Amanhecer: Novos Começos
4 Conselhos
Notas iniciais
Quando eu acordei de manhã, parecia que havia um buraco enorme no meu peito. Como eu havia previsto, os sonhos foram cruéis essa noite. Os sentimentos se alternavam entre Edward e Jacob, parecidos em algum aspecto que eu não conseguia me lembrar agora. Paul estava lá também, aparecendo ocasionalmente para aumentar a dor que eu sentia. Ele estava preso a uma cama, seus machucados ainda abertos esvaziando seu corpo, e eu não conseguindo fazê-lo parar de sangrar. Abandono e traição, uma sensação total de desamparo havia voltado para mim.
A cara que eu fiz quando meu pai veio me acordar deve ter sido muito ruim, já que ele me deixou descansar em casa pelo resto do dia. — Você não me parece muito bem, está gripada? — Eu não respondi, mas ele tratou meu silêncio como um sim. E eu nunca vou saber se ele acreditava realmente nisso, ou se escolheu crer pois era mais fácil.
Quando meu pai saiu para o trabalho, os pensamentos que me fizeram companhia foram cruéis. Era como se já existisse alguém melhor que eu, que estava só esperando para vir e se tornar o par ideal de Jacob. Quer dizer, para que todo esse relacionamento, tudo isso que eu havia enfrentado por ele, se eu não tivesse a garantia de que estaríamos juntos no futuro? Talvez fosse egoísmo pensar desse jeito, mas se ele já sabia que essa situação era possível, porque ele lutou tanto para estar comigo? Isso só pioraria a situação quando tivéssemos que nos separar. — Ele continuou ao meu lado e me prometeu tantas coisas, tudo que eu senti por ele, no final, não valeria nada. — Uma bolha de raiva crescente subiu pela minha garganta e escorreu pelos meus olhos. Se ele já sabia de tudo sobre o Imprinting seria melhor ter me deixado como eu estava. Mesmo que demorasse muito tempo, eu conseguiria me recuperar um dia. Acabei abraçando forte meu travesseiro, precisava me segurar em algo físico para não desaparecer. Pelo menos, com Edward, eu sabia que estava sendo rejeitada por ser humana, mas com Jacob, eu seria abandonada por não ser o suficiente.
Só consegui voltar a mim quando a campainha tocou, os pensamentos misturados me deram dor de cabeça. Desci sem vontade pela escada, pensando que Jacob teria vindo me ver, mas quando abri a porta, Angela estava lá.
— Encontrei com seu pai hoje na delegacia, ele me disse que você estava doente — Ela não conseguiu disfarçar a surpresa com a minha aparência, e eu não podia culpá-la, eu devia estar horrível. — Então eu vim te trazer isso... — Foi só então que eu percebi um pontinho rosa-florido na mão dela.
Não estava preparada para encarar ninguém agora, não consegui criar uma máscara de normalidade a tempo. Estava sendo movida pela vontade de extravasar esses sentimentos, então dar de cara com a minha amiga me deixou sem reação. Foi quando eu vi o olhar de pena estampado em seu resto, que as lágrimas voltaram a escorrer. Não que eu conseguisse mentir para Angela também, ela via por trás das máscaras de qualquer um. Brincávamos que ela seria uma ótima agente do FBI algum dia.
Chorei alguns minutos abraçada nela, e Angela não fez nenhuma questão de me abandonar ali. Quando as lágrimas finalmente secaram, percebi que deixei seu suéter amarelo ensopado, e com um riso fraco nós finalmente fomos nos sentar no sofá. A minha sorte é que Angela também era uma garotinha chorona, então ela me entenderia.
— Coma — Ela me deu a vasilha e uma colher que combinava. — É canja de galinha, eu mesma fiz — Quando ela terminou a frase meu estômago roncou, só então eu percebi o quanto estava faminta.
Eu agradeci com um sorriso fraco e coloquei o caldo na boca, e ele estava incrivelmente delicioso. Eu não acreditaria que a culinária é um forte de Angela. Estava tão bom que eu devorei a canja muito rápido.
— Nossa se eu soubesse que você ia gostar tanto, eu tinha trazido um pouco mais — Ela riu rapidamente, tornando o ambiente muito mais leve por um momento.
