Amatus
1 Capítulo Único — Feitiço
Perfeição e aparências, máscaras se preciso. Era tudo a qual Dorian convivia desde cedo e as tendências a magia não mudaram tal coisa, mas sim fez com que tudo se tornasse mais fácil, o filho único do líder do magistério deveria e se tornaria um grande mago e no futuro que lideraria a família Pavus em Tevinter.
Não sofria o mesmo destino que outras crianças, levadas de suas famílias para o circulo, não, Dorian vivia em um império que permitia a prática aberta de magia e incentivava seus magos a tal. Sem preconceitos, mas sem preconceitos a magia, o que não poderia ser dito de outros fatos. A perfeição era levada a sério. Etiquetas e formalidades exaustivas, ensinamentos sobre magia e religião do Chantria. Apenas era interessante como tudo se desenvolvia, como a magia em suas mãos era tão maleável, tão perigosa e mesmo com dez anos a malicia reinava seus olhos verdes. Mesmo sem um cajado, poderia fazer pequeno truques ou pegar entre a mesa de seu tutor frascos de armadilhas.
O palácio ou fortaleza que era sua casa parecia não ter fim com corredores, não precisava praticamente fugir como outros e se utilizava da influência de seu pai, afinal de contas, não escapava das aulas de religião por atenção dos pais ausentes, não, Dorian escapava por mera diversão. Era divertido, ainda mais quando a cavalaria tinha chegado, literalmente, e por razões que ninguém perguntava ao jovem Pavus, ele seguia para fora, tropeçando algumas vezes nos tecidos de sua roupa e sentindo o cabelo escuro lhe atrapalhar ao cobrir sua face para ver o caminho que seguia.
Por que tanta eufória? Os templários não passavam tanto tempo em Tevinter por “servirem” ao Chantria diferente de Tevinter, ou para ser mais exato, tomarem controle de alguns magos que aproveitavam a liberdade que Tevinter tinha. Mas ninguém, nem mesmo de Orlais pisaria em Tevinter, não por dignidade, mas talvez por medo das vestimentas e magias usadas.
— Pensava que não viria, Cullen – Sorria fracamente ao ver a miniatura de que um dia viria a ser templário.
Aquela era a cavalaria e ela tinha olhos que parecia uma poção de armadilha de abelhas, dourado e escuro, diferente do cabelo loiro. Tantas diferenças, as vestimentas, o modo de falar e principalmente a quem serviam e eram treinados. Dorian estudava magia, não apenas por apresentar dons para essa, mas por ser interessante, mas Cullen acabara sendo obrigado a se tornar um soldado.
Um soldado de Ferelden e um mago de Tevinter. Uma amizade incomum e amor de infância incomum.
— Eles viram você? – Perguntou com a voz de criança que tinha, olhando os cantos e olhando para Cullen que acabara rindo.
— Sou treinado para que inimigos não me notem, mas logo terei de ir... A caravana dos templários não vai ficar por muito tempo – Explicou, nervoso e com o rosto corado – Queria vê-lo e achei uma oportunidade...
— Veio para me devolver o feitiço que deixei em você? – Perguntou com humor, sorrindo ainda mais ao ver o rosto corado do outro – Foi no rosto que deixei – Enfatizou a lembrança.
— Eu sei que foi um beijo... – Resmungou.
— Cullen, foi um feitiço, mas se você quer acreditar nisso – Deu de ombros.
Eram engraçadas as reações de Cullen com as palavras e gestos que Dorian fazia. Adorável o seu soldado era e como seriam grandiosos caso se reencontrassem longe da circunstâncias atuais. O mago e o templário, isso não saía da cabeça de Dorian, parecia errado, mas era tão certo.
— Me enfeitice também – Sugeriu e Cullen o olhou surpreso.
— Mas...
— Não me diga que estás com medo... É apenas um feitiço – O incentivou.
E assim foi, devagar e lento foi o beijo suave de um soldado em seu mago, não nos lábios como os adultos costumavam fazer e sim no rosto.
— Um dia ainda irei lhe rever – Sorria – É uma promessa, Dorian.
Uma promessa que demoraria para acontecer, mas Dorian não sabia disso quando viu o garoto de Ferelden sair correndo pelo mesmo caminho da qual veio, quase tropeçando nos próprios pés e seguindo caminho até sumir pelo corredor.
Passado anos e o ensino ficou mais rigido e complexo, fazendo Dorian optar por estilos de magia proibidas, desobedecer e trazer dores de cabeça ao seu pai, mas passando a deixar de se importar com o que seu pai dizia mais a partir do momento que usou magia de sangue para converter o próprio filho, mudar algo que para Dorian era impedoável.
Então ele reencontrou aquele garoto que lhe fez uma promessa, crescido e tentando esquecer um vicio, um que Dorian não precisou perguntar, pois sentia e sabia onde ele esteve. Lirio vermelho, um veneno viciante.
No Refúgio mal se falavam, não conseguia uma conversa que durasse alguns minutos. Então veio o pior, o ataque de uma criatura que supostamente era para estar morta, esse furioso e fazendo todos de Refúgio recuarem e fugirem para longe.
Então na Fortaleza do Céu eles conseguiram ficar frente a frente, se afastando de agentes de Liliana que poderiam ocasionalmente ouvir a conversa ou qualquer um dos companheiros do inquisitor chamarem um de ambos.
Foi breve, apenas algumas palavras e depois o silêncio tomando conta da sala de Cullen, não recordaram o passado, Dorian se recusou a ser tolo em provocar o comandante da inquisição, em mencionar uma promessa tola de crianças em um império assustador.
— É estranha a circunstância da qual nos encontramos, meu amigo — Dorian voltou a falar, atraindo a atenção dele, quase se perdendo naquele mesmo olhar dourado.
— Estranha e confusa, mas com ela consegui lhe ver novamente — Respondeu e Dorian apenas sorriu fracamente — Sou um homem que cumpre suas promessas.
Talvez Dorian não fosse tão tolo quanto pessou que fosse.
— Então é a minha vez de retribuir o feitiço? — Indagou, rindo com a feição de constrangimento e nervosismo de Cullen — Não se preocupe, amatus, deveria ter aprendido com o passado a ignorar minhas provocações — Falou e viu Cullen franzir o cenho levemente.
— Amatus, o que essa palavra significa? — Perguntou e Dorian riu internamente da confusão do outro — É uma palavra tevene, não é?
— De fato, mas a natureza da tradução talvez lhe desagrade — Respondeu, sorrindo fracamente e vendo Cullen concordar com suas palavras, mas ainda curioso.
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