Amarras do Passado
48 I almost do - Taylor Swift
Notas iniciais
Passado
Katniss
"...I bet this time of night you’re still up
I bet you’re tired from a long, hard week
I bet you’re sitting in your chair by the window
Looking out at the city
And I bet sometimes you wonder about me
And I just want to tell you
It takes everything in me not to call you
And I wish I could run to you
And I hope you know that
Everytime I don’t
I almost do, I almost do..."
***
Eu abro a porta da velha casa a minha frente e observo atentamente. Meus olhos passeiam em volta do ambiente familiar e ao mesmo tempo estranho. Faz muitos anos que eu não moro aqui, eu abandonei esse lugar por muito tempo, e o tempo acabou por tomar conta daquilo que eu já não podia suportar. Essa casa me traz muitas recordações, muitos fantasmas que eu preferiria manter escondidos.
Não queria voltar para cá, não queria trazer minha filha para essa casa, não dessa jeito, não dessa forma. Não foi assim que eu planejei voltar para cá. De volta para o meu lar, para o Distrito Doze trazendo a minha filha inocente e doce para essa casa velha e cheia de recordações dolorosas, bem dentro do coração da Costura.
Eu estou apertando muito fortemente a chave enferrujada da minha casa, o ferro antigo faz a minha mão coçar, as respirações que puxo para dentro dos meus pulmões estão cheias de poeira, o ar em volta parece contaminado e parado, totalmente estagnado.
Quase não tenho coragem de trazer Elika para dentro, os olhos dela estão abertos em curiosidade e medo. Minha menina não gosta de escuro, e de lugares sombrios e é isso o que minha casa é no momento. A casa antiga que meu pai deixou para mim, ninguém mora aqui há muitos anos, os moveis continuam no mesmo lugar que eu os deixei, tudo continua igual ao que eu imaginei.
Tudo em volta grita abandono, desde as cortinas fechadas e sujas, até a poeira preta que cobre o chão aos nossos pés.
– Mamãe, eu estou com medo. — Escuto Elika dizer ao passar os braços em volta das minhas pernas, ela olha em volta assustada para os poucos móveis cobertos com lençóis encardidos.
– Não precisa ter medo, passarinho. Essa é a nossa nova casa, ela esta suja e escura porque esteve fechada durante muitos anos. Mas, a mamãe vai limpar tudo e logo isso aqui vai estar ótimo para nós duas. — Eu digo ao me abaixar e olhar bem firme nos olhos azuis de minha filha, ela se mantém atenta a cada palavra que sai da minha boca e logo o seu semblante assustado se alivia. — O seu avô me deixou essa casa, ela é tudo o que nós temos e vamos fazer desse lugar o nosso lar, o que acha? A mamãe nasceu aqui nessa casa, sabia?
– Nossa, é verdade mamãe? — Ela me pergunta animada ao se aconchegar mais perto de mim, passando os seus braços em volta do meu pescoço.
– Claro passarinho. Você vai poder ter um quarto só para você, isso não vai ser legal? Mas, nos primeiros dias você vai dormir com a mamãe, até que eu tenha arrumado tudo por aqui.
– Um quarto só meu? — Elika fica radiante de felicidade com a noticia. — E o quarto vai ser rosa com florzinhas e borboletas?
– Claro, passarinho. O que você quiser. Agora vamos entrar porque eu tenho que carregar as nossas malas para dentro. — Eu encorajo ao me soltar gentilmente dos braços da minha filha e ir até a entrada da casa, onde o taxista que contratei deixou as minhas malas na calçada.
O crepúsculo não demoraria a chegar e eu queria que Elika estive-se estabelecida quando isso ocorresse, ainda tenho que passar no mercado e comprar alguma coisa para jantarmos. Tudo o que eu trouxe comigo do Distrito Onze foi o essencial, o restando das nossas coisas, os móveis e tudo o que era grande para caber dentro de uma mala, foi vendido. Não consegui muito dinheiro com os meus bens, entretanto não podia trazer nada comigo, pelo menos não sem pagar um valor de transporte altíssimo. Dinheiro esse que eu não tenho.
A grande verdade é que eu estou quebrada financeiramente, tenho algumas economias no banco, porém não o suficiente para passar outro inverno estando desempregada. Preciso de um emprego e preciso disso para ontem.
Suspiro tristemente quando deixo os meus pensamentos vagarem para o Distrito Onze, pensar no meu pequeno apartamento lá enche o meu peito de dor, eu estava construindo uma vida para Elika e eu, as coisas eram difíceis, muito duras, todavia com muita luta eu conseguia pagar as contas do mês e manter a minha filha e eu em seguranças.
Continuava a minha vida de garçonete em uma grande agência de eventos, tudo estava indo bem. Eu trabalhava de dia e cuidava de Elika a noite. Durante o dia, eu pagava uma senhora para cuidar de minha filha. Meu passarinho ficava na casa dessa mulher, era uma casa simples, vizinha da minha, mas a velha senhora Ruggins era afetuosa com minha menina, e Elika era cuidada com carinho e atenção.
Tive muita sorte em encontrar a senhora Ruggins, do contrário eu estaria perdida com uma criança nos braços e sem ter onde deixá-la para ir trabalhar. Só em pensar em escolas primárias abarrotadas de crianças, faziam o meu coração tremer de medo. A senhora Ruggins foi um anjo em aceitar cuidar de Elika por um valor tão baixo, eu sabia que ela fazia pois tinha pena da minha situação. Ela mesma me contou que criou sozinha três filhos, depois que o marido morreu na Guerra da Liberdade. É triste dizer que no meu um ano e meio no Distrito Onze, ela foi a única amiga que eu tive.
Lentamente eu vou levando todas as malas com os meus pertences e os de Elika para dentro da minha casa, em seguida corro para abrir as cortinas e soltando os trincos de segurança das janelas eu abro as duas para que um pouco de ar entre dentro da casa.
Minha filha esta sentada no chão sujo, perto da porta aberta e mantém em suas mãos roliças, duas bonecas de pano muito simples. Ela brinca com as bonecas, conversando com os dois pedaços de tecido flácido e criando aventuras para todas elas. Vê-la assim apenas me faz sorrir, e esse é um dos primeiros sorrisos verdadeiros que consigo dar nos últimos meses.
