Amarras do Passado
8 Kiss Me - Ed Sheeran
Notas iniciais
Passado
Peeta
"...My heart's against your chest, Your lips pressed to my neck
I'm falling for your eyes but they don't know me yet
And with this feeling I'll forget, I'm in love now..."
Ed Sheeran
***
Eu estou preocupado.
Katniss nunca faltou a nenhuma aula, e hoje já era o segundo dia em que eu não a vi nos corredores da universidade.
Ela não apareceu no Valentine's para tomar o café da manhã, o que já era uma grande quebra na rotina invisível que estabelecemos. Hoje, eu tive a esperança de encontrá-la na aula de Haymitch. Entretanto, minhas esperanças foram pelo ralo a medida que a aula passava e Katniss não aparecia.
Agora começo a me sentir ansioso, o que é bem ridículo, pois ela tem que estar em algum lugar. De modo precipitado, decido matar as últimas aulas para procurá-la.
No final da tarde eu estou realmente preocupado. Ninguém da Turma a tinha visto durante todo o dia, e ela não estava no centro de treinamento, e nem na biblioteca. Também descobri que ela não tinha ido trabalhar na lanchonete da universidade. Suas colegas disseram que ela tinha ligado no dia anterior avisando que estava doente.
Minha preocupação subiu a níveis alarmantes.
Doente? Penso agitado. O que ela tem? Já tinha ido a algum hospital? Estava sozinha sem ninguém para ajudá-la?
Porém, de certa forma agora eu tinha uma desculpa perfeita para ir procurá-la no dormitório do campus. Antes, passei no Valentine's e comprei chocolate quente para ela, tive que passar rapidamente no apartamento que dividido com Cato e Finnick, e peguei os pães de queijo que tinha feito na noite anterior.
No caminho para o dormitório feminino, fui relembrando o dia em que descobri a paixão de Katniss por pão de queijo. Um dos dias mais divertidos que tivemos.
Nós estávamos no centro de treinamento de arco e flecha, e eu achei que ela sentiria fome depois de um longo dia treinando sua mira já perfeita. Katniss tinha olhos de caçadora.
Eu não podia estar mais certo, naquele dia, como hoje, eu também tinha comprado um copo de seu chocolate quente predileto e depois de mais de meia hora de Katniss tentando me ensinar a mirar com o arco e flecha, sendo que, todas as tentativas que fiz foram vergonhosamente desastrosas. Nós dois, enfim, nos sentamos para desfrutar de um lanche rápido antes de ir embora.
Katniss devorou mais da metade dos pequenos pães de queijo, enquanto dava pequenos goles em seu chocolate.
Não pude deixar de sentir um enorme prazer ao vê-la se deliciar com o alimento que eu tinha preparado. Ela estava tão radiante naquele dia e ficou muito surpresa quanto contei que tinha feito os pães sozinho.
Essa era uma grande diferença entre Katniss e Glimmer.
Pois minha namorada não come nenhum tipo de massa, por medo de engordar. E sempre torceu o nariz para as minhas receitas.
Já Katniss adora todas as receitas que faço, é claro que ela tem uma preferência pelo cozido de carneiro e pelos pães de queijo, mas não torce o nariz para nada.
Me forço a voltar para o presente, de certa forma me sinto um pouco estranho, afinal nunca tinha ido ao quarto de Katniss.
O grande dormitório feminino, ficava do outro lado do campus, bem afastado do centro estudantil.
Não demoro a chegar na portaria do dormitório, e tive que procurar em uma grande painel lateral cheio de pequenas campainhas por aquela que era destinada a Katniss.
Foi na terceira fileira de campainhas que encontrei o que procurava, ao lado de uma botão prateado estava escrito Everdeen, Katniss.
Senti meu peito palpitar, enquanto aperto o pequeno botão e espero ao lado do interfone.
— Katniss. — Anunciou sua voz suave pelo interfone metálico, ainda bem que não tive que esperar muito por uma resposta dela, mas pela voz, ela não parecia estar doente.
— Oi, Katniss. Sou eu, Peeta. Você pode liberar a entrada? — Era melhor ser um pouco atrevido.
— Tudo bem. — Disse ela apenas. — Meu quarto é o dezoito, lado A.
Logo, o portão fez um estralo pequeno e foi aberto.
Graças a Deus o lugar era cheio de pequenas placas sinalizando tudo. Então, ele não teve dificuldades de encontrar o quarto dela.
O dezoito, lado A ficava no térreo.
Ao chegar na frente da porta, bati duas vezes com os nós dos dedos e esperei.
Prestando atenção pode ouvir os barulhos de Katniss se movimentando pelo quarto, e depois pode ouvir um pequeno barulho de uma trava de segurança sendo aberta.
