, batendo de leve com a mão direita no espaço que havia deixado livre.

— Sente-se.

O moreno obedeceu, sentando-se na cama e olhando Kaoru.

— Quem será que enviou aquilo, Kaoru?

— Não tenho idéia, Totchi.

— Nem eu... E confesso... — Toshiya olhou as próprias mãos antes de encarar Kaoru — Que me assustei quando desmaiou.

O homem de cabelos roxos apenas sorriu.

— Acho que eu não desmaiaria em condições normais... Mas estava cansado, irritado e sem ter comido.

— Comido? Kaoru, não anda comendo direito?

— Eu esqueço de comer.

Toshiya olhou o amigo de forma suspeita.

— \"Esquece\" de comer? Vou ter que ficar ligando no seu celular e lembrando-o de engolir alguma coisa?

Kaoru riu.

— Não, eu vou entrar na linha.

— Espero. — respondeu o outro, dando um soco de brincadeira no braço de Kaoru — Não saia daqui, vou comprar alguma coisa para você comer.

— Eu não sou inválido, Toshiya. — Kaoru comentou com sarcasmo — Eu posso andar.

— Não, ainda não pode. Deve estar fraco. Eu vou e volto rapidinho.

Quando Toshiya ia se levantar da cama, sentiu seu pulso ser preso por Kaoru. Parou, olhando o guitarrista que observava a janela. A claridade natural diminuía aos poucos.

— Kaoru?

— Não estou com fome... — e acrescentou, vendo o olhar de Toshiya — Ainda.

— Não? Prefere descansar um pouco aqui?

Um aceno de cabeça por parte de Kaoru foi suficiente, e o baixista ajudou o amigo a se deitar novamente na cama, cobrindo-o gentilmente com os lençóis.

— Arigatou, Totchi. — murmurou o guitarrista, fechando os olhos.

— Dou itashi mashite... — ouviu alguns passos, e notou que Toshiya devia estar deixando o quarto. Mas para a sua surpresa, sua teoria se provou errada quando sentiu os lábios quentes do baixista se pressionarem contra a sua testa, beijando algumas mechas do seu cabelo — ... Kao. Oyasumi.

Mais passos e o barulho de alguma coisa se afundando no sofá. Abrindo os olhos apenas o suficiente para enxergar o mesmo, viu Toshiya deitado ali. Parecia cansado, e havia fechado os olhos.

Decidindo fazer a mesma coisa, Kaoru tornou a fechar os seus.

Continua...