Amaterasu
32 Capítulo 31
Notas iniciais
Toská, Rússia
08 de agosto de 2016
11:31 A.M.
Sakura olhava para um ponto fixo no chão. Estava no quarto hospitalar. Recebera alta, mas precisava prestar depoimento à polícia sobre o ocorrido.
Em alguns minutos iniciaria o horário de visitas na UTI, não estava mais suportando não saber o estado de Sarada.
Sabia que a mesma não estava bem, mas queria saber dos detalhes, queria ficar ao lado da filha.
Seu olhar era vazio. Seus olhos estavam inchados, não apenas por causa das lágrimas derramadas, como também por não conseguir dormir. Cada vez que fechava os olhos, lembrava-se dos gritos de Sasuke, imaginava o estado de sua filha e via o olhar enigmático do loiro sobre si no momento em que se deu conta do aborto.
O que ele estaria sentindo naquela hora?
Ouviu a policial pigarrear, tirando-a de seus devaneios.
— Estou tentando fazer meu trabalho, senhora. Preciso de seu depoimento. – A loira resmungou.
— Você estava lá... – Respondeu vagamente.
— Quando cheguei, o Uzumaki já havia saído. – A Yamanaka falou. – Preciso saber o que aconteceu. Como ele te sequestrou, o que ele...
— Eu não sei o que houve... – A interrompeu.
— Não lembra de nada?
— Eu perdi minha filha... – Mordeu o lábio inferior, segurando as lágrimas.
Estava cansada de chorar. Precisava se manter forte por Sasuke e, principalmente, por Sarada.
Ino suspirou. A dor da mulher a sua frente era quase palpável. Deveria ser uma tortura responder àquelas perguntas, mas tinha de ser feito.
— A senhora estava no Centro de Convenções quando ele te sequestrou? – Perguntou erguendo a cabeça novamente.
— Eu estava no banheiro e ele pôs um pano molhado no meu rosto. O cheiro era forte e eu apaguei na hora, mas vi o rosto dele pelo espelho. – Respondeu rapidamente.
— Então ele realmente estava dentro do prédio... – Murmurou para si mesma. – Você acordou em algum momento?
Sakura contorceu o rosto em dor, lembrando-se das contrações. Levou a mão até a barriga.
— Sim... Eu estava perdendo a Haruka... – Falou com a voz baixa. – A Sarada estava jogada ao chão... Desacordada... – Engoliu em seco. – Depois ouvi o Sasuke gritar, dizendo que a Sarada estava m...
A Haruno não conseguiu terminar de falar.
“Morrendo.”
A palavra ainda a assustava. Sabia que sua filha estava viva, tendo o melhor tratamento possível. Mas a ideia de perdê-la uma segunda vez era aterrorizante.
— O senhor Uzumaki falou algo? – Ino resolveu sair do assunto sobre o estado de Sarada.
A menina mal respirava quando a encontrou. Sentiu-se sem chão na hora, mesmo sem ter nenhum tipo de ligação com ela. Qual não seriam os sentimentos de Sakura no momento? Uma mãe que ouviu que a filha estava morrendo e ainda não pôde vê-la.
A rosada apenas negou com um movimento de cabeça.
— Mais alguma coisa relevante? – Perguntou para finalizar.
— O que... – Apertou as mãos uma na outra.
Sarada havia chegado ao hospital em estado crítico. Não tinha certeza se queria saber o que Naruto fez a ela. Mas uma hora ou outra descobriria.
— O que ele fez à Sarada? – Engoliu em seco mais uma vez.
A Yamanaka suspirou. Também não sabia ao certo o que havia acontecido, mas havia sinais claros de tortura.
— Você poderá vê-la em alguns minutos. – Respondeu.
Em seus anos de carreira, nunca viu vítimas de tortura, muito menos teve que explicar a situação à mãe da vítima. Ver a dor nos olhos verdes da mulher a sua frente não ajudava em nada.
— Saberei o quadro clínico dela, não o que houve lá. – Murmurou entredentes.
— Como já falei, quando cheguei, o Uzumaki não estava mais lá.
— Foi você quem encobriu todas as provas contra os Uchiha, deve saber, em parte, o que houve com a Sarada só vendo o estado dela...
Ino se surpreendeu com a acusação. A Haruno sabia mais do que ela pensava.
— Tudo bem... – Suspirou pesadamente. – Havia contusões pelo corpo dela, sinal claro que o senhor Uzumaki bateu nela. Havia tiros, facadas e... A mão dela... – Franziu o cenho. – Senhora, a maioria dos machucados não era fatal, sua filha foi claramente torturada.
“Torturada”, a palavra ecoou na mente da rosada.
Já esperava aquilo por causa do breve diagnóstico que Mikoto deu no dia anterior, mas não diminuía o impacto da informação.
Passou as mãos nervosamente pelos cabelos. Tudo aquilo havia acontecido e não pôde fazer nada. Estava lá, ao lado de Sarada e tudo o que fez foi desmaiar. Não pôde proteger a pessoa mais preciosa em sua vida.
— Não... – Lágrimas começaram a escorrer.
Não conseguia segurar. Não conseguia manter-se firme sabendo daquilo. Precisava extravasar antes de ir à UTI.
— Sinto muito. – Ino tocou no ombro da outra.
Sakura não conseguia imaginar a dor que Sarada sentiu. Ela estava só. Não tinha ninguém para ajudá-la. Sasuke chegou tarde, ela estava desmaiada, completamente inútil. Como estaria o psicológico de Sarada quando acordasse? Ainda mais quando soubesse o que houve com Sasuke e a perda de Haruka.
Sua filha já era fechada. Não falava muito de sentimentos, assim como Sasuke, apesar de ter se aberto facilmente quando Boruto terminou com ela. Depois do ocorrido aquilo iria piorar, tinha certeza.
— Você tem que ser forte... – A voz de Ino a tirou de seus pensamentos. – Você é a mãe dela. Agora, mais do que nunca, ela vai precisar dos pais. Vai precisar de todo o apoio possível. Agora tenho que ir, tenho trabalho a fazer. E não se preocupe sobra a segurança de vocês aqui no hospital. Acredito que já te falaram que a guarda foi dobrada e há policiais fazendo rondas nos arredores.
Sakura afirmou balançando a cabeça.
A rosada enxugou o rosto e saiu do quarto junto com a oficial. Logo viu Mikoto parada à porta do quarto no qual Sasuke estava. Dirigiu-se até ela.
— Tudo bem? – A mais velha perguntou.
— Ela foi torturada... – Murmurou em resposta.
A morena abaixou o olhar, sabia que era sobre a neta. Ficou em choque quando recebeu as informações da polícia e dos médicos sobre a situação de cada um.
— Você a viu? – Ergueu o olhar para a Uchiha.
