Amantes de Sangue
3 Capítulo 3 BATISMO DE SANGUE!
Notas iniciais
A estrada não parecia ter fim, mas Afrodite continuava firme sob a sela, assim como seu amante que vinha atento a qualquer movimento. Os negócios com os navios mercantes resultaram na compra de sal e vinho, produtos que tornavam a vida no refúgio agradável e bem próximo de uma vida normal. Viajavam sempre à noite para evitar problemas e dificultar o reconhecimento. Estavam bem próximos de casa e Afrodite sentia o cansaço da viagem, apertando a base da nuca e soltando um gemido baixo.
— Quer parar um pouco para descansar? – perguntou Máscara da Morte, vendo- fechar os olhos.
— Não... eu aguento. Estou ansioso para chegar em casa. – respondeu o loiro.
Por um instante, Máscara olhou em volta, sentindo a aragem noturna e outro cheiro que não soube precisar. Ao sul da estrada as colinas acinzentadas pareciam silhuetas de gigantes adormecidos, enquanto que ao norte já se avistava as florestas que antecediam o local onde se encontrava o refúgio. Havia uma planície ondulada e algumas pontes naturais de pedra que levavam para uma garganta estreita e profunda, além daquelas montanhas.
— O que é aquilo? – perguntou Afrodite apontando na direção da planície.
Máscara da Morte franziu o cenho. Apurou a visão e sentiu a tensão tomar conta de seu corpo.
— Aquilo parece um acampamento.
— Acampamento? De que tipo? – devolveu Afrodite.
— Acampamento militar e muito próximo do refúgio. Vamos dar a volta.
De imediato, os dois interromperam sua trajetória e pegaram um desvio que adentrava a floresta em sua parte mais densa. Era difícil cavalgar ali, mas os dois não tinham escolha, precisavam chegar o mais rápido possível e foi o que fizeram, sentindo uma tensão crescente se avolumar dentro de si.
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Shura já tinha puxado a espada, mas era apenas um contra vinte e cinco homens. Olhou para Misty que jazia ao chão com uma imensa mancha de sangue no peito, os olhos abertos e vítreos. Está morto! Pensou o centurião cerrando os dentes. Em sua mente recordava o instante em que Titus o chamara...
Você sobreviveu ao cerco dos gladiadores... Disse-me que foi por causa do general Kanon. Pois bem, você irá com um destacamento e usará da relação que tem com aquele traidor para que tenhamos acesso ao tal refúgio. Quero todos mortos antes que o inverno chegue!
O imperador não acreditara nele, apenas o usara. Tinha sido ingênuo e agora aquele jovem estava morto e ele o seria, também, se não pensasse e agisse rápido.
Os cavalos estavam mais adiante... Tinha, apenas, que abrir passagem entre homens que se aproximavam de ambos os lados. Respirou fundo e lançou-se sobre Claudius, o líder que um dia já lutara ao seu lado. As espadas soltaram faíscas, mas diferente de uma luta de honra, os soldados avançavam com lanças também, obrigando-o a usar golpes com as pernas para impedir que o atingissem.
Um segundo homem afastou-se cambaleando quando Shura, enfim o cortou no braço. Claudius recuou e passou a ordenar o ataque, criando um círculo ao redor do centurião.
— Peguem-no e furem-no! Vamos levar a carcaça desse traidor para Roma! – gritou Claudius.
Ofegante, Shura defendia-se como um animal acuado. Uma lança já o havia ferido na coxa esquerda, mas mesmo assim, ele continuava de pé. O suor escorria de sua testa, porém ele ainda tinha forças de avançar e descer a espada sobre a cabeça de mais um soldado. O homem caiu de joelhos com a testa dividida em dois e sangue escorrendo por entre os olhos.
Foi então que um dos soldados usou o arco e disparou, atingindo Shura no ombro junto ao braço que empunhava a espada. Ele cerrou os dentes, tentando conter o grito de dor e em seus olhos, um manto vermelho desceu como se tudo ao seu redor adquirisse aquela cor...
Foi neste exato momento que uma sombra montada a cavalo brandiu a espada e a cabeça do arqueiro foi lançada ao ar. Máscara surgia em seu garanhão lançando estocadas nos soldados que se mantinham na linha de ataque. Assim que decepou a cabeça do soldado, ele saltou do cavalo e golpeou com vigor um, depois outro e mais outro de forma que uma brecha se abriu para Shura.
