Amaterasu
34 Capítulo 33
Notas iniciais
Toská, Rússia
20 de agosto de 2016
03:00 P.M.
Olhou para o seu copo quase vazio e soltou um suspiro. Estava um pouco ansioso.
O céu completamente sem nuvens com o sol raiando e temperaturas cerca dos 32°C, o faziam pensar se sua ex-namorada tinha esta mesma visão.
— Desculpa pelo atraso, aconteceu um acidente na avenida. – A pessoa que ele esperava chegou estendendo a mão para cumprimentar.
— Tudo bom? – Perguntou por educação enquanto apertava sua mão.
— Sim, e você? – Se assentou.
— Vou levando. – Riu sem humor. – Pedi refrigerante para você. – Apontou para uma lata de Coca-Cola ali presente.
— Obrigado. – Agradeceu enquanto bebericava.
— Shikamaru. – Limpou a garganta. – Você sabe como está a Sarada e o Sasuke?
— Bom, os pais nos pediram que não fosse revelado nada para outras pessoas. Mas já que é você, não tem problema. – Pôs a lata na mesa novamente. – No geral, o Uchiha perdeu um braço e sua filha não consegue mais andar.
O loiro se mostrou surpreso e um pouco assustado. Seu pai foi capaz de fazer isso?
— Mas ela pode conseguir recuperar os movimentos. – Disse em seguida.
— Ainda bem. – Suspirou um pouco mais aliviado.
— Por que decidiu voltar?
— Não vou ficar. – Foi direto. – Só quero tentar convencer o meu pai a se entregar.
— Sabe que se ele fizer isso, ele provavelmente será sentenciado a morte, certo?
Boruto ficou em silêncio. Esta era uma preocupação recorrente em sua mente.
— Meu pai não é um assassino. – Falou em baixo tom. – Não disseram que ele tinha problemas mentais?
— Talvez seja mais seguro matá-lo do que esperar um tratamento. – Bebeu um pouco mais do refrigerante. – E você não acredita que ele tenha algum problema, né?
— Não. – Abaixou o olhar. – Acredito que a ida dele ao manicômio não o fez bem, dado as circunstâncias que o levaram lá.
— Como assim?
— A mamãe, a tia Karin e a Himawari morreram, e ele foi considerado culpado. – Piscou freneticamente para disfarçar sua dor. – Ao invés de ele ter recebido amparo, foi mandado para Woodhaven. Qualquer um enlouqueceria.
— Não deixa de ser um crime o que ele fez.
— Naquele evento, sim. Mas antes disso, tenho certeza de que ele era inocente.
— Está dizendo que alguém armou todas aquelas provas? – Estreitou o olhar.
— É provável, o mundo é corrupto. – Suspirou.
— Licença, senhores. – Uma garçonete apareceu com dois sanduíches de presunto e queijo e os deixou sobre a mesa. – Algo mais?
— Me vê mais um suco de limão. – O Uzumaki mostrou o copo vazio e a mulher se retirou após anotar o pedido. – Espero que goste de sanduíche.
— Gosto. – Sorriu o homem enquanto comia um pedaço.
Comeram com alguns segundos de silêncio. Shikamaru estava ponderando os fatos. Não podia negar que estava envolvido emocionalmente.
Queria acreditar que Naruto era inocente, mas os seus anos de experiência dentro da polícia o faziam ter cautela e ser mais racional.
— Será que elas estão vivas? – O loiro perguntou num sussurro.
— Acho que não. – Respondeu sinceramente e o adolescente abaixou o olhar. – Sinto muito.
— Tudo bem. – Respirou fundo. – Mas me prometa uma coisa.
— O quê?
— Prenda o culpado, por favor.
— E se realmente for o seu pai?
— Não foi.
— E se for?
— Se for... – Começou um pouco incomodado. – Faça conforme a lei manda.
Por mais que doesse, Boruto não poderia tratar seu pai de maneira especial. A lei é igual para todos.
O delegado o olhou por uns segundos antes de morder novamente o seu sanduíche. Precisava admitir que o garoto amadureceu com a dor.
— Eu prometo. – Disse, por fim.
O outro sorriu num gesto mudo de agradecimento.
As outras perguntas foram sobre como foi a viagem e como está sendo a estadia na Alemanha. Apesar de ter sido “obrigado” a mudar de país, o Uzumaki estava feliz por reencontrar os padrinhos. Terminaram de lanchar desta maneira.
— Você me chamou porque tinha algo a pedir. – Nara entrou no assunto, por fim.
— Vamos caminhar um pouco. – Disse enquanto deixava o pagamento dentro de uma pasta. – Podem nos escutar.
Saíram do estabelecimento e andaram um pouco pela calçada. Não havia muito movimento naquele sábado à tarde. Apesar de que muitos jovens estavam de férias das escolas.
Estava quente. O verão russo é bem difícil para os imigrantes. As temperaturas chegam aos 40°C, mas quando chove podem cair para 12°C, dependendo da localidade.
— Eu não vou conseguir encontrar o meu pai pessoalmente, não faço a menor ideia de onde ele esteja...
— A polícia está fazendo tudo o que pode. – Colocou as mãos no bolso. – A segurança foi reforçada por toda Toská.
