Amanhecer: Novos Começos
9 Fumaça
Notas iniciais
Eu não consegui me virar para saber de onde vinha a sensação de desconforto. Em vez disso, firmei os pés no chão, para que eu não saísse correndo agora.
— Bella! — Emily gritou ao se aproximar, amenizando o calor que queimava a minha nuca. — Que bom que você veio. Jacob disse para não nos animarmos, mas eu sabia que você viria. — E deu ênfase me dando um abraço caloroso.
Eu encarei automaticamente Jacob quando ela falou isso. Parece que ele não me apoiava tanto quanto eu imaginava. — É bom rever você também Emily. — Ele disse, claramente aborrecido pelo comentário da outra.
Ela sorriu, e eu me perguntei se havia algo que abalaria seu ar natural de maternidade. — Deixe de ser bobo. Vamos, o Velho Quil chegou e seu pai precisa da sua ajuda para chegar na clareira.
Jake bufou, e foi a passos largos auxiliar o pai e sua cadeira, enquanto Emily ficava de braços dados comigo. E eu lutei contra a ideia que ela, na verdade, estava me auxiliando para não cair. O que, apesar de me doer admitir, foi de grande ajuda quando começamos a caminhada pela floresta. Além disso, o caminho escuro, e a vela que ela levava em mãos, não ajudavam muito o meu equilíbrio afetado. Os outros seguiram mais facilmente pela trilha estreita, e em poucos momentos estávamos em comitiva, atravessando a floresta noturna.
— Nervosa? — Ela me perguntou.
— Só um pouco... — E eu agradeci internamente por estar bem o suficiente agora para conseguir mentir. Na verdade, ainda estava apavorada. — É difícil enxergar por onde estou andando. — Eu tentei brincar para disfarçar ainda mais meu nervosismo.
Ela riu, uma risada suave como um canto de pássaro. — Você se acostuma com o tempo. O silêncio, o ar puro, fazem tudo valer a pena. — Emily apertou seu braço junto ao meu, me puxando para mais perto. — E depois de um tempo, nem o escuro consegue te assustar mais.
Eu não consegui evitar de lançar um olhar de dúvida para o seu rosto, que parecia estar coberto por uma camada de ouro pela luz fraca da vela. Só então percebi como ela estava estonteante. Seus cabelos estavam trançados, como se fossem uma grinalda na sua cabeça, e havia também um pequeno adorno logo a frente, prateado e com algumas pedras incrustadas nele. Emily também usava uma camisa de seda, nos mesmos tons do adorno e com mangas largas, que ajudavam a dar um tom ainda mais místico para a sua pessoa.
— Meu deus Emily. — Eu arfei, e eu me arrependi de não ter olhado mais atentamente para ela antes. — Você está linda. — Ela quase parecia uma vampira de tão bela.
— Obrigada. — Ela sorriu, um sorriso doce. — Mas mesmo só estando com a parte de cima, as roupas cerimoniais ainda me incomodam um pouco.
— Roupas cerimoniais? — Não consegui evitar de questionar.
— O Jacob não comentou com você? — E ao ver a dúvida em meu rosto. — É claro que não.
— O que ele não me contou? — E eu o repreendi mentalmente pelo o que fosse que ele tivesse escondido de mim dessa vez.
— Vejamos… Você sabe como cada pessoa aqui na reserva tem sua função. Somos uma comunidade, e nos ajudamos em praticamente tudo. Billy, o avô de Quill e agora Sue, são os anciões, os sábios que conhecem as lendas e nos aconselham em praticamente tudo. Como os lobisomens, por exemplo. — E eu concordei com a cabeça enquanto ela falava, como uma aluna escutando a sua professora. — E temos, é claro, os lobos, os protetores do nosso povo desde que as lendas conseguem nos contar. E no fim... temos eu. — Ela riu, apesar de não ter parecido uma piada para mim. — Antes era uma tarefa de Sue, mas agora com a sua participação como uma anciã, eu fui encabida um pouco mais cedo dessa função. — Ela suspirou, mas levantou o queixo quando disse. — Sou uma mensageira da lua.
“Temos alguns deuses que cultuamos aqui, mas principalmente, nós prestamos tributos à lua. A grande mãe e guardiã do nosso povo, em especial dos nossos protetores. Não se preocupe, você entenderá mais sobre ela quando ouvir as lendas, mas já adiantando, não é como se eu tivesse alguma magia em meu sangue como eles. A única coisa que talvez me faça diferente, é o respeito que as pessoas têm por mim. Principalmente as que estão mais conectadas com o nosso passado. Elas me pedem alguns conselhos de vez em quando, e eu faço alguns rituais e preces se me pedem por proteção ou consolo, e quando eu tiver mais experiência, vou começar a cuidar dos enterros do meu povo também. Mas não é nada fora do normal. São muitos rituais para aprender, que são passados ao longo dos anos das mensageiras experientes para as mais novas, o que quer dizer que eu ainda estarei em treinamento por um bom tempo.”