— Saia daqui! – gritou Máscara da Morte.
Entretanto, Shura jamais deixaria alguém lutar por ele, mesmo ferido, engoliu a dor e continuou atacando junto do gladiador. Cada movimento que fazia obrigava-o a sufocar a dor excruciante, mas ele continuava e continuava até sentir que um manto negro se apresentava em frente aos seus olhos substituindo o vermelho do sangue.
Um perfume suave e uma mão macia pareceram tocar seu rosto e ele sorriu, em meio ao devaneio. Era ele! Reconheceria-o mesmo que já tivesse adentrado a morte e os Subterrâneos...
— Pegue a minha mão!- gritou Afrodite fazendo seu cavalo escoicear um soldado e abrindo caminho para chegar até o centurião.
Shura piscou, obedecendo logo a seguir. Com dificuldade, conseguiu montar na garupa do cavalo e viu o exato momento em que Máscara da Morte cortou a garganta de Claudius como se estivesse lutando com uma criança e, em seguida, montou, novamente.
— Vamos embora! – gritou o gladiador e foi a última coisa que Shura ouviu antes de perder a consciência.
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Camus sorria com o coração descompassado, os olhos fechados e Milo sobre si. Os músculos e a pele do gladiador estavam tão colados ao seu corpo que ele não conseguia definir onde terminava o seu e começava o de Milo. O gladiador estava com os lábios próximos dos seus, ofegante e risonho. Já tinham se amado duas vezes, aquela era a terceira e parecia que poderiam fazer aquilo pela madrugada adentro...
— Eu não sei o que é isso, mas eu desejo ficar assim, todo o tempo. Dentro desse seu corpo... Beijando essa sua boca... – sussurrou Milo lambendo os lábios de Camus.
Antes que Camus respondesse, o som do aço percorreu o ar brumoso e os dois estancaram.
— Que som é esse? – perguntou Camus.
— Parece o som de espadas! – disse Milo.
Os dois se levantaram e vestiram as roupas. Milo olhou para baixo e viu, em meio à bruma, brilhos de tochas que se estendiam, além do vale.
— Soldados! – disse Camus.
— Vamos voltar, tenho que averiguar isso! – falou Milo e os dois correram na direção do refúgio.
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Máscara cavalgava rápido, evitando os galhos das árvores, assim como Afrodite que ainda tinha Shura na garupa. O centurião sangrava, porém mesmo semi-inconsciente, mantinha-se firme junto do corpo do loiro.
— Aquelas luzes! Tem mais soldados acampados na planície. – disse Afrodite.
— Temos que chegar ao refúgio e rápido! – falou Máscara.
Shura abriu os olhos e viu o brilho fugaz das tochas. Então, mesmo cansado e ferido, ele compreendeu...
— Titus... ele enviou outra tropa... – disse ele.
Afrodite virou o rosto e encarou o rosto ensanguentado do centurião.
— Nós já percebemos, fique tranquilo. Quando chegarmos ao refúgio, organizaremos a resistência.
— Não... Você não entendeu. As luzes... O acampamento... A tropa com quem lutamos era só um disfarce... Aquela... Aquelas luzes são da tropa de infiltração e isso significa... ataque à distância. Eles vão destruir... tudo!
— Como assim? – questionou o loiro.
— Catapultas com pedras de fogo. – disse Shura e naquele exato momento, bólidos incandescentes riscaram os céus...
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— Lançar! – gritou o centurião conhecido como Io de Scylla.
Herói em várias batalhas vencidas pelos romanos, o general era conhecido por sua visão estratégica e por ter uma antiga rixa com o general Kanon. Quando o imperador o convocara, ele sentira um prazer especial em liderar a legião que caçaria e poria fim ao “reinado” dos traidores. Agora, ali estava, com sua galea reluzente e sua túnica reforçada, pronto para entrar em combate. Sorriu ao ver as pedras incandescentes voarem pelo céu noturno como se fossem as armas dos antigos titãs.
— A linha de ataque está pronta e aguardando, senhor! – disse o soldado.
— Continuem lançando as pedras! Vamos deixá-los desnorteados como insetos prontos para serem esmagados! – falou o general.