Katniss abriu a porta e me olhou com olhos cansados. Senti meu estômago afundar ao notar sua dor.
Ainda sim, ela estava linda com o cabelo solto, longo e escuro emoldurando o seu belo rosto. Suas roupas eram práticas e confortáveis, uma calça de moletom clara e uma blusa de alças justa, mas olhando-a atentamente eu podia notar alguns sinais preocupantes.
Seus olhos cinzentos que eu tanto amava, estavam nublados e vermelhos por algum ataque de lágrimas tão recente que seus cílios ainda estavam úmidos.
Sua postura era tensa, seus músculos estavam contraídos como se ela estivesse se segurando para não desmoronar.
Me senti perdido ao olhá-la, pequeno e insignificante. O que tinha acontecido?
— Katniss.- Ouço minha voz suavemente ao entrar no quarto sem pedir por sua permissão.- Você está bem?
— Estou bem.- Respondeu em uma voz não tão firme.
Mentirosa. Penso.
Katniss é a pior mentirosa que conheço. Sempre que ela, por algum motivo, tentava mentir seu rosto imediatamente se tinge de um tom claro de vermelho, ou ela desviava os olhos de maneira afetada, ou ainda pior, ela ficava passando uma mão na outra sem parar. São gestos involuntários, ela não os percebe, mas fica visível para qualquer outra pessoa.
Deixo o saco com a refeição de ambos em uma mesa pequena, enquanto Katniss fecha a porta e depois atravessa o quarto pequeno e se senta em uma cadeira próxima a janela.
Ela fica me olhando sem nada dizer, sua desolação é transparente assim como a sua solidão. Imediatamente sinto instintos protetores surgirem dentro de mim. Desejos malucos de apossam de meu corpo e de repente eu tenho que me controlar para não correr e abraçá-la apertado, enxugar seus olhos bonitos e beijá-la até afastar a dor estampada em seu fronte.
Me pego querendo amá-la e protegê-la de sabe-se lá o que tenha feito ficar assim tão triste.
Tentando me controlar olho em volta, como é a primeira vez que entro em seu quarto não posso deixar de estar fascinado por tudo em volta.
No fundo de meu peito eu sei que esse momento é muito íntimo. O tipo de momento que eu nunca me permiti sentir ao lado dela.
O quarto é pintado de verde, mas não um único tom dessa cor. Várias tonalidades de verde estão nas paredes, em uma bagunça harmônica. Katniss deve gostar muito dessa cor, sua cama de solteiro esta desforrada, mas fora isso o seu quarto é bem organizado.
A mochila marrom dela está em um cabideiro na porta. Alguns livros acadêmicos estão dispostos em uma estante, e um guarda-roupas de duas portas está encostado em uma das paredes.
Na estante de livros em algumas prateleiras vazios estão dispostos vários porta-retratos, curioso me aproximo para olhá-los de perto.
O primeiro porta-retrato que olho mostra Katniss abraçada em uma garota loira, alguns anos mais nova que ela, ambas estão sentadas lado a lado, sorrindo para a câmera. Em outro vejo uma fotografia da família de Katniss, seu pai, sua mãe e a mesma garotinha loira da foto anterior, que provavelmente é irmã de Katniss, todos estão em pé na frente de uma casa velha, sorrindo. Outra foto mostra apenas o pai dela em uma posse elegante.
O outro porta-retrato com a foto da irmã de Katniss, eu não me lembro muito bem dela, mas a foto mostra uma menina muito bonita, de cabelos loiros longos e vibrantes olhos azuis, algumas poucas sardas marcam o seu rosto inocente. Uma garotinha muito bonita, igual a irmã. As duas com belezas tão distintas.
Katniss tem uma beleza clássica, crua. Ela tem o mesmo porte elegante do pai.
Já sua irmã, cujo nome não me lembro, tem uma beleza angelical, frágil, muito parecida com a mãe delas.
Pego este porta-retrato na mão e examino a menina mais atentamente.
Onde ela estava? Katniss nunca tocou no nome dela. Será que ela estava vivendo com sua mãe no distrito doze?
Quero perguntar, mas não sei se devo.
— Esta é minha irmã, Primrose. — Ouço a voz de Katniss.
— Eu me lembro dela, lembro de já ter visto vocês juntas, mas não me lembrava de seu nome. — Falo ao olhar para Katniss.
Seus olhos continuam nublados, sua postura tensa.
— Hoje é o aniversário dela. — Me confidência ela, enquanto grossas lágrimas escorrem de seus olhos, mas acho que ela não percebeu que está chorando. — Ela morreu a dois anos.
Sou tomado pelo choque de sua declaração. Volto a olhar para a foto de Prim. Tão bonita, tão jovem. O que aconteceu com ela?
Eu não pergunto porque Katniss me conta no mesmo instante.