“E eu sei que pode parecer bobo quando visto de fora, mas eu realmente tenho fé que isso ajude de alguma forma. Pelo menos dando confiança a eles, que alguém estará lá para protegê-los. Eles estão tão acostumados a serem os grandes protetores das pessoas, que às vezes se esquecem que também precisam de proteção. E vou contar a você, que isso também me dá a sensação de estar fazendo alguma coisa, de estar ajudando de alguma forma. Eu ficaria louca se tivesse que ficar sentada apenas observando eles sacrificarem a vida todos os dias.”
Eu não podia julgá-la, já que entendia muito bem essa sensação. Foi isso que me impulsionou no meu plano contra Victoria meses atrás. Eu não aguentava mais ficar esperando que a próxima pessoa pulasse na frente de uma bala e se sacrificasse por mim. eu estava desesperada para tomar as rédeas do meu destino.
— Nossa, realmente parece ser algo bem incrível. — Consegui dizer, depois de ter absorvido toda a informação. — Isso com certeza te faz especial.
— Sue também diz isso. — Ela sorriu mais uma vez, mas estava séria quando completou. — Ela sempre fala que eu tenho o “dom” para a coisa, e como sou uma a mensageira mais promissora que ela já viu em tempos. — Ela deu os ombros, mas percebi quando desviou o olhar para baixo com tristeza.
— Emily? — Perguntei, a curiosidade crescendo enquanto eu estudava as suas reações. — Algo errado? — Talvez fosse a primeira vez que eu a via triste desde, bem, desde sempre. Eu sabia que ela sentia tristeza, porém nunca a tinha visto expressar de alguma forma. Para mim, o sol de Emily era o mais difícil de ser apagado.
Ela olhou atentamente para o meu rosto, e depois dirigiu o olhar para as pessoas na nossa frente. Éramos as últimas da fila, e eu gostava de pensar que se dava pelo fato de sermos humanas e menos habilidosas que eles, e não pela minha constante dificuldade de andar no escuro sem tropeçar em algo.
— Essa era para ser a função da Leah. Ela sempre dizia que queria ser como a mãe. Uma pessoa importante para todos. — Ela suspirou pesado, as bochechas corando sobre a pele cobre. Só então que eu percebi que ela estava encarando as costas da prima. — Quando eu definitivamente mudei para cá, logo após conhecer Sam, bem… Sue acabou me instituindo da função, e começou a me passar o conhecimento. Nada que eu dissesse a fazia mudar de ideia, apesar de eu ter dito o quanto isso era importante para Leah. Ela sempre fala que eu tenho “esse algo especial”, e que é isso que decide se seremos realmente boa no que fazemos. Então não importa o quanto Leah quisesse, ela nunca conseguiria de fato ser uma boa mensageira. — Eu vi uma lágrima escorrendo do canto do seu olho, e ela se apressou para secar. — Sabe a pior parte? Eu nem sei o que é esse “algo especial”, e Sue também não conseguiu me explicar. Ela diz que é mais como uma intuição de que eu fui feita para isso. — Então ela riu, uma risada sem humor ou luz. — No fim foi mais uma coisa que eu tomei dela…
Passamos o restante do caminho em silêncio, eu não tinha como começar um assunto depois do que eu acabara de acontecer, e Emily também havia perdido seu ânimo inicial. Continuamos andando de braços dados sob a luz da pequena vela, quando finalmente chegamos com os outros em uma clareira no meio da floresta. Ela era limpa, e perfeitamente redonda, provavelmente cuidavam para que ela estivesse sempre arejada. No centro dela, havia uma espaço com alguns troncos, circulado por pequenas pedras, onde eu presumi que seria feita a fogueira. E espalhados pelo lugar, alguns bancos feitos de madeira escura.
Todos começaram a se ajeitar, alguns pelo chão, outros trazendo os bancos para perto. Jacob terminou de auxiliar seu pai, o colocando ao lado da cadeira de Sue, e veio correndo para o meu lado. Emily me deu um sorriso cansado e apertou de leve a minha mão antes de voltar a ficar com Sam, eu a assisti se afastar, subitamente sentindo pena por ela.
Com um som áspero e uma faísca brilhante, a fogueira cresceu na noite.
— Vai comer isso? — Embry disse, apontando para a salsicha que Jake ainda deixava pendida na ponta do espeto de metal. Estava ainda mais escuro agora, e o ânimo dos lobisomens cresceu novamente quando a comida foi distribuída. Jacob deitava cansado no meu colo perto do tronco, enquanto eu passava a mão distraidamente por seus cabelos.
— Não sei... Eu estou tão cheio que poderia vomitar. Quer dizer, eu já bati meu recorde de cachorros-quentes comidos de qualquer maneira. — Ele disse em tom contemplativo, enquanto acariciava a barriga lentamente para ilustrar a situação. E eu também não podia deixar de olhá-la, já que, pelo tanto de cachorros-quentes que eu o vi comer, ela devia estar muito maior do que estava agora. Mas apresentava apenas um leve volume por debaixo dos músculos. Eu realmente gostaria de saber para onde toda essa comida iria no final das contas. — Mas! Eu deveria comer. — Ele se sobressaltou e levantou o dedo de maneira incisiva no ar. — Já que o cachorro quente é meu. E eu também não sou muito de recusar desafios.