— Você nunca me disse que sabia cozinhar — Minha voz saiu fraca e patética, mas eu estava me esforçando para falar, o que animou ela.
— Na verdade não muito, eu só segui as instruções da internet.
— Só pareceu fácil porque você é muito inteligente Angel, pode acreditar, até mesmo seguindo as receitas, tem vezes que eu acabo fazendo besteira — Angela corou por baixo dos óculos grandes, ela era incrivelmente inteligente, mas ficava muito envergonhada quando alguém elogiava isso nela. Talvez seja culpa da criação rígida de seus pais.
— Então… Não me parece que seu problema é muito um resfriado Bella — Ela fingia não estar tão preocupada enquanto falava. — O que aconteceu?
Pensei por um instante antes de responder ela, eu queria muito contar tudo que estava acontecendo, sobre os lobos, vampiros e minhas cicatrizes externas e internas. Mas eu acho que não teria tempo o suficiente no mundo para convencê-la que não sou completamente louca. E além disso, esse não era um segredo meu para eu decidir a quem contar. Mas eu estava desesperada para tirar esse peso do meu peito logo.
— Bem, você sabe que eu estou namorando com alguém — E ela confirmou com a cabeça.
— Jacob, certo? — Talvez eu não precisava complicar tanto, no final de tudo, era apenas um problema quase normal com garotos.
— Mas existe uma… Pessoa — Lutava para tentar transformar essa situação toda em algo normal, mas é mais difícil do que eu imaginava. Angela esperava pacientemente pela minha história, o que tirou certa pressão de cima de mim. — Muito ligada a Jacob — E ela não imaginava o quanto. — E eu não estou conseguindo lidar com a possibilidade de que talvez ele escolha ela à mim — As últimas palavras jorraram como uma cascata. Essa era a triste realidade, não é? Eu estava apenas com medo de ser deixada sozinha na floresta de novo. Se colocado em uma perspectiva “normal humana”, essa situação poderia se enquadrar basicamente desse jeito. Eu terminei a ideia esperando que Angela fosse rir de mim ou algo do tipo, mas ela continuava séria, o olhar distante.
Ela esperou um pouco antes de responder, como que para juntar toda a informação em algo mais coerente. — E ele já deu algum indício de que isso poderia acontecer?
— Não — Eu me sobressaltei por um segundo, as bochechas ficando vermelhas imediatamente. Eu tentava me recompor quando continuei. — Quer dizer, ele nunca mencionou, mas eu sei que existe essa possibilidade — Eu percebi o quanto estava soando paranóica e insegura. Mas era exatamente assim que eu estava me sentindo nesse momento.
— Bella… — Ela me abraçou de lado e deitou a minha cabeça em seu ombro. — Você não pode passar a vida com medo de que possa perder alguém para qualquer uma que surgir por aí — Seu olhar ficando cada vez mais distante. — Como se a pessoa que você ama fosse desaparecer no dia seguinte. Quer dizer, olha para mim e o Eric, eu sei que as chances de outra pessoa se interessar por ele são baixas — Ela riu baixinho, o que me fez sorrir também. Realmente nem todo mundo conseguiria aguentar o jeito do Eric por muito tempo. — Mas existe essa possibilidade. E se algum dia isso acontecer, também não vai anular tudo que vocês já viveram juntos. Ninguém sai ileso de uma relação, sempre mudamos no mínimo que seja. E você tem que confiar mais nos sentimentos dos outros por você — Ouvir isso de Angela me deixou ainda mais envergonhada. Eu sempre pensei que estava acima desse tipo de “drama feminino”, dessas mulheres frágeis de filmes que morrem de ciúmes e fazem loucuras, ou sofrem pelo amor não correspondido. Mas no final do dia, todos somos um pouco clichês, eu acho.
— Mas e se ele realmente for embora? — As lágrimas estavam se acumulando novamente, e eu agindo como a velha Bella de novo, a que tem medo de perder as pessoas.
— Se ele for embora, então ele é realmente um idiota — Ela me apertou mais. — Você é uma pessoa incrível! E se ele não consegue ver isso, ele não te merecia desde o começo. Além disso, pare de agir como se você já tivesse perdido essa luta, se essa possibilidade realmente existe, prove que você é a melhor. Não é porque vocês já namoram que você deva parar de lutar. Não deixe as coisas se acomodarem no casamento — A última frase me pegou de surpresa, mas Angel não parecia ter notado o que falou.