— Estou com um plano em mente e não sei se vai funcionar. – Olhou para o homem ao seu lado. – Sei que ele vai me escutar quando me ver, mas isso não vai ser possível.
— Qual a sua ideia?
— Transmissão ao vivo. – Parou de andar, ação repetida pelo delegado. – Acha que pode funcionar?
— Se ele ver, pode dar certo. – Comentou pensativo. – Posso conseguir isso para você, mas tem certeza?
— Do quê?
— Se expor desta forma.
— Ficarei bem. – Sorriu minimamente. – Vou voltar para a Alemanha mesmo.
— Certo. – Voltou a andar. – Te ligo assim que conseguir.
— Nara. – O chamou, o fazendo parar. – Obrigado. Por tudo.
O homem assentiu com um sorriso. Apesar de ter sido um grande amigo da família, era o seu trabalho. Seu dever.
O plano do Boruto podia dar certo. Enquanto houvesse uma mínima porcentagem de sucesso, tinha de arriscar.
[...]
Toská, Rússia
21 de agosto de 2016
09:37 A.M.
Sasuke já não via a hora de finalmente ser liberado do hospital e, após vários dias, a hora de sair chegou.
Após ser liberado pelos médicos, Sasuke já podia ir para a sua casa. Sua vontade era ficar ali por causa da filha que ainda estava em observação na Uti, mas precisava ir em casa, pois tinha muita coisa pra levar. Ficar semanas internado resultou em várias roupas sujas e objetos pessoais que precisavam ser levados. Sem falar que o moreno precisava de um banho para tirar aquele maldito cheiro de hospital.
Não sabia se voltaria a dirigir um dia. Seu pé estava bem melhor, mas dirigir com apenas uma mão com certeza não é uma tarefa fácil. É claro que hoje em dia existem carros adaptados, mas isso seria algo para se pensar depois. Por enquanto o fato de não poder dirigir era o que menos preocupava o Uchiha.
Mikoto levou o filho até em casa. Ambos ficaram calados durante todo o trajeto entre o hospital e a casa do moreno. Não havia o que ser dito. Sasuke, desde que recebera a notícia de que sua filha estava sem sensibilidade ou movimentos da cintura pra baixo, andava meio aéreo e ainda mais triste do que antes. De fato, Sasuke sentia um pouquinho de culpa. Ele não chegou a tempo de salvar Sarada. Ele, com mais de quinze anos de máfia, perdeu para alguém que mal sabia segurar numa arma. Ele foi um completo inútil que só estava vivo porque o irmão chegou a tempo com ajuda.
Sasuke perdeu um braço, sua amada estava profundamente triste por causa dos acontecimentos – embora Sakura tentasse parecer forte o tempo todo, Sasuke via nos olhos dela o sofrimento quase palpável –, teve que lidar com a morte de uma filha que era ansiosamente esperada, enquanto a primogênita estava presa a uma cama e sem os movimentos das pernas.
Sem dúvidas, o Uchiha tinha todos os motivos do mundo para estar perturbado, cabisbaixo, deprimido... Mas não podia entregar os pontos. Por Sakura e por Sarada, não podia.
Mikoto estacionou seu carro em frente à casa de Sasuke e entrou com o filho para ajudá-lo com as coisas.
Foi um baque estranho quando Sasuke abriu a porta da frente e entrou ali pela primeira vez desde o incidente com Naruto. Parecia tão... Diferente.
Sabia que sua mãe tinha organizado o local previamente, já que Naruto tinha invadido para pegar a arma de Sarada. A porta precisou de conserto.
Sasuke entrou e passou pela sala sem ao menos se dar ao trabalho de acender a luz. Caminhou em direção às escadas e não parou quando ouviu a voz de sua progenitora.
— Vou levar sua roupa suja para a área de serviço.
Mikoto recebeu apenas um dar de ombros como resposta. Sasuke estava mais calado que o normal e isso era perfeitamente compreensível.
Sasuke entrou em seu quarto e acendeu a luz, jogou de qualquer jeito no chão a bolsa cinza que estava consigo. Depois ele arrumaria suas coisas, mas agora não estava com saco pra isso.
Deitou-se de barriga pra cima na cama, fitou o teto e respirou calmamente. Ainda estava sonolento, efeito dos medicamentos que tomava no hospital. Mas agora acabaram os remédios sempre nos mesmos horários; Os médicos e enfermeiros quase sempre entrando no quarto sem bater, como se os pacientes não precisassem de privacidade; O ambiente hospitalar tedioso e, na opinião de Sasuke, macabro; A comida sem tempero algum... Sasuke já estava em casa, mas como seria? Como sua vida ficaria dali para frente? Sinceramente, o moreno estava com medo.
Levantou-se da cama e foi direto para o banheiro. Nunca havia sentido tanta preguiça em sua vida.
Sasuke se despiu com um pouco de dificuldade e parou de frente para o espelho do banheiro, ficou por alguns minutos analisando o membro mutilado. A questão estética era o de menos, Sasuke tinha outros receios. Uma pessoa que já nasce com alguma má formação e, consequentemente, com algum membro a menos no corpo, já cresce acostumada com aquilo. Todavia, a adaptação é terrível para uma pessoa que antes era "perfeita". Infelizmente não tinha mais jeito e Sasuke precisaria se acostumar a viver com um braço a menos.
