Amarras do Passado

19 505 - Arctic Monkeys


Notas iniciais
Olá pessoas, Feliz ano novo! Uhuuuu Eu queria agradecer a Letícia Herondale por me indicar a música tema do capítulo de hoje. Muito obrigada ^^ Essa música é linda e combinou perfeitamente com a temática do capítulo. Thaís Mendes muito obrigada por favoritar. Eu vou adorar ouvir qualquer músicas que vocês quiserem indicar para a minha fanfic. Mas, só vou colocá-la como tema de algum capítulo se elas tiverem a cara da minha fanfic ;) Enfim, enjoy!

Dias atuais

Peeta

"...I'm going back to 505
If it's a seven hour flight or a forty-five minute drive
In my imagination, you're waiting lying on your side
With your hands between your thighs..."

Arctic Monkeys

***

Distrito Doze.

Quem diria que eu voltaria para ele mais uma vez. Principalmente depois do que aconteceu na última vez em que eu estive aqui.

Essas memórias não são felizes. Me trazem muito angústia por me fazer lembrar da sensação de desespero que eu tinha no peito na última vez que pisei nesse lugar.

A cidade cresceu, o comércio está em pelo desenvolvimento. Nunca será uma loucura barulhenta como é a Capital, e de certa forma tem o seu aconchego. Estar aqui realmente me dá a sensação de voltar ao lar. Uma sensação que somente estar ao lado de Katniss me trazia.

Estou sentado em um banco na estação do Distrito esperando o horário de embarque no trem que vai me levar de volta para a Capital.

Em minha cabeça eu tenho mais dúvidas do que respostas. E uma sensação crescente de que estou sendo enganado.

Haymitch. Ele tem as respostas e esteve me ludibriando por todos esses meses.

Preciso urgentemente conversar com o meu velho mentor. Preciso saber porque diabos ele tem mentido para mim?

Lentamente eu repasso em minha mente os acontecimentos dos últimos dias, desde o momento em que vi Glimmer me traindo com Marvel em meu apartamento, depois encontrando o Outdoor da Katniss, e indo conversar com Haymitch.

Nossa conversa foi mais tranquila do que eu imaginei, ele estava extremamente calmo, o seu jeito sarcástico e irônico continuava em alta, mas ele estava ligeiramente bem-humorado. Como se a foto da Katniss em diversos outdoors apenas o divertisse imensamente.

Repasso várias vezes o mesmo trecho de nossa conversa, tentando entender por que diabos ele mentiu para mim.

Estávamos sentados em sua sala de estar. Effie, sua esposa que ele não admite ser esposa por medo de compromisso, mas que no fundo é o que ela é, não estava presente. Provavelmente ainda estava trabalhando. Haymitch me explicou que na época do lançamento das coleções de moda, ela sempre tinha que trabalhar até mais tarde. Mais uma vez ele disse que não se importava, mas estava na cara o quanto ele estava cabisbaixo por não tê-la ao seu lado.

Os dois juntos são uma eterna contradição. Vivem brigando pelas coisas mais bobas, mas se completam de uma forma que somente os laços de um verdadeiro amor pode criar e fortalecer.

— Ela procurou contato com você? — Pergunto para ele, depois de dar um gole em meu uísque com gelo.

— Você acha que ela procuraria contato comigo? — Me responde ele em forma de pergunta. Não sei se ele tentou desviar o assunto. Mas, esse não é o feitio de Haymitch. Ele é um desbocado, se tem algo para falar, ele, com certeza, falará.

— Eu preciso encontrá-la. — Admito depois de passar a minha mão livre por meu cabelo, a outra ainda está segurando o copo com minha bebida.

Meu antigo mentor apenas toma um gole de seu próprio copo e depois me encara.

— A queridinha não quer ser encontrada. E receio que você seja a principal fonte de seu receio em aparecer. — Disse ele, seus olhos brilhando intensamente.

— Eu? — Pergunto em agonia. — Não consigo entender por que ela foi embora. Nós discutimos alguns dias antes de sua partida, mas não era motivo suficiente para ela simplesmente abandonar tudo e sumir em Panem.

— Tudo foi muito complicado naquela época. — Fala ele ainda me encarando com a mesma expressão. — Ela passou por muito coisa aqui. Na época, eu disse para você que isso podia acontecer.