Embry e reviramos os olhos ao mesmo tempo, Jacob sabia ser realmente infantil às vezes. E é claro, que ele contava com a minha irritação, pois abriu um grande sorriso debochado, e estendeu o graveto da direção do amigo. Como resposta eu dei um tapa em sua cabeça. — Ai! Você é muito séria Isabella Swan. — Ele sorriu ainda mais quando viu que eu não consegui segurar o riso também. — Maldito lobisomem. — Pensei, contrariada.
— Valeu cara — Embry se apressou em dizer, e arrancou a salsicha do espeto, a engolindo em poucas mastigadas. Eu poderia jurar que se ele tivesse uma cauda agora, ela estaria balançando furiosamente de felicidade.
Nossa conversa, assim como todas as outras vozes que compunham o ruído que saia da fogueira essa noite, foram caladas praticamente ao mesmo tempo, quando Billy limpou a garganta.
O silêncio se tornou pesado nesse ponto, e os estalos da fogueira davam todo um clima assustador para o que fosse se seguir. Vi também que Sam arrumou a postura, para parecer tão imponente quanto os três outros anciãos que estavam presentes — O velho Quil havia chegado um pouco atrasado no local, já que estava terminando de fechar a loja da família. -, e Emily fechou seus olhos e uniu as mãos, em uma postura mais solene.
Eu nunca senti algum tipo de imponência vindo da voz de Billy Black, embora reconhecesse que a autoridade sempre esteve presente. Assim como Sue e Sam, e presumia que o avô de Quil também, essa seria uma característica geral de quem fazia parte do conselho. Você, mesmo sem perceber, sentia a importância deles no mundo, e com isso vinha o respeito absoluto.
— No início, os quileutes eram um povo pequeno. — Billy começou. — E ainda somos um povo pequeno, mas nunca desaparecemos. Isso porque sempre houve magia no nosso sangue. Não estou falando da magia da mudança de forma, essa veio tempos depois. Primeiro, nós éramos espíritos guerreiros.
“De início, quando chegamos nessas terras, nos fixamos nesse ponto. Ele era rico em peixes, e em pouco tempo, nossos antepassados se tornaram exímios pescadores e construtores de barcos. Mas éramos pequenos, e logo a cobiça pela fartura desse lugar nos fez ser atacados por outra tribo maior. Não nos deixando escolha se não pegarmos nossos barcos para escaparmos”.
“Kahele não foi o primeiro espírito guerreiro do nosso povo, mas as histórias anteriores a ele foram há muito perdidas. Não nos lembramos também quem foi o primeiro a usar esse poder, ou como o descobriram. Mas Kahele foi o primeiro grande Chefe Espírito de nossa história, e usou de sua magia para defender as nossas terras.”
Billy seguiu contando como os seus ancestrais deixaram os corpos inertes nas canoas, enquanto os espíritos seguiam de volta para reclamar as terras que eram de seu povo. Também contou dos poderes que os guerreiros possuíam, em especial, o controle sobre os animais. O inimigo tinha grandes lobos, aos quais conseguiam ver e compreender os espíritos dos guerreiros quileutes. E os fazendo obedecer, conseguiram expulsar os invasores, que passaram a chamar esse lugar de amaldiçoado. Após a guerra, tribos próximas fizeram tratados de paz com os quileutes, pois a magia desse povo era mais forte, e caso algum outro invasor tentasse tomar novamente as terras, os guerreiros já estavam preparados para a defesa.
“Passaram gerações. Depois, veio outro grande Chefe Espírito, Taha Aki. um homem sábio e de paz. O povo vivia bem e satisfeito sob seus cuidados. Mas havia um homem, Utlapa, que não estava assim muito satisfeito.”
Ele então explicou como esse homem era um dos mais fortes guerreiros de Taha Aki, mas que a sua ganância o corrompia. Ele tinha sede de grandeza, queria usar a sua magia para escravizar outros povos e expandir as terras. Porém, ao descobrir seus pensamentos perversos, já que eles os compartilhavam no mundo dos sonhos, Taha Aki tratou de exilar Utlapa, o ordenando a nunca mais usar seu espírito novamente.
Contou que Taha Aki tinha o costume, mesmo em tempos de paz, de ir até um lugar sagrado nas montanhas, para deixar seu corpo descansando, e correr pela floresta como espírito, para garantir a proteção de seu povo. Mas em um dia desses, Utlapa o seguiu, planejando matar o chefe como a sua vingança. Porém, ao observar a cena, ele pensou em algo pior. Entrou no mundo dos espíritos como o outro, e se apossou de seu corpo. Então, Utlapa, agora no corpo de Taha Aki, cortou a garganta de seu antigo ser, e seguiu para a aldeia para se passar como o novo chefe. Taha Aki nada conseguiu fazer para impedi-lo.