Fechou os olhos e o que veio à sua mente foi a memória do momento em que Naruto cortou seu braço com o cutelo e, logo em seguida, colocou o objeto quente sobre o ferimento. Jamais havia sentido uma dor física tão grande e o cheiro de sua carne queimando ainda não havia sido esquecido. Sasuke se lembrava perfeito de tudo... Da dor, do cheiro, do desespero, do estômago revirando.
Abriu os olhos e respirou fundo. Lembrar daquilo não iria lhe fazer bem.
Deixou seus pensamentos de lado e foi tomar um banho demorado. Estava precisando muito daquilo.
Se secar e se vestir já não era mais tão complicado. De fato demorava um pouco, mas Sasuke não iria se humilhar a ponto de pedir ajuda para sua mãe. Evitava pedir ajuda até para as enfermeiras no hospital quando já podia se levantar sozinho. Queria fazer tudo sozinho e no início sofreu um pouco, mas sempre gostou de se sentir independente.
Vestiu uma calça preta com uma blusa cinza de mangas compridas. Quando estava fechando o guarda roupa, viu algo que fez seu coração doer.
Ele tinha guardado em seu quarto a roupa de Mulher Maravilha que havia comprado para Haruka, para que Sakura não desse um fim a ela.
Por um instante sorriu com a lembrança do dia em que foram ao Shopping para começar o enxoval da filha que agora não mais nasceria.
Por um instante imaginou uma garotinha dos cabelos dourados vestindo aquela roupinha, mas aquilo ficaria apenas em sua mente, uma vez que não iria acontecer. Haruka estava morta.
A gravidez de Sakura não foi uma coisa planejada e Sasuke nem pensava em ser pai pela segunda vez, mas estava feliz. Não planejou, mas aconteceu e ele queria a filha mais do que tudo. Queria ter a oportunidade de ver Haruka crescer, de fazer por ela o que não teve a chance de fazer por Sarada.
Pegou-se imaginando o possível rostinho que, caso tal fatalidade não tivesse acontecido, alegraria ainda mais seus dias dali a alguns meses. Seria Haruka realmente loira como todos imaginavam, ou nasceria com os cabelos negros como ébano? Teria os olhos esmeraldinos da mãe ou os olhos de ônix do pai? O nariz seria fino como o de Sasuke ou pequeno e empinado como o de Sakura? E o sorriso, ah, o sorriso... Sasuke sentia que seria tão lindo e encantador como o da rosada.
— Droga... – Murmurou ao sentir os olhos arderem por conta do choro que queria sair.
Chorar não traria Haruka de volta, então por que ele fazia isso? Não diminuía a dor, parece que só fazia aumentar.
Bateu a porta do guarda roupa com força e saiu de seu quarto, indo para o de Sarada.
As paredes cobertas por papel de parede, a cama coberta por almofadas de cor escura, a escrivaninha não muito bagunçada com o notebook sobre ela. Sasuke jamais havia prestado atenção nos detalhes do quarto da filha, na verdade mal entrava lá.
Seus olhos se encheram de lágrimas ao notar que, por baixo do vidro transparente da cômoda de Sarada, havia uma foto dele com a filha quando a menina tinha por volta de seis anos de idade. Sasuke se odiou por não ter memórias daquele dia, mas ambos pareciam felizes. Eram tão poucas as fotos dos dois juntos.
Ele sentiu vontade de pegar a foto para ver mais de perto, mas precisaria de uma mão pra levantar o vidro e a outra para retirar a foto de onde estava.
Caminhou até a cama e se sentou sobre ela. Podia sentir o perfume da filha dentro daquele quarto e isso era, de certa forma, reconfortante. Parecia que Sarada estava ali e que a qualquer momento apareceria gritando "Sasuke, saia do meu quarto, você não perdeu nada aqui!".
Olhou para um porta-retratos sobre o criado mudo, no qual havia uma foto recente de Sarada, tirada há mais ou menos um ano. Sasuke sabia disso porque a franja da menina estava mais curta. Boruto havia tirado aquela foto e Sarada estava sorridente, parecia feliz.
Sasuke sentiu remorso, pois podia contar nos dedos os momentos alegres que viveu ao lado de sua filha, a maior parte deles depois que Sakura reapareceu depois de tantos anos.
— Eu perdi tanta coisa, filha... – Falou com dor no coração, passando o dedo indicador sobre o rosto impresso na foto. – Perdi tantos momentos preciosos ao seu lado.
— Sasuke?
O moreno se assustou ao ouvir a voz da mãe, então olhou na direção da porta e viu Mikoto entrar no quarto.
— Mãe? – O moreno estava envergonhado, pois não gostava que o vissem com cara de choro. – A senhora me assustou.
— Fui ao seu quarto e não te encontrei lá. Imaginei que estivesse aqui.
— Tô tentando matar um pouquinho da saudade que eu sinto da Sarada. – Suspirou pesadamente. – É tão estranho entrar nesse quarto e não saber quando Sarada estará aqui novamente.
Mikoto olhou para a foto sobre o criado mudo de Sarada. Gostava de vê-la sorrir, mas não sabia quando veria um sorriso em seu rosto novamente. Doía pensar que Sarada podia não voltar a andar.