O acampamento havia sido montado rápido, enquanto a tropa, antes liderada por Shura, havia avançado por dentro da floresta. Tudo tinha sido planejado por Titus que, antes de ser o imperador era um excelente estrategista.
Quando a informação sobre o local do refúgio havia sido conseguida, um sinal combinado foi emitido por um dos soldados de Shura, um assovio curto à semelhança de um pio de coruja que alertaria a tropa de infiltração. Naquele instante, as catapultas já estavam posicionadas e as tendas elevadas. Era questão de tempo para a ordem de ataque ser dada...
Logo, Io de Scylla teria o prazer de desbaratar aquele ninho de traidores e oferecer a cabeça de Scorpionis, de Kanon e de toda aquela escória ao imperador! Estava excitado com a estratégia que traçada e confiante que voltaria para Roma com os louros da vitória.
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O céu ficou iluminado de um jeito fantasmagórico e som que se sucedeu foi um tênue zunido que se revelou estrondoso ao cair no solo, destruindo e queimando tudo que encontrou pela frente.
Saga lia um manuscrito, enquanto Kanon verificava as estrebarias. O general sentiu o calor sufocante de uma pedra caída alguns metros perto de onde estava e Saga ouviu o barulho e, logo em seguida, o fogo alastrar-se em uma das casas próximas a sua.
Shun dormia, profundamente, aconchegado ao peito de Hyoga que abriu os olhos no instante em que o estrondo se fez luz, fogo e faíscas.
— Shun, acorde! – disse o loiro.
O jovem abriu os olhos, sonolento e então ouviu outro estrondo, sendo arrancado da cama num puxão violento.
— Hyoga! O quê está acontecendo?
— Estão nos atacando! – gritou o loiro. – Vamos!
— Estamos nus! – disse Shun olhando para o próprio corpo.
— Tome, vista-se! – disse Hyoga pegando a túnica que jazia aos pés da cama e indo em direção a sua espada.
Quando chegaram à porta do quarto, gritos e correria compunham o cenário nas casas e pátios do refúgio. Havia fogo e cheiro de carne queimada. Algumas pessoas haviam sido atingidas dormindo, outras em plena fuga. O pânico dominava, assim como aquele odor ocre que fazia Shun sentir náusea.
— Saiam pelo portão dos fundos! – gritava Kanon.
— General! Qual a situação? – perguntou Hyoga com Shun ao seu lado.
— Fomos descobertos e estamos sob ataque. – respondeu Kanon.
— Mas como? – falou Shun.
— Não sei, mas temos que sair daqui. Hyoga, você viu onde estão Milo e Camus?
— Estamos aqui! – respondeu Milo chegando junto com o ruivo.
— Muito bem! Shun, você, Camus e Saga ajudam as pessoas a deixar o refúgio. Milo e Hyoga, vamos sair e tentar atrasar os soldados para dar chance de fuga aos outros. – disse Kanon.
— Quatro espadas são melhores que três. Eu vou junto. – disse Camus se apresentando a Kanon.
— Camus, você não tem experiência em batalha. Acho que...
— Acho que ele está certo, general. Camus tornou-se hábil com a espada e em algum momento, ele tem que vivenciar essa experiência. – disse Milo.
Camus sentiu orgulho do homem que amava, a forma confiante com que ele se diria a si era uma prova de confiança e amor.
— Muito bem, então. Vamos lá. – disse Kanon.
Antes que os quatro deixassem o refúgio, Saga aproximou-se do irmão. O olhar aflito, a angústia de não saber o que dizer.
— Kanon...eu...
— Eu sei, meu amor.. Vá e deixe-os em segurança.
Um beijo urgente e apaixonado foi trocado às pressas... E quando as bocas se afastaram, labaredas avermelhadas já se alimentavam, vorazmente, das construções, fazendo com que alguns animais corressem em disparada pelo pátio. Nesse instante, Máscara entrou, assim como Afrodite e Shura.
Milo olhou para os três e sorriu para Máscara.
— Ainda bem que chegou a tempo. Vamos lá acabar com aqueles filhos da puta!
— Já matei alguns lá embaixo prá salvar esse aqui. – falou o gladiador apontando para Shura.
Afrodite olhou em volta e sentiu uma dor no peito. O refúgio que fora construído com tanto amor estava virando cinzas.