Por semanas o novo chefe, se passando por Taha Aki, atormentou a vida de seu povo. Exigindo privilégios e proibindo seus guerreiros de entrarem no mundo espiritual, para que Taha Aki não conseguisse alertá-los de seu plano. O antigo chefe até tentou matar Utlapa enquanto estava no mundo espiritual, comandando um lobo para atacá-lo, mas a tentativa falhou, e um jovem inocente foi machucado em seu lugar. Então o Chefe Espírito se retirou com vergonha pelo ato. Na verdade, era muito mais assustador ir ao mundo dos espíritos do que estimulante, ficar sem corpo era desorientador, desagradável, e apavorante. Por isso que só utilizavam da magia em tempos de guerra. As rondas solitárias de Taha Aki para proteger a sua tribo eram um fardo, mas também uma amostra de sua bravura.
Mas nesse ponto ele já estava há muitas luas longe de seu corpo, o que deixava o guerreiro em uma agonia constante. Ele estaria condenado, já que nunca poderia se juntar aos seus ancestrais na terra final.
“Foi então que, deitado em agonia em meio à floresta, Taha Aki percebeu algo. Ele era observado por um lobo branco. O animal era grande, maior do que ele jamais havia visto, e sua pelagem branca, quase prateada, brilhava na luz do luar. Conversando com o animal, Taha Aki soube que ele era enviado de uma deusa. A Lua, comovida pelo sofrimento e injustiça que o guerreiro havia sofrido, e o tendo observado caminhar e lutar por tantas noites, enviou um de seus filhos para auxiliá-lo. Com um novo plano em mente, Taha Aki pediu permissão ao lobo para utilizar seu corpo, o que foi aceito com facilidade pelo animal. O guerreiro então se viu aliviado por finalmente ter um corpo, apesar de não ser um de humano, e partiu em direção ao seu povo.”
Billy continuou falando de como retornou para sua aldeia como o grande lobo, e que percebendo a magia no animal, seus homens o deixaram se aproximar. Um guerreiro mais velho, chamado Yut, desobedeceu a ordem do então chefe, foi até o mundo espiritual para se comunicar com o lobo. E ao perceber o que aconteceu, Utlapa, temendo que seu plano fosse revelado, tratou de silenciar o homem que estava desacordado. Então, tomada por uma raiva que ultrapassava a de um animal, e um grande amor pelo seu povo que estava sofrendo, as pessoas viram o grande lobo se transformar em um homem bem na sua frente. E o homem, que não se parecia como Taha Aki, mas sim com a sua forma de espírito, foi reconhecido imediatamente.
“Utlapa, com seu plano arruinado, tentou correr, mas Taha Aki estava mais forte e rápido do que nunca, graças à força do lobo em seu corpo. Ele então silenciou o inimigo, e ficaria com o novo corpo dado de presente pela deusa. Como agradecimento, ele deu seu antigo ser de presente para a mesma, e jurou cultuá-la dali por diante. Então Taha Aki devolveu a paz para o seu povo, mas ainda manteve o fim das viagens para o mundo dos espíritos. Já que agora estava presente a ideia de poder roubar uma vida.”
“A partir desse ponto, ele era muito mais do que apenas um homem ou lobo. O chamavam de Taha Aki, o Grande Lobo. Ele cuidava sozinho da proteção de seu povo, e se transformava em sua forma animal sempre que havia algum perigo. Ele também teve muitos filhos, e alguns deles descobriram que podiam se transformar em lobos quando adultos. Os lobos eram diferentes dos demais, pois eram lobos-espíritos, e refletiam o homem que traziam em si.”
— Então é por isso que Sam é todo preto — Quil, murmurou atrás de mim. — Coração preto, pelo preto.
E foi com o choque desse comentário, que eu fui trazida de volta à realidade. Eu estava tão imersa na história que tinha me esquecido onde estava, ou com quem estava. Por um segundo, só conseguia ver uma fogueira rodeada dos descendentes de Taha Aki, mesmo que fossem de graus variados.
— E seu pelo marrom reflete o que? — Disse Sam, irritado com o comentário. — Como você é um mer… — Mas ele se calou quando olhou para sua noiva.
Meu olhar seguiu o dele depois de ver a sua reação, uma mistura de preocupação e surpresa. E eu podia jurar que, quando olhei para os olhos dela, eles não estavam escuros como o habitual. Por um momento, eu tive a impressão que eles refletiam um prateado frio, como a lua. Mas no segundo que ela me encarou de volta, eles estavam normais.
Billy ignorou as brincadeiras e retomou a fala.
— Alguns dos filhos se tornaram guerreiros como o pai. — Ele limpou a garganta novamente. — E passaram a não envelhecer mais. Os outros, que não gostavam da transformação, decidiram não se unir ao bando de homens-lobo, e esses passaram a envelhecer normalmente. A tribo então descobriu que os homens-lobo podiam envelhecer como os outros, contanto que abrissem mão de sua magia, e desistissem de se transformar em lobos-espíritos. Taha Aki viveu o tempo de três anciões. E se casou uma terceira vez após a morte de suas duas primeiras esposas, encontrando na terceira sua verdadeira esposa espiritual. Apesar dele amar as outras, essa era diferente. Havia algo de especial nela, e ele decidiu abrir mão de seu lobo-espírito quando ela se fosse, para reencontrá-la depois da passagem.