Mikoto criou a neta desde que a menina nasceu, a tinha como uma filha caçula. Ouviu suas primeiras palavras, viu seus primeiros passos, tranquilizou a menina em seu primeiro dia de aula, ganhou de presente o primeiro dente de leite que Sarada perdeu, passava as noites em claro quando ela estava doente. Mikoto foi, de fato, a figura materna que Sarada teve em sua vida por doze anos. Ambas eram muito apegadas e a Uchiha sofria tanto quanto Sakura, mãe biológica de Sarada.
— Eu sei que dói, filho. – Mikoto pôs a mão sobre o ombro de seu caçula. – Passei por isso quando você era mais novo, e agora novamente com Sarada.
— Eu quase morri naquela época, mas fiquei sem sequelas. – O moreno encarou sua mãe. – A Sarada pode ficar sem andar pra sempre.
— Eu sei que isso não vai acontecer. – Mikoto falou convicta, não só pra tranquilizar o filho, mas porque acreditava na recuperação da neta. – Sarada é sua filha e é tão teimosa quanto você. Ela não vai entregar os pontos.
— Mãe, a Sarada foi torturada. – Sasuke falou com dor no coração. – Naruto com certeza não a torturou apenas fisicamente.
Sasuke se lembrou do que fez com Hinata. Himawari morreu rápido, mas Hinata sofreu tanto com as palavras ditas por Sasuke quanto quando estava sendo devorada viva pelos cachorros de Itachi.
Sasuke estava apenas pagando pelo mal que fez, mas por que não com ele? Por que com sua filha?
— Ela não se lembra. – Disse Mikoto. – E é bom que continue sem se lembrar. Pelo bem do psicológico dela.
— Sim, eu espero que ela não se lembre. – O moreno sentiu um nó na garganta. – Mas... Mas só de pensar que ela... Que ela sofreu por minha causa nas mãos daquele desgraçado... – Respirou fundo, tentando conter o choro. – Não dá. Não consigo parar de pensar nisso... No quanto ela deve ter sofrido até eu chegar lá... Se eu tivesse sido mais rápido.
— Sasuke, pare de se culpar pelo que aconteceu. Não dava pra imaginar que o Naruto iria invadir o evento.
— Eu matei a Karin. Depois a Himawari... Por último a Hinata.
— Concordo que o que aconteceu com o Naruto foi uma injustiça e que ele só quer vingança, mas não dava pra adivinhar que ele fosse conseguir fugir do sanatório.
— Mãe...
— Todos nós temos a nossa parcela de culpa. – Falou seriamente. – Do mesmo jeito que você não teve pulso firme para impedir a Sarada de entrar na Amaterasu, eu não tive com você. Pra começo de conversa, eu nunca deveria ter concordado com aquela ideia maluca de sequestrar a Sarada. Não me arrependo de ter mandado você para os Estados Unidos, na verdade eu deveria ter feito isso bem mais cedo, assim você ficaria longe daquele monstro do Fugaku... Mas sequestrar um bebê foi uma completa insanidade, eu não deveria ter aceitado. – A mulher abaixou o olhar. – Também tenho uma parcela de culpa nisso. Uma grande parcela de culpa.
— Eu nunca fui um pai de verdade pra ela. – Lamentou-se. – Se eu tivesse sido, com certeza ela não entraria na Amaterasu. Tenho certeza de que ela respeitaria a minha vontade.
— Da mesma forma que você respeitou a minha? – Mikoto perguntou de maneira retórica e Sasuke se calou. – Quando você colocava uma coisa na cabeça, não tinha ser humano que tirasse. Sarada é do mesmo jeito, ela herdou isso de você.
— Eu fiz isso apenas para chamar a atenção do meu pai. Quer dizer, do Fugaku. – Explicou. – Eu queria mostrar que era tão capaz quanto o Itachi. Sarada entrou apenas para me provocar, para me contrariar, mas ela não entraria na Amaterasu se eu não tivesse dado motivos pra ela fazer isso.
— Nunca se sabe, Sasuke. Não dá pra saber com certeza o que teria acontecido. Fugaku poderia ter dado outro jeito para ter Sarada sempre por perto e usá-la como um álibi.
— Eu sei. – Sasuke bocejou e deitou a cabeça sobre o travesseiro de Sarada. – Mas não dá pra tirar a minha culpa. Sarada está presa numa cama de hospital e Haruka morreu.
— Sinto muito pela Haruka. Eu também estava ansiosa para o nascimento dela.
— Ela era um bebê saudável, um bebê perfeito.
— Sasuke, eu sei que um filho não substitui outro, mas você e a Sakura são novos e podem tentar ter outro filho daqui a um ano mais ou menos. Uma criança com certeza seria uma luz na vida de vocês, com certeza uma alegria imensa.
— Daqui a um ano... – Suspirou. – Mãe, a Sakura tomou tudo quanto é anticoncepcional por mais de quinze anos. Ela tem problemas hormonais, isso sem falar na idade, então pode ser que não consigamos ter outro filho. A Haruka foi sorte.
— Existem tantos tratamentos para casais que querem ter filhos e não conseguem. – A mulher fez carinho nos cabelos do filho. – Vocês são uma família tão linda. Eu até estou gostando mais da Sakura.
