Amarílis secas
1 Amarílis secas
Notas iniciais
Aquele local parecia ser uma clareira, não dava para enxergar bem, tudo estava escuro, já que iluminação provinha somente da luz da lua.
Ao meu redor haviam túmulos e corvos sobrevoando. Macabro demais, talvez fosse um cemitério antigo, refleti.
Rajadas de vento sopravam no meu cabelo enquanto meus pés doíam. Minha sensação era de ter andado quilômetros, sabendo que isso era impossível.
Olhei ao lado, me deparando com uma espécie de charrete, ou carro antigo, não sei bem.
Um corvo grasna e eu me assusto, porém, segundos depois começo a ouvir uma música — ela era cantada em uma língua estranha e notas de piano a acompanhava.
Havia afinal pessoas por ali! Quem sabe essa pessoa não saberia o caminho de volta?
Segui a cantoria e as notas doces e chegando perto notei seu cabelo comprido azul, como se nunca houvesse escovado.
—Moça... com licença moça... — lhe disse.
Ela se virou, e pude perceber sua pele verde escura, seus olhos estavam encobertos por um pano preto e seu corpo enfeitado com flores.
—Olá meu bem, estava lhe esperando — ela me deu um sorriso, com seu hálito cheirando à flores e sua voz doce. Seus olhos... sentia vontade de descobri-los.
—Me..me...esperando? — gaguejo, pateticamente — q-quem é você?
—Sou Morganny, mas me chame de Mor. — ela continuava sorrindo.
Me detenho por uns segundos em pé, olhando para o vaso ao lado do piano, dentro repousavam amarílis envelhecidas.
—Lindas flores. — lhe digo.
Ela arranca duas do vaso e me entrega.
—Um presente.
Sorrio e observo seus olhos.
—C-como você consegue tocar com os olhos vendados? — pergunto-lhe, não querendo parecer intrometida demais.
—Sente-se aqui. Eu lhe mostro. — posso ver ela agarrando uma garrafa.
Obedeci. Apesar de ser estranho uma criatura de pele verde... não resisti. Tudo parecia muito doce em Morganny, como as flores que ela usava no pescoço.
—Toque se quiser — ela sussurra, olhando em meus olhos.
Mexo nas teclas, e me surpreendo desse piano antigo, até com algumas teias de aranha, soltar um som tão belo.
—Você aceita um taça Isabel? — pergunta-me.
—Como você sabe meu nome? — surpreendo-me.
—Eu sei de muitas coisas.. — ela responde, de modo simples.
Observo o líquido preto.
—Eu não costumo beber...
—Ora! É um ótimo néctar! — Morganny põe a taça perto de meu nariz. O cheiro é doce, e me sinto tentada.
O corvo grasna novamente, o que me desperta daquela tentação, começo a observar o cenário, e vejo que há muitas caveiras. Muitos túmulos.
—Não obrigada! — declino.
—Mas você tem! — ela grita, numa voz grossa, visivelmente alterada.
Demora alguns segundos e depois fala, agora de forma mais meiga:
—Já dará meia noite querida.
—Porquê me disse esse horário?
—Ora, essa é a hora que você irá embora, por isso aproveite minha companhia e beba comigo, quem sabe você não fica um pouquinho mais?
Nesse momento vejo uma sombra surgindo, é um homem com roupas esfarrapadas e rosto costurado.
—Não dê ouvidos ! Não de ouvidos — ele grita.
Morganny olha para ele.
—Calado criado! Calado! Ou irei lançar-lhe uma nova maldição!
Ele agarra minha mão e me puxa bruscamente, e percebo que Morganny se levanta indo atrás de nós em fúria.
Conseguimos alcançar o carro, que o homem sabia ligar, e ele me diz enquanto dirige:
—Finalmente estarei livre !
—O que ela fez com você? — pergunto, assustada, olhando para as costuras.
—Deixou-me preso no sonho. Aqueles túmulos são das pessoas presas nessa clareira, que viraram seus servos.
Tudo parece estar ficando escuro, e assim eu acordo. Meu coração está disparado. Ainda bem que era tudo um sonho.
Coloco minha cabeça debaixo do travesseiro e começo a sentir um cheiro esquisito... doce demais, eram amarílis secas.
Fale com o autor