Desde que tudo mudou, desde que o maldito senhor Thivoo apareceu na minha vida. Aquele maldito babaca, assediador e molestador. A única coisa que não consigo deixar de lamentar é de ter escapado das garras nojentas daquele homem. Escapei bem a tempo, antes que algo de ruim pudesse acontecer. Eu prefiro mil vezes me matar de lutar por um futuro para a minha filha e eu, do que me deixar levar pelo dinheiro fácil que aquele homem pervenço me oferecia. Nada no mundo me faria aceitar as propostas indecentes que ele vivia me fazendo, e com toda a certeza do mundo, nada me faria permitir as mãos dele no meu corpo.
O senhor Thivoo se tornou o meu novo chefe dentro da Agência de Eventos e logo na primeiro semana ficou claro que o homem era um porco tarado. Vivia por assediar as garçonetes e as atendentes da Agência, eu ficava sabendo por fofocas que ele chegou a chantagear uma menina com demissão de ela não dormisse com ele. Ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo, e certamente ninguém tinha como provar nada, tudo era baseado em rumores.
No começo eu não levei nada a sério, não até que encontrei o homem pessoalmente em um grande Evento em que eu estava trabalhando, e logo a minha vida dentro da Agência se tornou um inferno.
Eu frequentemente recebia elogios e cantadas dos clientes, a maioria desses homens apenas achavam o meu trabalho inferior e insignificante e por isso me assediavam em alguns eventos. Para eles, o seu direito estava garantido, eu não podia fazer nada, então apenas me mantinha afastada desse tipo de cliente, e não dava espaço para ser abordada por esse tipo de pessoa. Os outros que me elogiavam até queria marcar algo bacana e respeitoso, queriam me conhecer. Mas, estou quebrada para todos os homens, e sinceramente não tenho interesse nenhum em me apaixonar. Não quando olhos azuis sedutores são tudo o que eu consigo pensar quando os meus olhos se fecham para dormir. O pai de Elika frequentemente esta em meus pensamentos, eu não queria isso, mas não sei apagar o que sinto por ele.
Então, eu apenas me mantive afastada de todos os homens que apareceram no meu caminho. Mas, o senhor Thivoo não parecia entender isso, o velho sabia que eu tinha uma filha pequena e que era solteira. Isso pareceu o bastante para ele começar a achar que tinha o direito de me comandar.
Eu comecei a pegar mais turnos e o velho sempre estava por perto. As vezes ele me chamava em sua sala apenas para brigar sem motivo algum, e as suas reuniões de negocio comigo sempre envolviam perguntas constrangedoras e desnecessárias. Quer dizer, ele não precisava saber que número de roupa eu usava, ou a numeração do meu calçado. Ele não precisava saber exatamente onde eu costumava almoçar, ou que idade tinha a minha filha. Se ela se parecia comigo e onde estava a minha família.
Tudo isso começou a me irritar e a me preocupar, foi quando os coisas começaram a piorar. Eu comecei a notar que ele me esperava para ir embora e sempre insistia em me dar carona, não que eu aceitasse, eu sempre neguei esse tipo de favor, depois ele começou a insistir que eu tinha que encontrá-lo para jantar, tudo o que ele queria era falar de negócios, o que eu não engolia, pois o que um empresário tinha de falar de negócios com uma das garçonetes? As pessoas no trabalho me pediram para ter cuidado com ele, e para não ficar sozinha com esse velho em hipótese alguma.
Depois de um mês disso, os elogios simples e educados dele começaram a se tornar mais brutais. De linda, eu passei a ser gostosa, e ao invés de me chamar para sair, ele sussurrava em meu ouvido que "eu estava pedindo por aquilo" ou que " a minha cara de santa não escondia a vadia que eu era na cama". Eu fiquei assustadíssima, nunca passei por nada parecido com isso em minha vida.
O homem estava ficando obcecado em ficar sozinho comigo, em tentar me pegar desprevenida. E as coisas só relaxaram quando eu ameacei denunciá-lo para a policia. Mas, é claro que isso não iria pará-lo, não por muito tempo. Então em uma certa manhã, ele apenas me encurralou em um corredor vazio, enquanto eu fazia a contagem dos pratos que usaríamos no próximo evento e me beijou a força. Bem, ele queria fazer mais do que apenas me beijar, essa é a verdade. Mas, eu o impedi quando quebrei um dos pratos no rosto dele.
Depois que eu bati nele com força eu apenas corri para casa, morrendo de medo de estar sendo seguida por ele. Pensei muito em ir até a delegacia, mas no final eu apenas não tive coragem de ir. Não aconteceu nada de muito grave, foi apenas um beijo forçado, e algumas marcas roxas nos meu braços onde ele me segurou com força. As marcas com o tempo iriam sair e eu esqueceria o que aconteceu. Eu tinha que pensar em Elika, eu tinha que manter o meu emprego, tudo o que eu ganhava estava indo para pagar o aluguel, as contas de água e de luz, de gás e aquecimento, eu tinha que pagar a senhora Rubbins por cuidar de Elika e ainda tinha gastos com comida e tudo o que nós duas precisávamos para manter o mês.
Depois de deixar a casa da minha mãe no Distrito Quatro eu já não tinha mais nenhum contato com ela, nenhum sinal se ela estava viva ou morta, e eu simplesmente não me importava, toda a minha força e atenção estavam voltadas para manter Elika segura e feliz, em manter o prato dela sempre com comida, e seu corpo aquecido no inverno. Então, eu não estava colocando muito dinheiro em minha conta no banco, e eu seria amaldiçoada se começasse a pedir dinheiro para Johanna ou para Gale para me ajudar a criar Elika.
Eu ainda converso com Gale, muito raramente agora, porém ainda mantemos um contato rápido e constrangedor. Dentro do meu peito eu sinto que o estou perdendo, ele esta saindo da minha vida, indo embora e não existe nada que eu possa fazer para impedir isso. Nós ainda nos seguramos no que ficou da nossa amizade, mas já não existe muita dela para nos manter unidos. É difícil aceitar que ele esta me deixando, ou que eu o estou o deixando. Ele foi o meu primeiro amigo verdadeiro, o mais significativo durante os meus anos de adolescente, nos dois nos enfiávamos dentro da floresta ao redor de Distrito Doze e caçávamos para ajudar com as despesas de nossas famílias, nós dois passamos muitas horas juntos, unidos pelas circunstancias desagradáveis da morte de nossos pais, e pela responsabilidade de manter as nossas famílias alimentadas. Ele sempre foi a primeira pessoa que eu corria para contar qualquer coisa, ele festejou um dia inteiro comigo quando eu soube que tinha ganhado a bolsa de estudos para a Universidade da Capital, e agora nós estávamos nos tornando estranhos um para o outro.
