Amanhecer Violento No Vilarejo Dos Sonhos
7 Nossa Própria Sherwood
Notas iniciais
“A guerra de verdade começa agora...”
As palavras de Isabela, junto com o recente bombardeio que culminou na destruição do seu abrigo, parecem servir como um lembrete ao grupo de que suas vidas nunca mais serão as mesmas. Dentre todos um dos que parecem mais abalados é Priscila, que com as mãos trêmulas tira do bolso uma carteira de cigarros e um isqueiro. Ela coloca um cigarro na boca e quando está prestes a acende-lo alguém lhe dá um tapa na mão, fazendo com que ela o derrube.
— Ei, tá maluca?! – Protesta Priscila furiosa se voltando para a pessoa que derrubou o isqueiro das suas mãos, dando de cara com Isabela, que rebate igualmente furiosa.
— Maluca tá você! Por acaso você está querendo causar um incêndio na mata?!
— Eu estou nervosa! Isso me ajuda a relaxar! – Defende-se Priscila.
— Todos nós estamos nervosos, mas isso não é desculpa para sermos descuidados! – Diz Isabela em um tom severo.
Priscila dirige outro olhar de fúria para Isabela para em seguida recolher o isqueiro do chão e guarda-lo de volta no bolso, resignada. Isabela então se dirige ao resto do grupo:
— Agora a primeira coisa que precisamos fazer é achar um novo abrigo.
— Eu conheço o lugar perfeito... – Declara Mateus.
— Muito bem, então nos indique o caminho! – Responde Isabela.
Mateus assente e toma a frente do grupo para leva-los ao novo abrigo.
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— Bom, é aqui... – Diz Mateus quando o grupo chega ao seu destino.
Depois de uma longa caminhada através da mata fechada e de campos íngremes e escarpados, os jovens finalmente chegam ao local indicado por Mateus para ser o novo abrigo do grupo. Se tratava de uma gruta um tanto afastada do vilarejo. Não haviam trilhas para chegar até lá, sendo o único caminho através da mata, o que dificultava o acesso. Havia também uma pequena fonte de água próxima à gruta que, segundo Mateus, era potável, pois brotava do lençol freático. Em outras palavras, era o lugar ideal.
— É, você realmente tem razão, Mateus: Este lugar é perfeito! – Assente Isabela com um sorriso satisfeito.
— Perfeito?! Você só pode ter perdido a cabeça! Olha só o meu estado: Estou toda suja, arranhada e cheia de bolhas nos pés de ter que andar no meio dessa mata! – Reclama Priscila.
— É por isso mesmo que o lugar é perfeito! Se foi difícil pra gente, vai ser difícil pra eles também! – Retruca Júlia sem paciência.
Priscila revira os olhos mas resigna-se. Enquanto isso os outros exploram o lugar. Após examinar cada canto minuciosamente, Isa sorri e declara com satisfação:
— É isso aí: Nossa própria Sherwood...
— Igual à história do Robin Hood? – Indaga Dóris empolgada, com os olhinhos brilhando com uma expressão sonhadora.
— Exatamente Dóris. E assim como na história este será o nosso refúgio enquanto lutamos contra a tirania que tomou conta do nosso lar! – Diz Isabela com determinação.
— Mas se nós somos um grupo revolucionário, nós precisamos de um nome... – Declara Lola subitamente.
— Taí, você tem razão! – Concorda Isa. E então se dirige aos outros enquanto pondera: — Alguma sugestão?
Manuela levanta a mão, entusiasmada.
— Fala, Manuela. – Diz Isabela em tom levemente irritado, revirando os olhos.
— Que tal Amigos Do Vilarejo? – Sugere Manu animadamente.
— Aff, Manuela! Não tinha um nome mais brega não?! – Critica Isabela.
— Já sei: Guerreiros da liberdade! – Propõe Felipe empolgado.
— De onde você tirou isso, de alguma revista em quadrinhos? Pelo amor... – Comenta Isabela sarcasticamente.
— Acho que o nome não é tão importante. O importante mesmo é que precisamos resgatar o nosso lar! – Declara Téo.
— Você tem razão, Téo! – Concorda Isabela e então acrescenta: — Afinal, agora todos somos cúmplices! – Neste momento Isa fica pensativa por alguns instantes. Logo seu rosto se ilumina, como alguém que teve uma epifania, e ela exclama: — É isso!
— Ai, Isa, que susto! – Exclama Julia surpreendida, e então indaga: — É isso o quê?
— “Cúmplices de um Resgate”! Este vai ser o nosso nome! – Proclama Isa eufórica.
— Cúmplices de um Resgate... – Repete Téo em voz alta, saboreando as palavras, então se dirige à Isa, sorrindo: — Gostei do nome!
Isa devolve o sorriso, levemente corada. Manuela também se dirige à irmã, empolgada:
— Eu também! Mandou muito, Isa !
— É, até que o nome não é ruim... – Concorda Priscila com relutância.