— Sim... – A Haruno foi surpreendida pro um abraço da mais velha. – Ela vai ficar bem, Sakura.
Mikoto dizia isso não só para a rosada, também dizia para si mesma. Amava a neta e vê-la naquelas condições era horrível. Era a segunda vez que passava por isso. Sasuke fora hospitalizado quando mais novo, corria risco de vida. Agora Sarada corria, além de ter sido torturada.
As duas se soltaram do abraço e a Haruno entrou no quarto para ver o Uchiha.
— Você está bem? – Sasuke perguntou preocupado quando viu o semblante da mulher.
— Não estou ferida, Sasuke...
— Fisicamente não.
— Estou indo ver a Sarada. – Avisou.
— Queria poder fazer isso... – Franziu o cenho.
— Você vai poder em breve. – A Haruno passou a mão nos cabelos negros do homem.
— Quero ouvir a Sarada reclamando do meu cabelo de novo. – Sorriu minimamente.
— E implicar com meu lado perua. – Sakura o acompanhou. – Merda... O que estamos fazendo? – Ergueu a cabeça, tentando esconder as lágrimas. – Ela não vai morrer... Logo ela vai estar fazendo isso.
— Ela vai... Agora, vai logo vê-la. Dê um beijo nela por mim.
— Ok. – Suspirou e depositou um selinho no moreno.
A rosada saiu do quarto do Uchiha e se dirigiu à UTI.
Mal conseguia perceber as coisas a sua volta. Estava preocupada com Sarada e era a única coisa que conseguia pensar. O caminho lhe parecia mais longo do que o que era realmente.
Finalmente chegou à sala de espera da unidade. Lá, algumas outras pessoas esperavam para poderem ver os familiares.
Sentia suas pernas tremerem e escorou-se a uma parede. Olhou em volta para as pessoas que ali estavam e encolheu-se um pouco ao notar que os visitantes desviavam o rosto ou lhe lançavam um olhar de pena.
O caso do sequestro estava na mídia, sabia disso. Talvez já soubessem, em partes, o que havia acontecido. Sabiam que Naruto causou danos a sua filha e a Sasuke.
Abraçou os próprios braços, como se aquilo fosse protegê-la dos olhares.
Finalmente uma enfermeira apareceu, explicando os procedimentos para as visitas.
Sakura seguiu todos os procedimentos indicados e dirigiu-se ao quarto 208. Respirou fundo por baixo da máscara que usava.
Não olhou pela janela, apenas viu sua filha quando adentrou o quarto.
O tempo parou em sua volta, sentiu que havia perdido o chão, sequer notou a pequena equipe médica dentro do quarto, prontos para dar informações.
Não conseguiu segurar as lágrimas e pôs-se a caminhar lentamente para mais perto do leito.
Sarada estava entubada, respirando com a ajuda de aparelhos. O tubo do dreno torácico saía do lado do corpo da menina. A cabeça estava enfaixada, bem como a mão direita. Havia uma órtese no pé esquerdo. Ela estava um pouco pálida e havia marcas de agressão em seu rosto. Dava para ver um curativo no ombro esquerdo da garota. Alguns fios a ligavam a aparelhos que mediam a atividade cerebral, batimentos cardíacos e outros parâmetros. O soro pendia ao lado da maca, ligado ao braço da jovem.
“Tiros... Facadas... Contusões... Tortura...”
Todas as palavras que lhe foram ditas sobre a situação de Sarada não foram suficientes para lhe preparar para aquele momento, a visão do corpo quase inerte sobre a maca.
Aquilo não podia ser real. Era um pesadelo... O pior de todos.
“Nossa filha... Sakura, ela tá morrendo!”
Lembrou-se da voz de Sasuke gritando.
Não pôde fazer nada... Não podia fazer nada.
Era uma inútil. Completamente inútil.
Perdeu Haruka e não pôde fazer nada por Sasuke e Sarada. Estavam machucados, enquanto ela não tinha nem um arranhão.
— Senhora Haruno... – Um dos membros da equipe a chamou.
A rosada não desviou seu olhar da filha.
Aproximou sua mão do rosto de Sarada, mas recolheu. Ela estava tão machucada. Aquilo causaria dor?
Por que Sarada? Por que não ela? Daria tudo para estar no lugar dela... Tudo para vê-la bem.
— O toque faz parte do tratamento, senhora. – Uma enfermeira lhe sorriu solidária ao notar o receio da mulher.
Sakura mordeu o lábio inferior, tentando se acalmar. Ainda estava trêmula.
Levou a mão aos cabelos negros da jovem. Estavam levemente bagunçados por causa das faixas ao redor da cabeça. Fez um carinho leve ali.
— Eu sou a doutora Mitarashi, neurocirurgiã. Estou na equipe responsável pela Sarada. – Uma mulher de olhos castanhos e cabelos tingidos de roxo falou. – Sua filha sofreu bastantes danos físicos. Foi levada com urgência para cirurgia. – A médica fez uma pausa para se certificar de que a Haruno a ouvia. – O pé esquerdo estava torcido, nada com o que se preocupar. A mão direita estava bastante machucada, as unhas estavam quase arrancadas e a pele esfolada, vai passar alguns dias para poder recuperar, talvez semanas. A facada na coxa esquerda não trouxe complicações, apesar de ser um ferimento profundo, não atingiu nenhuma artéria. O tiro no ombro também foi tratado sem complicações.
Sakura ouvia com atenção, apesar de estar focada em Sarada. Aqueles eram os ferimentos mais simples. Ainda havia outros ferimentos, havia complicações.
— Identificamos uma fratura linear temporoparietal no local onde o tiro passou de raspão. – A Haruno sentiu seu coração acelerar, com medo de que aquilo pudesse acarretar perda na atividade cerebral. – Felizmente a tomografia não identificou nenhuma complicação decorrente da fratura. Precisei apenas higienizar e suturar. Ainda assim, faremos novos testes para o caso de surgir alguma infecção tardia. As chances são baixas, mas, quando ela acordar, irei verificar se houve perda cognitiva.
A rosada suspirou, estava aliviada por não haver nada mais grave. Mas ainda corria riscos mínimos de perda cognitiva, o que já é extremamente preocupante para ela.
— Os danos na região torácica foram maiores. Se passasse mais um minuto, ela poderia ter morrido. Ela quebrou duas costelas, a lesão, além das contusões, causaram hemorragia interna, comprometendo a atividade pulmonar. Foi necessária a realização de uma toracotomia para tratar a hemorragia. – Fez uma pausa. – Houve uma pequena complicação. – O coração de Sakura apertou. – Houve algumas arritmias durante a cirurgia, devido à grande quantidade de sangue que ela perdeu. Felizmente conseguimos reverter a situação e conseguimos tratar o sangramento. Ela vai precisar usar o dreno torácico por um tempo. – Apontou para o dreno.
