Amar Não É Pecado
4 Capítulo 3 – O primeiro beijo
Notas iniciais
Our first kiss won't be the last
Our loves too deep to end that fast and good things come to
those who have to
wait
I believe it's only time that keeps us from the thing divine, and
when it's here
you know I'm gonna say
wait on my lips.
(Mandy Moore – First Kiss)
5 anos antes…
PDV Bella
A noite estava chuvosa, sempre tive dificuldade para adormecer em dias assim. Pior que isso só quando há tempestade e os malditos relâmpagos resolvem aparecer. Eu me viro na cama, várias vezes, e o sono parece não querer chegar. Fechei os olhos, em mais uma tentativa de dormir, mas rapidamente os abri, um som estridente fez com que eu pulasse do quentinho dos lençóis. Finalmente identifiquei o celular, a fonte de onde vinha o toque que me assustou.
– Oi amor – ouvi a sua voz perfeita do outro lado da linha, assim que atendi a ligação.
– Oi Ed – falei carinhosa – Ainda bem que você ligou, precisava mesmo de conversar com você – improvisei.
– Deixa adivinhar – fez uma curta pausa – O tempo por aí está ruim e você quer conversar comigo até a chuva passar ou até o sono ser mais forte do que esse seu incómodo. Estou certo?
– Você sabe que sim baby, mas não esquece que eu também quero falar com você porque é gostoso – soltei uma pequena risada – Queria tanto que você estivesse aqui comigo – senti os meus olhos arderem e me controlei para não chorar.
– Oh Bells, não fica triste minha linda – escutei a sua respiração ficar mais agitada – Eu também queria muito estar aí do seu lado. Pensa que já só faltam dois dias para eu voltar diretamente para os seus braços, prometo.
– Eu sei, desculpa. Não quero deixar as coisas difíceis para você também – mordi o lábio inferior com alguma força desnecessária – É a saudade que me deixa assim – funguei – Um dia eu vou entender o porquê de você ter ido nessa viagem.
– Amor eu já te expliquei o motivo. O meu pai não podia deixar o hospital e a Alice estava em época de prova. Só eu estava disponível para acompanhar a minha mãe – apesar de já saber a razão, eu acabava sempre resmungando um pouco.
– Tudo bem – disse quase resignada – Já deveria saber que as sogras vêm sempre em primeiro lugar, as namoradas, como eu, só surgem depois – eu era realmente boa para dramatizar.
– Se a Dona Esme te ouvir falar assim, vai ficar bem chateada – respondeu divertido.
– Pelo menos vai ter você do lado para a consolar. Já eu… — continuei com a manha.
– Meu deus! – exclamou contendo o riso – Quem é você e o que fez com a minha doce namorada? – perguntou num tom engraçado.
– Acho que ela está aqui, algures dentro de mim. Essa, com quem você está falando, é a versão hiper carente da Bella, sabe? – brinquei.
– Humm, hiper carente é? Sei. Acredito que posso lidar com isso, afinal são só mais dois dias – relembrou.
– Amor eu… — não contive o bocejo que saiu da minha boca – Te amo – terminei a frase.
– Eu também te amo muito. Seja você a Bella original, carente ou qualquer outro tipo – era tão bom escutar essas palavras… — Agora está na hora da senhorita ir dormir – Edward estava sempre preocupado com o meu bem estar.
– Mas eu queria ficar falando com você – mesmo estando cansada, pensei.
– Amanhã eu te ligo novamente, bem cedinho não se preocupa. Tudo bem? – sugeriu.
– Ok né, você sempre ganha – concordei – Vou ficar esperando a ligação viu? – avisei antes de me despedir.
– Claro! Bem, não esquece de sonhar comigo para que a noite seja mais agradável – aconselhou, gargalhando logo em seguida – Agora a sério, espero que durma bem meu amor. Um beijo enorme para você e… Você já sabe, eu te amo.
– Sei sim mas nunca é demais repetir – sorri feliz por ouvi-lo novamente – Muitos beijos para você também. Te amo Edward! – disse antes de desligar a chamada.
