Amar Não É Pecado
2 Capítulo 1 – Razão ou coração
Notas iniciais
Damn, damn, damn,
What I'd do to have you
Here, here, here
I wish you were here.
Damn, damn, damn
What I'd do to have you
Near, near, near
I wish you were here.
(Avril Lavigne – I Wish You Were Here)
PDV Bella
A minha respiração estava tranquila, ao contrário da minha pulsação. Por fora eu tentava manter a calma mas por dentro estava contendo a inquietação. Observava com minúcia as unhas arrumadas das minhas mãos. Fiz questão que as pintassem num tom escuro, pois não queria nada que me encaminhasse de volta aos desejos pertencentes ao passado. Olhei distraidamente para o anel de noivado que pesava na minha mão direita e acabei soltando um suspiro involuntário. Dentro de algumas horas possuiria também uma aliança no dedo anelar esquerdo e essa sim teria um peso enorme na minha vida.
O toque do meu celular acabou com o ambiente pensativo no qual me encontrava. Pela música que soou não tinha dúvidas quanto à pessoa que me ligava.
— Pensei que os noivos não pudessem falar com as noivas no dia do casamento – brinquei para clarear a minha própria tensão.
— Acho que a tradição apenas manda se manterem longe da vista um do outro – respondeu risonho – Precisava ouvir a sua voz meu amor – disse carinhoso.
— Está querendo perceber se eu desisti? – perguntei mas me arrependi assim que o fiz.
— Claro que não Isabella – disse firme – Acho que se você quisesse desistir já o teria feito.
— Riley… — sussurrei incomodada com o assunto.
— Eu te amo – declarou – Hoje você vai fazer de mim o homem mais feliz do mundo e eu prometo que vou me esforçar para realizar todos os seus sonhos – oh, sonhos… aí estava algo que ele não poderia cumprir, pelo menos não na totalidade.
Alguns segundos de silêncio.
— Eu te amo Isabella – reafirmou – Eu sei que um dia você irá ser capaz de me amar da mesma maneira e é por isso que casar com você continua sendo o que eu mais quero – explicou calmamente.
— Você se tornou num dos meus melhores amigos Ry, o homem que eu escolhi para ser meu companheiro o resto da vida – pronunciei com alguma dificuldade as últimas palavras mas prossegui – Do meu jeito, você sabe que eu te amo – fui sincera.
— Por agora isso basta – quase consegui imaginar um sorriso estampado na sua cara – Acho melhor me despedir de você enquanto posso. Se alguém nos encontra ao telefone… Bem, valeu a pena! – disse animado.
— Então, até mais tarde.
— Até logo futura Sra. Biers.
O sinal de chamada desligada fez-se ouvir. Fechei os olhos remoendo o final da conversa e só consegui pensar em tudo o que estava prestes a acontecer. Em breve deixaria de ser Isabella Swan e passaria a ser Isabella Biers. Procurei, nas minhas memórias, o início disso tudo e a resposta foi simples de encontrar, dia de São Valentim.
Há 5 anos atrás, num bar situado em Manhattan, deu-se o primeiro encontro entre mim e Riley. Eu não estava nos meus melhores dias, aliás, eu nunca estava num bom dia mas aquele era particularmente intimidador. Com apenas 21 anos eu estava decidida a entornar todas durante aquela noite. Afinal, quem queria saber do dia dos namorados? Qualquer pessoa exceto… eu. E foi assim que avistei Riley, ocupando a última mesa disponível do local. Digamos que se eu estivesse com a minha capacidade motora e psicológica em perfeito estado, jamais me atreveria a chegar perto dele. Como no meu caso, o “se” diz tudo, a Isabella “aqui” sentou do lado do desconhecido, até à data, e jogou todas as suas frustrações, medos e tristezas em cima do coitado.