A Haruno continuava a fazer carinho nos cabelos da filha.
Não sabia como estava conseguindo se manter calma diante daquelas informações. A situação de Sarada era ainda pior do que poderia imaginar.
— E a coluna? – Perguntou em um fio de voz.
— A bala estava alojada na coluna, entre as vértebras T12 e L1. A L1 foi bastante comprometida. Retiramos o projétil e estabilizamos a coluna da Sarada através de cirurgia. Houve dano medular, mas...
— Ela vai perder os movimentos? – Interrompeu a médica.
— Só saberemos a magnitude do dano quando ela acordar. É possível que ela não tenha perdido sensibilidade nem função motora, assim como é possível ter perdido um ou outro, ou os dois.
— Quanto tempo até ela acordar?
— Ela ainda será mantida sedada por conta da dor e estabilização da coluna. – Explicou. – Isso é tudo... Com licença.
A médica saiu do quarto. A enfermeira que terminava de checar os aparelhos logo se retirou também, deixando a rosada a sós com Sarada.
— Quanto é demais para que possamos aguentar? – Sakura murmurou enquanto acariciava os cabelos de Sarada. – Eu já te perdi uma vez, agora eu perdi a Haruka e corro o risco de te perder novamente. – Abaixou a cabeça. – Merda... Você não merece isso, você é uma vítima, foi manipulada.
A Haruno segurou a mão esquerda da filha. Aparentemente, a única parte sem máculas no corpo da mais nova, a parte que Naruto não machucou.
— Naruto... – Deixou que uma lágrima escorresse. – Não o culpo... Ele enlouqueceu. Mas como não o faria, diante de tudo que ele perdeu?
Soltou a mão da filha e acariciou a barriga dela, sentindo o curativo por baixo da camisola. Um dos tiros havia sido ali, o que atingiu a coluna da jovem.
— A dor sempre existe... Sempre esperamos a poeira baixar, mas a poeira é nossa vida seguindo em frente. A felicidade chega e nos acomodamos... Eu devia ter aproveitado melhor esses meses em paz. Ter te conhecido melhor, ter passado mais tempo com você... – Limpou as lágrimas. – Deveria ter aproveitado muito mais... Em um momento estava tudo bem, mas a dor voltou... São consequências de nossos erros.
Acariciou o rosto de Sarada. Ainda estava um pouco inchado dos socos que sofreu.
— Eu errei tanto... Tive medo de falar quem era seu pai. Eu estava sem rumo naquela época, eu tinha acabado de te perder. Se eu tivesse falado sobre o Sasuke, a polícia teria te encontrado. Mas eu estava com medo, eu não sabia o que estava acontecendo, achei que ele tinha me abandonado, não pensei que fosse ajudar em algo. – Mordeu o lábio inferior. – A dor que sinto hoje por não ter tomado uma atitude na época é bem maior que o medo que sentia... Me perdoa! – Falou com a voz embargada. – Se eu tivesse agido corretamente, você não estaria assim. Você não teria sofrido nada disso. Eu sou horrível como mãe. Eu poderia ter sido muito melhor... Você merece alguém muito melhor.
Por que não conseguia ser positiva? Sarada não iria morrer. Estava sedada, quando parassem a injeção das substâncias, ela acordaria. Então por que se sentia daquele jeito?
— Você não vai morrer... – Passou as mãos pelo rosto. Tinha que ser positiva. – Você não vai morrer... – Mas não conseguia. – Você não vai implicar com minha vaidade ou com o cabelo do Sasuke, não vai soltar piadas sobre nosso relacionamento... Você vai viver, mas não vai ser a mesma. Você não sofreu apenas danos físicos.
Era isso... Tinha fé de que a filha viveria, mas não sabia o que esperar. A jovem não foi simplesmente agredida. Houve tortura. Será que foi apenas tortura física? O que Naruto poderia ter dito a ela? Como estava o psicológico de Sarada? Como ela lidaria com tudo quando acordasse?
Sakura puxou um pouco a máscara que usava e se curvou, depositando um beijo na testa da mais nova.
— Eu vou estar ao seu lado... Você trouxe de volta a minha vontade de viver, não posso deixar você mudar assim. Eu tenho que ser otimista, tenho que te ajudar... Eu te amo, Sarada.
Em silêncio, a Haruno permaneceu ao lado da filha. Mas, infelizmente, ela não podia ficar muito tempo ali, para sua tristeza. Logo o horário de visitas acabou e Sakura, agora completamente ciente da situação de Sarada, precisou se retirar.
Sentia-se sem rumo, sem chão... Não queria que a vissem chorando daquela forma, muito menos Sasuke.
Entrou no banheiro feminino mais próximo e se trancou lá. Queria estar sozinha naquele momento.
Olhou-se no espelho, o reflexo mais decadente que já vira. O rosto pálido, as olheiras profundas, a boca sem cor, os cabelos desgrenhados e presos de qualquer jeito por uma trança pra lá de mal feita. De fato a vaidade da rosada foi totalmente colocada de lado.
Mal teve tempo de ir em casa quando teve alta. Itachi a levou até a casa de Sasuke para que ela tomasse banho e trocasse de roupa, também para que pegasse algumas roupas e objetos pessoais para o Uchiha mais novo. Foi muito rápido e ela nem teve tempo pra notar como aquela casa parecia abandonada como cena de filme de terror, pois precisava voltar e prestar depoimento. Isso sem falar na ansiedade para ver a filha na UTI.
Precisava ser forte. Não sabia quando parariam com os sedativos para que Sarada acordasse, mas precisava se manter forte por ela e por Sasuke.
Lavou o rosto na pia, secou toda e qualquer lágrima, mas, por conta dos olhos inchados, não conseguiu limpar o vestígio de choro.
Não se importava com esse detalhe, pois seu rosto vivia assim recentemente... Sem vida, estampando sofrimento pela filha.
Saiu do banheiro e foi até o quarto de Sasuke, onde Mikoto estava com ele. Sem aviso prévio, Sakura correu até o moreno e o abraçou forte.
Não foi necessário que dissesse uma única palavra para ser compreendida. O moreno, por ter presenciado o estado da filha quando chegou naquela oficina, podia imaginar como ela estava e com certeza aquilo abalou o psicológico da mulher.
Em silêncio, Mikoto se levantou da poltrona bege onde estava sentada e se retirou do quarto. Aquele momento, por mais triste e dramático que fosse, era apenas de Sasuke e Sakura.