Billy então acenou a cabeça para Sue, e se arrumou em sua velha cadeira, tomando longas goladas da garrafa de água que trouxe com ele. Sue também tratou de se ajeitar na tora que estava sentada, e lançou um olhar afiado para todos antes de começar a falar.
— Essa foi a história dos espíritos guerreiros. — A sua voz também era imponente e carregava autoridade, assim como a de Billy — Agora é a vez da história do sacrifício da terceira esposa. — Jacob ficou tenso de imediato no meu colo, e eu imaginei se esse seria algum tipo de lenda que ele não quisesse que eu ouvisse.
Com o tempo ficou claro sobre o que se tratava. Era o primeiro encontro com os inimigos mortais dos lobisomens, os vampiros.
Eu me concentrei em Sue enquanto ela falava, e ignorava os olhares que Jacob lançava sobre mim ocasionalmente enquanto a história era contada. De início, ela falava basicamente sobre os filhos de Taha Aki, em especial Yaha Uta, enfrentando esse novo inimigo, que estava levando as mulheres de uma tribo aliada. Como ele era frio e pálido, com a pele dura feito rocha, e era capaz de se igualar aos lobisomens nas suas capacidades físicas. O primeiro vampiro levou quase todos os filhos de Taha Aki antes que eles conseguissem derrotá-lo, só deixando o mais jovem, Yaha Uta, como defensor dos quileutes. Sue completou que eles haviam desmembrado o vampiro, e queimado seus restos. Todas as cinzas foram colocadas em sacos e jogadas em diversos lugares, mas Taha AKi guardou um deles e o pendurou em uma corda no pescoço, caso ela tentasse se remontar novamente. No fim, todos arfaram quando Billy tirou para fora do casaco um cordão desgastado, no qual trazia um pequeno saco escurecido pelo tempo na ponta.
Eu estava prestes a perguntar para Jacob porque a história se chamava “o sacrifício da terceira esposa”, se o vampiro já havia sido eliminado, quando Sue retomou a fala. E é claro que o assunto não estava resolvido, já que o vampiro tinha uma companheira.
A vampira surgiu e pegou o povo de surpresa, muitos não entendiam o que ela era, e alguns até chegaram a adorá-la por sua beleza. Ela os dizimou em pouco tempo, mesmo aqueles que tentaram fugir tiveram um destino horrível. A vampira só parou quando avistou o filho mais novo, em forma de lobo, para desafiá-la. A batalha foi difícil, mas em menor número, Yaha Uta acabou perecendo como os irmãos. Dotado mais uma vez de uma raiva sobre-humana, Taha Aki voltou a se transformar, porém velho ele não tinha nenhuma chance contra o ser ameaçador que era sua inimiga. Foi então que a sua terceira esposa teve uma ideia.
"Após ouvir o relato das testemunhas, a terceira esposa havia bolado um plano. Ela sabia que ele acabaria morrendo, assim seguido por seu povo, caso não tivesse alguma ajuda. Ela era esperta, e a mais corajosa de todas as esposas.
“Munida de uma faca de pedra, a terceira esposa, que também era uma poderosa mensageira da lua, pediu a benção da Deusa, a mesma que deu força para seu marido se transformar em lobo, para que ajudasse ela no que tinha que fazer.”
“A batalha se desenrolava violentamente entre Taha Aki e a sanguessuga, e parecia que o destino já estava certo. Taha Aki iria perder. Então a terceira esposa chegou, brandiu a sua adaga acima da cabeça e pediu mais uma vez coragem para a Deusa. A fria riu, já que aquela mulher fraca e humana não conseguiria feri-la, nem com aquela adaga improvisada. Mas a terceira esposa não mirava na inimiga, ela tinha outros planos.
Então eu senti, ao mesmo tempo que a mandíbula de Jacob se contraia na minha barriga, qual era o problema daquela história. Ela era real demais, e fazia pouco tempo que havia acontecido com a gente. Não era preciso pensar muito para entender que Jacob me via como a terceira esposa, fazendo um sacrifício para ajudar o Lobo. E se meu mau pressentimento estava certo, eu sabia muito bem o fim desse conto.
“Em um movimento de coragem a terceira esposa cravou a adaga fundo em seu coração, caindo de joelhos e jorrando o sangue quente na direção da mulher. A vampira se virou imediatamente, com a mandíbula travada e consumida pela sede de sangue fresco. Um segundo de distração foi o bastante para que Taha Aki conseguisse se livrar do aperto mortal da inimiga, e cravasse os dentes em seu pescoço.”
“Porém o ataque de Taha Aki não foi o suficiente, mas a ira por ver a mãe se sacrificar fez com que dois filhos deles, que ainda não haviam chegado à maturidade, se transformassem em sua forma lobo-espírito. E juntos, conseguiram exterminar a fria.”