— É admirável ouvir a senhora dizer isso.
— Ela é uma boa pessoa e teria sido uma mãe maravilhosa para a Sarada. – Sorriu. – Foi crueldade tirarem dela o direito de ser mãe... Duas vezes.
— A Sakura não merecia isso.
— Você a ama?
— Amo. – Sasuke respondeu sem pensar duas vezes. – Eu não vou deixá-la escapar novamente. – Falou convicto. – Eu odiava a Sakura. Senti vontade de matá-la quando ela revelou ser Sakura, não Izanami... Ela usou um nome falso pra se aproximar de mim e eu não reconheci a pessoa com quem tive um caso na adolescência. – Suspirou. – Ela era bonita, mas meio sem sal, e virou um mulherão que eu jamais pensei que fosse virar. A Sakura queria porque queria ficar perto da Sarada, e eu, mesmo me corroendo de ódio, deixava... Acabou que ela não ficou próxima apenas de Sarada, mas de mim também. Eu passei a vê-la com outros olhos e ela mudou a minha vida. Por causa da Sakura, Sarada e eu passamos a nos dar bem. Aos poucos fomos virando uma família que estava prestes a aumentar... Estávamos felizes... – Uma lágrima escorreu pelo rosto de Sasuke. – Mas agora a nossa felicidade foi pelo ralo, mãe. Haruka morreu, Sarada está muito machucada e pode não voltar a andar. – O moreno chorou ainda mais. – Tudo virou um pesadelo. Toda a nossa felicidade foi transformada em tristeza e não sei se um dia poderemos ressuscitá-la.
— Poderão sim, meu filho. – A morena então deu um beijo na testa de Sasuke. – Fique tranquilo e não se torture mais.
— Como?
— Apenas descanse, sim... – A mulher esboçou um sorriso doce, o mesmo sorriso que confortava Sasuke desde a infância... O sorriso de sempre. – Você está muito abalado, tem que se acalmar antes de voltar para o hospital. Agora você já foi liberado, poderá ver a Sarada no horário de visitas.
— Eu estou inseguro. – Admitiu. – Eu não quero ver a minha filha numa cama de hospital. Eu não quero.
Mikoto conhecia bem esse sentimento. Quando Sasuke foi hospitalizado pela primeira vez em estado grave, ela ficou insegura ao entrar no quarto para vê-lo pela primeira vez e ficou profundamente abalada ao ver seu filho querido machucado como Sasuke estava.
De fato, Sasuke precisaria ser forte. Não seria nada fácil encarar sua filha do jeito que ela estava, mas era preciso. Ele não podia simplesmente ignorar o que estava acontecendo. Ele tinha que encarar a realidade.
— Não dá pra fechar os olhos e fingir que está tudo bem, Sasuke. – Ela falou seriamente. – Sei que é difícil pra você, como pai, aceitar a condição da Sarada. Bem, você não precisa aceitar no sentido exato da palavra, mas uma hora ou outra terá que, pelo menos, se acostumar com isso.
— Eu só queria acordar e ver que tudo não passou de um pesadelo. – Suspirou, deixando mais lágrimas caírem. – Queria poder voltar no tempo e fazer tudo diferente.
— Infelizmente isso não é possível, Sasuke. Você é um homem adulto, devia parar de pensar nessas coisas.
— Mãe, agora não é hora pra senhora me dar broncas.
— Então não se comporte como uma criança. – Retrucou. – Sua filha e sua amada precisam de você forte ao lado delas. Sarada principalmente. Ela precisa do pai.
— Eu nunca fui um pai de verdade para ela. – Sasuke falou com remorso. – Nunca...
— Você errou, mas estava reparando os seus erros e eu tenho certeza de que seria um pai maravilhoso para a Haruka e será um pai maravilhoso para os filhos que terá futuramente com a Sakura. – Falou otimista. – Sarada te ama e não há dúvidas disso, tenho certeza de que ela sente sua falta e quer te ver.
— Eu quero vê-la, mas não quero que ela me veja assim... Frágil.
— Então vamos fazer o seguinte... – A mais velha passou a mão pelos cabelos negros e incrivelmente lisos de seu filho caçula. – Chore o que tiver pra chorar aqui. Chore até a dor passar, até não poder mais. Depois você enxuga o rosto voltaremos para o hospital. Vamos vê-la no horário da tarde.
Sasuke apenas assentiu e deixou as lágrimas caírem. Tentava se preparar psicologicamente para o momento em que entraria no quarto de UTI e veria a filha numa situação que ele preferia mil vezes ser submetido a mais terrível das torturas a ter que presenciar.
Após alguns minutos em absoluto silêncio, Sasuke adormeceu. Ao ver que o filho finalmente dormia, tranquilo como se nada de ruim estivesse atormentando sua mente, Mikoto pôs-se a chorar amargamente.
Não suportava ver seu filho chorar, não suportava o fato de que sua neta estava paraplégica, tampouco suportava o fato de que sua outra neta morrera sem ao menos ter tido a oportunidade de vir ao mundo. Sentia-se de mãos atadas, não podia fazer absolutamente nada. Todos sofriam, todos estavam abalados e frágeis. Mikoto, assim como Sakura, sempre foi uma mulher forte, mas estava em cacos.