Eu tenho uma filha e continuo irrevogavelmente apaixonada por outro homem. Ele esta noivo de Madge, uma amiga querida e me pediu em casamento, eu o neguei e isso abalou de vez as estruturas de tudo o que sustentava a nossa amizade. "A vida é assim!" eu insisto em dizer sempre que penso nisso, não posso impedir que isso ocorra. E mesmo que me doa, com o passar dos meses e com tantas responsabilidades, eu descobri que não doí tanto assim. Essa é apenas mais uma dor a tantas outras que eu tenho que lidar, essa é apenas mais uma perda somada a tantas outras que eu já tive.
Talvez, eu tenho sido feita para ser abandonada.
E Johanna é tão ferrada de dinheiro quanto eu mesmo. Ela não tinha muito e lutava para se manter, eu apenas não podia correr para ela e implorar por ajuda, mesmo sendo madrinha da minha filha, ela não me deve nada. Talvez ela consiga uma promoção, isso vai ajudá-la muito, estou torcendo para isso. Johanna merece.
Elika é minha filha, eu sou a responsável legal por ela, eu tenho que mantê-la e supri-la. Principalmente porque minha menina não tem pai. Sou apenas eu por ela.
Quando eu voltei para trabalhar no dia seguinte, o Senhor Thivoo com os seus olhos castanhos lacrimosos e caídos estava com um curativo enorme no rosto e muito mal-humorado me deu um intimado, ou eu aceitava as coisas que ele tinha para oferecer e me tornava uma "boa funcionária", ou eu seria demitida. Ele não me falou com essas palavras, mas o significado era esse.
Eu apenas disse que ele podia morrer de uma doença venérea e que eu preferia disputar um Jogos Vorazes sozinha, tendo como arma uma colher de madeira do que deixar ele me tocar.
No outro dia eu estava demitida e mesmo recebendo os meus direitos, eu estava apenas muito ferrada de raiva e desespero.
Não me venderia igual a uma prostituta apenas para manter um emprego que eu odiava. Alias, eu não me venderia por nada no mundo. Não sou esse tipo de mulher, eu apenas tive um homem me tocando e me entreguei por amor, por amá-lo.
Voltei para casa arrasada, preocupado e aflita.
E agora o que eu faria? O Distrito Onze, no final também se mostrou uma grande decepção. No meu peito eu sentia uma enorme saudade do meu próprio Distrito, eu ansiava por colocar os meus olhos na floresta mais uma vez, em ver o verde que eu tanto amava, em respirar o ar frio da grande campina e o cheiro leve de carvão das minas. O Distrito Doze estava crescendo, talvez estivesse na hora de retornar retornar.
Então em duas semanas eu vendi todos os meus móveis e muitos dos meus pertences, devolvi o apartamento, dei um grande abraço de despedida na senhora Rubbins e embarquei com minha filha em meus braços em um trem direto para o Distrito Doze. Em meu peito eu tinha a esperança de que se eu consegui encontrar emprego no Distrito Onze eu também conseguiria no Distrito Doze, eu sou uma pessoa perseverante, uma lutadora e meu pai sempre dizia que eu era a menina mais corajosa de todas, bem, estava na hora de eu ter mais um pouco de coragem. Por Elika e por mim.
Com um piscar de olhos eu volto para o presente e imediatamente começo a tirar os lençóis dos móveis a minha volta. Minha casa na costura, o lar de minha infância e juventude era um lugar muito simples, muito pequeno e rústico. Havia um papel de parede antigo e desgastado nas paredes da sala, apenas um sofá duro e mofado e uma poltrona rasgada no estofado. As prateleiras sob a lareira estavam vazias de fotografias e tudo em minha volta continuava a gritar abandono.
Existe muitas memorias nessas paredes, muitas memórias nesses móveis velhos e simples. Eu quase posso sentir a presença do meu pai e de Prim aqui dentro. É algo que corta o meu coração e esse é um dos motivos do porque de eu demorar tanto para voltar. E contando desde o momento em que eu recebi a carta da Universidade me avisando que Haymitch tinha aceitado ser o mentor dos meus estudos que eu não pisava dentro dessa casa, isso já fazem cinco anos.
É claro que pisar no meu Distrito depois de tantos anos quase me fez cair em lágrimas, eu senti toda uma vida de saudade sendo tirada dos meus ombros, mesmo com os meus planos de estudar na Capital, coisa que era um sonho do meu pai, eu nunca me imaginei passando tanto tempo longo do Distrito Doze, aqui é o meu lar, é o lugar onde eu nasci e onde eu cresci. Meu espirito esta ligado nessa terra. Meus planos iniciais incluíam me formar na Capital e voltar para o Distrito Doze, conseguir uma vaga na prefeitura, ou em alguma empresa local e viver uma vida pacifica, ao lado da floresta que tanto amo, e das pessoas simples que eu conheço.
Mas, as coisas não aconteceram de acordo com os meus planos, olhos azuis brilhantes e sedutores interromperam tudo e arrasaram a minha vida igual a um furacão, não sobrou muita coisa depois que ele passou, todavia ele me deixou a coisa mais importante que eu tenho, me dei a nossa filha amada e eu não mudaria nada se o resultado fosse não tê-la em meus braços.
Quando Elika reclama por estar com fome, eu apenas tranco toda a casa e ao segurar em sua mão eu sigo para o mercado mais próximo, sinto os olhos curiosos de muitos moradores da costura me seguindo, mas ninguém pára para conversar comigo e ao chegar no pequeno mercado que fica dentro da Costura, eu pego um carrinho pequeno e começo a enchê-lo do que é apenas essencial.