Riley Biers faz parte da minha vida desde esse dia. Pelo que sei, ele se encantou comigo logo naquele bar, apesar de eu não compreender como alguém poderia achar encanto, numa pessoa no estado em que eu estava. A sua paixão por mim não demorou a transformar-se em amor e quando dei por mim já tinha aceito o seu pedido de namoro. Ele soube como lidar comigo, desde o primeiro minuto, e talvez foi isso que me incentivou a dar uma oportunidade a essa relação. Não posso dizer que foi fácil, na verdade, fácil é algo que na minha vida não consta. Tudo tem o seu processo de evolução e com Riley não foi diferente. Eu me esforcei e ele também. A diferença entre a gente era uma só, ele me amava com todo o seu coração e eu o amava por ser um grande amigo, alguém que apareceu do nada e que quis me ajudar a superar a dor.
Agora sentada, olhando o relógio e vendo o tempo passar, as minhas dúvidas pareciam cada vez mais acentuadas. Estaria fazendo a coisa certa? Eu desejava, com todas as minhas forças, que a resposta fosse sim mas, por alguma razão, o meu coração teimava em me contradizer. Era tarde, eu não poderia desistir de tudo. Riley não merecia e eu também se não quisesse passar o resto da vida sozinha e amargurada.
Levantei e parei de frente para o espelho do quarto. Eu estava com uma maquiagem marcante, o aspecto misterioso me conferia uma imagem bastante atrativa. Os cabelos apanhados formavam um coque trabalhado e apenas alguns fios caiam sobre as laterais do meu rosto. Abri o robe de seda e avaliei mais uma vez a lingerie rendada que se moldava ao meu corpo. As meninas tinham razão quando me forçaram a comprá-la, ficava realmente sexy. Dei uma pequena volta apreciando todo o conjunto e soltei o ar que tinha acumulado. Estava na hora de colocar o fundamental, o vestido de noiva.
Os meus olhos vagaram até à cama e reconheci o extravagante vestido de Vera Wang. Mais uma vez não me contive e comparei os seus detalhes com aqueles que eu imaginava ter no vestido perfeito para mim. Balancei a cabeça para afastar tais pensamentos e cheguei mais perto. Era realmente bonito e encaixava corretamente no meu corpo, isso é que interessava.
— Bella? – escutei a voz vinda do exterior do cómodo – Posso entrar?
— Claro Alice – respondi já sabendo de quem se tratava.
Alice entrou no quarto e deu um sorriso que não alcançou os seus olhos. Disfarçadamente piscou os olhos tentando não mostrar o seu estado emocional. Infelizmente, tanto para ela como para mim, eu a conhecia demasiadamente bem para não entender o que lhe ia na alma.
— Pensei que precisasse de ajuda para terminar de se vestir – disse naturalmente – Você pediu alguns minutos a sós, mas já passaram quase duas horas e nada de nos chamar de volta – justificou.
Duas horas? O tempo realmente não parava. Estive tão compenetrada nos meus próprios dilemas que acabei me distraindo do resto.
— Oh, sim – assenti sem graça – Eu não reparei – encolhi os ombros não querendo prolongar o assunto.
— Tudo bem – Alice percebeu e desviou a conversa – Quer que eu chame mais alguém? A sua tia está lá fora e a Rose não deve demorar – eu não sabia onde Rosalie tinha ido mas Alice se apressou em dizer – Ela foi buscar os bouquets – falou baixo mas num nível que eu pudesse ouvir.
— Você se importa em me ajudar sozinha? – pedi pois não queria encarar ninguém durante mais alguns instantes.
— Eu dou conta do recado, pode deixar – tentou parecer animada – Você vai ser a noiva mais linda do mundo – disse enquanto pegava o vestido e me auxiliava a entrar nele.
Poucos minutos foram precisos até sentir o fecho sendo percorrido junto do meu corpo. Não sei se era do vestido ou se era de mim, porém, de repente, o espaço se tornou pequeno demais e um sufoco se originou dentro do meu peito. As mãos de Alice entraram em contato com a minha pele e só depois entendi que ela estava colocando a liga na minha coxa. Eu estava rigorosamente vestida e pronta para casar como manda a tradição. Um embrulho no meu estômago fez-se visível no meu rosto, pois Alice notou o meu nervosismo.
— Bellinha – choramingou, dessa vez sem se importar – Tem certeza disso? – eu sabia que ela estava se referindo ao casamento.