Será que ela ainda estava falando de mim? Talvez ela também estivesse enfrentando problemas em casa, mas eu não a forçaria a falar sobre isso se não estivesse pronta.
— Nossa... — Disse, me recompondo um pouco. — Quando você ficou tão boa em aconselhamento de relacionamentos?
— Eu leio muitos romances... — Ela corou novamente por baixo dos óculos. O sorriso quebrando a tensão do ambiente.
Eu a abracei forte, me sentindo extremamente melhor do que antes. Eu já havia contado sobre Jake para ela e meus outros amigos, mas nunca chegamos a falar de fato sobre ele. Nós nunca entramos de verdade no “assunto de garotos”. Estava feliz de conseguir ter meus momentos de humana de volta quando eu estava perto dela.
Foi só então que uma coisa veio à mente. — Angela, o que você estava fazendo na delegacia? Aconteceu alguma coisa?
Ela respirou fundo por um momento antes de responder. — Meu primo está desaparecido, ele foi para Seattle sábado passado e não nos deu mais notícias — Ela ficou visivelmente abatida. — Comunicamos a polícia aqui, e eles vão entrar em contato com a de Seattle.
— Eu sinto muito — Agora era a minha vez de confortar a minha amiga.
— Obrigada, mas eu estou bem — Ela se levantou e começou a guardar as suas coisas na mochila. — Ele era bem próximo da minha família, então foi realmente um choque. Estávamos passando algum momento juntos antes dele ir para a universidade — E agora, prestando mais atenção, eu consegui ver o desamparo nos seus olhos.
— Eu tenho certeza que vão encontrá-lo Angel, meu pai vai ajudar em tudo que ele puder — Eu queria confortá-la mais, mas sei que se tratando de Angela, não devo forçar muito. Ela não funciona assim.
— Eu sei… É melhor eu ir andando, disse aos meus pais que só ia dar uma passadinha rápida aqui — Ela me olhava com ternura de novo. — Você vai ficar bem aqui sozinha?
— Vou, muito obrigada pela companhia e a sopa — Mas eu não pretendia ficar parada em casa de novo.
Eu ainda considerava Jake egoísta por ter escondido essa parte dele de mim, e o descontentamento foi ainda pior quando eu lembrei que era exatamente por causa disso que ele me impedia de ver Paul. Então eu sabia exatamente aonde eu teria que ir agora para conseguir mais informações dessa história. Duvidava que os outros lobos me ajudassem nessa situação, e talvez fosse muito doloroso para Emily discutir sobre isso, de modo que sobrava apenas uma pessoa a quem eu pudesse recorrer agora, e já estava com um mau pressentimento sobre isso. Eu tinha que falar com Leah.
Inconscientemente eu pisava cada vez mais forte no pedal, fazendo o motor da minha picape gemer alto. Meu estômago se embrulhou à medida que eu me aproximava da entrada da reserva, e eu considerei várias vezes parar e voltar para casa. Mas eu precisava de respostas.
Minhas pernas tremeram um pouco quando eu desci perto da casa da Emily, eu não queria encontrar Jacob agora, não antes de ter conversado com Leah. Mas essa era a parte da reserva que eu mais conhecia, então engoli meu medo. Caminhei o mais silenciosamente que pude. De longe eu conseguia ouvir o som da televisão ligada na casa, o que me deu coragem para seguir depressa. E foi quando eu estava quase fora de perigo que Emily saiu.
— Bella! — Ela carregava um regador rosa, com alguns girassóis pintados nele. Seu sorriso se abrindo. — Veio fazer uma visita? — Ela adotou um tom de questionamento na sua voz, provavelmente se perguntando o porquê de eu estar me esgueirando para longe de sua casa.
— Vim ver uma pessoa — Respondi, rezando que isso fosse o suficiente para responder suas dúvidas.
— Jacob? — Mas não foi. Eu não sabia se ela estava ciente com o que estava acontecendo entre mim e Jake, muito provavelmente não sabia. Mas era complicado adivinhar o que se passava na cabeça dela.
— Na verdade, não, bem… — Eu hesitei um pouco. Eu não sabia se era prudente falar para ela que eu estava procurando a sua prima, então tinha que pensar depressa.
