Amarras

1 Capítulo único


Uma brisa gélida tocou sua face, não gentilmente como elas sempre são descritas nos romances mas com a força necessária para que parte do torpor que tornava seus dedos dormentes se dissipasse, e então, com a mesma rapidez desconcertante que um relâmpago corta o céu em um dia chuvoso ela finalmente foi capaz de respirar novamente, sentia como se sua consciência flutuasse lentamente para fora do seu corpo enquanto a compreensão dos últimos acontecimentos finalmente recaiam sobre si.

Estava livre, e a sensação era quase dolorosa demais para suportar, sentia a palavra se expandir lentamente e tomar sua mente enquanto pulsava em suas veias no mesmo ritmo do seu coração acelerado.

Todas as certezas que possuía, que a aprisionaram por tantos anos vinham ruindo até que finalmente caíram por terra, e em um passe de mágica pela primeira vez desde que tinha consciência de sua existência no mundo ela não tinha um plano, ah se ela soubesse, se tivesse descoberto mais cedo que também possuía o direito de cometer os próprios erros — como todas as pessoas indubitavelmente possuem — poderia ter se livrado das amarras que a mantinham presa com mais facilidade, pois apenas dessa forma seria capaz de perceber que estas só existiam dentro de sua própria consciência, como um fio invisível que a mantinha em perpétua inércia.

Decidiu por conta própria aceitar suas amarras, sua essência e todos os pequenos fragmentos de seu coração que nunca chegou a ser inteiro de fato, afinal ninguém mais faria isso por ela. Pouco a pouco, dia a dia as amarras que tanto a sufocaram se transformaram, mudaram, se ressignificaram, agora eram mais como vendas e ela as aceitou com carinho, seus olhos estavam cansados, sua mente estava cansada, por uma vez na vida deixaria que os ventos do acaso a soprassem para longe, não precisava enxergar seu destino dessa vez, seu coração se encarregaria de traça-lo.

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