Deixou que Sasuke descansasse o quanto quisesse, o quanto seu corpo necessitasse. Teria o fim da tarde para ver Sarada, já mais recuperado e, talvez, menos abalado do que estava naquele momento.
[...]
“Assassina!”
Várias vozes ecoavam em sua cabeça.
Aquela acusação tão dolorosa, mas tão real. Era a verdade.
Não sabia onde estava, sentia estar deitada, mas não conseguia se mover. A luz branca a ofuscava, não via nada, apenas ouvia as vozes a acusando, vindas de todos os lados.
O que estava fazendo ali?
— Sarada?
Conhecia aquela voz. Virou-se para a direção que ela vinha.
Sentiu uma dor aguda em sua cabeça antes de perceber o que acontecia ao seu redor.
Fechou os olhos e, quando os abriu novamente, estava na casa dos Uzumaki. Reconhecia a sala.
Boruto estava ao seu lado, fora ele quem a chamara. Ele chorava e apontava para um canto.
Ouviu uma risada infantil e virou-se bruscamente para onde Boruto indicava.
Hinata estava com Himawari nos braços, enquanto Karin entregava um pequeno presente para a sobrinha.
Sentiu uma pontada em seu coração.
Aquilo não era real. Não podia ser. Por culpa dela aquela família estava destruída.
Fechou os olhos e começou a chorar.
— Por que está chorando? – Ouviu uma voz fria. – Assassina!
Era Naruto. Sentiu um arrepio por sua espinha e abriu os olhos.
Estava na oficina de ferreiro daquela noite. Naruto estava na sua frente, segurando um martelo. Um sorriso sádico adornava seu rosto.
Olhou para os lados, estava sozinha com ele agora.
Tentou falar, mas sentiu um nó em sua garganta. Não conseguia respirar, tampouco falar. A dor em sua cabeça não ia embora. Sentia-se tonta.
— Assassina! – Naruto gritou e bateu o martelo em seu pé esquerdo.
Sentiu a dor do impacto.
Por que aquilo estava acontecendo?
A menina pensou nos erros que cometeu. Erros que levaram coisas terríveis a acontecer. Ela não queria aquilo, mas não pôde fazer nada para impedir. Nunca pensou que tudo fosse acabar daquele jeito.
— Assassina! – Mais um grito.
Ele a segurou no chão pelo pescoço, sufocando-a.
Ainda conseguia ouvir as vozes a acusando. “Assassina” elas diziam.
Debateu-se no chão, tentando se soltar, mas não tinha forças.
— Assassina! Assassina!...
Naruto gritava repetidamente e Sarada sentia impactos contra suas costelas. Ouviu seus ossos quebrarem.
A cada grito de Naruto, suas unhas eram arrancadas, as lâminas esfolavam seus dedos.
Sentiu lágrimas escorrerem por seu rosto.
Estava sufocando, mas não desmaiava, sentia a sensação de falta de ar o tempo todo. Seus pulmões ardiam, seu pescoço estava em brasas.
— Assassina!
Ouviu o som de tiro, seu ombro ardeu e a dor em sua cabeça aumentou. Naruto a soltou.
Levou a mão boa ao local da dor e viu o sangue.
“Pai! Sakura!” pensou. Queria gritar, mas não conseguia.
— Você vai ficar bem. – Seu pai estava ali, segurando-a.
Ele sorria docemente.
“Papai...” tentou falar, mas nenhum som saia. “Sakura...”
Lembrou-se da bomba. Sua mãe estava em algum lugar com uma bomba. Se seu pai estava ali, Sakura estaria morta?
— Você vai ficar bem. – Ouviu novamente a voz de seu pai em meio às vozes.
— Assassina!
Ouviu Naruto gritar e descer um cutelo na direção de Sasuke.
Fechou seus olhos e sentiu tudo calmo novamente. As vozes haviam parado. Mas a dor ainda estava lá. Seu corpo estava dolorido, sentia o sangue escorrer e sentiu algo pequeno em seus braços.
Abriu os olhos e a luz branca a ofuscou. Estava novamente no local claro de antes.
Olhou para seu colo e viu o pequeno corpo morto em seus braços.
[...]
Toská, Rússia
21 de agosto de 2016
00:11 P.M.
— Haruka...
Sakura ergueu o olhar para a filha.
Os “bips” da máquina ficaram mais frequentes e Sarada começou a se remexer na cama e murmurar o nome de Haruka.
- Sarada? – Sakura falou com a voz preocupada e tocou o rosto da jovem. – Acorda, meu amor.
Sentiu o suor pelo rosto de Sarada e viu que lágrimas começavam a escorrer.
— Sarada, acorda! – Falou um pouco mais alto. – Sarada!
A morena abriu os olhos assustada. Sua respiração estava pesada.
Olhou para frente e viu Naruto caminhando em sua direção com um largo sorriso em sua face. Um sorriso sádico e travesso. Em sua mão, sangue. Estava estranho. Seu peito sangrava e, ao mesmo tempo em que ria e dizia em sussurros "assassina", ele chorava.
Sentia seu corpo ser prensado contra a cama. Não conseguia se mover, apenas encarava o homem a sua frente.