Edward tinha viajado para Chicago com a sua mãe. Uma tia sua, já com uma idade avançada, tinha ficado doente e o seu único filho estava passeando pela Europa. Sem ninguém para cuidar dela, Esme se prontificou a ajudar mas como um par de mãos extra era bem vindo, levou o meu namorado com ela. Embora me custasse horrores, ficar longe de Edward, claro que compreendia a situação. 15 dias era o tempo que ele passaria em Illinois, agora só faltava completar os últimos dois e aí sim regressaria a casa.
xxx
Eu cursava letras, embora o meu sonho fosse envergar pelo mundo da música. Desde pequena que adquiri o gosto pela dança e pelo canto, já para não falar no quanto eu gosto de tocar piano e violão. Sempre quis ser cantora e compor as minhas próprias canções, porém, desanimei ao não conseguir entrar no conservatório. Todos diziam que era difícil, eu acreditava e por isso me esforcei ao máximo para estar preparada. Infelizmente, adoeci poucos dias antes das audições e, mesmo tentando fazer as provas necessárias, acabei falhando. A minha família e Edward foram muito importantes para a minha recuperação, eu fiquei realmente devastada. O que me consolava era saber que pelo menos Edward estava alcançando os seus objetivos.
Edward tinha 23 anos, dois a mais que eu, e partilhava comigo o amor pela música. Também ele tinha feito as audições para entrar no conservatório e entrara já há quase 3 anos. Eu poderia passar a minha vida escutando-o cantar, a sua voz era tão perfeita. Esse pensamento me levava a lembrar da altura em que nos aproximámos e também do dia em que nos beijámos pela primeira vez.
Flashback On
7 meses se haviam passado desde o meu aniversário de 15 anos. Durante esse tempo algumas coisas foram mudando na minha vida. Em primeiro lugar, eu tinha feito amigos, agora sim eu sabia qual a sensação de poder contar com alguém, fosse qual fosse a situação. Alice Cullen, com toda a sua simpatia, virou uma companhia indispensável no meu dia a dia. Assim como o meu pai dissera, virámos colegas de classe e nos demos muito bem. Foi também na escola que conheci Rosalie Hale, uma nova aluna que chegara há pouco tempo a Nova Iorque. A afinidade, comigo e com Alice, foi imediata e desde então formamos um trio bastante unido. A maior surpresa, para todos em geral, foi sem dúvida a cumplicidade que desabrochou entre mim e Edward Cullen. Graças a ele eu aprendi uma nova forma de encarar o mundo, aprendi a me soltar mais, aprendi a fazer valer mais as minhas vontades e, sobretudo, aprendi a me apaixonar.
Os Cullen passaram a ser uma presença habitual em minha casa, tanto pela proximidade de Charlie com Carlisle, como pela minha amizade com Alice e Edward. O tempo serviu para que conhecesse melhor cada elemento daquela família e a cada nova descoberta eu ficava mais encantada. Ao longo dos meses eu me vi perdidamente fascinada por Edward. Não consigo explicar como a nossa aproximação surgiu porque foi tão subtilmente que já só dei conta no momento em que nos falávamos a toda a hora.
Com os seus quase 18 anos, Edward estava no último ano do ensino médio. Adorava a família e vivia para a música. Só de pensar nisso o meu coração perdia uma batida. Tinha como ser mais perfeito? Os nossos gostos eram muito parecidos, a diferença de idades não atrapalhava, em nada, o à vontade com que nos tratávamos. Na escola as pessoas olhavam espantadas quando nos viam juntos, algo que era constante, pois eu era a garota que costumava passar despercebida e de repente virei amiga de um dos garotos mais velhos e que por sinal era lindo. No inicio foi difícil, não gostava de estar no centro das atenções, mas Edward acabou ajudando a superar esse meu incómodo.
Houve um dia em que as aulas terminaram mais cedo, uma greve qualquer fez com que os professores nos dispensassem. Eu, Alice e Rosalie saímos da última aula que tivemos e esperámos pelo motorista responsável por levar e trazer Alice no seu percurso diário. Sempre que podia, Ali tentava fugir do senhor barbudo mas normalmente não era bem sucedida. Isso tudo porque o horário de Edward não batia com o nosso e, na maioria das vezes, ele não estava livre para dar carona a Alice.