Elika me pede para comprar algumas besteiras açucaradas e gordurosas, mas eu nego. Graças aos céus que minha filha não é do tipo de criança que chora e faz escândalos quando não consegue algo que quer. E para agradá-la eu compro um pequeno bolo de chocolate para o jantar, ela fica muito feliz e não tira os olhos do bolo, também pego alguns produtos de limpeza, um balde pequeno e alguns panos para fazer a limpeza da minha casa, não esqueço das velas já que não tenho energia elétrica funcionando na casa. Preciso dessas coisas, ou Elika e eu vamos viver em uma lixão escuro.
Não compro nenhuma carne, pois o valor estava muito acima do que eu poderia pagar no momento. Tenho que economizar até conseguir um outro emprego, até ter certeza de um salário para manter Elika e a mim. Carrego as nossas comprar em sacolas de papel, e Elika segue ao meu lado, sua mão esta presa nas minhas e eu não a solto por nada no mundo.
Voltamos mais rapidamente para a minha casa. Elika vai saltitando a todo o momento e apontando para coisas que ela acha interessante na rua, sua voz doce e seu cantar ecoam pelas ruas sujas da Costura, o inverno esta indo embora, a primavera esta chegando e isso é muito bom. As ruas já não estão mais sujas de neve, apenas uma lama escura gruda nos nossos sapatos.
Quando entramos na casa ainda existe luz o bastante para clarear por dentro, por isso eu apenas fecho a porta atrás de nós duas e a faço ir até a cozinha comigo. Esse é outro comodo da casa que esta em completo abandono, mas para a minha felicidade a água ainda funciona quando eu aciono a torneira da pia, demora um pouco e ela sai barrenta nas primeiras tentativas. Depois que Elika pega de volta as suas bonecas de pano, eu apenas a sento na mesa da cozinha e começo e mexer no pequeno armário ao lado da pia. Não vou poder cozinhar nada hoje, pois não acho que o fogão funcione, tenho que pedir para que o gás seja restabelecido nessa casa, juntamente com a energia elétrica, mas a prefeitura não esta funcionando a essa hora. Portanto, eu descido apenas fazer alguns sanduíches para minha filha e eu jantarmos.
Antes eu tenho que limpar algumas coisas, por isso já pego um dos panos de dentro das sacolas, junto com um produto desinfetante e começo a tirar o pó de cima da mesa da cozinha e da pia. Limpo de forma eficaz, mas rápida tudo o que consigo encontrar. Elika continua brincando, porém as vezes faz uma pausa para me ver trabalhar, seus olhos azuis brilhantes e curiosos apenas me seguem de um lado para o outro, eu acabo por lavar alguns utensílios de cozinha a muito tempo guardados e enxugo-os da melhor forma possível com outro pano limpo.
Depois, com a cozinha levemente limpa eu começo a preparar os sanduíches para a minha menina. Faço do jeito que ela gosta, com bastante queijo e aproveito para picar um tomate em cubos bem pequenos, coloco um pouco do conteúdo dentro e Elika estica as mãos para receber o seu jantar com uma expressão faminta no rosto. Eu continuo limpando a cozinha enquanto ela come tranquilamente, depois vou para a sala de estar e abro uma grande mala verde de rodinhas.
Dentro dessa mala estão os lençóis limpos, e edredons macios que eu trouxe para nós duas. Dentro do pequeno banheiro no andar de baixo, eu encontro uma vassoura velha cheia de teias de aranha, de forma precisa eu me livro das teias irritantes e mato os pequenos insetos antes de Elika colocar seus olhos neles. Minha menina morre de medo de insetos, tem um completo pavor dessas criaturas chatas.
Ao dar uma volta pelos quartos no andar de cima, eu apenas sei que Elika e eu não vamos dormir nessas camas sujas e cheias de insetos, o abandono dos quartos esta muito pior do que a sala ou a cozinha, não existe forma nenhuma de ficarmos aqui em cima, por isso eu apenas fecho a porta e retorno para o andar de baixo.
Elika continua na cozinha, agora ela esta batucando docemente na bandeja onde esta o bolo de chocolate, os seus olhos cobiçosos apenas venerando o doce.
– Quer sobremesa, passarinho? — Eu pergunto já sabendo a resposta, e antes mesmo que ela me dê isso, eu já estou abrindo a embalagem plástica e cortando uma fatia do bolo para ela.
Novamente eu deixo ela comendo, e volto para a sala. Durante o restante da tarde eu apenas limpo e limpo e limpo mais um pouco. A sala já esta muito mais organizada do que quando eu cheguei, o chão esta limpo, depois que eu o vari e passei um pano molhado por todo o assoalho de madeira, tirei o pó dos móveis de forma rápida. Limpei da melhor forma possível o sofá sóbrio, tirei as almofadas e passei um pano levemente úmido por todo o tecido grosso do móvel, verifiquei cada pequeno esconderijo em caso de insetos estarem escondidos, mas não consegui encontrar nenhum. Depois eu forrei essas almofadas com um lençol limpo e coloquei um edredom fofo por cima. Minhas mãos estavam ardendo por causa dos produtos de limpeza e por tanto esfregar.
Quando começou a escurecer eu acendi algumas vezes e liguei a pequena lanterna que tinha, Elika estava me seguindo por toda parte nessa hora, morrendo de medo de ficar sozinha, seus olhos demonstravam estarem exaustos, e eu não demorei por colocá-la para dormir no sofá da sala, ela estranhou o lugar inusitado para dormir, mas não reclamou depois que eu a coloquei no pijame e fiz com que ela escovasse os seus dentes.
Elika apagou em uma sono pesado, a pequena lanterna sendo apertada em suas mãos. Eu cobri o seu pequeno corpo com um cobertor e a deixei descansar. Infelizmente o sofá era muito pequeno para nós duas dormirmos juntas, então eu apenas continuei a limpar o que eu podia, até que não podia mais manter os meus olhos abertos, quando isso aconteceu eu apenas me encolhi na poltrona rasgada e joguei um cobertor em volta do meu corpo, adormecendo quase que imediatamente.
Me lembro de acordar com os primeiros raios de sol, meu corpo doía pela posição desconfortável em que eu dormi e eu me sentia mais cansada do que nunca, meu estômago roncava de fome e eu me lembrei que não tinha comido nada no dia anterior. Com tantas coisas para fazer eu apenas me esqueci de me alimentar.