“Taha Aki nunca voltou a se juntar à tribo, ou a se transformar em homem, ele permaneceu por alguns dias ao lado do corpo da esposa, e atacava sempre que alguém ousasse chegar perto dela. Depois de algumas luas, a Deusa em pessoa teria aparecido para Taha Aki, comovida pelo sacrifício puro que a mulher teria feito para um de seus filhos, já que agora, em sua forma de Lobo, Taha Aki também pertencia à Lua. Ela então levou o corpo da mulher consigo, para junto do verdadeiro corpo de Taha Aki, aguardando a volta do mesmo para perto dela. sem mais motivos para continuar nesse plano, Taha Aki entrou na floresta em uma noite de lua cheia, e nunca mais foi visto.”
Sue então tratou de terminar a lenda, contando sobre os descendentes de Taha Aki que continuavam se transformando sempre que o cheiro dos frios aparecia, para proteger o seu povo. Também disse, como as alcateias nunca passaram de três lobos, já que os vampiros vinham sempre sozinhos ou em pares, até um certo dia, que um grupo maior apareceu. Felizmente, esses frios eram diferentes, e convenceram o bisavô de Jacob, Ephraim Black, que não pretendiam fazer nenhum mal. Um acordo foi proposto pelos frios, e Ephraim não tinha como recusar, já que na época ele estava em menor número, e temia que seu povo fosse dizimado pelos inimigos. Apesar da presença desse grupo atrair mais da mesma espécie, o acordo foi respeitado e todos conviviam pacificamente.
— Apesar dos Lobos estarem em maior número, e agora não precisam mais temer algum avanço dos outros. — Sue completou a fala, e a magia parecia se envolver com as fagulhas da fogueira.
Mas eu não estava mais prestando atenção quando ela terminou, envolta de mais em pensamentos sobre a terceira esposa. De como ela, mesmo sendo uma humana, conseguiu se sacrificar ao ponto de salvar todos aqueles que ela amava. Era imprudente, e podia ter dado muito errado, mas ela o fez, e isso me machucava de uma forma que eu não entendia ao certo como.
Um movimento me chamou atenção, e eu pude jurar que vi Leah limpando uma lágrima do canto do rosto. Talvez eu também tenha visto dor estampada em seus olhos, mas assim como o brilho estranho no olhar de sua prima, ficou lá por uma fração de segundos, e desapareceu.
— Uou… — Seth balbuciou do outro lado da fogueira, sua cara com uma expressão extrema de fascínio.
Billy então riu, uma risada grave que ecoava no escuro, e Sue olhou com carinho para o filho. Jared jogou uma pedrinha em Quil, o que o fez se assustar, arrancando risadas de todos. Em pouco tempo, o murmúrio de diferentes conversas tinham dominado novamente a fogueira, e todo o resquício de magia havia se perdido completamente. Éramos apenas adolescentes mais uma vez, rindo e conversando como deveria ser.
Já era perto da meia noite quando Jacob me levou de volta para a casa de Emily, e de lá pegaríamos a sua moto para a minha. Sam havia se comprometido em ajudar Billy a chegar em casa, e os outros também partiram para os próprios afazeres. Andávamos de mãos dadas, enquanto ele quase me carregava sob a luz fraca da vela. Já estava muito escuro para que eu conseguisse andar por muito tempo sem tropeçar.
— Eu já disse que seria mais fácil você deixar eu te carregar nas minhas costas. — Jacob reclamou outra vez quando eu quase caí novamente.
— Eu já disse que não precisa. — Respondi nervosa, enquanto eu usava a sua mão de apoio para recobrar o equilíbrio. — Eu ainda tenho a minha dignidade.
— Tem? — Ele perguntou, e riu quando eu te dei um tapa no braço. Mas eu acabei acompanhando ele, não conseguia ficar séria por muito tempo quando estava perto dele, a risada de Jake era contagiante.
Mas aos poucos os risos foram morrendo, e estávamos mais uma vez andando no silêncio. Era muita coisa para digerir, e eu tinha tantas perguntas para fazer sobre a noite, que eu não consegui organizar a minha fala em um pensamento coerente.
— As histórias te assustaram? — Ele perguntou, e por causa da luz fraca da vela, o seu rosto tinha um tom dourado assustador agora. Seu tom de voz não demonstrava nenhum tipo de humor.
— Eu diria que me impressionaram. — Tentei ignorar todos os duplos significados que essa pergunta poderia ter. — Elas são incríveis.
Ele não respondeu, apenas concordou com a cabeça.
O assunto morreu novamente e eu lutei contra minha vontade de perguntar mais uma coisa, algo que estava me incomodando há algum tempo.
— Jake?
— Sim? — Ele respondeu, mas não virou para me encarar.
— Tem algo de errado acontecendo entre vocês? — Eu tentei me concentrar em não cair de novo. — Digo, com a matilha?
— O que exatamente? — E algo me dizia que ele sabia exatamente do que eu estava falando.
— Paul.
— Ah… — Foi o que ele disse e fez um som de descontentamento com a boca.