— Se eu soubesse, Haymitch. Eu tinha ficado na Capital, não tinha ido naquela maldita viagem de negócio. — Respondo, sinto na minha voz uma pitada de desespero. — Você sabe que quando eu voltei e descobri que ela tinha partido, fui atrás dela. Porém, Katniss não pisou no Distrito Doze, quem estava lá era aquele amigo insuportável dela. Gale Hawthorne. E você sabe a confusão que isso acabou.

— Sim, eu sei, e o que está feito, feito está. — Responde ele. — Eu gostaria de ter visto o que aconteceu quando vocês dois se encontraram.

— Não foi algo agradável, é o que eu posso dizer. — Falo carrancudo. — Você acha que ela está morando aqui na Capital?

Haymitch não me responde apenas dá de ombro, um sinal claro de tanto faz.

— O que você deveria estar se perguntando é se vale a pena voltar para toda a angústia que você passou? Você acha que a garota está sofrendo por você? Até onde você sabe ela já pode até ser mãe, e você não faria a menor ideia. — Diz ele depois de tomar mais um gole em seu copo, seus olhos inteligentes estavam grudados em mim.

— Não. Não acho que ela seja mãe. Katniss era muito fechada para esses assuntos, morria de medo de se envolver emocionalmente e depois ter que perder a pessoa. — Respondo depois de eu mesmo dar um gole em meu copo – E sei que é bem provável que ela já esteja casada com alguém. Mas, é um tormento não saber Haymitch. Tenho que saber a verdade, tenho que confrontá-la, tenho que saber se ela está bem, se está feliz. Eu tenho que olhar para ela mais uma vez.

— Você está dando murros em ponta de faca, padeiro. — Fala ele desviando os seus olhos de onde estou e olhando pela janela da sala. — Está caçando o seu próprio rabo. Talvez ela não queira mais vê-lo.

— Ainda assim eu quero vê-la.

— Agora que você terminou novamente com a loira desmiolada, é que você quer Katniss de volta. Você tem noção do quanto egoísta e mesquinho soa nesse momento? — Sua pergunta me fere, mas ele está certo. Eu fiz escolhas erradas e estive arcando com as consequências por todos esses anos. Eu fui um tolo e escolhi errado.

— Não foi só porque eu terminei com Glimmer. Eu nunca deixei de querer Katniss, eu me apaixonei por ela. A amei profundamente e ainda amo, e nunca deixei de me importar. — Confidencio sem jeito, meu peito apertado pela sinceridade em minha voz. — Eu terminei com Glimmer para ficar com ela, e nós estávamos bem até tudo explodir na nossa cabeça, depois ela foi embora eu fui procurá-la, eu tentei encontrá-la. Você sabe que eu tentei. Mas não consegui e depois eu pensei que eu apenas tinha que ficar com Glimmer, continuar de onde tínhamos parado e tentar seguir em frente.

— E isso se mostrou um completo sucesso, dá para ver no seu rosto a felicidade estampada. — Ri ele ao levantar o copo em sua mão, como se estivesse fazendo um brinde, depois cai em uma gargalhada alta.

Esse é o Haymitch, em uma metade do tempo você quer conversar com ele, na outra metade você quer apenas mandar ele se foder.

— Mesmo que Katniss não queira nada comigo. Eu apenas preciso saber se ela está bem, olhar nos olhos dela mais uma vez, escultar sua voz por um mísero instante. Eu queria ajeitar as coisas que ficaram quebradas entre nós. — Digo ao ignorar o seu comentário anterior. — Vou voltar no Distrito Doze, sinto que eu tenho que ir lá para encontrá-la.

— E arriscar um outro vale tudo com o grandão, amigo dela? — Questiona ele incrédulo. — Seja esperto garoto, você só vai entrar em um mundo de problemas com isso. Você quer mesmo encontrá-la feliz e casada com um homem que não seja você?

Demoro a responder. Meu coração aperta com essa possibilidade.

— É um risco que eu vou ter que correr. E não me importo em encontrar o amigo babaca dela novamente, da última vez nós fomos interrompidos, dessa vez eu vou torcer para que não sejamos. — Fecho o meu punho fortemente.

— Ok, você tem o meu apoio, vá e corra atrás da queridinha novamente. Eu sei que você vai correr para cá depois do seu passeio por lá. — Resmunga ele voltando a olhar pela janela.

