Amar o Caos
5 Um Olhar Basta
A tarde caía lenta sobre Haedam.
O céu alaranjado tingia os telhados antigos do bairro enquanto o vento morno balançava as árvores da praça central. Dentro do quarto, Yuna mantinha os livros abertos sobre a cama, mas não lia uma única palavra.
A mente estava longe.
Então ouviu.
O ronco grave das motos.
Seu coração disparou antes mesmo que ela chegasse à janela.
E quando afastou a cortina…
Lá estavam eles.
A gangue ocupava a praça como se tivesse nascido ali.
Jim fumava sentado no banco de madeira.
Kako ria alto de alguma piada idiota.
Kim mexia numa pequena caixa de som apoiada perto das motos.
Kadu girava um isqueiro entre os dedos enquanto observava o movimento da rua.
Mas Yuna só enxergava Felix.
Ele estava encostado num poste.
Braços cruzados.
Expressão distante.
Olhos frios perdidos em algum pensamento impossível de alcançar.
Parecia entediado.
Mas ainda assim…
Impossível de ignorar.
Yuna sentiu uma urgência estranha crescer dentro do peito.
Uma necessidade quase desesperada.
Ela precisava que ele a visse de novo.
Antes que pudesse pensar melhor, saiu do quarto.
Desceu as escadas rápido demais.
Pegou o primeiro casaco que encontrou na cadeira da cozinha.
— Vou ali rapidinho — avisou para Hana, tentando soar casual.
A mãe apenas assentiu distraída.
E então Yuna saiu.
O coração batia tão forte que chegava a doer.
Mas ela continuou andando.
Tentando parecer calma.
Tentando parecer natural.
Como se não estivesse atravessando o próprio medo naquele momento.
Passou devagar pela praça.
Fingiu olhar o celular.
Mexeu no cabelo.
Observou o mural antigo de avisos perto da banca de jornais.
Qualquer desculpa servia.
Porque a verdade era simples demais:
Ela só queria ser notada.
Felix não se moveu quando ela passou.
Nem virou o rosto imediatamente.
Mas percebeu.
Claro que percebeu.
Cada passo dela ecoou dentro dele como provocação silenciosa.
Como tentação.
Yuna caminhou até o outro lado da praça e parou perto do velho mural enferrujado.
Tentou controlar a respiração.
Então, antes de ir embora…
Virou o rosto discretamente.
E encontrou o olhar dele.
Felix a observava em silêncio.
Frio.
Imóvel.
Perigoso.
Mas olhando.
Finalmente olhando de verdade.
O ar pareceu desaparecer dos pulmões de Yuna naquele instante.
Porque aquele olhar dizia tudo o que ele não teria coragem de falar.
E pela primeira vez…
Ela sentiu.
Felix podia fugir do mundo inteiro.
Mas já não conseguia fugir dela.
Yuna ainda estava fingindo interesse no mural da praça, mas seus sentidos estavam cravados neles.
Nos sons, nas vozes, no cheiro de gasolina, cigarro e perigo.
E no olhar que ela sabia que vinha de Felix.
O único que importava.
Do lado dele, Kadu soltou uma risadinha seca, daqueles que não sabem ficar calados nem quando deviam.
— "Essa bonequinha te olhou com gosto, hein, chefe..."
A voz dele foi baixa, mas escorregou no ar como óleo sujo.
Jim deu uma risada abafada.
Kim nem se deu o trabalho de levantar os olhos.
Kako assobiou de leve, só pra provocar.
Felix nem piscou.
O maxilar travou.
Os olhos se estreitaram.
E em um segundo, o punho dele já tinha se fechado.
Virou pro lado, devagar, como um trovão que demora pra estourar.
— "Repete, Kadu."
O tom era calmo. Calmo demais.
Mas carregava ameaça o suficiente pra congelar a praça inteira.
Kadu arregalou os olhos. Engoliu seco.
— "Só falei… que ela é bonitinha, só isso, chefe..."
Felix deu um passo à frente. O olhar dele queimava.
— "Ela não é assunto teu."
Silêncio.
Tenso, cortante, espesso como fumaça de pneu queimado.
Ninguém riu mais.
Nem assobiou.
Nem ousou olhar pra Yuna de novo.
Felix virou de volta, os olhos de novo nela — mas agora com algo mais.
Um tipo de fúria que ele mesmo não entendia.
Não era por ela. Não era com ela.
Era por dentro dele.
Yuna sentiu aquele arrepio, sem saber de nada, mas sabendo de tudo.
Seu coração batia como um tambor de guerra.
Ela tinha conseguido o que queria.
Mas o que viria agora?
Yuna caminhava devagar, como quem só passava por ali por acaso.
Mas o acaso era mentira — e ela sabia.
O coração, esse traidor, batia forte.
Cada passo era uma aposta.
Os olhos de Felix a seguiram, mas o corpo dele ficou imóvel.
Uma estátua cravada no cimento rachado da praça.
Quando ela passou por eles, o silêncio pesou.
E então, veio a voz.
Grave. Seca. Definitiva.
— "Aqui não é seu lugar."
Ela parou.
Só por um instante.
Como se aquela frase tivesse puxado uma corrente invisível em seu tornozelo.
Virou o rosto, de leve.
Os olhos se encontraram.
Ele firme, ela tremendo por dentro.
Mas ainda assim, sustentou o olhar.
— "Talvez seja." — disse baixinho, com um sorriso quase invisível.
Felix não respondeu.
Mas sua mandíbula travou.
Os olhos endureceram.
E o peito… bem, esse ele manteve firme. Nem que fosse por teimosia.
Yuna então seguiu. Sem olhar pra trás.
Mas com a certeza de que o aviso… era um convite disfarçado.
Felix ficou ali. Parado. O cigarro apagando entre os dedos, esquecido.
A voz dela ecoava ainda:
—"Talvez seja."
Ele odiava isso.
Odiava não conseguir controlar o que sentia. Odiava a fraqueza no estômago, o calor no pescoço.
Ela não tinha o direito de provocar aquilo nele.
Não ela. Não ali.
“Aqui não é lugar pra ela...” repetia por dentro, tentando se convencer.
Mas quanto mais pensava, mais lembrava dos olhos dela. Da ousadia tranquila.
Do jeito que ela não o temia.
Felix andava por becos perigosos desde criança.
Sobreviveu a pancadas, cadeias, ruas e promessas falsas.
Mas aquela garota de franja e sorriso tímido… estava virando seu novo problema.
Ele amassou o maço de cigarro na mão, como se aquilo resolvesse alguma coisa.
Não resolveu.
O barulho da praça continuava normal — risadas ao longe, cachorro latindo, gente vivendo como se nada tivesse acabado de mudar.
Mas dentro dele… tinha mudado.
Felix deu um passo pra trás, depois outro.
Como se estivesse fugindo de algo que nem sabia nomear ainda.
— “Problema…” — murmurou entre os dentes, baixo demais até pra ele mesmo.
Só que não soava como desprezo.
Soava como alerta.
E isso o irritou ainda mais.
Porque ele não era homem de alerta. Era homem de decisão.
E, pela primeira vez em muito tempo… ele não tinha nenhuma.
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