— Shura está ferido. – foi apenas o que conseguiu dizer.
— Leve-o junto com os outros e ajude Saga e Shun, Afrodite. Nos encontraremos no lugar secreto. Agora vá. – disse Milo.
— Mas e os outros? Mu, Aldebaran e Aiolia? – perguntou o loiro.
— Ele tem razão, como vamos avisá-los? – falou Hyoga.
— Onde está Yohma? – perguntou Milo.
— Não sei, eu não o vi. – Hyoga respondeu.
— Encontre-o! Dê-lhe o cavalo do Máscara e diga que vá pela trilha, até chegar a Nápoles. Lá ele espera a passagem dos três e informa o que aconteceu. – falou Milo.
— Tá. – foi a resposta de Hyoga que, rapidamente, se embrenhou no grupo à procura do garoto.
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Yohma tentava organizar as crianças menores, falando para que se acalmassem e tomando pela mão o menor deles, que chorava. Havia nele uma índole de liderança, algo que Milo procurava direcionar e lapidar em suas lições com a espada.
Verônica era órfã, acostumada a virar-se sozinha e cuidar de si. No entanto, diante de tudo aquilo ela sentia que precisava fazer algo, mesmo por aqueles que tinham os seus pais, mas ainda assim estavam apavorados.
— Ei, Yohma! Milo ordenou que você vá até Nápoles e espere Aiolia e Mu para avisá-los do que aconteceu! Use o cavalo de Máscara da Morte que já está próximo aos portões. – gritou Hyoga quando, finalmente, encontrou o garoto em meio ao grupo.
O garoto franziu o cenho, como se pensasse antes de aceitar.
— Eu vou, mas é melhor que alguém vá comigo prá não levantar suspeitas. – respondeu o menino.
— Escolha alguém e vá agora! Não temos muito mais tempo por aqui!
Yohma olhou em volta e seus olhos se detiveram em Verônica. Ela não parecia assustada como as outras e... o tinha vencido. Por bem ou por mal, ela tinha fibra. Por um momento, ele vacilou, coçou a cabeça e, finalmente, gritou seu nome:
— Verônica!
— O quê? – perguntou ela encarando os olhos do menino.
— Vem comigo! Precisamos fazer uma coisa! – respondeu ele.
Ela continuou encarando-o e, em seguida, foi até ele.
— O que precisamos fazer?
— Vamos até Nápoles avisar Aiolia e Mu.
— Eu e você viajando juntos? – devolveu ela com o cenho franzido.
— Sim, algum problema quanto a isso?
— Quem mandou?
— O senhor Milo me mandou, mas eu preciso de ajuda e escolhi você.
— Você me escolheu?! – perguntou com um olhar de estranheza, achando que algo estava muito errado ali.
— Sim, escolhi. Você me venceu hoje e o senhor Milo tem razão. Você é uma guerreira e eu tenho que respeitar isso.
Verônica continuou olhando-o com o cenho franzido, o coração disparado. Não era por medo e sim pela mesma razão que a fazia ter raiva dele. Não sabia bem o que era aquilo, mas era tão forte que a deixava sem ar.
— Está bem. – disse ela desviando o olhar.
Os dois montaram no garanhão e deixaram todo aquele caos, se embrenhando na mata, enquanto os gladiadores da Casa de Gemini junto de Kanon e Hyoga deixavam o refúgio em chamas para enfrentar as tropas romanas...
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A descida até onde estavam as catapultas romanas era íngreme e cheia de obstáculos. No entanto, os cinco conseguiram fazê-lo com rapidez e quando avistaram a clareira onde antes Shura e Máscara haviam lutado, testemunharam a montanha corpos de soldados e também o de Misty que jaziam ao chão encharcado de sangue.
— O que ele estava fazendo aqui? – falou Milo.
— Não sei, mas boa coisa não era. Mas acho que ele deve ter se divertido antes de morrer... – disse Máscara sem demonstrar nenhum sentimento.
— Como vamos abordá-los? – perguntou Camus.
— Se eles estão usando as catapultas é porque o destacamento é grande, maior que esse aqui. – falou Kanon apontando para os soldados mortos.
Camus olhou em volta, então teve uma ideia...