Por um momento, a morena fechou os olhos e se lembrou de quando Sasuke estava hospitalizado em estado grave. Ela estava sentada numa cadeira, perto da UTI, mas não podia entrar naquele momento, pois ainda não era horário de visitas, mas estava esperando. Chorava amargamente, pensava no filho tão jovem e com uma filha pequena. A garota, com seis anos na época, não tinha noção do que estava acontecendo e Mikoto a deixou sob os cuidados de Itachi e de uma babá para que pudesse ficar no hospital enquanto o caçula estivesse ali.
Perturbada e pensando que poderia perder o filho daquela forma tão trágica, Mikoto se deparou com Madara ali. Olhou para o homem que também estava com o semblante triste e não precisaram dizer nada um para o outro. Eles apenas se abraçaram... Aquilo foi o suficiente e valeu mais do que mil palavras de consolo.
Sasuke e Sakura precisavam daquele momento só deles.
O moreno, já sabendo da resposta, ousou perguntar:
— Por que está chorando, Sakura?
— Sasuke... – Desprendeu-se do Uchiha e respirou fundo, dessa vez sem conter as lágrimas. – Eu vi a nossa filha... A médica me falou sobre o estado dela.
— Também estou ciente. – Assentiu o moreno. – Eu queria ter estado ao seu lado nesse momento.
— A Ino disse... – Limpou as lágrimas, mas em vão, pois voltou a chorar com as lembranças. – Ino disse que Naruto a torturou.
— Infelizmente. – Ele abaixou o olhar. – Eu a vi, Sakura. Quando cheguei lá na oficina, eu vi como ela estava... Era óbvio que Naruto a maltratou muito. Isso só aumentou a minha vontade de matá-lo.
— Sasuke... – Fungou. – Eu não quero que você o mate... Ele era inocente, mas depois dessa, vamos deixar a polícia agir... Chega de mortes, por favor... – Pediu com a voz embargada.
— Acho que ele seria condenado à morte depois dessa... – Deu de ombros. – Sinceramente, não sei se ele voltaria para o sanatório ou se iria direto para o corredor da morte. – Suspirou. – A situação é invertida, Sakura... – Falou com pesar. – Ele quis nos ver sofrer por causa do que aconteceu à família dele. Eu matei a Hinata, a Himawari e tudo isso começou porque a Sarada matou o Kisame. – Explicou. – Isso é culpa minha...
— Sasuke...
— Se eu tivesse tido pulso firme com a Sarada desde o começo! – Sasuke parecia se torturar com o pensamento de que tudo poderia ter sido diferente. – Se eu não tivesse sido tão ausente na vida dela, Sarada iria respeitar minha vontade de que ela não entrasse para a Amaterasu. Ao contrário disso, ela fazia de tudo para me contrariar... Fugaku também fazia questão de colocar ela contra mim.
— Não adianta mais. – Sakura fechou os olhos e deixou mais lágrimas caírem. – Não dá pra voltar no tempo.
— Se desse, eu garanto, tudo seria diferente.
— Sabe... Os médicos não sabem dizer ainda se Sarada vai ou não demorar para recuperar os movimentos por causa do dano na medula. – Explicou. – Isso só vai dar pra saber quando ela acordar.
— Eu tenho esperança de que não vai demorar. Tenho esperança de que ela não terá sequelas.
— Eu tento ter... – Falou num fio de voz. – Mas tá difícil! Eu vi minha filha vegetando numa cama, Sasuke!
— Ela está sedada, não está em coma.
— Ela tá muito machucada... Muito.
— Eu sei que está, você não precisa ficar me lembrando disso. – Suspirou. – Eu só queria poder vê-la agora. Queria poder estar ao lado dela.
— Mikoto comentou que você está se recuperando bem. – Sakura segurou na mão do Uchiha. – Talvez em uns dez dias você seja liberado.
— Ir pra casa... – Riu sem humor. – Enquanto Sarada estiver aqui, esse hospital será minha casa. Não vou arredar o pé daqui enquanto minha filha não estiver em casa.
— Nem eu.
— Sakura... Você está realmente esperançosa ou está mentindo?
Sasuke não pôde evitar fazer essa pergunta.
Embora se sentisse na obrigação de ser otimista e acreditar que Sarada viveria e voltaria a andar sem sequelas, ele viu o estado que a menina estava. A viu desfalecer em seus braços antes de Naruto atacá-lo pelas costas e tinha pesadelos com aquela cena desde que tudo aconteceu.
Era difícil...
— Eu preciso ter esperanças, Sasuke. E você também precisa.
— Tem razão. – O moreno assentiu e recebeu novamente um abraço apertado de Sakura.
— Vamos ficar juntos, ok? Por nós e pela Sarada.
[...]
Toská, Rússia
09 de agosto de 2016
08:13 A.M.
Shikamaru mantinha seus olhos na projeção da televisão, analisando todas as câmeras que havia no evento.
— Para. – Ordenou para a mulher que estava controlando as filmagens. – Amplia nesta cena.
A cena que chamou a atenção do moreno foi aquela em que uma pessoa esbarrou na Haruno e a fez derrubar um pouco de refrigerante no seu vestido.
— É um homem moreno. – Shikamaru olhou para a outra pessoa que estava na sala. – Anote isso.
Assentiu para que soltasse a cena.
— Ele saiu e não pediu desculpas... – Franziu o cenho. – Foi entrando na multidão, parece até que tentava se esconder... Repete para mim, Guren.
Ela assentiu e voltou a cena, enquanto isso, o outro rapaz anotava tudo o que o Nara falava.
— Havia um espaço considerável para que ele passasse. – Destacou a mulher. – Será que Sarada viu quem era?
— Ela estava olhando para a barriga da mãe quando o suspeito esbarrou na Haruno, e quando ela levantou a cabeça, ele já havia saído de seu campo de visão. – Rebateu o delegado de cenho franzido. – Ele esbarra nela, não pede desculpas e some entre a multidão...
— O Uzumaki com certeza teve um cúmplice neste evento. – Disse Sai, o homem que anotava tudo.
— Bom, eu vi vários boatos na Internet de que a Haruno estava com o Uchiha por interesse, quem sabe esta pessoa que esbarrou nela queria dizer “coloque-se em seu lugar”. – Considerou a mulher. – Não podemos descartar a ideia simplesmente por coincidência.
— Volte para a cena em que o garçom aparece, Guren. – Pediu Shikamaru e a mulher o fez. – Amplia.
Aumentou a resolução e deixou o rosto do homem bem focado.
— Consegue descobrir quem é?
— Claro, te falo num instante.
— Delegado Nara, Sakura Van der Bilt entra no banheiro assim que o refrigerante é derramado sobre ela, e depois disso não foi mais vista. Sarada a mesma coisa. – Disse Sai.
— Então o Uzumaki com certeza estava no banheiro feminino esperando por ela...
— Mas como isto é possível? Estamos analisando as filmagens desde que o evento começou e não o identificamos.