E assim todos foram dando sua aprovação ao nome escolhido por Isa, que logo se dirige aos demais em seu tom determinado habitual:
— Então está decidido: De hoje em diante nós somos os Cúmplices de um Resgate, e vamos mostrar para estes intrusos o que acontece com quem invade o nosso vilarejo!
O grupo reage às palavras de Isabela com gritos de incentivo, demonstrando estar prontos para as batalhas que estão por vir.
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As semanas seguintes são de intenso treinamento para os agora batizados “ Cúmplices de um Resgate”. Sob a liderança de Isabela, eles desenvolvem sua estratégia de combate, baseada em táticas de guerrilha na qual exploram o seu conhecimento do ambiente para transformá-lo em vantagem no combate contra o inimigo. Como uma verdadeira líder, Isabela acompanha tudo de perto, liderando os treinos e sempre oferecendo palavras de incentivo:
— Vamos lá, não podemos desistir! Sei que parece impossível, pois eles são melhores equipados e mais treinados, mas a história tem vários exemplos que nos mostram como a força daqueles que lutam para defender o seu lar é capaz de derrotar o maior dos exércitos! Foi assim com os Germânicos, os Vietcongs, os Mujahedin, e será assim com a gente! Tudo que precisamos é ter em mente o nosso objetivo e lutarmos por ele com todas as nossas forças!
Assim, apesar de todas as dificuldades, os Cúmplices de Um Resgate começam a se moldar como um verdadeiro exército, pronto para lutar até o fim pelo seu vilarejo.
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Ao cair da noite, dois soldados percorrem a mata ao redor do vilarejo. O comando da tropa invasora havia sido informado acerca de uma atividade suspeita naquela região, fazendo com que o Capitão Amaro decidisse mandar um pequeno grupo de quatro soldados para averiguar se podia se tratar de algum movimento de resistência e caso fosse este o caso, mobilizar tropas para esmaga-lo. Chegando ao local indicado, o grupo decide se dividir em pares para cobrir uma área de busca maior, seguindo cada par por um lado da mata. Um destes pares decidiu que um deveria ir à frente enquanto o outro cobria a retaguarda, e assim seguiam floresta adentro:
— Brrrr, este lugar me dá calafrios... – Comenta o soldado que vai atrás
— IIIIIIIIIIIIh, tá com medinho, é? – Zomba o soldado da frente.
— Mané medinho o quê? É só que eu não paro de ter esta sensação de que nós estamos sendo observados... – Retruca o outro ressabiado.
— Tsc, isto é coisa da sua cabeça... – Diz o soldado da frente, e então continua: — Agora vamos que o quanto antes terminarmos isto mais rápido saímos do meio deste mato...
Eles continuam caminhando mata adentro até que o soldado da retaguarda vê um vulto passar rapidamente por entre as árvores. Assustado, ele chama pelo outro:
— Ahhh, você viu aquilo?!
O outro então se vira e indaga:
— Aquilo o que?
Mas quando este se vira, seu parceiro não estava mais lá.
— Oi? Cadê você? – Chama o soldado pelo companheiro. Sem obter resposta, ele continua a chamar o outro, já começando a se desesperar:
— Cara, qual é? Isso não tem graça! Vamos, aparece!
O soldado então começa a olhar para todos os lados, apontando seu fuzil. De repente ele se depara com uma visão aterradora: Um ser estranho, completamente negro, com olhos verdes penetrantes e cabelos longos e desgrenhados, surge diante dele olhando-o de forma ameaçadora. Apavorado, ele grita:
— AAAAAAAAAAAAAAH, O QUE É ISSO?!
E logo em seguida o homem recebe um golpe na cabeça e vai ao chão, desfalecido. Detrás deles, outro ser negro sai de entre as árvores, com um pedaço de pau nas mãos. O ser de olhos verdes então assobia, fazendo outros seres negros saírem detrás das árvores. O mesmo ser de olhos verdes então sinaliza para dois dos seres maiores do grupo, indicando o soldado caído:
— Tirem ele daqui e coloquem junto com os outros.
Os dois assentem e carregam o soldado para longe dali. Então outro ser de olhos verdes e cabelos longos e bagunçados idêntico ao que ordenou que o soldado fosse levado de lá surge ao lado deste, e, sorrindo, lhe dirige a palavra de maneira animada:
— Essa idéia de se cobrir de lama para se esconder no escuro foi ótima, Isa!
— É claro! Minhas idéias sempre são ótimas! – Vangloria-se o outro ser, agora identificado como Isabela. Ela então se olha de cima a baixo e torce o nariz: — Apesar de a sensação de estar coberta de lama não ser nada agradável...
Dois dos seres maiores, que na verdade eram os meninos do grupo, estavam neste momento admirando as armas que eles tomaram dos soldados. Um deles então exclama:
— Caramba, essas armas são mesmo o máximo!
— Nem tanto. Se quisermos ganhar esta guerra, precisamos de armas melhores! – Retruca Isabela.
— E onde nós vamos conseguir armas assim, Isa? – Pergunta um dos meninos, de cabelos encaracolados.
— Eu tenho um plano... – Responde Isa com um sorriso maroto e os olhos brilhando.
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