— Algum problema? — Chuto que foi a sua intuição maternal que me pegou. — Está com algum problema? É com Jake?
Eu não queria falar sobre isso agora, pois nem eu sabia o que pensava sobre toda essa situação. — Na verdade aconteceu sim, mas acho que você não entenderia — Tentei me afastar mais uma vez. — É um problema de lobo — Queria parecer o mais casual possível, não queria magoá-la. Mas também, não queria mais ela insistindo no assunto.
— Posso tentar. O que foi? — Por mais que eu quisesse falar com Emily, ela não era a pessoa certa agora. Afinal, ela foi a escolhida. Eu tinha que ouvir o lado dos que foram rejeitados.
— Na verdade, eu estava procurando Leah… — Fiquei envergonhada quando disso. Mas com Emily, é sempre melhor abrir o jogo. — Você sabe onde ela está?
— Oh… — Foi a sua resposta, e eu não sabia se isso a tinha afetado ou não. Se tivesse, Emily sabia esconder muito bem suas emoções, pois foi com o humor de sempre que ela completou. — Eu a vi indo em direção a praia há alguns minutos — Então pegou seu regador, e começou a molhar as plantas.
— Obrigada — Disse, apressando o passo para longe dali.
— Mas, Bella — Ela me chamou, me fazendo virar novamente. — Tome cuidado, ok?
Algo me dizia que não era o fato da Leah virar um lobo gigante que a preocupava. Eu sabia, bem até demais, do que meninas com o coração partido eram capazes.
Enquanto eu descia o tortuoso caminho para a praia, eu sentia meu estômago reclamar novamente. O ar ficando mais frio com o final da tarde.
Leah estava sentada próximo ao mar, o olhar perdido na areia. Eu parei atrás de uma árvore, perplexa com a cena. Ela parecia tão tranquila agora, sem a carranca que fazia sua cara ter um aspecto ameaçador.
— Você pode parar de ficar me observando aí e se aproximar logo — Ela falou alto, me pegando de surpresa.
— Desculpe... — Eu tinha me esquecido que agora ela também é uma loba, então deve ter me ouvido chegar.
— Mesmo sem minha audição melhorada daria para te ouvir, você não é do tipo silenciosa, garota — Eu parei por um segundo, achando que ela conseguia ouvir meus pensamentos também. Mas isso seria bobagem.
— Eu precisava falar com você — Não sabia se devia me aproximar ou não, então permaneci no meu lugar, a uma distância segura dela.
— Sobre Jacob? — Ela olhou para meu rosto, tempo suficiente para dar um risinho sarcástico. — É claro que seria.
— Desculpe… Se for demais para você eu… — Eu estava prestes a sair definitivamente, isso tinha sido realmente uma péssima ideia. Tudo do meu corpo dizia para me tirar daquele lugar, e eu não iria contrariá-lo mais.
— Não, sente-se — Ela ordenou. — Acho que você merece ouvir a história toda — E foi com um olhar sombrio que ela completou. — Pode ser que você esteja no meu lugar um dia.
Eu me aproximei vacilante, e sentei próximo a ela na areia. Eu sabia que não era muito prudente, não tinha certeza o quanto Leah não gostava de mim. Mas algo me dizia que ela era mais controlada que os outros meninos, o que me deu confiança.
— Até onde ele te contou? — Ela perguntou, mas não me encarava. O olhar perdido no mar à sua frente.
— Só mencionou que você e Sam estavam juntos antes de…
— Entendo — Ela suspirou pesado. — Por onde eu começo?