— Será que ele estava lá antes mesmo das câmeras serem ligadas? – Refletiu. – Se foi isso, ele estava disfarçado como um zelador ou cozinheiro. Só eles entram antes dos convidados.
— Nara. – Guren o chamou e mostrou a foto de um homem na projeção ao lado da imagem do garçom, era a mesma pessoa. – Seu nome é Udon, trabalhava como voluntário na festa, tem 24 anos, está no último período de odontologia na Universidade de Toská.
— Consiga o endereço, telefone e entre em contato com ele o mais rápido possível. – Ordenou e a mulher prontamente começou a pesquisar mais informações.
— Guren, não há outro ângulo que foque o rosto do suspeito que esbarrou na Haruno? – Indagou Sai.
— Dos outros que têm não dá para ver. As pessoas em volta impossibilitaram isso. – Suspirou. – Mas vou continuar tentando.
— Senhor delegado. – Toneri Otsutsuki deu uma batidinha de leve na porta que estava aberta e entrou. – Saiu o resultado que encontramos na cena do crime.
— Sério? E o que é?
— Me acompanhe.
Retiraram-se da sala e foram até o centro de pesquisas, que não era muito longe. O grisalho apontou para o microscópio e o moreno foi até ele olhar.
— Magnésio? – Falou impressionado. – Era disso que a bomba era feita?
— Não só isso. – Apontou para o outro material e Shikamaru foi novamente conferir. – Estava misturado com hidrazina também. Os dois juntos formam a Astrolite AT, um material explosivo.
— Onde o Uzumaki conseguiu estes materiais? – Perguntou preocupado.
— Não sei, mas não são nada baratos. – Suspirou. – O Uzumaki não teria dinheiro para isso, mesmo se tivesse, como ele compraria sem ser visto? Ele é um foragido.
— Alguém comprou para ele. – Colocou a mão no queixo, pensativo.
— Mandei o Inuzuka ir em todos os departamentos que vendem magnésio e conferir as últimas compras desde que o Uzumaki fugiu. Em breve teremos uma resposta.
— Bom, após a fuga, ele não agiu durante uma semana. – Respirou fundo. – Será que foi tempo o suficiente para que ele planejasse tudo?
— Acredito que ele saiu de Woodhaven com plena consciência do que fazia... – Replicou. – Também analisei as marcas de pneu que havia lá. – Deu a volta na bancada e mostrou no computador a foto das marcas no asfalto e de outro pneu. As imagens se uniram, eram a mesma.
— É o Corolla dele?
— Não. – Diminuiu o zoom da segunda. – Era um Prisma Lt. Estava abandonado na estrada, foi achado nesta madrugada. Não havia nada dentro.
— Nada? – Perguntou chocado.
— Com exceção de uma garrafa de clorofórmio e um pano com marcas de batom. – Foi para a terceira bancada e de uma gaveta retirou as duas pistas citadas dentro de um pacote transparente, lacrados.
— Tanto Sakura Van der Bilt e Sarada Uchiha tinham uma dose disso no corpo delas. Isso explica o pano sujo de batom.
— A garrafa tem as digitais do Uzumaki, o carro todo. – Devolveu as pistas para a gaveta. – Mas aquele carro não é dele, provavelmente é alugado.
— Anotou a placa? Podemos conseguir as últimas compras da locado...
— A placa foi arrancada. – O interrompeu. – Os documentos também foram retirados.
— Droga. – Praguejou.
Podia não ser alugado também, mas não podiam descartar nenhuma hipótese.
— Bomba, carro... – Toneri começou a contar nos dedos. – Ele não conseguiria tudo isto em uma semana mesmo que tivesse planejado. Ele não tinha dinheiro.
— Alguém deu para ele. – Mordeu o lábio inferior, preocupado. – E foi alguém daquele evento...
— Por que pensa nisso? – Franziu o cenho. – Na festa, além dos convidados de outros países e alguns famosos da própria Rússia, só havia os Uchiha. Ninguém lá tem um motivo aparente para soltar alguém que trouxe problema a eles.
— Se Hinata estivesse aqui, ela concordaria comigo. – Olhou uma última vez para o homem e se retirou do recinto.
Hinata sempre teve excelentes intuições, nunca esteve errada. Por isso Shikamaru se mostrou tão relutante em acreditar que Naruto era culpado daqueles 14 assassinatos e não os Uchiha, mesmo com provas.
— Você me deixou paranoico também. – Riu assim que entrou em sua sala e sentou em sua poltrona.
O carro não era de Naruto, mas ele o dirigiu. Os elementos usados para a bomba com certeza não foi ele quem comprou. Fugiu do sanatório sem deixar pistas e agora se esconde. Cauteloso não era, mas era ágil.
E o fato dele não ser cauteloso o deixava preocupado. Porque isso significa que ele não pensaria duas vezes antes de atacar o hospital em que Sasuke, Sarada e Sakura estavam se houvesse uma possibilidade.
Olhou para o lado e viu seu celular sobre a mesa.
— Deveria? – Se perguntou assim que se viu procurando o número de uma certa pessoa.
Deu de ombros e resolveu ligar.
— Alô?
— Boruto, sou eu, Shikamaru Nara. – Se apresentou.
— Ah, oi. – Reconheceu a voz.
— Sabe por que estou te ligando?
— Sei... A notícia já chegou à Alemanha. – Disse seriamente.
— Sinto muito. – Suspirou. – Mas desta vez não há erros, seu pai comprovou que tem algum transtorno.
— Meu pai é normal, disso eu tenho certeza. – Sua voz era firme, nem parecia mais aquele garoto que há um tempo chorava.
— Olha, não vamos falar sobre isso. – Respirou fundo. – Vou tentar desvendar logo este caso e te mando notícias sempre que puder, estou em dívida com a sua família.
— Não se preocupe, eu já estou em Toská.
— Como? – Se levantou da cadeira num rompante.
— Ele é o meu pai. Tenho certeza que se eu aparecer ele irá se entregar a polícia.
— Está ficando maluco? Ele não está mais em seu estado mental normal! Veja, ele matou sua própria espo... – Parou de falar ao perceber o que estava prestes a dizer.
— Eu sei que não foi ele quem matou minha família. – Sua voz se tornou mansa. – Sei que ele pode me ouvir. – E desligou.
Shikamaru sentou-se novamente e entrelaçou as mãos. Talvez Boruto estivesse certo, mas se Naruto realmente estivesse fora de controle, poderia tirar a vida do próprio filho.
[...]
Toská, Rússia
10 de agosto de 2016
05:49 P.M.
Fugaku estava pensativo. A imprensa estava praticamente acampada na porta do hospital para saber qualquer coisa que fosse sobre os Uchiha, inclusive quem entrava e saía de lá.