Quase posso jurar que já acordei com um esfregão nas mãos, mal abri meus olhos e lá estava eu me movendo para continuar a limpeza. Eu tinha que aproveitar que Elika ainda estava adormecida para limpar o máximo que conseguia, por isso eu apenas comecei a me mover rapidamente pelos cômodos, dessa vez eu comecei com o andar de cima, por mais que o meu estômago reclamasse de fome eu simplesmente não tinha tempo para isso no momento.
Até o horário onde Elika acordou, eu já tinha colocado os colchões do lado de fora da casa na varanda de madeira para pegar os primeiros raios de sol da primavera, já tinha colocado um punhado de lençóis antigos para lavar dentro do tanque velho nos fundos da casa e já tinha varrido e passado pano em todo o chão do andar de cima.
Foi nessa hora que eu parei para tomarmos café da manhã juntas. Cortei duas maçãs em pequenos pedaços e abri uma caixinha de leite para minha filha tomar.
Esse segundo dia foi ainda mais corrido do que o primeiro, depois do café da manhã Elika e eu fomos até a prefeitura onde eu fiz o pedido para religarem a energia elétrica e o gás da minha casa, depois de assinar um bocado de formulários e de pagar as requerimentos eu tive a palavra deles de que o meu pedido seria entregue em dois dias. Na volta, ainda passamos novamente pelo mercado onde eu tive que comprar outra enxurrada de produtos de limpeza, desde desinfetantes, sabão para lavar roupas e até detergentes, tive que comprar alguns venenos de insetos para espalhar pela casa, já que esta tinha se transformado em um ninho de criaturas com muitas patas.
Quando voltamos eu apenas abri uma das malas e tirei mais alguns brinquedos de Elika, ela imediatamente começou a brincar e se distraiu da minha presença. Por isso eu voltei a limpar e limpar. Tive que parar várias vezes para atender alguma necessidade da minha filha. Minha prioridade a tarde foi a limpeza do banheiro e quando ficou frio demais, eu apenas larguei o que estava fazendo e coloquei os colchões de volta para dentro, ainda não dava para dormir no andar de cima, pois eu estava apenas no começo de uma longa limpeza, mas já tinha começado e era isso o que importava.
Antes do crepúsculo, Greasy Sae uma senhora muito conhecida aqui na Costura e amiga de meu falecido pai, veio me visitar com a neta confusa dela ao seu lado. Ambas tinham sorrisos muito parecidos, embora, os da neta eram mais malucos do que focados. Samyli era o nome dessa moça.
Greasy Sae continuava a mesma que eu me lembrava, só que agora ela tinha quase todo o cabelo branco e muitas rugas novas em sua expressão cansada.
– Olá Katniss, quanto tempo. Você se lembra de Samyli? E de mim? — A voz potente de Greasy me disse, em seu rosto um bonito sorriso profundo e sincero estava estampado. — Oras, eu achei que você não voltaria mais para essa casa.
– Greasy, é claro que me lembro de você e de Samyli. Querem entrar? — Eu perguntei mais por educação do que qualquer outra coisa.
– É claro que sim. — Ela diz já puxando a neta para dentro da casa, em suas mãos eu agora podia ver uma travessa de vidro cheia de alguma coisa. — Tome, isso é carne de coelho assada. Não tem muito, mas dá para o seu jantar e de sua menina.
– Como você sabe que Elika é minha filha? — Eu pergunto discretamente quando fecho a porta atrás delas. minhas bochechas queimam quando penso no estado lastimável que estou, dois dias de uma limpeza pesada dentro desta casa e ainda sem tomar banho.
Samyli me olha toda contente ao estender para a minha mão uma sacola grande cheia de carvão.
– Por aqui não se fala em mais nada, tudo o que esses linguarudos comentam é sobre a menina Everdeen que voltou para casa com uma filha nos braços. — A velha senhora me diz sem rodeios. — Eu mandei os fofoqueiros ficarem longe de sua casa, e trouxe algumas coisas que você podia precisar, sei que a energia ainda não foi religada e me dá medo saber que vocês estão nessa casa velha sozinhas e sem energia elétrica.
Nesse momento minha filha corre para onde estamos, seus olhos brilhantes e suas bochechas rosadas, ela olha para as desconhecidas com receio infantil, e se gruda na barra da minha camiseta.
Inicialmente eu me sinto perturbada por saber ser o centro das atenções em meu próprio Distrito, mas sempre confiei em Greasy no passado e me admiro ao notar que meus sentimentos em relação a velha senhora não mudaram em nada.
– Obrigada Greasy. — Eu digo ao olhar para a senhora. — Greasy e Samyli, esta e minha filha Elika Everdeen. Passarinho, essas duas são amigas da mamãe. Você não vai dar oi para elas?
Elika demora um pouco, seus olhos sempre atentos nas duas mulheres que sorriam para elas e depois de sorrir um de seus sorrisos mais lindos apenas enterrou o seu rosto ainda mais em meu quadril, suas bochechas queimavam de vergonha.
Ela estava toda manhosa com estranhos nos últimos tempos. Sempre grudando em minhas pernas e me segurando apertado.
Os olhos castanhos de Greasy apenas grudaram em minha filha com calor, e sua neta estava quase pulando nos próprios pés com vontade de puxar Elika para os seus braços.
– Ela tem olhos de céu, vovó. Você viu? É um céu de verão. — Samyli disse ao sorrir feliz para Elika.
– Elika, por que você não mostra para a Samyli as suas bonecas? Ela vai adorar ver todos os seus brinquedos. — Eu incentivo com uma voz suave, mantenho um sorriso aberto nos lábios.
Minha menina ainda demora um pouco, mas depois oferece sua mãos para Samyli e a puxa para onde tinha deixado os seus brinquedos próximo ao sofá da sala. O sorriso da neta de Greasy é enorme ao ir brincar com a minha filha.
Greasy e eu nos dirigimos para a cozinha , ela ainda segurando a travessa com carne de coelho assada em suas mãos e eu levando a sacola pesada bem presa entre os meus dedos. Quando entramos eu aceno para que Greasy puxe uma cadeira e se sente, entretanto eu me mantenho em pé.