— Eu perdi as minhas certezas anos atrás Ali – expliquei – Essa é a minha última oportunidade para ser feliz – sentei na cama e senti a minha amiga sentar do meu lado – Você não acha isso não é? – a sua expressão a denunciava.
— Você sabe o quanto eu te amo, não sabe? Eu só quero o melhor para você tal como para a Rose. Ficarei sempre ao seu lado, tomem as decisões que tomarem, pois vocês são as duas irmãs que eu nunca tive.
— Não foi essa a minha pergunta Alice – comentei.
— Eu sei. Só que não sei o que responder – olhe de relance para ela — Estava pensando no que era preferível, dizer a verdade ou aquilo que você quer escutar.
— Nunca espero algo diferente da verdade, não vindo de você.
— Você não o ama – disse num tom acusador e não deixou que eu contestasse – Não da forma como ele gosta de você. Eu sei que se você pudesse escolher, entregaria o seu coração para ele mas a realidade é que você não pode. Eu sinto que esse casamento só vai acontecer porque é o seu jeito de agradecer ao homem que se manteve firme do seu lado, por tantos anos. Isso não é algo que eu queira para você Bella. Essa é a mais pura verdade.
— Riley me faz bem – falei pensativa.
— Fazer bem não chega. É a sua decisão Bella, mas você sabe a minha opinião sobre tudo isso. Para um casamento dar certo é preciso muito mais do que se sentir bem do lado do homem com quem você dividirá a vida. – levantou da cama e se abaixou na minha frente – Conta comigo para o que der e vier ok? – essa era a sua maneira de me confortar minimamente.
— Obrigada Ali. Não sei o que seria de mim sem você e a Rosalie – funguei, sentindo os braços de Alice me puxarem para um abraço apertado – Eu também amo você, muito.
A porta do quarto voltou a abrir mas dessa vez ninguém avisou antes de entrar.
— Basta eu sair para se agarrarem? Sou sempre a excluída – bufou Rosalie perto das amigas.
— Rose… — retirei um dos meus braços sobre Alice e chamei a loira para o abraço.
Percebendo a minha intenção, Rosalie correu até nós e se juntou ao abraço. Essas duas eram as minhas melhores amigas e também o meu porto seguro. Nunca tive grandes amizades com meninas, normalmente era até renegada porque para elas não era normal eu não ter mãe. Renée morreu no dia seguinte ao meu parto e até hoje sinto a sua falta, posso nunca a ter conhecido pessoalmente mas a amava por demais. A única referência feminina que eu tive, durante a minha infância, foi a da minha tia Ângela mas ainda assim não era o suficiente. Graças a Deus, tive o privilégio de conhecer Alice e Rosalie e a nossa empatia foi imediata.
— Posso saber o que aconteceu? – Rosalie perguntou assim que nos soltarmos.
— Excesso de carinho? – revidei.
— Vou deixar passar mas não se acostuma – fingiu acreditar.
— Trouxe os bouquets Rose? – Alice lembrou.
—Sim, estão lá fora – dizia sem desgrudar o olhar do celular.
— Esperando uma ligação importante? – estranhei.
— Sim – pelo visto estava de poucas falas, o que ainda era mais suspeito.
— Não vai contar? – fiz cara de pidona embora não resultasse como em Alice.
— Vou mas só quando eu receber a liga… — o toque do seu celular interrompeu e ela apressou-se em atender – Agora? – pausa – Sim ou não? – pausa – Fala logo! – pausa – Argh desembucha homem – pausa – AHHHH EU AMO VOCÊ – gritou e desligou a chamada.
— O que é que foi isso? – perguntei espantada.
— Faz um favor para mim? – Rosalie pediu e eu assenti – Liga a televisão e coloca na NBC.
Ainda sem entender o propósito daquilo, procurei o controle da TV e passei os canais até chegar ao pretendido. Olhei para Rosalie, esperando uma explicação, mas a única coisa que recebi foi um aceno para prestar atenção no programa que estava passando. Revirei os olhos mas fiz o que ela mandou. Encarei o televisor e percebi que o apresentador, Conan O’brien, falava da música que o seu convidado iria cantar em seguida. Estava quase desviando o rosto, para questionar Rose, quando ele apareceu na televisão. Acho que perdi a noção do tempo e do espaço, tudo isso por enxerga-lo ali, com aqueles seus olhos intensos e aquele cabelo revolto, com o qual eu tantas vezes brinquei.