Havia lido em sites de fofocas e visto em programas locais que Mikoto não saía do lado do filho desde que o mesmo e a neta foram hospitalizados, Itachi foi algumas vezes e Madara também ia com bastante frequência, fora outros Uchiha como Obito e Shisui.
Ficou furioso ao ler uma matéria cujo foco era seu primo. Lá dizia que Madara era um homem extremamente bom e preocupado com a família, visto que mal saía do hospital onde estavam hospitalizados Sasuke e Sarada, enquanto Fugaku, que é pai e avô, sequer apareceu para vê-los. Isso o enfureceu.
Seria um problema caso algum membro da família o visse lá, no entanto, a mídia o estava retratando como um familiar desnaturado. Precisava pelo menos fazer cena para a imprensa.
Deixou seu Audi Q7 no estacionamento do hospital e dirigiu-se à entrada, onde rapidamente foi abordado por alguns poucos repórteres desses programas de fofoca que não fazem nada além de falar das vidas alheias.
— Fugaku Uchiha, o senhor veio ver seu filho e sua neta? – Indagou uma mulher dos cabelos extremamente loiros e olhos claros.
Todos conheciam Shion, ela tinha uma coluna numa revista semanal que falava da vida de pessoas ricas e famosas. Com certeza estava querendo uma notícia para colocar na revista ou em seu maldito site.
— Eu acho que isso é meio óbvio. – Ele respondeu, mas não com grosseria. Queria mesmo que a loira tingida escrevesse que ele foi visitar Sasuke e Sarada. – Vim visitar meu filho e minha neta. Foi uma fatalidade terrível o que aconteceu com eles.
— Por que o senhor demorou tanto para vê-los? – Indagou, segurando seu iPhone de modo que gravasse a voz de ambos. – Afinal de contas, estão hospitalizados desde a noite do dia 06.
— Eu estava profundamente deprimido e abalado com o que aconteceu. – Ele mostrava-se profundamente abatido. Usava óculos escuros, na intenção de que pensassem que ele escondia olheiras ou olhos inchados de quem chorou muito. – Não suporto a ideia de que isso aconteceu com pessoas que eu amo tanto. É difícil encará-los nessa situação e eu não me sentia psicologicamente preparado. – Suspirou. – Os últimos acontecimentos mexeram muito com a minha cabeça, mas acho que já estou preparado para vê-los.
— Sakura Van der Bilt recebeu alta há dois dias. Ela pouco sai e sempre volta rápido para o hospital... Já sabemos que ela é mãe de Sarada Uchiha, mas qual é a relação dela com Sasuke?
— Bem... – O homem suspirou. – Ao que tudo indica, eles estão noivos, foi o que ele disse numa entrevista rápida naquela noite, certo? Fico muito feliz que ele finalmente tenha achado uma companheira, todos conhecemos o lado playboy de meu filho.
Dito isso, Fugaku entrou no hospital, deixando Shion com uma notícia para sua coluna e seu site. Estava satisfeito, uma vez que confiava em sua capacidade de atuação.
Não podia deixar que o vissem ali, pelo menos não os membros de sua família. Itachi já havia comentado que Sarada estava na UTI, e foi justamente pra lá que Fugaku foi.
Infelizmente, quando ia entrando na ala, uma enfermeira que passava por ali o impediu.
— O senhor não pode entrar aqui. – Explicou. – O horário de visita já acabou. São normas do hospital.
— Preciso ver minha neta, Sarada Uchiha. – O homem fez de tudo para parecer o mais abalado possível.
— Sinto muito, mas o senhor não pode entrar. – Tornou a dizer.
— "Não pode" é um termo muito forte... – Fugaku então tirou do bolso de seu paletó uma nota de cinco mil rublos e, discretamente, colocou no jaleco da enfermeira. – Você é a enfermeira chefe desse setor... – Falou tranquilamente, olhando para o crachá da moça. – Vamos, me deixe entrar. Só quero ver minha netinha...
— Eu entendo que o senhor esteja preocupado. – Suspirou enquanto retirava o dinheiro do bolso e o colocou no terno que o homem usava. – Mas infelizmente são as normas. Sua neta está sendo perseguida e quase morreu com isso, espero que entenda. Não podemos permitir a entrada nem mesmo dos familiares. – Curvou sua fronte em respeito e se retirou.
Não era à toa que o Bol'shoy Vostok tinha profissionais competentes e eram reconhecidos por isso. Mas isso o deixou irritado.
Havia acabado de entrar no hospital e já tinha que sair? Não, a mídia desconfiaria. Precisava ganhar tempo nem que fosse no banheiro.
Enrolou lá por um tempo, estava pensativo quanto ao que iria fazer. Estava com muito ódio do Uzumaki pelo o que ele fez. Realmente, queria matá-lo com as próprias mãos.
Cerrou os punhos e travou o maxilar. Não era de hoje que queria se livrar dos frutos que foram gerados a partir da traição de Mikoto, ou seja, Sasuke e Sarada.
No entanto aquilo não poderia ter acontecido. Aquele sequestro gerou um escândalo e Toská em peso já sabia que a segurança do evento tinha falhado, permitindo que um fugitivo do sanatório entrasse ali e sequestrasse duas pessoas.
Sabia que tanto Sasuke quanto Sarada já estavam fora de perigo, embora bastante machucados, sem falar que Sakura já tinha até recebido alta. Também sabia que Sakura havia abortado, indicando que Sasuke tinha engravidado a rosada novamente, deixando Fugaku furioso. A parte boa nisso tudo era que o feto já não mais existia, mas Sarada estava viva.
Como na vez em que Sasuke era mais jovem e sobreviveu mesmo tendo passado perto da morte, Sarada conseguiu sobreviver e surpreender a todos.
— Vaso ruim não quebra... – Murmurou friamente, com ambas as mãos apoiadas sobre a pia de mármore, fitando sua própria imagem refletida no espelho.
Suspirou pesadamente e se sentiu ridículo por estar conversando sozinho dentro do banheiro de um hospital. Sem falar que qualquer um poderia passar por lá e ouvir. Mas nem pensou nisso antes, apenas pensou alto algo que sempre costumava dizer com relação a Sasuke: Vaso ruim não quebra.
"Sarada não nega ser cria de quem é... Pirralha insolente, ingrata! Ao menos a outra não vai nascer", pensou.
Fugaku não podia negar que, com o passar dos anos, criou afeição para com a menina. Mas nunca se esquecia de quem ela é filha... Sabia que Sarada o amava e muitas vezes se pegou pensando algo como "Eu realmente gosto daquela menina", todavia, Fugaku não amava ninguém mais do que a ele mesmo. Talvez ela não fosse só uma forma de controlar Sasuke... Mesmo tendo gostado verdadeiramente de Sarada, ela o contrariou da mesma forma que Sasuke sempre o fez, portanto precisava morrer.