— Em uma excursão de escola para o Distrito Onze, Prim conheceu uma menina chamada Rue. Eles tinham a mesma idade e mesmo com a distância, se tornaram amigas. — Contou Katniss mecanicamente, lentamente ela se levanta de seu lugar junto a janela e caminha até a estante, depois aponta para o último porta-retratos, onde Prim está abraçada em uma menina bonita de olhar atento e pele cor de chocolate. — Rue era uma garotinha fantástica. Você tinha que vê-las juntas. Pareciam gêmeas.
Mais lágrimas silenciosas escorrem por seus olhos.
—Elas costumavam intercalar as férias escolares entre os distritos. Algum tempo no Doze, outro no Onze. — Katniss suspira cansada enquanto passa as mãos pelo rosto.
— Há dois anos, elas estavam no Distrito Onze, tudo estava indo bem, eu ligava para Prim todas as noites. Elas estavam muito animadas pois começariam um trabalho voluntário em um orfanato. — Katniss se afastou da pequena estante e voltou a se sentar em seu lugar a janela. — Houve um incêndio no orfanato, tubulação velha e vazamento de gás. Poucas pessoas conseguiram escapar, tantas crianças morreram.
Por um algum tempo nós ficamos em silêncio, tenho certeza de que ouvi a notícia pela televisão.
— Enfim, o chefe dos bombeiros me disse que elas morreram muito antes do fogo alcançá-las. O gás matou as duas. Elas não sofreram muito. — Terminou Katniss.
Peeta não sabia o que dizer, palavra alguma serviria para consolá-la. E seu coração estava cheio de raiva.
Onde estava o pai, e a mãe de Katniss para consolá-la? Para estar ao lado da filha neste dia tão infeliz?
— Onde está o seu pai e sua mãe?- A pergunta salta de seus lábios antes que ele possa controlá-la.
— Oh, Peeta. — Diz Katniss, sua voz cheia de pesar. — Meu pai morreu quando eu tinha onze anos, a mina de carvão onde ele trabalhava explodiu, todos os mineiros que trabalhavam com meu pai morreram. E minha mãe foi embora do Distrito Doze poucos dias depois da morte de Prim, ela não podia suportar o lugar cheio de lembranças, tanto faz, sei apenas que ela está trabalhando de enfermeira no Distrito Quatro.
— Ela te deixou sozinha? Não entendo. — De repente não posso suportar mais, de que maneira a mãe dela pode abandonar a própria filha depois de tanta tragédia?
— Katniss. — Tento novamente ordenar meus pensamentos. O que dizer para uma pessoa que perdeu tudo, que estava sozinha no mundo?
Katniss se encolhe na cadeira, abraçando os próprios joelhos, parece que contar sua história só fez piorar sua dor.
Ela não me pediu, mas mesmo que tivesse me mandado ir embora eu não iria. Não havia nada no mundo capaz de me afastar dela neste momento.
Em poucos passos a alcanço e sem a sua permissão a puxo para os meus braços.
Ela se permite abraçar, seus olhos estão nos meus e seu corpo está tenso. Então a abraço com mais força, e aos poucos sinto o seu corpo relaxar, as lágrimas já não escorrem por seu rosto, ela não soluça como eu achei que faria. Katniss, apenas me abraça de volta, e apoia o rosto em meu ombro os seus punhos se fecham com força em minha jaqueta, me mantendo preso a ela.
E eu gostei disso, gostei de tê-la me prendendo a ela.
Sei que ficamos abraçados por bastante tempo, o suficiente para nossos corações baterem em um mesmo ritmo.
Katniss volta a me olhar e suas pupilas já não estão mais enevoadas como antes. Ela parece um pouco melhor.
Devagar, como se ela quisesse que eu soubesse o que ela estava planejando, ela aproxima o seu rosto do meu. Tão vagarosa que sinto o meu corpo tremer de antecipação.
Seus olhos de tempestade se fecham e os meus também. Sinto seus lábios tocando os meus e quase não consigo controlar um gemido de prazer.
Nosso beijo é lento e contido no começo. Os lábios de Katniss são macios e doces ao se moverem timidamente nos meus, até que sinto um dos braços dela envolvendo o meu pescoço, me puxando para mais perto, uma de suas mãos está entrelaçada no meu cabelo. Perco um pouco de controle e permito que meus braços puxem o seu corpo mais para o meu, colando-nos tentadoramente.
Tenho que controlar outro gemido quando sinto a boca de Katniss abrir lentamente e sua língua pedir passagem em minha boca. Meus lábios respondem de imediato e me delicio ao prová-la tão intensamente.
Em segundos, nosso beijo se transforma de tímido para algo ardente e urgente. Nossas línguas duelando por mais.
