Amantes - O Anjo Negro
1 Capítulo Único - A Maldição
Notas iniciais
Cortando à frente o vento,
Num bater de asas precipito-me
No abismo!
Sublime era o céu, perfeita é a morte!
Inevitável o Fim!
(Manuel Maria)
Ela nunca entendera aquela particular obsessão de sua mente por ele, seu inimigo, seu confidente, seu vício. Como o tempo os afastava e por vezes os jogavam lado a lado novamente. E como uma viciada ela inalava seu cheiro como a droga mais nostálgica de todo o mundo.
Já havia algum tempo que o tempo havia os separado novamente, era uma noite escura e um rock tocava ao fundo no computador enquanto ela perambulava por imagens de criaturas fantásticas a procura de aumentar sua coleção de seres preferidos: os anjos negros.
Não importava as trevas que haviam em uma imagem de um anjo impuro, o que mais gostaria era que as asas do mesmo a cobrissem e a deixassem uma vez descansar na escuridão do mundo.
A janela aberta trouxe uma brisa suave acompanhada de um cheiro peculiar. Um pequeno barulho no vidro da janela desviou sua atenção das imagens, um felino.
Um belo gato negro.
O animal pulou do parapeito e deu um mio agudo ao mesmo tempo em que a luz se extinguiu a fazendo dar um pequeno grito contido.
O que fazer? Amava as trevas mas apavorava-se ao encontrar-se nela sozinha, às cegas. Sentiu a pelagem do animal roçar em sua perna e um arrepio a percorrer-lhe, uma dor de cabeça instantânea tomou a e a escuridão tornou-se parte não só do mundo a sua volta como também de sua inconsciência.
O cheiro novamente enrolou-se por seu ar a fazendo inalá-lo, e aquela voz a fez crer que ainda sonhava, e ela pedia aos céus para que não acordasse.
- Está tudo bem? – Ele perguntou ainda na escuridão.
- É você mesmo? – Ela procurou sua face dedilhando-o com as pontas dos dedos enquanto inconscientemente seu peito arfava em uma mistura de dúvida e ansiedade.
Mas a luz voltou, e seu vício virou fumaça.
Uma lágrima escorreu e o gato novamente miou. Como fora parar em sua cama?
Estava sufocada não agüentava mais toda aquela angústia presa em seu peito, as lágrimas eram conscientes e sabiam por onde escorrer manchando o bonito rosto jovem. Ela gritou uma, duas vezes, e procurou pela janela. As estrelas impossíveis de se ver devido à forte chuva que havia começado, havia algo mais lá fora, tinha que ter, aquilo que tanto procurava, sua tão amada paz na escuridão. E ela foi procurá-lo.
O alto precipício já era um lugar conhecido para ela, não era a primeira vez que ia lá. Sempre observando o vale sem fim em que se acabava, o vale eterno. Ela poderia jurar que havia visto o ali. O gato miou, a seguira.
Mas aquele miado lembrava-lhe algo. Algo que gostaria de esquecer. Entre tantos acasos do tempo, o tempo dele havia terminado, a morte havia tragado seu anjo negro de armadura, e ela estava condenada a ter apenas suas lágrimas como companhia na escuridão.
Ela sorriu, um sorriso desprezível. A vida lhe parecia tão insignificante, queria ele de volta. E se não o tivesse, se juntaria às trevas tão convidativas à frente.
Ela se preparou dando alguns passos para trás, seu sorriso cada vez mais largo. O gato miou como se em uma súplica para afastá-la de tais pensamentos tão obscuros.
Ela pulou.
E ele a acompanhou ao abismo, o gato pulou.
E em seus últimos minutos poderia jurar que havia visto asas, e uma armadura revestindo um corpo forte enquanto um anjo negro a salvava da queda.
Na manhã seguinte, enquanto a luz dominava, o corpo de uma jovem repousava junto a outro que parecia ali já fazia tempos. Um carro havia prendido metade do corpo do homem enquanto este tentava escapar, mas o corpo dela, havia caído exatamente de modo que suas mãos estavam sobrepostas sobre a do corpo cavérico.
Um brilho vivo estampava aqueles olhos, junto a um sorriso. O único feliz depois de tanto tempo sem ele, sem seu anjo negro de armadura. Mas era um sorriso de morte.
Em algum lugar naquele mesmo minuto, uma mãe dava à luz a um lindo casal de gêmeos, e mais uma vez um amor maldito se iniciaria. Onde uma bela sem alma se entregaria a um anjo negro de armadura. Impuros, malditos, mas simplesmente, amantes.
“Então beije-me meu querido anjo, antes que o tomem de mim…”
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