Chegámos a casa dos Cullen por volta das 11 horas. Os pais de Alice estavam trabalhando, Carlisle no hospital e Esme numa conceituada empresa de arquitetura. Não sabia se Edward estaria em casa mas a minha dúvida foi desfeita quando vi o seu volvo estacionado na garagem. Eu e as meninas entrámos e seguimos diretamente para o quarto de Alice. Conversámos um pouco mas assim que eu me distraí, Alice e Rosalie começaram uma sessão de embelezamento. Essa era uma das coisas que eu continuava sem apreciar, por isso, resolvi sair do cómodo e procurar por Edward.
Desci as escadas com cuidado e escutei o som do piano soar pela casa. Sorri involuntariamente enquanto seguia até à sala de música, nome pela qual a chamávamos, e espreitei sorrateiramente pela porta entreaberta. Aquela era a visão que me acompanhava a cada sonho, um Edward concentradíssimo, tocando piano e cantando baixinho uma canção da sua autoria.
Andei alguns passos para me sentar no confortável divã e sentei nele fazendo o mínimo barulho possível. Edward não olhou para o lado e isso me fez crer que a minha presença não tinha sido notada. Apreciei o momento completamente absorta do exterior. O que importava era a tranquilidade que envolvia o ambiente e isso tudo era uma consequência do talento que Edward possuía. Fechei os olhos, senti a minha respiração e o meu coração entrarem num compasso ritmado. Poderia ficar horas na mesma posição desde que Edward continuasse a me presentear com tão bela melodia.
Percebi que a música estava terminando e soltei um breve suspiro, queria mais. Não sabia se havia de me manifestar ou se esperava que Edward me visse ali. Digamos que não precisava de me preocupar, assim que o silêncio do piano se fez, a voz de Edward irrompeu pela sala e agora sem dizer versos de qualquer canção.
– Acho que você me inspira – disse suavemente – Na verdade, tenho certeza.
– Eu? – me controlei para não gaguejar.
– Claro, que eu saiba não tem mais ninguém aqui. Só nós dois – virou o corpo na minha direção.
– Há quanto tempo você sabia que eu estava aqui? – desconversei enquanto sentia o meu rosto aquecer, não sei se pelo que ouvira ou se por ver Edward sorrindo para mim.
– Desde que você chegou – encolheu os ombros – O seu cheiro é único, dá para sentir a sua presença até sem olhar.
– Oh-h – acabei arfando com as suas palavras – Não queria incomodar mas eu gosto de ouvir você cantar, ainda para mais tocando piano simultaneamente.
– Você nunca incomoda Bella. Ter você por perto só aumenta a minha sorte – apontou para o instrumento musical.
– Não é sorte, é talento. E isso você tem de sobra – comentei com sinceridade – Já pensou seguir carreira em música? – perguntei entusiasmada.
– Sim, é algo que não posso colocar de parte. Assim como você – falou intensamente.
Por alguns segundos não consegui me pronunciar. Talvez eu estivesse ficando louca mas a última frase dita por Edward parecia ter duplo sentido. Poderia ser? O melhor era não ficar pensando nisso. Edward me via como amiga, passávamos muito tempo juntos e isso era o fundamental.
– Toca mais? – pedi.
– Se você me acompanhar… – retrucou – Me dá esse prazer?
– Tudo bem mas tem que ser uma música que ambos conheçamos – ele assentiu – Que tal alguma dos Kings of Leon? – sugeri.
– Use somebody? – mordi os lábios com a sua escolha e balancei a cabeça positivamente – O que acha se eu acompanhar com o violão? Faremos a nossa própria versão acústica – brincou.
– Certo – respondi enquanto o via pegar o violão e aproximar-se de mim – Quer sentar? – ofereci o lugar ao meu lado, o qual ele rapidamente ocupou.
Os seus dedos começaram a dedilhar as cordas do violão. Os primeiros acordes soavam nos nossos ouvidos e os nossos olhares acabaram se cruzando, demonstravam certa luxúria e isso acabou me desconcentrando. Tentei me focar na letra da música pois não queria errar e comecei a cantar no tempo correto.