Sentiu pontadas de dor nos dedos da mão direita e soltou o lençol. Não sabia quando começara a agarrá-lo. Finalmente podia se mover. Olhou para frente novamente e não viu mais Naruto ali.
Aquilo não foi real?
Passou a mão esquerda pelo rosto, enxugando as lágrimas e começou a olhar ao redor. Passou os olhos pelas paredes brancas e lembrou-se do sonho. Ainda podia ouvir as vozes, principalmente a de Naruto.
Ele estava morto? Ninguém falou nada sobre ele desde que acordou. O que significava aquela visão?
Fechou os olhos com força e levou as mãos aos ouvidos. Mas não adiantava, as vozes vinham de sua própria mente.
Suas costelas doíam com os movimentos exagerados. Sentia pontadas em sua cabeça no local enfaixado.
Mãos tocarem em seus braços.
Em defesa Sarada bateu nas mãos. Estava com medo. Não queria mais ser machucada.
Sabia que aqueles ferimentos no sonho foram reais. A dor e as marcas estavam ali para lembrá-la. Finalmente lembrava-se. Estava só. Ninguém saberia o que ela passou, ninguém a compreenderia.
Onde estava Naruto?
Sua cabeça era uma confusão. Não conseguia pensar claramente. Estava sendo consumida pelo medo.
— Sarada! – Sakura gritou em desespero.
Ouvia o barulho da máquina, mostrando que os batimentos de Sarada estavam acelerados. Lembrou-se das arritmias que a doutora Mitarashi falou que surgiram durante a cirurgia. As complicações.
O corpo da mais nova estava molhado de suor, ela estava sufocando e chorando, não ouvia sua voz.
— Vai ficar tudo bem, meu amor. Fica calma.
A mulher tentava se fazer ouvir, mas era como se não existisse para Sarada. A jovem a afastava cada vez que tentava se aproximar.
As duas enfermeiras que cuidavam de Sarada entraram no quarto, vendo a agitação.
— O que está acontecendo? – Sakura perguntou.
— Senhora, se afaste. – Fuu, a enfermeira de cabelos verdes, pediu. – Ela precisa de espaço.
— Não... Eu sou a mãe dela, não vou...
— Pedimos sua compreensão. Ela precisa de espaço. – Nii, a outra enfermeira, afastou Sakura do leito.
A Haruno olhou em direção à filha.
Fuu havia tirado o cobertor de Sarada e usava um respirador artificial manual para ajudá-la a respirar. Ela murmurava algo para a menina, que ainda estava agitada.
Nii se afastou um pouco da Haruno e se certificou de que a mesma permaneceria afastada. Foi para perto do leito, preparou uma dose de Diazepam e injetou o medicamento pelo equipo ligado ao soro.
Sakura sentiu-se inútil. Não podia fazer nada pela filha. Estava totalmente imponente naquela situação. Passou as mãos no rosto, só agora notou estar chorando. Era apenas aquilo que conseguia fazer.
— Isto foi um ataque de pânico, senhora. – Nii informou, se aproximando de novo. – É comum em pacientes que sofreram algum trauma como a Sarada. Talvez aconteça mais vezes, então é bom estar preparada.
— Ela... Lembra o que houve? – Perguntou.
— Acreditamos que sim, já faz alguns dias que ela acordou. Acreditamos que ela finalmente lembrou-se do ocorrido. – Suspirou. – Ela vai precisar de apoio para superar tudo. Provavelmente precisará de acompanhamento psicológico e passará por avaliação psiquiátrica. Talvez ela precise de tratamento a base de ansiolíticos, caso a ansiedade seja frequente.
Sakura virou o rosto levemente, segurando as lágrimas. Precisava ser forte. Sarada precisava de apoio.
Notou um pequeno movimento do lado de fora do quarto. Alguns familiares que passavam entrando ou saindo dos outros quartos olhavam curiosos para o quarto de Sarada. Franziu o cenho incomodada.
Outras enfermeiras e médicos pediam para que os curiosos se dispersassem.
Respirou fundo e voltou para perto do leito.
— É só um ataque, Sarada, vai passar. – Ouviu Fuu falar para Sarada. – Você está segura.
Alguns minutos se passaram, Sarada já estava mais tranquila, seus batimentos estavam mais normalizados e respirava sem ajuda, apesar de um pouco descompassada, porém ainda tremia.
A Haruno chegou mais perto e passou a acariciar os cabelos de Sarada.
A mais nova abriu os olhos ao sentir a carícia. Olhou para Sakura e viu-a abrir um pequeno sorriso.
A mais velha sentia a filha tremer, mas sentia-se aliviada por ela estar mais calma.
— Você vai ficar bem. – Beijou a testa da jovem.
— Eu estou com medo. – Murmurou com a voz trêmula.
— Você está segura, meu amor. Eu estou aqui com você. Não vou te deixar só, ok?
A morena voltou seus olhos para frente. Não havia ninguém ali além de Sakura e as enfermeiras. Naruto não estava morto em seu quarto.
— O que houve com o... O Naruto? – Perguntou depois que sentiu sua respiração normalizar.
Temia a resposta, mas precisava saber.
