Amar o Caos
30 O Que Não Morreu
Depois do encontro no shopping, alguma coisa mudou dentro de Félix outra vez.
Ou talvez tivesse apenas despertado.
Porque agora Yuna já não era mais lembrança.
Não era mais uma fotografia antiga escondida dentro da cabeça dele durante noites silenciosas na prisão.
Ela estava ali.
Real.
Respirando o mesmo ar que ele.
Vivendo na mesma cidade.
E aquilo destruiu a falsa paz que Félix vinha tentando construir desde que saiu da prisão.
Nos dias seguintes, ele começou a perguntar mais.
No começo, casualmente.
— Ela ainda trabalha naquela empresa?
— Continua morando com ele?
— Os pais dela estão bem?
— Ainda vai pra Busan às vezes?
Mas logo os rapazes perceberam:
não era curiosidade simples.
Félix queria saber da rotina dela.
Os horários.
Os lugares que frequentava.
O que fazia nos dias de folga.
Se parecia feliz de verdade.
Se ria daquele jeito leve que ele viu no shopping… ou se aquilo tinha sido apenas um momento.
E, principalmente…
se existia futuro entre ela e Do-yun.
Numa noite quente de verão, Kim apareceu na oficina depois do expediente.
Félix estava desmontando o motor de uma moto antiga quando ele entrou. O cheiro de óleo queimado e metal preenchia o ambiente enquanto uma música baixa tocava no rádio perto da bancada.
— Você tá fazendo de novo — Kim comentou, encostando na parede.
Félix nem ergueu os olhos.
— Fazendo o quê?
— Vivendo em função dela.
Aquilo fez as mãos de Félix pararem por um segundo sobre a peça metálica.
Silêncio.
Kim suspirou antes de continuar:
— Eu entendo. Sério. Mas já faz oito anos, Félix. Ela seguiu em frente.
A frase saiu sem maldade.
Sem provocação.
Talvez justamente por isso tenha doído mais.
Félix voltou a mexer na moto como se não tivesse sentido nada.
Mas Kim conhecia ele tempo demais.
Conhecia o jeito como Félix ficava ainda mais quieto quando algo acertava em cheio.
— Você saiu da prisão agora — Kim falou mais baixo. — Tem uma vida inteira pra reconstruir ainda. Talvez esteja na hora de deixar a Yuna no passado… como parece que ela tá fazendo.
Foi aí que Félix finalmente ergueu os olhos.
E aquilo bastou para Kim se arrepender imediatamente da frase.
Porque havia dor demais naquele olhar.
Não raiva.
Pior.
Saudade.
Félix desviou os olhos outra vez antes de falar baixo:
— Eu tentei.
Aquilo desmontou completamente o clima da oficina.
Porque Kim sabia.
Oito anos afastando Yuna.
Oito anos recusando contato.
Oito anos tentando apagar a si mesmo da vida dela.
Félix realmente tentou.
Só não conseguiu matar o amor junto no processo.
Ele limpou as mãos engorduradas num pano escuro antes de encostar cansadamente na bancada.
— Quando eu tava preso… pensar nela feliz me ajudava a suportar aquilo tudo.
A voz saiu rouca.
Sincera demais.
— Mas ver com meus próprios olhos…
Ele soltou um pequeno riso sem humor.
— Foi diferente.
Kim permaneceu em silêncio.
Porque no fundo todos eles sabiam:
Félix Park sobrevivia a violência, prisão, medo e perda.
Mas Yuna…
Yuna sempre foi o único lugar onde ele realmente ficou vulnerável.
— Então o que você vai fazer agora? — Kim perguntou depois de um tempo. — Vai atrás dela ou continuar vivendo igual um fantasma?
A pergunta ficou pairando no ar.
Félix ficou alguns segundos sem responder.
Porque nem ele sabia.
Sabia onde Yuna trabalhava.
Os cafés que frequentava perto da empresa.
Sabia que ainda visitava os pais em Busan sempre que podia.
Sabia que Do-yun praticamente vivia com ela.
E aquilo doía mais do que deveria.
Porque Yuna parecia feliz.
Talvez não daquele jeito intenso e caótico que existia entre os dois antigamente…
mas feliz de um jeito tranquilo.
Seguro.
Como alguém que finalmente encontrou paz depois de sobreviver ao próprio passado.
Félix apertou a chave inglesa com força demais.
— Eu não tô seguindo ela.
Kim arqueou uma sobrancelha.
— Claro. E eu virei monge budista.
Aquilo arrancou um pequeno riso cansado de Félix.
Ele largou a ferramenta sobre a bancada e passou a mão pelo rosto.
— Eu só precisava ver com meus próprios olhos.
— Ver o quê?
Félix encarou a moto desmontada por alguns segundos antes de responder:
— Se ela tava realmente bem.
Kim observou ele em silêncio.
Porque aquilo já tinha deixado de ser apenas preocupação fazia tempo.
Era amor ainda.
Cru.
Persistente.
Teimoso.
O tipo de amor que nem o tempo consegue matar.
— E tá? — Kim perguntou mais baixo.
Félix demorou alguns segundos antes de assentir devagar.
— Tá.
Aquilo deveria trazer paz.
Mas não trouxe.
Porque junto do alívio vinha outra sensação pior:
a de não pertencer mais à vida dela.
Kim puxou uma cadeira velha e sentou de frente para ele.
— Você não olha daquele jeito pra alguém e depois simplesmente “não faz nada”.
Félix desviou o olhar imediatamente.
Porque talvez Kim estivesse certo.