"Tudo isso começou por sua causa, garota...", apertou os lábios. "Na verdade tudo começou quando aquele bastardo do Sasuke nasceu! Eu não sabia que as coisas tomariam esse rumo, caso contrário teria tomado providências quando ele ainda era um bebê...", o homem riu de maneira sádica. "Bebês são frágeis e às vezes morrem, é triste, mas é um fato...”.
Quantas vezes havia pensado em livrar-se do filho bastardo? Mas não o fez e agora se arrependia.
“Estou apenas colhendo o que plantei... se tivesse matado Sasuke ainda pequeno, muitas coisas teriam sido evitadas. Mas, é como dizem, nunca é tarde pra se livrar de um incômodo.".
O que sempre o impediu de matar Sasuke foi Madara. Sempre pensou em se livrar dele, desde bebê, mas acabava receoso porque sabia que teria que prestar contas para com o primo mais novo.
Pensou em se livrar de Sasuke por meio de terceiros, simplesmente o enviando a trabalhos difíceis sozinho. Mas sabia que Madara desconfiaria e tiraria satisfações e isso o deixava de mãos atadas, tendo que assumir como filho o fruto de uma traição.
No entanto as coisas fugiram de seu controle, pois Sasuke cresceu e Fugaku passou a temê-lo, o que levou o mais velho a se arrepender profundamente de não ter se livrado dele ainda na infância.
Contudo, Sarada estava ali, nas mãos de Fugaku. Ele tinha a menina como um álibi e a usava para controlar Sasuke. Sobrecarregou Sasuke até não poder mais, tudo para que ele não tivesse tempo para Sarada e, aproveitando-se da ausência dele, colocou a menina contra o pai. O jeito sempre frio e distante de Sasuke também ajudava bastante.
O plano foi bom, Fugaku tinha Sasuke em suas mãos pelo simples fato de Sarada estar sempre contra o pai. Tudo estaria perfeito se Sakura não tivesse aparecido e entrado no caminho, se a rosada não tivesse interferido tanto na vida de Sasuke e Sarada a ponto de fazê-los mudar da água para o vinho.
Sasuke estava diferente e parecia querer se aproximar da filha com quem há tempos não se dava bem. Embora tivesse aprendido a amar a filha depois que a conheceu e, aos poucos, ir convivendo com ela, Sasuke nunca foi de demonstrar sentimentos.
Estava nitidamente mudado, assim como a própria Sarada... Tudo por causa da aparição repentina da Haruno.
Saiu do banheiro após alguns minutos, já não tinha mais motivos para ficar ali e tentaria passar despercebido pela maldita Shion quando fosse embora.
Pegou o elevador para ir ao primeiro andar e poder ir embora, uma vez que não tinha a intenção de visitar Sasuke e não queria que o vissem ali. Entretanto seu plano falhou. No momento em que as portas metálicas se abriram, Fugaku deu de cara com Madara.
— O que você faz aqui? – Madara questionou indignado quando seu primo mais velho saiu do elevador e as portas logo em seguida se fecharam.
— Você perdeu o elevador... – Fugaku falou normalmente, como se não tivesse escutado a pergunta de Madara.
— Você não respondeu minha pergunta, Fugaku. – O mais novo falou.
— Pensei que estivéssemos num país livre, onde as pessoas podem transitar por onde quiserem...
— Não acredito que você foi cara de pau o suficiente para vir aqui visitar o Sasuke e a Sarada. – Falou inconformado.
— Não vim para visitar meu filho e minha neta... Quero evitar escândalos e minha amada esposa... – Falou com desdém. – Com certeza daria um chilique caso me visse.
— Então?
— Vim visitar um amigo que está internado aqui.
— Amigo... – Soltou um riso anasalado. – E desde quando você tem amigos?
— Ora, não lhe devo satisfações, Madara!
— Você não me engana, Fugaku. – Franziu o cenho. – Se tentar fazer alguma coisa contra o meu filho e a minha neta, eu lhe mato com as minhas próprias mãos!
— Você acha que eu tentaria fazer alguma coisa aqui, no hospital? – Indagou com um ar de riso e arqueou levemente uma sobrancelha. – Faça-me o favor!
— Você seria capaz, Fugaku! – Afirmou. – Nada me tira da cabeça que foi você quem libertou o Uzumaki para se livrar do Sasuke, da Sakura e da Sarada.
— Claro, eu tenho diversos contatos no sanatório! – Ironizou. – Sinceramente, eu não sei como aquele loiro maldito fugiu de Woodhaven! Para de colocar em mim a culpa por tudo!
— Eu sempre desconfiarei de você, Fugaku! Desde a primeira vez que você atentou contra a vida do Sasuke.
— Só porque o Sasuke sempre foi um incompetente em suas missões não significa que eu estava atentando contra a vida dele.
— Você acha que eu sou estúpido? – Arqueou levemente uma sobrancelha.
— Não sei do que você está falando. – O homem se fez de desentendido. – Eu fiz uma promessa quando o Sasuke nasceu e vou cumprir até o fim dos meus dias.
— Não vou ficar debatendo isso com você, mas o fato é que você sempre odiou o Sasuke.
— E quais são os motivos que eu tenho para amá-lo?
— Sasuke nunca teve culpa dos meus erros e nem dos erros da Mikoto, mas você sempre o condenou, como se ele tivesse culpa dos erros alheios! Ninguém escolhe pai e mãe, ninguém tem culpa dos erros dos pais! Ninguém pede pra nascer, entenda isso!
— Pois que você e aquela cachorra tivessem pensado nisso antes de irem foder às escondidas!
Madara sentiu o ódio consumi-lo ao ouvir Fugaku se referir à Mikoto daquela maneira, mas manteve sua postura indiferente. Mesmo com o passar dos anos, ainda amava a mulher de seu primo.
— A culpa é sua... – Rebateu, fazendo Fugaku encará-lo com imensa indignação. – Depois que Itachi nasceu você nunca mais olhou para Mikoto como mulher... Por isso ela foi procurar um homem de verdade.
— Ora... – O mais velho se controlou para não aumentar o tom de voz e acabar chamando a atenção das poucas pessoas que estavam ali. – Independente da forma que eu olhava para a minha esposa, isso não era motivo pra você transar com ela e fazer um maldito bastardo!
— Eu amo a Mikoto, ao contrário de você.
— Amor... – Riu com deboche. – Vocês confundiram amor com vontade de foder!
— Não me fale sobre amor, Fugaku. Você não sabe o que é isso... Nunca soube.
— Não vou discutir sobre isso com você! – Bufou. – E também não quero ouvir sobre como eu sempre atentei contra a vida do Sasuke... Que ridículo!
— Mesmo que você faça através de terceiros, você faz. – Afirmou com total certeza.