I've been roaming around
Always looking down at all I see
Painted faces, build the places I can't reach
You know that I could use somebody
You know that I could use somebody
Someone like you, and all you know, and how you speak
Countless lovers under cover of the street
You know that I could use somebody
You know that I could use somebody
Someone like you
Percebi que Edward não iria cantar, ele apenas observava os movimentos da minha boca e continuava tocando sem deixar de me fixar. Aquilo estava se tornando perigoso para a minha própria sanidade.
Off in the night, while you live it up, I'm off to sleep
Waging wars to shake the poet and the beat
I hope it's gonna make you notice
I hope it's gonna make you notice
Someone like me
Someone like me
Someone like me, somebody
Someone like you, somebody
Someone like you, somebody
Someone like you, somebody
I've been roaming around,
Always looking down at all I see
Consegui terminar a música sem gaguejar ou trocar alguma palavra. O instrumental ainda se fazia ouvir, Edward me encarava com um brilho diferente no olhar. Queria perguntar o que se passava na sua mente mas a falta de coragem acabou me deixando na curiosidade. Eu não sei quantos minutos passaram, só acordei da bolha em que me havia enfiado no instante em que Edward cantou dois versos da canção.
– You know that I could use somebody… Someone like you!
A serenidade que eu mantinha, até certo tempo atrás, acabara de me abandonar. O meu peito inchou com o prender da minha respiração e o meu coração acelerou sem permissão. Edward pousou o violão e agarrou as minhas mãos trémulas e frias. Chegou mais perto, se é que era possível, e não desviou os nossos olhares. Eu tinha perguntas a fazer, mas quem disse que elas saiam? Poderia me levantar se não fosse pelas minhas pernas bambas e pela falta de vontade de me afastar dele naquele e em qualquer outro momento.
– Bella… — sussurrou ao passar o nariz pelo meu pescoço e em seguida juntou as nossas testas.
O meu corpo ardia, eu sabia que também ele pedia por mais. Uma das mãos de Edward largou a minha e subiu até ao meu rosto, acarinhou com leveza o local. Soltei um gemido baixinho, não consegui controlar o tamanho da minha satisfação. Edward sorriu, com o efeito que causou em mim, e acabou com o espaço que separava as nossas bocas.
Um beijo, não era um qualquer, era O beijo. Edward estava me dando o meu primeiro beijo. No início foi apenas um roçar de lábios, um ato tão casto e ao mesmo tempo tão maravilhoso. Todos os meus receios, sobre não saber como agir, foram colocados de parte, o meu instinto foi maior que a minha inexperiência. As nossas bocas abriram e se acomodaram uma na outra, sem pressas. Aos poucos deixei que a sua língua entrasse em contato com a minha e aí, em sintonia, deixámos que o beijo evoluísse para um nível mais rigoroso. Uma descarga total de sensações foi colocada para fora e durante aqueles segundos, os mais incríveis da minha vida até então, eu me permiti achar que os meus sentimentos poderiam ser correspondidos com a mesma intensidade.
Flashback Off
Recordar situações tão importantes da minha vida era como reviver tudo outra vez. Cada detalhe, por menor que fosse, faria sempre parte de uma memória feliz.
– Isabella? – chamou a funcionária da biblioteca.
– Sim? – respondi prontamente.
– Está na hora de fechar – apontou para o grande relógio da parede – Além do mais você não parece entretida com o livro.
– Tem razão, eu estava tentando me distrair e acabei viajando para o passado – expliquei.
– O seu namorado ainda não voltou? – perguntou solidária.
– Chega essa noite – sorri radiante – Preciso mesmo de ir, ainda tenho que me arrumar – falei pegando nos meus pertences.
– Faça isso, aproveite bem para matar toda essa saudade – piscou compreensiva.
– Vou fazer por isso. Adeus Heidi, dê um beijo meu na sua filhota – pedi ao lembrar da pequena Maggie.
– Será entregue – acenou se despedindo.
Entrei no carro e dirigi com o vidro aberto. A aragem não estava tão fria e o vento que batia na minha cara era agradável. Finalmente poderia descansar, essa noite dormiria em paz do lado de Edward e isso só contribuía para o meu bom humor. Em algumas horas o teria só para mim e depois… Bom, aí já era com a gente.
Links das músicas do capítulo:
http://www.youtube.com/watch?v=yfj7ZdAimoM
http://www.youtube.com/watch?v=JQqFP658aHo
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