Passou a mão sobre a barriga, onde levou o tiro que atingiu sua coluna. Era o único ferimento que não se lembrava.
Ainda tinha medo que ele a machucasse novamente. Sabia que merecia, mas estava com medo. As lembranças do que aconteceu naquela noite agora estavam nítidas. Cada segundo antes de perder a consciência se repetia em sua mente.
“Assassina!”
Sakura passou alguns segundos em silêncio. Não sabia o que responder. O medo de Sarada era quase palpável, não podia dizer que Naruto estava solto e ninguém o encontrava, mas também não podia mentir, ela saberia mais cedo ou mais tarde.
— Ele está sendo procurado. – Respondeu.
Sarada ficou tensa.
— Ele vai me machucar de novo? – Sua voz saiu embargada e trêmula.
— Não, ele não vai. – Sakura segurou a mão da menor. – Eu estou aqui com você, a equipe médica está aqui, a segurança foi dobrada, a polícia está procurando por ele. Naruto não vai te machucar de novo. Fique calma.
As enfermeiras se retiraram do quarto para dar privacidade.
— Onde está o meu pai?
A última coisa que lembrava era Naruto descendo um cutelo na direção de Sasuke. Queria vê-lo. Queria saber se ele estava bem.
— Ele foi em casa com a sua avó. Ele recebeu alta hoje. – Sorriu levemente.
Sarada fechou os olhos e deixou lágrimas escorrerem.
— Mentira...
Sakura arregalou levemente seus olhos e franziu o cenho.
— Por que diz isso, Sarada?
— Porque é tudo o que você faz desde que apareceu. – A mais nova respondeu entredentes. – O Naruto... Ele... Meu pai estava ao meu lado, ele não viu quando o Naruto se aproximou... – Falava em meio aos soluços.
Sakura sentiu o peso das palavras. Não tinha a confiança de Sarada, nunca teve.
— Sarada... – Murmurou. – Seu pai está bem, ele recebeu alta e foi em casa. Ele vem te ver ma...
— Não, não, não... Para! – Resmungou. – Para com isso!
— Ele vem te ver mais tarde. – Completou.
— Se ele está bem, por que não veio me ver? – Olhou para a mãe.
— Porque ele estava internado e não po...
— Você disse que ele estava bem! – Afastou sua mão da de Sakura que ainda a segurava.
— Ele está...
— Por que ele estava internado? – Indagou chorosa.
— Sarada, fica calma, por favor.
— Eu quero ver o meu pai!
A garota começou a se agitar, apesar de se sentir sonolenta devido ao medicamento.
“De novo não...” Sakura segurou as lágrimas.
Tocou no rosto de Sarada.
— Olha pra mim... – Pediu e foi atendida. Seu coração apertou ao ver o rosto inchado e molhado de sua filha. – Ele está bem, Sarada. Ele se machucou e ficou internado, ok? Mas recebeu alta hoje e foi em casa com a sua avó. Por favor, fica calma. Ele vem te ver mais tarde, tudo bem?
A imagem de Naruto com aquela lâmina atrás de seu pai não saia de sua mente. Não conseguia acreditar em Sakura, mas era tudo o que tinha para se agarrar no momento.
— Promete?
— Prometo. Ele está bem e vai vir te ver mais tarde. – Beijou a testa da mais nova. – Agora durma um pouco.
— Eu não quero dormir... – Murmurou sonolenta.
— Você vai melhorar quando dormir.
— Eu ouço a voz dele... Eu não quero ouvir. Eu não quero sonhar com aquilo de novo.
— Feche os olhos e se concentre em minha voz, ok?
Sarada concordou e Sakura encostou sua cabeça no colchão, ao lado da cabeça da filha, e começou a cantarolar músicas que sabia que sarada gostava.
A Haruno sabia que Sarada não acreditava nela. A jovem ainda chorava por pensar que o pai estava morto. Ver sua filha daquele jeito era quase insuportável.
Não demorou tanto para Sarada dormir por conta do efeito do remédio. Ainda permaneceu alguns minutos ao lado dela para poder sair.
Notou que a UTI estava vazia quando saiu. Apenas as enfermeiras e alguns médicos passavam ali. O horário de visitas já havia acabado há alguns minutos, mas deixaram que ela ficasse mais um pouco por conta do ataque de pânico de Sarada. Precisavam mantê-la calma.
Sem perceber as coisas a sua volta, foi ao banheiro mais próximo. Apoiou-se na bancada. Suas pernas estavam trêmulas, mal conseguia manter-se em pé. As lágrimas corriam por sua face. Sentia um aperto em seu coração, um nó se formou em sua garganta.
A cena de Sarada sufocando em pânico não saia de sua cabeça. Achou que nunca passaria por algo pior do que os anos de prostituição, mas aquele estava sendo o pior e mais difícil momento de sua vida.
Por que não ela? Por que Sarada? Ela era tão jovem, ainda tinha tanto para viver. Ela era uma vítima que foi manipulada para atender os caprichos de Fugaku. Não merecia aquilo.
Sentia-se completamente inútil. Tudo que podia fazer era ser forte e dar seu apoio, transmitir confiança. Mas Sarada não confiava nela. Não acreditava em suas palavras. Estava de mãos atadas diante daquela situação.
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