– Quer um pedaço de bolo? — Eu pergunto a ela.
– Não obrigada. Nessa sacola esta um pouco de carvão. Não é o suficiente para passar a semana, mas se você economizar vai durar uns dois dias. — Ela me diz seriamente. — Esses fogões modernos que só funcionam com eletricidade ou a gás saem perdendo muito do bom e velho carvão. Eu vejo que seus pais ainda mantiveram o fogão a lenha, muito espertos eles foram. Principalmente nesses tempos onde a energia é tão cara. Você já tem uma previsão de quando a prefeitura vai religar a sua energia elétrica?
– Eles me disseram que em dois dias fariam isso. — Eu respondo depois de um suspiro cansada, acabo passando as mãos no meus cabelos tentando manter as mechas rebeldes mais disciplinadas. Greasy me fez um grande favor em trazer esse carvão, eu vou precisar dele para esquentar água para Elika tomar banho e fazer um pouco de comida de verdade para ela, e não apenas pão. — Você quer um chá, ou algo para beber, eu não tenho muita coisa, mas posso te arrumar algo? Eu não esperava ninguém tão cedo aqui.
– Eu não quero nada, obrigada. Estou mais preocupada com vocês duas nessa casa...
– Eu sei. — Interrompo de forma educada. — Ainda não terminei de limpar, tenho muita coisa para por em ordem.
– Menina, essa casa esta caindo aos pedaços, e não existe jeito nenhum de água e sabão resolver isso. Os cupins já devem ter se espalhado pela madeira, o telhado esta cheio de falhas e buracos, existem muitos janelas quebradas e vai saber o quanto a estrutura esta comprometida. — Grease me interrompe mais fortemente, seus olhos queimam nos meus, e eu tenho vontade de me encolher. O meu lado mais racional diz que ela esta certa, mas não posso aceitar isso. Tenho que ficar aqui nessa casa, para onde eu iria com Elika? — O que você esta fazendo aqui Katniss? Você não foi para a Capital estudar e conseguir dinheiro? Foi isso o que você me disse que faria.
Com um movimento rápido eu puxo uma cadeira e me sento olhando fixamente para Greasy.
– Eu não pude cumprir as minhas metas, não pude ficar na Capital. Tudo apenas é muito complicado, mas eu estou fazendo o melhor que eu posso. — Eu volto a dizer, tento colocar a máximo possível de força em minhas palavras. Não quero falar do passado, não quero abrir uma porta que já foi tão difícil para fechar, eu sou mãe agora, tenho que ser forte não por mim, mas por minha filha inocente. Ficar revirando o passado não vai me levar a lugar nenhum eu apenas tenho que tentar melhorar com as cartas que a vida me deu. Seguir em frente e tudo mais. — Eu sei que essa casa não é o melhor lugar para eu ficar, porém esta é minha casa, sempre foi minha casa e aos poucos eu vou fazer dela um lar novamente, um lar para minha filha e eu.
Greasy apenas me olha intensamente. O bom dela é que não faz perguntas impróprias, não insiste em um assunto que eu não quero manter.
– Me fale sobre a menina. Onde esta o pai dessa criança? — A sua voz quente perfura os meus pensamentos gelados.
– Bom, Elika tem três anos, ela não tem pai, não um que se importe pelo menos. — Eu decido falar, minhas voz ainda esta muito frágil, o que eu não gosto nem um pouco, todavia se eu não contar nada Greasy vai voltar nesse assunto mais cedo ou mais tarde. — Faz tempo que eu não sei nada dele, acho que ele já esta casado, eu realmente não sei e não procuro saber. Nós eramos amigos enquanto eu estudava na Capital, agora já não somos mais nada e eu não quero falar disso, apenas não estou preparada ainda.
Greasy apenas me olha com seus olhos castanhos espertos e atentos, um sorriso triste aparece em seus olhos e seus lábios se curvam levemente. Um suspiro cansado sai de seus lábios e ela estica a sua mão para pegar a minha. Seus dedos enrugados são calosos e quentes nos meus. Ela me deu mais conforto com esse pequeno gesto do que a minha mãe me deu nos poucos meses que vivi com a minha mãe no Distrito Quatro. Me sinto uma desgraçada por notar isso.
– Não permita que seu espirito se curve menina, você ainda tem muito fogo dentro de si. Eu consigo notar isso. — Ela me diz ao sorrir de forma firma. — Os homens as vezes são assim, eles são criaturas tão diferentes de nós. Eu também passei por isso em minha vida, em uma época muito mais sombria que esta, em uma Panem muito diferente da de hoje e consegui sobreviver, você também vai, pode ter certeza disso. O tempo é o melhor remédio para curar qualquer coração ferido.
– Obrigada Greasy. — Ouço as palavras escaparem de meus lábios e tenho que engolir fortemente uma onda de lágrimas que insistem em borrar a minha visão, apenas consigo me controlar quando escuto o riso feliz da minha filha na sala ao lado. — Eu tenho meu passarinho, não vou me curvar a nada.
– É bom ouvir isso. — Ela me diz ao sorrir espertamente, seus cabelos brancos reluzem quando os raios de sol, que entram através da janela, batem neles. — Eu vi que você precisa de um pouco de ajuda e vou te ajudar..
– Não precisa Grease, eu posso me virar...
– E eu disse que não podia? Eu sei que pode, mas quero te ajudar. Pelo menos a acender esse jogão com um pouco de carvão e esquentar esse assado que eu te fiz, você vai gostar. — A velha volta a me interromper dessa vez mais bruscamente. — Aliás, quando é que você vai voltar a caçar, eu bem queria uma carne fresca para preparar um ensopado, depois que você e o menino Hawthorne foram embora nunca mais tive uma caça tão boa.
– Eu não sei te dizer, com certeza eu vou ter que voltar a caçar, pelo menos até que eu consiga um emprego aqui no Doze, porém tenho Elika para cuidar. Ela não pode ficar sozinha por tantas horas e eu...
– Não se preocupe com a menina, ela fica comigo e Samyli lá na minha casa enquanto você estiver caçando e mesmo quando você conseguir um emprego, você deixa a pequena comigo. Faz um tempo que eu não cuido de uma criança tão nova, mas vou gostar de ter a pequena por perto. — Greasy fala ao se levantar e já ir direto para a sacola com o carvão.