Está esperando Effie chegar.

— Eu só quero que você me responda uma coisa antes de ir nessa sua busca desesperada pelo passado. — Começa Haymitch, seus olhos semicerrados e uma expressão séria no rosto. — Se você, por acaso a encontrasse solteira? Sozinha no mundo, voando como um tordo em toda a "doçura" que nós sabemos que ela tem. O que você fará?

Não tenho que pensar muito para responder essa pergunta.

— Então ela não será solteira por muito tempo. — Ouço minha voz dizer cheia de determinação. — Eu vou reconquistá-la.

— Essa é uma promessa? — A voz dele está cheia de diversão.

— Não é uma promessa, é uma certeza! — Afirmo.

Haymitch. Penso irritado ao voltar para o presente. Por que ele mentiu para mim?

Depois da minha conversa com Haymitch, eu fui direto para o centro da Capital, onde está o escritório central da Padaria Mellark's, acabei aproveitando que eu tenho um banco de horas gigante e peguei três dias de folga.

Na manhã seguinte eu estava embarcando em um trem com uma passagem para o Distrito Doze, a viagem de ida levava um dia inteiro e uma noite. O curioso é que depois de tanto tempo essa viagem me encheu de esperança, eu sentia o meu peito palpitar de ansiedade como a muito tempo eu não sentia.

Eu estava eufórico com a possibilidade de encontrá-la novamente. O tempo todo me perguntando o que eu faria assim que colocasse os meus olhos nela.

E se ela estivesse casada? Pensei preocupado.

Bom, sei que ela não estará casada por muito tempo. Decido roubá-la do marido imaginário. Vou fazê-la perceber que somos perfeitos um para o outro, que eu nunca a esqueci e que não posso viver sem ela.

Que grande bundão eu sou, ela vai me dar um pé na bunda tão rápido que eu não vou saber nem o que me atingiu.

Tenho que agir sabiamente quando encontrá-la. E não assustá-la como um pervertido.

É claro que os meus planos foram por água abaixo, meio dia depois de eu desembarcar no Distrito Doze e me assentar em um quarto de Hotel no centro da cidade.

Eu fui caminhando até a costura, um bairro muito simples, onde as pessoas mais podres do distrito moram. Logicamente, eu já sabia onde ficava a casa onde Katniss nasceu e cresceu.

A casa era pequena, de tijolos e madeira desgastados pela passagem dos anos e estava fechada. Estava na cara que ninguém morava ali já há algum tempo. Fui até uma das janelas fechadas e por uma brecha entre as tábuas de madeira que a fechavam eu pude olhar o interior escuro do que parecia ser a sala de estar. A casa é tão pequena que caberia inteira dentro do salão de festas do apartamento de meus pais.

Não dava para distinguir muita coisa em seu interior, por causa da escuridão. Mas, pelo abandono que estava no lugar era muito certo que Katniss não morava mais ali. Imediatamente eu pude sentir um pouco da minha determinação ir embora e a velha sombra do desespero de anos atrás, na minha primeira busca por ela, reaparecer em meu coração. Minguando a minha esperança.

No dia seguinte, eu comecei a perguntar, de forma muito discreta, aos principais comerciantes deste distrito, se alguém sabia onde ela estava. Para ajudar em minha busca eu trouxe comigo uma velha pintura amassada que eu tinha dela. Um desenho em aquarela que eu fiz depois de nosso primeiro mês de amizade.

Eu tinha que ter entregado para ela, mas eu nunca tive coragem.

Não tenho fotografias dela, já que a Glimmer queimou todas as fotografias onde ela estava presente.

Entretanto, secretamente, sempre guardei alguns quadros que eu pintei dela. Eu pintei seus olhos cinzentos de sereia, seu perfil austero e belo, os contornos de seu corpo nu. Mesmo quando eu tentei esquecê-la, eu nunca pude me desfazer dessas pinturas, até as coloquei no Banco de Panem, para serem guardadas e mantidas em segurança das mãos de minha ex-noiva.

Foi no meu segundo dia aqui no Distrito que eu enfim consegui uma pista de seu paradeiro.

