Amar o Caos

37 O Fim da Nossa História


Depois da conversa, Do-yun decidiu sair do apartamento.

Não por raiva.

Nem para punir Yuna.

Mas porque permanecer ali, dividindo o mesmo espaço enquanto ela tentava decidir entre dois caminhos, parecia insuportável.

Naquela noite, ele arrumou algumas roupas numa mala pequena e foi para um hotel próximo ao centro de Seoul.

Quando fechou a porta do apartamento atrás de si, Yuna sentiu um vazio estranho tomar conta do lugar.

Pela primeira vez em muito tempo, ela ficou sozinha.

Sem Do-yun.

Sem Félix.

Sem ninguém dizendo o que deveria fazer.

Só ela.

E os próprios pensamentos.


Enquanto isso, do outro lado da cidade, Félix também estava longe de encontrar paz.

A oficina fechou no horário de sempre.

Os funcionários foram embora.

As luzes se apagaram uma a uma.

Mas ele continuou ali.

Sentado sobre um banco de madeira perto da bancada.

Um cigarro apagado entre os dedos.

Os pensamentos girando sem parar.

Ele havia prometido.

Prometido a Do-yun.

Prometido a si mesmo.

Não iria interferir.

A escolha seria dela.

Somente dela.

Mas cumprir aquela promessa estava se tornando cada vez mais difícil.

Porque, conforme os dias passavam e Yuna permanecia em silêncio, uma dúvida começou a crescer dentro dele.

Uma dúvida que Félix odiava.

E que não conseguia expulsar.

Talvez ela não me escolha.

A ideia atravessou sua cabeça outra vez.

Cruel.

Persistente.

Ele soltou um riso sem humor.

Passando a mão pelo rosto cansado.

Porque durante semanas tinha se agarrado à certeza de que o que existia entre eles era forte demais para morrer.

Mas agora... já não parecia tão simples.

Yuna tinha mudado.

Oito anos eram tempo suficiente para transformar qualquer pessoa.

Ela já não era a garota impulsiva que atravessava a cidade só para vê-lo.

Agora era uma mulher.

Segura.

Independente.

Capaz de construir uma vida inteira sem ele.

E talvez fosse exatamente isso que o aterrorizava.

Félix apoiou os cotovelos nos joelhos.

Olhando para o chão.

Pensativo.

— E se eu não for mais tão interessante? — murmurou para si mesmo.

A pergunta ficou suspensa no silêncio da oficina vazia.

Porque pela primeira vez desde que reencontrou Yuna...

ele não tinha medo da rejeição.

Tinha medo da indiferença.

Medo de descobrir que ocupava apenas um lugar bonito nas lembranças dela.

Um amor grande.

Mas encerrado.

E isso era pior do que qualquer resposta negativa.

Porque não haveria nada para lutar.

Nada para recuperar.

Nada para reconstruir.

Só o passado.

Pela primeira vez em muitos anos, Félix sentiu algo que quase nunca admitia sentir.

Insegurança.

A mesma que escondia atrás de provocações, silêncios e arrogância.

Porque, no fundo, existia uma verdade que ele jamais confessaria para ninguém:

Se Yuna escolhesse Do-yun...

ele aceitaria.

Cumpriria sua palavra.

Se afastaria.

Mas isso não significava que sobreviveria ileso.


Dias se passaram antes de Yuna finalmente tomar coragem.

Dias longos.

Silenciosos.

Cheios de pensamentos que pareciam não ter fim.

No final, porém, ela entendeu que continuar adiando apenas prolongaria a dor.

Então foi até o hotel onde Do-yun estava hospedado.

Um lugar simples.

Confortável.

Impessoal.

O tipo de quarto que ninguém chama de lar.

Quando ele abriu a porta, os dois ficaram alguns segundos apenas se olhando.

Como se já soubessem que aquela conversa mudaria tudo.

— Oi — Yuna falou primeiro.

Do-yun abriu um pequeno sorriso.

Educado.

Cansado.

— Oi.

Ela entrou.

O quarto parecia arrumado demais.

Talvez porque ele não tivesse mais nada para fazer além de esperar.

— Como você está? — ela perguntou.

Do-yun soltou uma breve risada pelo nariz.

Sem humor.

— Bem... eu acho.

O silêncio que veio depois foi desconfortável.

Porque ambos sabiam.

No fundo, ambos já conheciam o desfecho.

Yuna apertou as mãos uma contra a outra.

Tentando encontrar forças.

— Eu não vou demorar.

Do-yun apenas assentiu.

— Nem falar mais do que preciso.

Ela respirou fundo.

E finalmente encarou ele.

— Eu quero ser o mais sincera possível com você.

O sorriso dele desapareceu devagar.

Mas ele continuou ouvindo.

— Esses últimos anos que passamos juntos foram bons.

A voz dela começou a falhar.

— Muito bons.

Os olhos marejaram.

— Talvez não tenha sido um daqueles romances de dorama.

Um pequeno sorriso triste apareceu.

— Mas foi real.

Do-yun abaixou o olhar.

Porque aquilo era verdade.

Cada palavra.

— Você esteve comigo nos momentos difíceis.

— Nas conquistas.

— Nos fracassos.

— Nos dias comuns.

Yuna sentiu um nó se formar na garganta.

— Você foi meu apoio quando eu precisei.

— E eu nunca vou esquecer isso.

O quarto permaneceu em silêncio.

Pesado.

Doloroso.

Então ela chegou ao ponto que mais temia.

— Mas eu não posso continuar essa história.

Do-yun fechou os olhos.

Só por um instante.

Como alguém recebendo um golpe que já esperava.

Mas que ainda assim machuca.

— Você merece alguém que esteja cem por cento ao seu lado.

A voz dela tremia agora.

— Com o coração.

— Com a cabeça.

— Com os sonhos.

Ela engoliu seco.

— E eu não consigo te dar isso.

Do-yun permaneceu imóvel.

Os olhos fixos no chão.

Yuna sentiu as lágrimas queimarem.

— Pelo menos não agora.

O silêncio durou vários segundos.

Longos demais.

Até que ele finalmente respirou fundo.

E levantou os olhos para ela.

Havia tristeza ali.

Muita.

Mas não raiva.

Nunca raiva.

— Eu sabia.

A voz saiu baixa.

Rouca.

— Desde o dia em que você me pediu tempo.

Yuna sentiu o coração apertar.

Do-yun deu um pequeno sorriso cansado.

— Acho que só estava esperando ouvir você dizer.

Ela abaixou a cabeça.

Sem conseguir encarar ele.

— Me desculpa.

Ele balançou a cabeça devagar.

— Não.

A resposta veio imediata.

Firme.

— Não pede desculpas por ser honesta.

Os olhos dele brilharam.

Mas ele continuou.

— Eu preferia a verdade.

Mesmo essa.

Yuna sentiu uma lágrima escorrer.

Porque aquilo tornava tudo pior.

Do-yun era um bom homem.

Talvez bom demais.

Ele respirou fundo outra vez.

Tentando manter a compostura.

— Eu acho que uma parte de mim sempre soube.

Yuna ergueu os olhos.

— Soube o quê?

Do-yun sorriu.

Triste.

Mas sincero.

— Que eu estava amando uma mulher que deixou alguém para trás...

mas nunca conseguiu esquecer completamente.

O quarto ficou em silêncio mais uma vez.

E naquele instante, os dois entenderam que não existiam vencedores naquela história.

Apenas pessoas que se amaram da maneira que conseguiram.

E que agora precisavam aprender a seguir caminhos diferentes.