Talvez o problema fosse justamente esse.
O coração dele tinha acordado de novo.
E agora parecia incapaz de voltar a dormir.
A oficina permanecia aberta apesar do horário. O calor da noite deixava o ar pesado enquanto motos cortavam as avenidas iluminadas de Seoul do lado de fora.
Félix observou o movimento da rua por alguns segundos antes de falar outra vez:
— Passei oito anos convencendo a mim mesmo que ficar longe dela era a coisa certa.
A voz saiu baixa.
Rouca.
— E agora? — Kim perguntou.
Félix soltou um riso amargo.
— Agora eu não sei mais.
E aquilo era a verdade mais assustadora de todas.
Porque pela primeira vez em muitos anos…
Félix Park estava completamente perdido.
Mas o destino tinha um senso de humor cruel às vezes.
Porque, depois de tudo…
de todas as escolhas, despedidas e anos perdidos…
a vida parecia continuar empurrando Félix e Yuna um para o outro.
O problema começou numa terça-feira abafada de verão.
Do-yun estava atrasado para uma reunião importante quando o carro começou a falhar ainda no estacionamento do apartamento. O motor morreu duas vezes antes dele conseguir ligar novamente.
— Ótimo… perfeito — ele resmungou passando a mão pelo rosto cansado.
Yuna observava da varanda enquanto terminava o café.
Mais tarde, entre laptops, mensagens da empresa e relógios sempre apressados, Do-yun comentou:
— Acho que vou precisar mandar o carro pra oficina hoje.
— Então manda.
— Não dá tempo. Tenho reunião com cliente estrangeiro a manhã inteira e depois apresentação.
Ele suspirou antes de pegar a chave sobre a mesa.
— Mas tem uma oficina nova que o Ji-ho indicou. Disse que os caras são bons e não enrolam.
Yuna ergueu os olhos do celular.
— Quer que eu leve?
Do-yun pareceu hesitar por um instante.
— Você se importa?
— Claro que não.
Ele sorriu pequeno, claramente aliviado.
— Obrigado. Sério.
Yuna apenas deu de ombros enquanto terminava o café.
Parecia uma tarefa comum.
Simples.
Sem importância.
E talvez fosse justamente assim que o destino gostava de agir.
Sem avisar.
Horas depois, Yuna dirigia pelas ruas movimentadas de Seoul tentando encontrar o endereço enviado por Do-yun. O trânsito avançava lentamente sob o calor pesado do começo da tarde enquanto músicas antigas tocavam baixo no rádio.
Quando finalmente virou numa rua mais afastada da avenida principal, avistou a oficina.
O lugar era grande.
Moderno sem exagero.
Portões abertos.
Algumas motos estacionadas na frente.
O som metálico de ferramentas ecoando lá dentro.
Yuna estacionou devagar.
Nem por um segundo imaginou.
Saiu do carro ajeitando a bolsa no ombro enquanto observava o ambiente distraidamente.
Então ouviu uma voz masculina mais ao fundo:
— A peça da Ducati chega amanhã, então não desmonta tudo ainda.
O mundo dela parou.
Porque conhecia aquela voz.
Mesmo depois de oito anos.
Mesmo depois de silêncio, dor e distância.
O coração falhou tão forte dentro do peito que por um instante Yuna realmente achou que fosse impressão da própria cabeça.
Mas não era.
Lá no fundo da oficina, de costas, coberto parcialmente pela luz quente entrando do portão lateral…
estava Félix.
Camiseta escura.
Braços sujos de graxa.
Cabeça baixa enquanto mexia numa moto desmontada.
Real.
O ar pareceu desaparecer dos pulmões dela imediatamente.
E talvez o pior tenha sido perceber uma coisa cruel:
o corpo dela ainda reconhecia Félix antes mesmo da mente conseguir aceitar que ele estava ali.
— Então confere o freio antes de entregar porque aquele cliente reclama de tudo — Félix comentou ainda distraído enquanto limpava as mãos num pano escuro.
O outro mecânico respondeu alguma coisa, mas Félix já nem escutava direito.
Porque naquele instante ele se virou.
E a viu.
Yuna.
O impacto foi brutal.
O corpo inteiro dele travou por um segundo.
Só um.
Mas pareceu tempo demais.
O pano permaneceu parado entre os dedos.
O olhar preso nela.
O coração batendo tão forte que Félix sentiu o próprio peito doer.
Yuna também não conseguia se mover.
Os dois apenas ficaram se encarando no meio da oficina barulhenta enquanto o resto do mundo continuava funcionando normalmente ao redor deles.
O som das ferramentas.
Motores.
Música baixa no rádio.
Alguém rindo perto dos fundos.
Mas para os dois… nada mais existia.
Porque fazia oito anos desde a última vez que ficaram tão perto assim.
E nenhum dos dois estava preparado.
Yuna sentiu o ar prender na garganta ao olhar ele direito pela primeira vez.
Félix estava diferente.
Mais maduro.
Mais marcado.
Os traços do rosto mais duros.
O cabelo um pouco maior e bagunçado pelo trabalho.
Os braços fortes cobertos de graxa e pequenas cicatrizes novas.
Mas os olhos…
Os olhos eram os mesmos.
E aquilo destruiu ela instantaneamente.
Félix engoliu seco antes de finalmente conseguir obrigar o corpo a se mover.
Ele entregou o pano lentamente para o colega ao lado sem sequer perceber o que fazia.
Então caminhou até ela.
Calmo por fora.
Completamente destruído por dentro.
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