Amar o Caos
35 Entre a Paz e o Incêndio
Em Seoul, a vida de Félix também nunca mais pareceu a mesma depois da conversa com Yuna.
Ele tentava agir normalmente.
Abrir a oficina.
Treinar.
Trabalhar até tarde.
Fingir que estava tudo sob controle.
Mas não estava.
Porque agora ela existia de novo diante dele.
Real.
Viva.
E perigosamente próxima.
O pior era que Félix esperava vê-la outra vez.
Só não fazia ideia do que faria quando isso acontecesse.
Naquela noite de folga, ele estava reunido com os antigos companheiros na casa de Jim.
O apartamento ficava num prédio alto de Seoul, moderno, bagunçado e barulhento do jeito que encontros antigos sempre acabam ficando depois da terceira garrafa de soju.
Música tocava alta na caixa de som.
Latas de cerveja espalhadas pela mesa.
Cheiro de carne grelhando vindo da varanda.
Kim estava jogado no chão da sala reclamando porque perdeu dinheiro em apostas online outra vez.
Kako ria sentado no sofá enquanto enrolava cigarro.
Jim discutia com alguém pela televisão durante uma luta de MMA como se os atletas pudessem ouvir ele.
E Félix…
Félix observava tudo meio distraído, uma garrafa gelada na mão e os pensamentos longe dali outra vez.
— Tá vendo? — Kim apontou pra televisão indignado. — O idiota abriu a guarda inteira. Mereceu apanhar.
— Você fala como se soubesse lutar — Jim respondeu da varanda.
— Eu sei fugir muito bem. Já é metade do caminho.
Kako gargalhou.
— Isso é verdade. Nunca vi ninguém correr da polícia igual você.
— Sobrevivência é arte.
A sala explodiu em risadas.
Félix riu baixo também, balançando a cabeça.
Era estranho perceber como todos eles tinham mudado.
Anos atrás, encontros assim normalmente terminavam em confusão, perseguição ou alguém sangrando.
Agora…
a maior preocupação de Kim era perder dinheiro em aplicativo de aposta.
A vida realmente tinha dado uma desacelerada.
— Sinceramente? — Jim apareceu entrando da varanda com mais cervejas. — A gente ficou chato pra caralho.
Kadu pegou uma lata da mão dele.
— Fala por você. Eu continuo bonito e problemático.
— Problemático nada. Você manda “boa noite” pras mulheres às dez da noite agora.
— Maturidade.
— Covardia.
Outra rodada de risadas.
Kim então olhou para Félix jogado mais quieto no canto do sofá.
E imediatamente estreitou os olhos.
— Ih.
Félix nem reagiu.
— Que foi? — Jim perguntou.
Kim apontou pra ele com a cerveja.
— Essa cara aí.
Kako soltou um riso abafado.
— Ah não… ele tá pensando nela de novo.
Félix passou a mão pelo rosto devagar.
Cansado.
— Vocês são insuportáveis.
— Então é verdade — Jim concluiu.
Kim se inclinou pra frente no chão.
— Tá, deixa eu entender. O grande Félix Park sobreviveu à prisão, agiotagem, facada, tiroteio…
Kako completou:
— Mas virou poeta deprimido por causa de mulher.
— Vai se ferrar — Félix respondeu automaticamente.
Eles riram alto.
Mas a verdade é que ninguém ali estava realmente debochando.
Porque todos conheciam Félix bem demais.
E sabiam exatamente o que Yuna significava pra ele.
Jim abriu outra cerveja antes de perguntar mais sério:
— Você vai procurar ela?
Silêncio.
Félix apoiou os braços nos joelhos, olhando a cidade iluminada pela varanda aberta.
Seoul brilhava lá fora.
Enquanto dentro dele parecia existir um caos completamente diferente.
Ele demorou alguns segundos antes de responder:
— Não sei.
E aquilo era verdade.
Porque uma parte dele queria correr atrás dela imediatamente.