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As narinas de Io de Scylla estavam dilatadas e ele respirava excitado a cada nova carga de pedras. Seus batedores haviam saído para investigar as redondezas e quando os viu voltar, sequer notou que ao invés de três homens, eram cinco que despontavam na escuridão, suas silhuetas reveladas pelas tochas espalhadas pelo acampamento.
Quando o garboso general deu-se conta que havia algo errado, já era tarde demais.
Num movimento rápido, Kanon moveu a espadae desarmou o soldado próximo de uma das catapultas, enquanto com extrema agilidade, Máscara golpeava o outro na altura do ombro e abrindo um corte que lhe decepou o braço. O sangue vivo jorrou de ambos os corpos e Hyoga entrou na luta, saltando sobre o terceiro homem, mas sendo interceptado na metade do movimento e sendo bloqueado. Rapidamente, ele puxou um punhal e investiu direto na altura do rosto do soldado, furando seu olho direito e fazendo-o afastar-se com um grito de dor. Então, num movimento inesperado, o loiro saltou, rolando sobre o próprio corpo e posicionando-se com uma perna flexionada e a outra estendida. Segurou sua espada na altura do peito e terminou o serviço, fazendo cair o soldado romano.
Milo atacava em outra frente, as duas espadas cortando com rapidez e precisão. Impiedosamente, ele lançou-se na direção dos dois soldados que se preparavam para lançar outra pedra e moveu-se com uma agilidade tão espantosa que quando Márcio e Jano se deram conta, tiveram suas cabeças arrancadas de seus corpos, fazendo um caminho de sangue que se projetou na catapulta. Os corpos sem vida desabaram como se fossem bonecos e um rio rubro escorreu pelo chão.
Depois, virando-se para à sua esquerda, Milo percebeu que Camus já havia encontrado um adversário, um soldado de pele muito branca e olhos estreitos. Havia uma aura maligna em torno dele e a postura do corpo mostrava-se, totalmente, relaxada o que deixou o gladiador preocupado. Camus, fique atento... Pensou, enquanto era obrigado a defender-se do ataque de outros soldados que vinham para cima de si.
Camus sentiu uma espécie de frieza apossar-se de sua mente. Quando descera até a clareira, pensara se estaria apto, mas agora não pensava em nada. Havia uma ausência de emoção ou qualquer outro sentimento entro de si. O homem a sua frente o olhava com cara de deboche, mas ainda assim isso não o afetou. Percebeu a postura do corpo dele e relaxou a sua. O soldado avançou e, em seguida, outro se juntou a ele.
Um brilho gélido acentuou-se nos olhos de Camus e ele moveu a espada, girando sobre o próprio corpo e, trocando-a de mão, confundiu o primeiro que o atacou cortando-o na altura da cintura, enquanto se abaixava e estocava profundamente o segundo na altura do peito. Ambos caíram mortos em poucos segundos e Milo respirou fundo e aliviado ao ver aquela cena. Sem descuidar de seus atacantes, ele sorriu, agora tendo a certeza que seu amante já passara pelo batismo de sangue!
Máscara e Hyoga continuavam atacando e abrindo caminho, até Kanon chegar perto de Io que bradou furioso por ter sido surpreendido daquela forma. Os gladiadores haviam vestido os uniformes romanos e agora faziam uma verdadeira varredura em seus soldados.
— Kanon, seu traidor! – gritou ele.
Kanon preparou-se, sentindo o sangue latejar nas têmporas e apertou a espada. Io moveu-se como um felino enraivecido e colocou-se de prontidão. As lâminas se chocaram num reconhecimento de distâncias e força, porém Io percebeu que seu inimigo era mais do que aparentava. Entretanto, avançou rápido, penetrando no flanco esquerdo de Kanon vendo como ele bloqueava a sua ação.
O movimento gracioso do general que odiava, fez Io perceber que sua ira só atiçava os instintos do inimigo. Avançou a perna, girando o tronco e tentando atingi-lo na altura dos rins, porém Kanon desvencilhou-se sem esforço e, saltou, fazendo a espada descer em uma linha diagonal que atingiu o braço de Io, quase lhe arrancando o pulso.
— Desista e eu o deixarei viver! – gritou Kanon.
— Nunca! Prefiro morrer a ser um traidor sujo como você! – devolveu Io.