— Relaxa, Madara... Vaso ruim não quebra e o Sasuke é a prova viva disso. O importante é que ele está inteiro, não é? – Indagou retoricamente. – Quero dizer, não mais tão inteiro, já que eu fiquei sabendo que ele perdeu um braço.
— Eu só não saco uma arma e te mato agora porque estamos num hospital. – Falou pausadamente, tentando manter a calma. – Eu vou descobrir... Vou descobrir como você libertou o Uzumaki... Terei provas de que foi você e me vingarei por isso.
— Boa sorte em tentar conseguir isso... – Sorriu de canto antes de seguir seu caminho para fora do hospital, deixando um Madara com raiva diante de tantas certezas tão incertas.
O Uchiha caminhou até o bebedouro, pegou um copo descartável e encheu com água, bebendo tudo de uma vez logo em seguida. Amassou o copo com força e depois jogou no lixo.
Estava furioso e, mesmo que Fugaku jurasse até a morte que não teve nada a ver com a fuga de Naruto, ele estava certo de que ele havia feito alguma coisa. Não era possível que Naruto fugisse sem a ajuda de terceiros.
Se não foi Fugaku, quem ajudou na fuga?
Era certo que ele queria se livrar de Sasuke e iria adorar uma oportunidade para se livrar de Sakura e Sarada também, mas ele arriscaria fazer aquilo no evento, mesmo estando ciente de que geraria um escândalo por conta da segurança do local? Talvez aquilo tenha sido imprudente demais até para Fugaku, e Madara começava a acreditar que seu primo poderia mesmo não ter nada a ver com a fuga de Naruto, mas não descartava a hipótese.
Pegou o elevador e foi para o segundo andar do hospital, onde estavam internados o filho e a neta. A menina continuava na UTI, e não tinha uma previsão de quando iria sair de lá, o que deixava todos profundamente aflitos.
Madara foi direto para o quarto de Sasuke, onde Sakura e Mikoto estavam com ele. As duas se recusavam a sair do lado do moreno.
— Com licença... – O Uchiha entrou no quarto e fechou a porta atrás de si.
— Madara... – Mikoto não podia evitar, seu coração batia mais forte sempre que o via.
— Ora... – Sasuke estranhou a reação do mais velho quando este se aproximou da cama. – Aconteceu alguma coisa?
— Fugaku... Ele estava aqui.
— Fugaku? – Sakura se levantou bruscamente da poltrona onde estava sentada. – Ele chegou perto da minha filha?
— Com certeza não. – Respondeu Madara. – Mesmo que tenha tentado, ninguém o deixaria entrar na UTI fora do horário de visitas.
— É verdade... – A mulher suspirou aliviada. – Eu tinha me esquecido desse detalhe. – Seu semblante ficou triste, visto que queria passar mais tempo ao lado da filha e não podia. – E o que ele queria?
— Disse que veio visitar um amigo, mas tenho certeza de que é mentira.
— Aquele monstro não tem amigos. – Disse Mikoto, que em seguida sorriu com deboche. – Com certeza ele veio apenas fazer média para a imprensa.
— Isso é típico dele. – Comentou o moreno mais novo. – Fugaku sempre foi de aparências.
— É o que eu sempre digo. – Mikoto assentiu. – Seja lá o que ele veio fazer aqui, Sasuke, não é uma ameaça pra você e nem pra Sarada. Pelo menos não aqui dentro do hospital.
— Ora essa! – Sakura se exaltou por um instante. – Minha filha foi sequestrada de dentro de um hospital! Acha mesmo que é totalmente seguro?
— Há dezenove anos, Sakura. – Sasuke respondeu. – Muita coisa mudou.
— Eu não sei vocês, mas acredito que Naruto tenha recebido ajuda de alguém para sair do sanatório. – Comentou pensativa a rosada. – E este alguém se chama Fugaku Uchiha.
— Pensei nele também, mas ele não se arriscaria tanto. – Mikoto falou. – Está em todos os jornais que a segurança do evento falhou. Por que ele geraria um escândalo desses em torno do próprio nome?
— Mãe, estamos falando de alguém que já tentou incontáveis vezes me matar através de terceiros. – Sasuke rebateu.
Mikoto apenas ficou calada para não dizer outro "Eu te avisei!" para o filho. Ele provavelmente já cansou de ouvir aquilo, sem falar que não ia adiantar de nada. Mikoto avisou quando ele era jovem, disse para Sasuke seguir outra carreira, fazer uma faculdade e ficar longe da Amaterasu pois um dia ele iria se arrepender... Mas o rapaz nunca deu ouvidos para sua progenitora.
— Tive o mesmo raciocínio que a Mikoto... – Madara falou pensativo. – Mas, convenhamos quem teria interesse nessa fuga?
— Algum parente do Naruto? – Supôs a Haruno.
— Não... – O mais velho balançou a cabeça em sinal negativo. – Aquela psiquiatra com certeza foi comprada pelo Hyuuga, cunhado do Uzumaki, para que ele não fosse condenado à morte. Afinal, ele é um homem perfeitamente normal e, tido como um desequilibrado, logo apresentaria melhoras consideráveis e seria libertado. Então por que alguém da família o ajudaria a fugir?
— Madara, não passou pela sua cabeça que o Naruto pode já não ser mais um homem normal? – Indagou a Haruno. – Ele convivia em meio a pessoas com distúrbios mentais, é provável até que tenha sido medicado... Mas ele armou aquilo, quase nos matou a sangue frio. – Estremeceu-se ao lembrar-se daquele olhar que o loiro dirigia a ela naquela noite.
— Isso se chama sede de vingança, Sakura. – O Uchiha mais velho explicou.
— É a mesma coisa que fez você voltar para Toská e ir atrás de mim sem ao menos pensar nas consequências. – Sasuke olhou para a rosada e ela apenas abaixou a cabeça. Realmente ela estava cega pela raiva no momento em que algemou o moreno na cama e apontou uma arma para ele. – Mas, Madara... – Sasuke olhou para seu progenitor. – Sakura tem razão. O Naruto não estava normal, eu podia ver isso... Ele estava louco, desequilibrado, completamente desequilibrado.
— Mesmo assim, como ele iria planejar uma fuga perfeita do sanatório sem deixar rastros? Por que ainda não foi encontrado pela polícia? – Rebateu o mais velho.
— Tem alguém encobrindo ele. – Deduziu a Uchiha. – Mesmo que tenha sido Fugaku, ele não gosta de escândalos envolvendo o nome da nossa família.
— Só sei de uma coisa: Naruto não fugiu sozinho. E seja lá quem o tenha ajudado a fugir, essa pessoa queria Sasuke, Sakura e Sarada mortos. – Finalizou o moreno mais velho.
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