A outra…
a outra ainda acreditava que aproximar Yuna de novo seria destruir a paz que ela levou anos pra construir.
Kim bebeu um gole antes de falar:
— Então para de olhar com essa cara de cachorro abandonado.
Kako riu.
— Sério. Tá deprimindo o ambiente.
Félix soltou um pequeno riso pelo nariz.
Mas não respondeu.
Porque no fundo…
ele sabia de uma coisa assustadora:
depois de oito anos tentando apagar Yuna do peito…
bastou uma conversa numa cafeteria para tudo voltar a incendiar outra vez.
Do-yun sentia que estava perdendo Yuna e precisava tomar uma atitude antes que fosse tarde demais;
Ele continuava tentando.
Continuava presente.
Gentil.
Paciente.
Mas havia um desconforto crescente entre os dois agora.
Uma sombra silenciosa ocupando espaço dentro do apartamento.
Porque Félix já não era apenas um fantasma do passado.
Agora ele dividia os pensamentos dela.
E talvez dividisse até partes do coração que Do-yun acreditava pertencerem só a ele.
Aquilo começou a machucar Do-yun de verdade.
Não apenas como namorado.
Mas como homem.
Numa noite silenciosa, depois de observar Yuna dormir virada para o outro lado da cama, Do-yun tomou uma decisão.
Ficou sentado sozinho na sala escura do apartamento por longos minutos, encarando o próprio reflexo apagado na janela.
Cansado.
Frustrado.
Mas acima de tudo… honesto consigo mesmo.
Ele não queria continuar vivendo uma relação onde sempre existiria outro homem sentado invisivelmente entre eles.
Então pegou o celular.
Abriu a mensagem da oficina.
O contato de Félix ainda estava salvo ali por causa do carro.
Do-yun observou o nome por alguns segundos.
Como se aquilo sozinho já fosse suficiente para incomodar.
Então digitou:
“Precisamos conversar.”
Ficou olhando a tela depois de enviar.
O coração pesado.
Porque no fundo…
sabia que aquele encontro talvez definisse o futuro dos três dali em diante.
O bar escolhido por Do-yun era discreto.
Nada sofisticado.
Nada barulhento.
Um daqueles lugares escondidos entre ruas estreitas de Seoul onde homens cansados iam beber depois do trabalho sem fazer perguntas demais.
Luzes baixas.
Cheiro de álcool forte e cigarro antigo impregnado na madeira.
Jazz baixo tocando em algum canto.
Do-yun já estava sentado quando Félix chegou.
E ele soube imediatamente quem era.
Não precisava de apresentação.
Porque Félix Park carregava presença demais para passar despercebido.
A porta abriu devagar.
Jaqueta de couro escura.
Botas pesadas.
Capacete preso na mão.
O rosto mais maduro agora.
Mais duro.
Marcado pelos anos.
Mas os olhos…
Os olhos continuavam perigosamente vivos.
Félix avistou ele na mesa do fundo.
E naquele instante, alguma coisa dentro dele endureceu automaticamente.
Porque ver Do-yun ali… real…
ocupando um espaço na vida dela…
doía mais do que ele gostaria de admitir.
Mesmo assim caminhou até a mesa calmamente.
Sem pressa.
Parou diante dele por alguns segundos antes de puxar a cadeira.
— Do-yun.
A voz saiu grave.
Controlada.
Do-yun assentiu levemente.
— Félix.
Silêncio.
Pesado.
Os dois homens se encarando como se tentassem entender exatamente quem estava sentado do outro lado da mesa.
Félix tirou o maço de cigarros do bolso.
— Se importa?
Do-yun observou ele acender o cigarro antes de responder:
— Acho que esse hábito combina com você.
Aquilo arrancou um pequeno riso sem humor de Félix.
Porque tinha um tom de provocação ali.
Sutil.
Educado.
Mas existia.