– Obrigada Greasy, isso significa muito para mim. E pode ter certeza que eu vou te pagar por cuidar de Elika. — Eu digo quando me levando do lugar onde estou sentado e me aproximo dela tentando tirar o saco de carvão de suas mãos. — Deixa que eu faço isso.
– Nem pensar, vá lá fora e termine de lavar os seus lençóis, deixa que eu me viro aqui na cozinha. E não se preocupe, acertamos depois um valor pelos meus cuidados com a sua filha. — Ela diz meia ríspida. Essa é a velha Greasy que eu conheço.
Por dentro eu sinto um pouco dos nós do meu peito se afrouxarem ao saber que agora eu tenho alguém que eu confio para cuidar de Elika quando eu não estiver olhando. Prim e eu crescemos com Greasy Sae, ela é quase da família.
– Você conhece alguém que queira me empregar? Acha que eu consigo emprego por aqui? — Eu pergunto para ela depois de ir até a porta e espiar o que Elika e Samyli estavam fazendo, ambas estavam deitados no assoalho velho de madeira com várias bonecas em sua volta, muito distraídas criando histórias divertidas para brincar.
– Eu não sei menina, acho que você pode começar a lavar a roupa do pessoal do centro, eu tenho alguns clientes que já não atendo mais porque minhas mãos estão muito cansadas. Sei que o Boticário precisa de um ajudante, mas vou falar com ele no final de semana para ver se ainda existe a vaga. — Greasy me fala ao abrir a porta de ferro do fogão antigo e jogar uma boa quantidade de carvão lá dentro. — Suas panelas estão limpas?
– Não todas, vou lavá-las agora enquanto o fogo aquece. E muito obrigada, se você conseguir falar com seus antigos clientes e o boticário eu vou ficar muito feliz, vou te dever por uma vida. — Suspiro aliviada, ser lavadeira nunca foi o meu objetivo de vida. Mas, ser mãe solteira também não, se eu dou o meu melhor para criar a minha filha, eu posso muito bem me esforçar ao máximo para lavar a roupa dos outros, é melhor do que não ter dinheiro nenhum entrando.
Com um último olhar para a senhora na minha cozinha, eu apenas abro alguns armários com panelas sujas e cheias de teias de aranhas e faço o meu caminho para fora da casa. Tenho muito o que fazer, muito em que pensar. E tenho que aproveitar que ainda esta claro para fazer essas coisas.
***
Tento me manter o mais silenciosa possível enquanto caminho em passos leves pela floresta, meu arco e flechas estão preparados para qualquer movimento animal, meus ouvidos escutam o silêncio com muita atenção, qualquer pequeno movimento, qualquer soprar de vento e pisada em folhar já me deixa alerta.
As primeiras vezes foram horríveis, eu achei que realmente tinha perdido o jeito para a coisa, e nós meus primeiros dois dias de caça, eu não consegui nada, nem um esquilo sequer. Talvez eu esteja mais velha e mais pesada, talvez os meus olhos já não estejam tão focados.
A floresta esta ainda muito fria depois de um inverno rigoroso, os animais estão começando a voltar agora, tudo é ainda muito estranho para mim. Muito surreal e nostálgico. Se eu fechar os meus olhos e me concentrar com muita força eu quase posso ouvir os passos ligeiros de Gale ao me seguir, seu respirar controlado junto ao meu. Nossos batimentos cardíacos ritmados e gêmeos. Estar aqui dentro enche o meu peito de pertencimento, de certo. Mas, da mesma forma também enche o meu peito de dor, pois nada mais é certo, nada mais é igual a antes e nunca será.
Gale não esta aqui e não vamos mais caçar juntos, não somos mais adolescentes, não sei nem sequer se somos amigos ou meros conhecidos. Todavia, eu estou queimando de saudade, queimando por ter aqueles dias novamente, por ver os seus olhos cinzentos sincronizados aos meus. A floresta era o nosso refugio, o nosso lugar sagrado. Não mais. Esse tempo já passou, e o que me sobrou foram as árvores que eu tanto amo, o silêncio que eu tanto busquei e me sinto perdida. Assombrada.
No meu terceiro dia de caça eu consegui um coelho magro, mas minha flecha foi certeira entre os seu olhos. E no quarto dia eu consegui algumas raízes de Katniss no antigo lago, deixei a viagem para as minhas últimas horas dentro da floresta, pois o tempo ainda esta muito frio e depois de entrar no lago eu teria que voltar imediatamente para a minhas casa, passando antes pela casa de Greasy e pegando minha filha de seus cuidados.
Já estou na minha terceira semana de volta aqui no meu Distrito, as coisas não estão sendo tão simples e fáceis quanto o que eu queria que fosse, eu posso ser a Everdeen que a maioria conhece, só que agora eu também sou a Everdeen que é mãe solteira. A que não tem marido. E o boato que sei que esta rolando entre as pessoas do Centro é que eu fui para a Capital e acabei me desgraçando com um homem casado, ele não quis assumir a minha filha e eu voltei para o Doze cheia de vergonha. Sou o que muitos chamam de "mulher fácil".
Estou lavando a roupa de alguns comerciantes, todos antigos clientes de Greasy Sae, mas quando eles descobriram que era eu que estava lavando as roupas, a "mulher fácil" e a desgraçada, muitas donas de casa encontraram desculpas para não precisarem mais dos meus serviços, todas estão com medo que eu pule no pescoço de seus maridos, desesperada para conseguir o sustento da minha filha. Acho que elas nem sequer cogitaram que eu nunca seria capaz disso, que sou uma adulta que posso me virar sozinha, que tenho pés e mãos que podem trabalhar e lutar pelo sustento da minha família, que não preciso de seus maridos comerciantes e empreendedores para me sustentar financeiramente.
Por isso tive que prova o meu valor e dar o dobro de energia para cuidar bem das roupas dos comerciantes que ficaram, minhas mãos estão em carne viva por isso, meus dedos estão queimados de tanto esfregar, e eu não preciso ir atrás de marido de ninguém. Não sei até quando vou ter que passar por isso, em todos os Distritos onde eu estive com Elika, apenas por ser mãe solteira eu sou vista como uma mulher fácil, alguém que não mereça nem a amizade.