A maioria dos comerciantes me trataram de forma estranha quando eu comecei a fazer perguntas sobre ela. E todos chegavam a mesma resposta vaga. Ninguém sabia dela, ou nunca a tinham visto aqui no Distrito. Dava para ver nos olhos de alguns que eles estavam mentindo, mas como eu sou um desconhecido para eles, dá para entender a atitude deles de protegerem uma pessoa de sua comunidade.

Mesmo isso me enchendo de frustração, eu não fui mal educado com ninguém.

No fim da tarde enquanto voltava para o hotel onde estava hospedado, eu fui abordado por uma moça bonita e ao mesmo tempo estranha.

Seu cabelo era de um tom comum de castanho claro e estava preso em um rabo de cavalo mal feito. Seu rosto era comum, mas eram os seus olhos que me deixavam intrigados. Eles tinham um pouco de loucura neles.

Ela me perguntou da pintura que eu tinha estado mostrando para os comerciantes ao longo do dia, e me disse que tinha me visto em frente da casa abandonada dos Everdeen.

Sinceramente, eu só parei para escutá-la depois que ela me passou essa informação. Por isso eu peguei a pintura e entreguei em suas mãos.

A moça desdobrou a pintura e ficou encarando-a durante muito tempo. Um de seus dedos alisando os contornos de Katniss.

— Katniss. — Disse ela rindo um pouco alto demais.

Na mesma hora eu senti o meu peito quase explodir de felicidade, essa moça estranha era a primeira a reconhecê-la.

— Sim, essa é Katniss. — Digo eufórico. — Você a conhece? Sabe onde ela está? Eu preciso muito falar com ela.

— Eu conheço a Katniss. — Sorri ela para mim. — Que pintura bonita, foi você que fez? Dá para mim?

— Sim, fui eu que fiz, mas eu não posso dá-la a você. — Respondi rapidamente, estou mais interessado em saber o que ela sabe de Katniss. — Você sabe onde ela está? Eu preciso falar com ela.

— Katniss, Katniss, Katniss. — Cantava a moça feliz. — Katniss esteve aqui no Distrito, ela caçava e me deixava com a menina, mas ela não pode comer doces, não todos os dias, então eu não podia dar doces para a menina.

Ela é louca. Penso ao encará-la. De que menina ela está falando? Quem não pode comer doces?

— Hum, você disse que Katniss esteve aqui no Distrito Doze. Sabe me dizer se ela ainda está aqui? — Pergunto tentando manter o foco da moça em nossa conversa. — Pode me levar até ela?

— Katniss, Katniss, Katniss. — Continuava a cantar solitária, seus olhos brilhavam com a loucura. — Katniss não está aqui, ela foi embora. Agora eu não posso mais brincar com a menina, ela vai voltar não vai? Que desenho bonito, dá ele para mim?

— Menina? Quem é essa menina que você está falando? — Pergunto curioso.

— Elika, de olhos de céu, o passarinho de Katniss. — Diz a moça sorrindo abertamente. — Não deve dar doces para ela antes do jantar, Katniss e Elika...Elika e katniss, passarinho.

— Elika é o pássaro de Katniss? — Volto a perguntar, estou muito confuso agora. Não sei do que essa moça está falando. Katniss tem um passarinho?

— Não!- Diz ela deixando de sorrir. — Elika é.

— Samyli?! — Chama uma senhora ao se aproximar de onde estamos na calçada perto do Hotel. — O que está fazendo? Eu já não disse para não conversar com estranhos. Desculpe senhor, minha neta está confusa, não sabe o que diz.

— Não. Tudo bem. Ela está me ajudando a encontrar uma pessoa. — Respondo encarando a velha senhora. Samyli, a moça confusa e maluca, está sorrindo sozinha ao encarar a pintura que fiz de katniss.

— Você está procurando a menina Everdeen! — Afirma a senhora com a voz firme. — E estava rondando a casa dela.

— Sim. — Respondo ao sorrir. — Eu estou procurando.

— E você acha que é bonito, infernizar a minha neta confusa e inocente com perguntas? — Pergunta a senhora rispidamente ao me interromper.

— Não, não, a senhora me entendeu errado. Eu não quis perturbar a sua neta. — Digo rapidamente, não quero que a única pessoa que tentou me ajudar durante todo o dia seja prejudicada. E muito menos quero que as pessoas pensem que eu sou algum tipo de perseguidor maluco. — Apenas estou desesperado. Eu preciso muito encontrar a Katniss, eu passei o dia inteiro perguntando.