O vi dirigir-se até ao piano e acomodar-se no banco. Por instantes o seu olhar focou a câmera, parecia que ele também me podia ver. A sua cabeça rodou para o piano e os seus dedos pousaram nas teclas do mesmo, lançando assim as primeiras notas. Arfei de imediato. Aquela música, a nossa música.
Eu não sei, de onde vem
Essa força que me leva pra você
Eu só sei que faz bem
Mas confesso que no fundo eu duvidei
Tive medo, e em segredo
Guardei o sentimento e me sufoquei
Mas agora, é a hora
Eu vou gritar pra todo mundo de uma vez
Eu sentia tudo voltando. As sensações que eu tinha ao ouvir essa voz, o significado da letra da música, o amor que eu tanto queria negar…
Eu tô apaixonado
Eu tô contando tudo
E não tô nem ligando pro que vão dizer
Amar não é pecado
E se eu tiver errado
Que se dane o mundo
Eu só quero você
Edward Cullen. Era ele que estava ali, cantando a minha música, aquela que era nossa, para todo o mundo ouvir. As palavras saiam tão melódicas da sua boca, tal e qual como o fazia anos atrás.
Respirei com dificuldade ao notar que estava chegando no final e captei cada expressão feita por Edward. Nunca na minha vida, assisti alguém que cantasse com tanta alma como ele.
Eu tô apaixonado
Eu tô contando tudo
E não tô nem ligando pro que vão dizer
Amar não é pecado
E se eu tiver errado
Que se dane o mundo
Eu só quero você
Com maestria foram tocadas as últimas notas do piano e o silêncio se fez por alguns segundos. Logo depois uma onda gigante de palmas surgiu ao seu redor e Conan foi até ele.
— Você esteve absolutamente fantástico Edward. Parabéns! – disse simpáticamente.
— Obrigado.
— Acho que posso adiantar a curiosidade, do público em geral, depois de você ter cantado essa música – Edward assentiu – Porque escolheu um tema de outra artista?
— Só posso dizer que não havia escolha melhor para mim nesse momento. Digamos que estou uns anos atrasado e espero que não seja tarde demais – falou deixando o burburinho se manifestar.
A partir dali eu não vi, nem ouvi, praticamente nada. Percebi que o apresentador estava se despedindo de Edward e isso bastava. Eu estava sem palavras, sem a menor ação. Não sabia o que fazer, o que sentir e muito menos como me expressar. O ar parecia ter fugido dos meus pulmões e estava difícil de o recuperar. Senti Rosalie e Alice se aproximarem mas fiz um gesto para detê-las. Eu precisava pensar, sozinha.
Andei vagarosamente até à porta do quarto e parei de frente para ela. Virei o corpo para o lado e vi a minha imagem refletida no espelho. Eu estava bonita, vestida para casar. O aperto dentro de mim se tornou mais intenso e eu soube que precisava sair dali. Ainda escutei as vozes das minhas amigas chamando por mim mas eu não podia parar.
Encontrei algumas pessoas caminhando dentro de casa mas ignorei todas elas. Continuei o meu percurso e só parei quando me vi fora da mansão. O dia estava magnifico, seria perfeito para a ocasião, não fosse o meu estado de espírito. Inspirei o ar puro que ali havia e ganhei forças para prosseguir.
Não sei quanto tempo andei, nem tão pouco o rumo que estava levando. Algo dentro de mim me guiava sem eu saber. O destino estava escolhendo o caminho por mim e por agora, eu só podia agradecer. Mais tarde sim eu acabaria tendo que optar, razão ou coração. Me restava aguentar, embora no fundo eu soubesse para que lado recairia a minha decisão.
Link das músicas do capítulo:
http://www.youtube.com/watch?v=VT1-sitWRtY
http://www.youtube.com/watch?v=Xh7bdsJWJCU
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