Aquela frase, mesmo sabendo que tinha os seus motivos, fez Kanon sentir-se desconfortável. Apesar de tudo, era um legionário romano e toda a sua vida havia sido devotada a Roma. Entretanto, o amor que tinha por Saga e também por seus ideais o tornara um desertor... Paciência, eu tenho que viver com isso! Pensou, atacando Io com mais força.
Rapidamente, o general se esquivou, mas seu braço sofrera um corte feio, acima do cotovelo. O sangue quente jorrou e ele sentia líquido viscoso escorrer pela lâmina de sua espada.
Kanon não disse mais nada, porém suspirou e posicionou-se defensivamente. Aboliu de dentro de si todas as emoções conflitantes. Não precisava pensar em nada, precisava apenas esperar o momento certo e golpear. Um único golpe!
Io de Scylla sentiu a mudança e o sorriso de escárnio lhe fugiu dos lábios. Preparou-se para atacar e ergueu a espada com a mão esquerda. Silencioso, Kanon projetou-se no ar, elevando a espada acima da cabeça e Io fez o mesmo, fazendo com que elas se chocassem com fúria.
Kanon torceu o corpo no ar, fazendo Io defender na altura do peito. Logo a seguir, torceu o pulso e girou a espada rápido como se fosse descer em linha reta. Io tentou o contra-ataque erguendo a sua e então, Kanon inverteu o movimento e cortou-o, bem no baixo ventre, um golpe mortal e doloroso em que o guerreiro demorava a morrer.
Io arfou e sentiu seu próprio sangue, quando deixou cair a espada. Suas vísceras ficaram expostas e ele olhou incrédulo para o sangue que vertia abundante.
— Morto por um traidor... — sussurrou ele com a boca cheia de sangue.
—Não, você foi morto por sua própria arrogância. Antes, essa sua fala me traria sofrimento, mas agora... Agora sinto que tomei as decisões certas. Antes morrer como um homem do que como um cão obediente de Roma. — respondeu Kanon, dando às costas ao general e deixando-o agonizar em meio à poça de sangue que se formou.
Milo, Máscara da Morte, Hyoga e Camus olharam em volta, vendo o trabalho que tinham feito, outro campo de mortos... Trinta homens mortos por apenas cinco.
Naquele instante, Camus pareceu voltar a si, sentindo o cheiro do sangue que se juntava à terra e do inexorável abraço da morte. Afastou-se dos demais e seguiu para junto de uma árvore. Estava suado da luta, mas também era tomado por um frio gélido que percorria, vagarosamente, todo o seu corpo. Curvou-se e vomitou, sentindo um nó nas entranhas e um gosto amargo na boca. Envergonhou-se do ato, mas não pode evitar. No entanto, antes que percebesse, os braços de Milo estavam ali novamente, amparando-o.
— Você está bem? Matar nunca é fácil para um homem como você. – disse o loiro com aquela voz grave e forte, mas sempre num tom carinhoso quando era com Camus.
— Um homem como eu? Quer dizer... fraco, não é?
— Não. Você jamais será fraco, Camus. Há em você o dom de compreender o mundo e mudá-lo de outras formas. Matar foi apenas necessário, não um fim em si mesmo e, apesar de ser extremamente habilidoso, o que me dá um orgulho do cacete em tê-lo ensinado, ainda assim, este não é o seu talento maior. Quando os tempos de morte acabarem, são homens como você e Saga que farão um novo mundo.
Camus sorriu, sentindo um nó na garganta, então abraçou-se a Milo e sussurrou:
— E você tem o dom de resgatar-me, de tirar o melhor de mim. Te amo, Milo, por toda a eternidade...
Máscara da Morte e Hyoga atearam fogo nas catapultas, inutilizando-as já que não teriam condições de usufruir da força de combate que elas possuíam. O esconderijo que fora planejado para um momento como esse, era num local estreito e íngreme que não abarcaria armas daquele porte. Então, pelo menos assim, nem os romanos a teriam a sua disposição.
— Essas aqui eles não usam mais! – disse o moreno sorrindo ao ver o fogo se alastrando e enfiando a espada em um soldado que estava ferido, mas respirando.
Enquanto as labaredas lambiam a madeira escura, os cinco deixavam o lugar e se encaminhavam até o esconderijo para encontrar os demais, refazer seus projetos e planejar a resistência...
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