Fumaça subiu lentamente entre os dois.
Então Do-yun decidiu ir direto ao ponto.
— A Yuna… desde que você apareceu de novo… tá diferente.
Félix permaneceu em silêncio.
Do-yun continuou, a voz mais baixa agora:
— Distraída.
— Ansiosa.
— Como se tivesse perdido a paz outra vez.
Aquilo acertou Félix imediatamente.
Mas ele não demonstrou.
Só tragou o cigarro devagar antes de responder:
— Bem… parece que eu ainda mexo bastante com ela.
A frase saiu carregada daquela arrogância calma que irritava profundamente Do-yun.
Os olhos dele esfriaram na mesma hora.
— Você acha engraçado bagunçar assim a vida das pessoas?
O sorriso no canto da boca de Félix desapareceu devagar.
Silêncio.
Então ele apoiou o cigarro no cinzeiro antes de responder:
— Não.
— Eu acho trágico.
Aquilo desmontou parte da agressividade de Do-yun por um segundo.
Porque Félix não parecia satisfeito.
— Eu chamei você aqui porque ela tá dividida — Do-yun falou finalmente. — E eu preciso saber uma coisa.
Félix permaneceu em silêncio.
Então Do-yun perguntou:
— Você pretende entrar na vida dela de novo?
A pergunta ficou suspensa entre os dois.
Félix desviou os olhos por um instante.
Como alguém cansado demais para mentir.
O cigarro queimava lentamente entre os dedos tatuados.
— Eu não sei.
A honestidade da resposta pegou Do-yun desprevenido.
Porque ele esperava arrogância.
Ou provocação.
Não aquilo.
Félix soltou um pequeno riso amargo.
— Passei oito anos convencendo a mim mesmo que ficar longe dela era o certo.
Os olhos subiram lentamente outra vez.
— E agora ela olha pra mim de novo… e eu já não sei porra nenhuma.
Do-yun sentiu o maxilar travar.
Porque era exatamente aquilo que assustava.
Yuna ainda mexia com ele de verdade.
Não parecia obsessão vazia.
Parecia amor.
Daqueles perigosos.
Que sobrevivem mesmo depois de anos apodrecendo em silêncio.
Do-yun apoiou os cotovelos na mesa.
— Você ama ela?
Félix nem hesitou.
— Sim.
Aquilo destruiu qualquer pequena esperança confortável que Do-yun ainda tinha trazido consigo naquela noite.
Do-yun sustentou o olhar dele por alguns segundos antes de perguntar diretamente:
— Então você vai lutar por ela?
O barulho baixo do jazz continuava preenchendo o silêncio entre os dois.
Félix permaneceu alguns segundos em silêncio depois da última pergunta.
O copo de whisky parado entre os dedos.
O cigarro queimando lentamente no cinzeiro.
Então ele ergueu os olhos para Do-yun outra vez.
Calmo.
Mas completamente sério agora.
— Vai depender dela.
A frase fez o peito de Do-yun apertar imediatamente.
Félix continuou:
— Se a Yuna escolher ficar com você…
com essa vida boa que vocês construíram…
Ele assentiu devagar.
— Ótimo.
— Eu não vou virar pedra no caminho dela outra vez.
A sinceridade na voz dele era desconfortável.
Porque não parecia um homem tentando manipular a situação.
Parecia alguém realmente disposto a aceitar perder.
Mas então Félix completou, mais baixo:
— Só que se ela decidir voltar pra mim…
Os olhos escuros ficaram mais intensos naquele instante.
Vivos.
Perigosos.
— Eu não vou cometer o mesmo erro duas vezes.
Silêncio.
Pesado.
Do-yun sentiu o estômago afundar lentamente.
Porque pela primeira vez naquela conversa…
ele percebeu que Félix talvez realmente fosse embora se Yuna quisesse.
Mas se ela escolhesse ficar…
então ninguém no mundo arrancaria aquele homem dela outra vez.
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