— Ele está muito estranho... — Eu permaneci no assunto, apesar de saber que isso definitivamente o aborrecia.
— Ele está mais afastado de todo mundo ultimamente, mal o vemos, nem para comer na casa de Emily. Ele não tem uma conversa franca com ninguém mais. Nem com Sam. — Ele enfatizou a última parte como se fosse algo muito fora do normal. — Acreditamos que ele não consiga mais se transformar Bella.
— Em um lobo? — Eu perguntei, sobressaltada com a informação.
Jacob confirmou novamente com a cabeça. — Muitos dos laços da matilha se formam por que conseguimos, enquanto lobos, ler os pensamentos um dos outros. Ver as suas memórias. Não dá para desconfiar de alguém que você já viu praticamente o passado inteiro, as dores e as alegrias. É impossível. — E eu me lembrei, em uma das conversas, logo quando Paul foi internado, que talvez esse fosse um dos efeitos colaterais do acidente. Que ele não conseguisse mais se transformar. — Talvez ele esteja se sentindo de certa forma excluído, ou amedrontado, agora que não pode compartilhar pensamentos com a gente. Quer dizer, não que seja uma maravilha saber as coisas que as pessoas estão pensando a todo momento. Mas, depois que você passa tanto tempo não precisando dizer certas coisas para seus amigos, pois eles já sabem, se torna meio solitário.
— E você acredita que seja por isso que ele está se afastando aos poucos?
— Talvez seja um dos motivos.
— E qual seriam os outros? — Mas jacob não respondeu, apenas me olhou por um momento, o olhar negro pela noite.
— Esquece. — Ele completou. — Chegamos.
E estávamos na frente do gramado de Emily mais uma vez, mas as luzes apagadas da casa dela deixavam a situação um pouco mais sombria do que eu estava acostumada.
— E enquanto a Seth? — Tentei desesperadamente trocar de assunto. Por algum motivo, sentia que a escuridão à frente poderia se prender a mim, invadindo pouco a pouco o meu corpo.
— O que tem ele? — Jacob foi pego de surpresa, o que foi bom, pois retirou o ar sombrio que o estava envolvendo.
— Como ele está passando por tudo isso? Ele é tão novo...
— Ah… ele está bem. Seth é um bom garoto e aprende rápido, com o tempo e maturidade ele vai ser mais capaz de se controlar, e será menos perigoso ele retomar a vida dele.
— Como o resto de vocês? — E me lembrei de como Jacob parecia muito mais controlado ultimamente, os espasmos de fúria que eu via frequentemente pelo seu corpo desapareceram quase por completo. Provavelmente isso também tem relação com o afastamento de Edward e dos demais Cullen. Se o cheiro deles desencadeia as transformações nos lobos, a distância deveria estar fazendo maravilhas para o seu humor. — Então realmente não foi tão ruim ele ter se transformado.
— Mais ou menos. — Ele suspirou, cansado por um momento. — Eu gostaria que Leah não tivesse entrado para a alcateia.
— Ok, isso me parece muito machista. — Ele riu também. Mas não com tanto humor quanto eu gostaria. — Você disse que ela ficava mais fácil de lidar quando estava perto do irmão.
— Não é isso. A transformação da Leah é algo nunca visto antes, literalmente. Em todos esses anos, até mesmo nas lendas antigas. Você ouviu a história toda, nunca houve nenhuma loba Fêmea, eram apenas homens. Mas esse não é o caso. Você sabe sobre a história entre Emily e Sam não é? Bem, como os lobos compartilham os pensamentos quando transformados, para facilitar a organização em combate, também é possível acessar algumas memórias que deixamos escapar. E se a pessoa não tomar cuidado, bem, pode ser um problema. Então Leah gosta de soltar algumas lembranças dela e Sam, e todos sentimos o sentimento de traição que ela carrega, junto à dor de Sam de não poder fazer nada para ajudar a garota, já que ele está conectado a Emily para sempre.
— Nossa… Eu não imaginava.
— E tudo piorou depois da transformação. Como eu disse, ela se transformar foi algo surreal, era esperado que Seth teria os sintomas alguns anos mais tarde, mas o estresse pela transformação da irmã fez com que tudo acontecesse muito mais cedo. Normalmente a fase de risco da transformação começa aos 17 anos, então ter alguém de 14 anos que consiga fazer o que ele faz, bem, também não há muitos registros iguais a esses.
— Ela se transformou na frente do irmão?
— Ela estava tendo uma discussão com a mãe na sala, o pai e Seth também estavam lá. Foi doloroso ver ela se lembrar do momento, felizmente não causou muitos estragos. Digo… — Jacob se censurou por um momento. — Enfim, então além de toda essa situação com Sam, agora ela também traz mais dor para o bando toda vez que encara Seth. E esse é um dos problemas de compartilhamento de pensamentos que eu estava falando.
— Achei que a pior parte fosse outra. — Falei, lembrando uma conversa que tivemos meses atrás. No que agora pareciam anos.
— Como?