Aproveito para extravasar a vontade que eu sempre tive de beijá-la.
Apenas nos separamos quando é necessário respirar. E amaldiçoo o oxigênio por me afastar dela. Estamos ofegantes, e nossos corações estão disparados no peito, batendo no mesmo ritmo desesperado.
Encosto minha testa na de Katniss e suspiro.
Por tudo o que é sagrado? Penso. O que foi isso?
— Katniss. — Sussurro seu nome encantado.
Nunca senti algo tão intenso em um beijo. Não estou dizendo isso, apenas pelo desejo sexual do meu corpo pelo dela.
Foi a conexão que senti, enquanto nos beijamos, que me deixou mais maravilhado. Em nosso beijo pude sentir Katniss em cada célula do meu corpo, meu sangue disparado nas veias.
— Peeta. — Ouço o meu nome ser sussurrado por ela.
Katniss sentiu o mesmo que eu? Deve ter sentido. Não posso acreditar que ela não tenha passado pela mesma experiência.
Já estou preparado para avançar em um novo beijo quando ela me solta e se afasta.
Seus olhos assustados presos nos meus.
— Katniss, eu..- Começo a dizer.
— Não diz nada. — Interrompe ela rapidamente. — Por favor, não diz nada.
Ficamos nos encarando por alguns segundos. Até Katniss dar uma fungada no ar.
— Eu sinto cheiro de pão de queijo. — Diz ela sorrindo tímida ao mudar de assunto. — Estou ficando louca?
Não posso deixar de rir de seu comentário. O que posso fazer se ela quer mudar de assunto. Decido deixá-la escapar dessa vez.
— Eu trouxe pão de queijo e chocolate quente.
O ronco de seu estômago interrompe o meu comentário. Ela cora e eu dou outra risada.
— Você comeu alguma coisa? — Pergunto.
— Não tive muita fome. — Responde sincera.
Me volto para a mesa onde deixei a comida e ao abrir o saco lanço em Katniss um olhar de reprovação.
O chocolate quente manteve o pão de queijo morno dentro do saco de papel.
Faço com que Katniss de sente na cama e levo para ela o copo de chocolate e dois pães de queijo grandes. Me sento na cadeira perto da janela e vigio a sua alimentação, ela resmunga um pouco e me olha atravessado, entretanto me obedece e come tudo.
Pouco depois, quando ela termina de comer, eu tiro o copo vazio de chocolate de suas mãos ao notar que ela está mais sonolenta que antes. Seus olhos piscam sem parar.
Aproveito que estou de pé e tiro a minha jaqueta e meus sapatos.
Katniss me observa sem dizer nada.
— Venha Katniss.- Chamo-a ao pegar em suas mãos e fazê-la se deitar comigo na pequena cama de solteiro dela. Tenho um pouco de dificuldade em nos cobrir com sua coberta, mas não demoro em conseguir isso.
Não sei de onde veio esse surto de inspiração, mas não me preocupo em tentar entendê-lo.
Abraço Katniss e faço com que ela descanse a cabeça em meu peito, ela parece tensa no começo, mas depois de alguns minutos é vencida pelo cansaço e adormece em meus braços.
Sem perceber também adormeço, mesmo tentando ficar acordado a todo custo para não perder nenhum momento ao lado dela.
Acordo muitas horas depois. Em princípio me assusto por não saber onde estou, mas é só olhar para baixo e ver Katniss adormecida em meus braços que eu me acalmo. Seus lábios estão próximos do meu pescoço e ela suspira em seu sono.
O quarto está tomado pelo negrume da noite, olho em meu relógio de pulso e me surpreendo com a hora. Já são quase dez horas da noite.
Droga, perdi o jantar com meus pais.
— Katniss.- Sussurro seu nome, acho um pecado ter que acordá-la quando ela está tão bonita e relaxada contra mim. — Katniss, acorde, eu tenho que ir.
Katniss abre os olhos e acena com a cabeça afirmativamente. Ela parece que ainda está no mundo dos sonhos.
Lentamente retiro o cobertor de cima do meu corpo e afasto seu corpo do meu. Sinto a falta dela me abraçando na mesma hora.
Em um último surto de desejo, aproximo meus lábios dos dela e a beijo. Não é um beijo ardente como o anterior, esse é calmo e quente, sinto a mão dela em meu rosto acariciando a minha mandíbula, me mantendo junto a ela. Tenho que me afastar rápido, antes que eu perca o controle total e passe a noite com ela.
Me levanto da cama e tenho o cuidado de mantê-la ainda coberta.
Não tenho pressa em me vestir, afinal já perdi o jantar com minha família.
Deixo Katniss e vou embora, mal posso acreditar no que aconteceu essa tarde, e é estranho pensar nisso, mas meu coração ficou com ela.
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