Se eu estivesse na Capital não estaria passando por isso, lá o povo é mais culto e existem muitas mães solteiras. Ninguém olha para outra pessoa e a julga tão abertamente, pelos céus estamos em um novo século, e mulheres não foram feitas para o agrado masculino, ou para viverem as custas de um homem. O que eu sei é que não esta nos meus planos voltar para a Capital, não ainda, não agora. O que eu faria lá? Procuraria Haymitch, que não tem nada a ver com as minhas dificuldades? Ou procuraria o pai da minha filha que não nos quer?
Rapidamente deixo a fecha escapar pelo arco e acerto um coelho bem próximo onde eu estava parada. Amanhã vou comprar um pedaço de arame para fazer armadilhas, acho que ainda me lembro a forma que Gale fazia essas armadilhas de coelhos. Vou ser mais rápida na caça se conseguir fazer algumas.
Lentamente eu caminho até o coelho morto e o pego, tiro a flecha de seu ferimento de morte e a guardo em minha aljava, o coelho e dois esquilos são tudo o que eu consegui da caça de hoje. Portanto faço os meus passos de volta para a campina e de lá de volta para a costura. Eu cacei mais do que devia hoje, e não posso abusar da ajuda de Greasy.
O restabelecimento da energia elétrica em minha casa não foi nada do que eu poderia me alegrar, eu sabia que a conta que eu teria que pagar daqui a uma semana viria em uma valor alto. Alguns fios tiverem que ser substituídos dentro da minha casa, e um novo medidor tinha sido instalado, sem esse novo medidor eu não poderia ter a energia ligada, e tudo isso sairia do meu bolso.
Ainda não estou juntando moedas para pagar nada, porém o meu dinheiro esta acabando, cada dia eu tenho menos, e o que estou ganhando lavando roupa não esta suprindo muita coisa. Principalmente com um teto cheio de vazamentos que eu tive que arrumar, não arrumei tudo, pois obviamente não tenho a quantia requerida necessária, então só comprei o material necessário para arrumar o teto do antigo quarto dos meus pais, esse é o maior quarto da casa e eu não consigo entrar no quarto que dividia com minha irmã, a minha saudade dela é insuportável, e mantenho o quarto fechado por enquanto.
Paguei um dia de trabalho para um senhor arrumar o pior do telhado no lado do quarto dos meus pais, agora eu não tenho mais vazamento naquele lado da casa, mas estou mais podre por isso. Ainda tenho que pagar Greasy Sae por ficar com Elika, a quantidade foi acertada e sou muito orgulhosa para não dar nada em troca dos cuidados com a minha filha.
Elika e eu dormimos juntas no quarto dos meus pais, eu fiz um espaço gostoso para nos duas, e tenho certeza que Elika prefere dormir comigo do que ficar sozinha no meu quarto antigo e sombrio. Levei mais de uma semana para ter o lugar razoavelmente confortável. Estou lutando um dia de cada vez.
Sei que é tolo admitir que o pior ainda não é toda a minha situação financeira entrando em colapso, mas a saudade que eu estou sentindo de um certo alguém com olhos azuis brilhantes. O pai de Elika não sai de meus sonhos, tenho estado constantemente perdida em sonhos em que ele esta me perseguindo por corredores escuros, barulhos de festa vibram ao longe, e suas mãos são quentes em minha pele. Ou ainda pior quando eu sonho com o seu sorriso, com o som de seu riso. Sempre acabo acordando com o meu coração apertado dentro do peito, cheia de vontade de chorar por algo que eu não vou mais ter. Faço o possível para Elika não me ver assim, não quero que ela me veja despedaçada por ele.
E por isso eu tenho tido algumas noites bem difíceis de insônia, onde eu apenas me sento perto da janela e imagino o que ele estaria fazendo naquele momento. Será que em algum momento ele pensa em mim? Será que tira um misero segundo para pensar em mim? Em nós dois juntos? Em nossas noites de paixão? Será que ele ao menos consegue lembrar que eu existi em sua vida? Do som da minha voz e da forma em que eu me derretia por ele?
Constantemente eu me pergunto o que ele deve pensar de tudo o que passamos. Será que ele acha que eu o odeio por tudo o que aconteceu? E eu sou capaz de odiá-lo? Não sei se consigo isso. É muito duro admitir que algumas vezes tudo o que eu mais quero é correr para os seus braços, que tudo o que eu mais desejo e me afogar em seus beijos e esquecer tudo oque ele e sua mãe me fizeram passar.
E algumas vezes eu apenas sou teimosa e quero que ele nunca me esqueça, quero que ele seja atormentado por minhas lembranças da mesma forma que eu sou com as dele. O mais terrível é saber que eu estou a um passo disso, a um pequeno passo de mandar tudo para o inferno e ligar para ele, de exigir que ele olhe no meu rosto e me diga tudo o que não teve coragem de dizer pessoalmente, que repita tudo o que disse naquele maldita mensagem de termino.
Eu não consigo entender o que deu errado. Sempre foi um jogo para ele? Eu nunca passei de um jogo em suas mãos? Um passatempo? Tem dias que eu apenas queria arrancar o meu coração de dentro do peito. Sei que Greasy disse que o tempo vai curar a minha dor, mas quando isso vai acontecer? Parece que quanto mais desesperada eu fico mais eu preciso dele. Por isso eu estou construindo um murro grande e forte em volta do meu coração, nunca mais vou amar assim, não quero passar por essa dor em nenhum outro dia da minha vida.
Eu suspiro audivelmente quando saio da floresta e entro na campina, meus passos são rápidos em minhas velhas botas de caça, ficar pensando no pai da minha filha não vai me levar para lugar nenhum, já se passaram mais de três anos desde a última vez em que eu o vi. Eu tenho que me preocupar com o meu presente, com a minha situação atual, estou dolorosamente aprendendo a deixar o passado para trás.
Amanhã eu começo no meu novo emprego, consegui a vaga de auxiliar no boticário, ainda bem que eu entendo de ervas e plantas, se não eu não teria conseguido. É um emprego de quatro horas por dia, vou ganhar muito pouco, mas é melhor do que não ganhar nada. Acho que vou conseguir manter as minhas clientes da lavagem de roupa, e a caça nos finais de semana.
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