— Você já disse que a pior parte era não saber se era seguro permanecer perto de mim. Lembra? — Eu segurei a sua mão.— Imagino que isso já tenha ficado para trás?
Ele então riu, um riso alto que parecia conseguir fazer o chão tremer. — Eu realmente não te entendo Isabella Swan. — Ele chegou mais perto, e eu consegui sentir o calor do seu corpo lutando contra a escuridão da noite para me envolver. — Mas eu sinto orgulho de dizer que estou me sentindo muito mais controlado ultimamente. Pelo jeito você faz maravilhas para o meu humor. — O seu sorriso era enorme, o que me fazia querer sorrir também.
— E a melhor parte? Imagino que a velocidade ainda ganha de disparada.
Ele riu novamente, mas dessa vez me encarava com expectativa. — Tem uma coisa que é melhor ainda. — Jacob se aproximou lentamente, e beijou de leve meus lábios. — Você ter ficado aqui, depois de tudo que aconteceu e do que eu me tornei. Você escolheu ficar. — E a frase foi seguida por outro beijo quente, mas dessa vez, muito mais demorado.
Estávamos perdidos nesse momento quando Jacob se afastou de súbito. — Droga, a vela me queimou. — E em seu braço tinha uma pequena marca vermelha. — Er… Obrigado, quer dizer, agradeço muito por ter vindo aqui hoje. — Ele ficou constrangido por algum motivo, como se nunca tivéssemos nos beijado antes. — Foi importante para mim.
— Obrigada por ter me convidado.
Ele voltou a sorrir e voltamos a caminhar. Quando finalmente chegamos na casa de Emily, Jacob tirou uma chave do bolso do shorts e abriu a porta. — Fique aqui, vou lá dentro pegar as suas coisas. — Então com um gesto rápido, ele acendeu a luz da varanda, mas as de dentro da casa permaneceram apagadas. Ele não precisava disso para conseguir enxergar.
Eu sentei nas escadas e encarei o céu sem estrelas, era mais uma noite nublada em Forks.
— Tem alguém sentado aqui? — A voz grave me pegou de surpresa, me fazendo dar um salto. Era Paul que me chamava.
— Eu… — Não conseguia encontrar as palavras, todas elas pareciam ter sumido com a surpresa. O que Paul estaria fazendo aqui? Ele não deveria ter ido para casa?
Apesar do meu momento de confusão, isso não o impediu de se sentar ao meu lado. Automaticamente eu me afastei ainda mais dele. Paul não disse uma palavra, apenas grunhiu algo inaudível, como se lutasse contra os próprios pensamentos, o olhar permanecia perdido no chão. Por algum motivo a situação toda estava me deixando extremamente desconfortável, e eu comecei a procurar meios de sair dessa situação. Poderia entrar na casa ou até chamar Jacob para fora, qualquer coisa que me ajudasse agora. Algo definitivamente não estava certo, e eu não pretendia contrariar minha intuição dessa vez.
Quando eu estava prestes a falar alguma desculpa e me levantar para entrar na casa, Paul me interrompeu. — Escute. — Ele disse, finalmente me encarando. E um segundo depois, eu desejava que ele não tivesse feito isso.
Seus olhos eram de alguém completamente perdido, estavam pretos como carvão. Era como um buraco negro, sugando toda luz que chegavam perto deles. Eram os mesmos olhos que ele tinha antes do acidente, quando eu conversei com ele na cabana dos peixes. Paul parecia estar melhorando durante todo esse tempo, mas era o contrário, ele havia caído ainda mais no abismo dentro de si. E pela primeira vez desde que o conheci, eu estava realmente sentindo medo de Paul Lahote.
— Não é fácil o que eu vou dizer, mas eu tenho certeza que se eu não falar isso em voz alta, provavelmente explodirei. — Ele falava rápido, as palavras saindo em torrente enquanto eu lutava para compreendê-las. — Eu vou provavelmente estar traindo os meus irmãos, mas quer saber, eu quero é que se foda! Não é como se eu realmente tivesse pertencido a isso tudo. Não tem lugar para mim, e ouvir novamente essas lendas hoje me deram certeza disso. — Ele se acalmou quando terminou a última parte, respirando fundo pelo nariz. Talvez Paul estivesse louco, eu não sabia ao certo, mas eu precisava sair logo daqui.
— Me desculpe Paul, mas eu… — Eu já estava em pé em um pulo, partindo em direção à casa. Eu já podia sentir a maçaneta, quando ele agarrou firme a minha outra mão.
— Que droga Bella, me escute! — Ele falou autoritário, me fazendo encará-lo mais uma vez. — Eu te amo, ok? E quero que você fique comigo. — E foi o meu estômago que me alertou que eu estava me sentindo mal, já que para o meu cérebro, as palavras não faziam o menor sentido. Eu continuava segurando a maçaneta enquanto olhava consternada para o rosto dele. O que tudo aquilo significava?
Eu não sei se foi minha imaginação, assim como eu gostaria que tivesse sido as últimas palavras de Paul, mas eu poderia jurar que ouvi algo se quebrando dentro da casa de Emily.
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