— Eu sei que você está procurando a menina Everdeen. Todos aqui a conhecem, mas você tem que entender, meu rapaz, que aqui nós não damos informações a estranhos.- Volta a me interromper, seus olhos cinzentos são espertos e atentos. Não existe antipatia em sua voz apenas cautela.

— Mas, por favor, eu não sou um estranho. — Falo, tenho que tentar outra abordagem, ou não vou conseguir mais nenhuma informação delas. Então eu pego minha carteira no bolso atrás das minhas calças jeans e tiro de dentro minha carteira de identidade. — Está vendo, sou Peeta Mellark. Meus pais tinham uma padaria aqui há alguns anos, eu morei aqui até os doze anos.

A senhora pega a identidade em minha mão e depois me olha atentamente. Me examinando.

— Você é o mais jovem dos meninos Mellark? — Pergunta ela surpresa, sua voz saindo aos pouco do modo de cautela. Depois a senhora me dá dois tapinhas no ombro. — Menino, você cresceu. Seus pais estão bem?

— Sim, eles estão ótimos. — Respondo sorrindo de alívio, quando ela me devolve a minha identidade. Volta a colocá-la na carteira e depois a guardo em meu bolso traseiro. — Você pode me ajudar agora? Não quero prejudicar a Katniss, eu preciso apenas conversar com ela.

— Eu sou a Greasy Sae, você não deve se lembrar de mim, mas eu vi você nascer. — Disse ela sorrindo mais amigavelmente. Samyli estava ao lado dela ainda cantando o nome de Katniss. — Qual é o seu interesse na menina Everdeen?

— Não posso dizer, é um assunto particular, mas posso garantir que não vou prejudicá-la. — Digo da forma mais sincera.

A senhora Greasy Sae apenas me encara durante alguns instantes, depois sorri um sorriso desdentado.

— Vou te responder algumas coisas, mas apenas porque você não é nenhum desconhecido, afinal. — Começa a me dizer. — Mas você precisa ir embora depois, as pessoas aqui não gostam de desconhecidos bisbilhoteiros e alguns não vão se lembrar de seus pais.

— Ok. — Concordo. — Eu posso aceitar isso. Você sabe onde ela está? Eu preciso falar com ela.

— Não, ninguém do distrito sabe onde ela está. — Respondeu a senhora sem sorrir. — A menina vem a vai como bem quer. Ela esteve aqui no distrito há uns dez meses atrás, mas não ficou muito tempo. Eu morria de medo daquela casa velha cair sobre a cabeça dela. Ela trabalhava no boticário dos Bottins.

— Ela não deixou um endereço para contato? Ou disse se voltaria para cá? — As perguntas saltam de meus lábios rapidamente. Essa é a primeira notícia que eu tenho de Katniss em quase cinco anos. Meu coração está acelerado no peito.

— Não, ela não deixou.

— Katniss e Elika, Elika e Katniss.- Samyli nos interrompe abruptamente.

— Quem é essa Elika? — Pergunto.

— É o passarinho de Katniss. — Responde a senhora me encarando seriamente, tenho a sensação de que essa resposta está errada, que ela está me escondendo algo. — Como eu estava dizendo. Ela não deixou nenhum endereço, só sei que foi embora com nosso Vitorioso.

— Vitorioso? — Estou confuso agora. — Que vitorioso.

— O Vitorioso de nosso distrito rapaz. — Me reponde de forma ríspida. — O que vocês aprendem na escola, afinal de contas? O nosso vitorioso do Jogos Vorazes.

Vitorioso do Jogos Vorazes? Do Distrito doze?

Na história de Panem dos Jogos Vorazes, o Distrito Doze só teve 2 vitoriosos, durante os cinquenta anos dessa loucura.

Dimitri Zoocts que já está morto há muitos anos e...

— Haymitch Abernathy. — Digo abismado, parece que levei um soco no estômago.

— Sim, o vencedor do Massacre Quartenário e um dos Lideres da revolução que libertou Panem. — Responde a senhora. — Alguns meses depois da chegada de Katniss, ele apareceu aqui e a levou embora. Eu não sei para onde, a menina não quis me dizer.

Fico em silêncio durante algum tempo. Não sei se posso falar alguma coisa, Estou com muito raiva, muito decepcionado com o maldito traidor. Nessa hora um trecho de nossa conversa ressurge em minha mente.

Ela procurou contato com você? — Pergunto para ele, depois de dar um gole em meu uísque com gelo.

Você acha que ela procuraria contato comigo? — Me responde ele em forma de pergunta. Não sei se ele tentou desviar o assunto. Mas, esse não é o feitio de Haymitch. Ele é um desbocado, se tem algo para falar, ele, com certeza, falará.

Em nenhum momento ele respondeu que não, apenas deu de ombro e desconversou. Deixou que sua resposta fosse ambígua.

— Que desenho bonito, dá ele para mim? — A pergunta de Samyli me acorda de meu devaneio.

— Não querida. — Responde a senhora Greasy Sae, antes que eu possa falar alguma coisa. — Você tem que devolver.

— Não, tudo bem. — Interrompo de forma educada depois de um sorriso. — Samyli, você pode ficar com o desenho.

A moça apenas sorri abertamente e nós dá as costas ao ir embora feliz.

— Espero que eu essa informação te ajude, garoto. — Diz a senhora Greasy Sae. — Diga ao seu pai que nós precisamos de uma padaria decente aqui.

Depois disso ela também se vai.

Fico na calçada por mais um tempo e depois eu subo para o meu quarto de hotel. Como já estava escurecendo eu não conseguiria uma passagem de trem para a Capital.

Agora, trago a minha mente para o presente mais uma vez. A noite de ontem foi horrível, não consegui pregar o olho nem por um instante.

Me sinto traído por ele. Sempre considerei Haymitch como um amigo. Um amigo estranho e irritado. Caramba, ele foi o meu mentor na Universidade. Por que ele mentiu para mim? Por que me enganou?

Ele prometeu que se tivesse qualquer informação de Katniss, que me contaria imediatamente.

Não consigo entender a sua atitude. Por que ele fez isso?

Na hora marcada eu embarco no trem, e pouco depois de me acomodar na minha cabine particular, eu caiu em um sono conturbado.

Eu sonho que estou vendo Katniss e Haymitch pela fresta na janela da casa dela, estou do lado de fora, e por mais que eu grite o nome de ambos eles não me escutam. Dentro da casa eles estão conversando em voz baixa. Trocando segredos que eu não estou convidado a saber. E eu não posso escutar nada do que eles falam.

Em uma árvore próxima um grande pássaro canta uma melodia triste. Suas penas são uma bonita mistura de prata, vermelho e preto. Enquanto seus olhos bonitos me encaram. Depois ele voa por dentro de uma apertura no telhado da casa e entra dentro do cômodo. Eu volto a olhar pela fresta na janela e vejo que o pássaro pousou nos ombros de Katniss.

— Elika. — Ela diz ao sorrir. Depois ela assobia uma melodia alegre que o pássaro logo imita. Haymitch vai até a janela por onde eu os estou espiando.

Volto a gritar o nome dele, e o maldito me olha nós olhos, mas em nenhum momento sorri. Eu sei que ele pode me ver e não entendo por que ele não me responde. Em seguida ele puxa a borda da cortina, cobrindo a fresta por onde eu podia enxergá-los. Me deixando cego e cheio de desespero.

Acordo assustado em minha cabine. Sem querer acabei deixando que os lençóis em volta de mim caíssem no chão.

Lentamente eu me sento em minha cama e olho em volta, pela janela de minha cabine posso ver que o sol está se pondo agora. Um bonito tom de laranja cobre as nuvens no horizonte, enquanto o trem dispara rapidamente pelos trilhos. Eu dormi o dia todo.

Passando a mão pelo meu rosto eu sinto os pelos ásperos da minha barba, não lembro qual foi a última vez que eu a fiz. Tenho que fazê-la antes de chegar a Capital. Meu estômago ronca audivelmente.

Mas, não consigo me preocupar com isso.

Haymitch sabe onde Katniss está.

Sabe, e jogou comigo como se eu fosse um menino. O que será que aconteceu para que ele tivesse que buscá-la no Distrito Doze? Para onde ele a levou?

Haymitch tem muito o que explicar.

Notas finais
Katniss, Katniss, Katniss...Elika é o passarinho dela. Eita que esse forninho quase caiu de vez. Peeta estava a um passo da verdade. kkkkk Gostaram do capítulo? Curiosas para o próximo? Um grande abraço e até segunda (=