“Muito antes dos lobos se tornarem mais do que apenas lendas aqui na tribo, dessa loucura toda acontecer, nós éramos apenas humanos. E sabe como são os humanos, temos necessidade em encontrar alguém para nos ligar. Mas foi antes de todo esse caos que conheci Sam. Sabe, ele teve uma infância bem difícil, então é normal ele ser tão fechado quando conhece alguém novo. O pai de Sam era alcoólatra, da pior espécie, nunca ficou em um emprego por muito tempo, e ainda era muito agressivo com ele e a mãe. Então, quando o homem finalmente faleceu em uma briga de bar, a mãe de Sam adoeceu. Nunca conheci alguém com tanto azar. Ele teve que crescer muito rápido. Trabalhava e cuidava da mãe, e ainda tentava continuar na escola para agradar ela, mas isso nunca foi a sua prioridade. Acho que no fim, isso que acabou nos aproximando, nós dois tivemos que crescer muito rápido. Não me entenda mal, eu não passei nem perto do que Sam enfrentou. Mesmo com meus pais trabalhando dobrado para sustentar a casa, eu não podia reclamar. Eu ainda tinha a companhia de Sett, mesmo que fosse apenas um bebê chorão na época. Não que ele tenha mudado muito desde então.” — Os olhos de Leah se iluminavam de um jeito maravilhoso quando falava do irmão. — “Sam não tinha mais ninguém. E alguns anos depois, a mãe dele faleceu também. Ele ficou arrasado. E foi aí que nos conhecemos, Sue se tornou a tutora dele, para que Sam não fosse para um orfanato. Então ele passou a frequentar ainda mais a nossa casa. Tínhamos quinze anos na época, e como todo o resto da aldeia, eu ainda tinha medo dele. O olhar sempre tão afiado, chegava a dar calafrios.”
O ar ficava cada vez mais frio, o céu adquirindo um tom roxo escuro com o pôr do sol.
“Deve ser por nossas semelhanças, talvez nosso gênio forte.” — Ela deu uma risada discreta. — “Que o inevitável aconteceu, nós nos apaixonamos. Foi tão natural. Ele foi meu primeiro amor, meu primeiro grande e único amor. Eu não consigo explicar o jeito que ele olhava para mim Bella, mas eu podia sentir o quanto ele me amava apenas pelo olhar. Ele nunca havia olhado desse jeito para ninguém antes. Era como se por trás de toda escuridão, ele se tornasse um vidro cristalino, e eu juro que conseguia ver a alma dele. Ele nunca tinha olhado para ninguém assim antes, quer dizer, até antes daquele dia. Acho que você já deve saber um pouco dessa história, mas quando Emily apareceu para a minha festa de aniversário de dezoito anos, um tempo antes dela se mudar para cá, eu já estava namorando com ele por três anos. Três incríveis anos. Ele não havia feito o pedido ainda, mas eu sabia que logo nos casaríamos. Mas nesse dia, tudo mudou. Quer dizer, ele mudou. De noite, quando eu já estava bêbada demais para fazer qualquer coisa, foi quando houve a transformação dele.” — Eu congelei com essa informação, não sabia que isso acontecia assim, tão de repente. — “Ele e Emily tiveram uma discussão feia nessa noite, ela sempre foi muito maternal, até naquela época. Acho que sentia pena de mim ou algo parecido. Quando chegamos perto da minha casa, eles tiveram uma briga séria. Emily gritava com Sam por ter me deixado beber tanto, e ele saiu para a floresta com o sangue fervendo, literalmente. E para o azar dela, ela o seguiu. Acho que ela chegou a comparar ele com o pai ou coisa parecida, o que foi bem cruel. Mas ela também não sabia de toda a história, não era algo muito comentado nem aqui dentro da aldeia. Então eu imagino que foi pela raiva que tudo se desencadeou. Emily só estava perto demais.” — Ela fez como se arranhasse o próprio rosto, e eu tremi por dentro.
Eu nunca tinha perguntado sobre as cicatrizes dela, não é um tipo de coisa que você sai por aí questionando. Mas eu sabia que tinha sido Sam. Imagino a dor que ele deve carregar por ter feito mal a quem ele ama. Tenho certeza que ele nunca se perdoará por isso.
“Sam a machucou e depois fugiu. Nós achamos que ela iria morrer nesse dia. Ferida por um urso que nunca foi achado. Felizmente, para Sam, Emily sempre foi mais conectada com as lendas da tribo, então toda a história terminou em várias caçadas. Ele ficou desaparecido por semanas, minha mãe nunca desistiu de procurar por ele, já eu, tinha me convencido que ele estava morto. Provavelmente pelo mesmo urso que tinha atacado Emily.” — Os olhos de Leah estavam escuros, perdido nas próprias lembranças. — “Quando ele voltou, mesmo magro e acabado, eu fiquei tão feliz. Pelo menos ele estava vivo. Mas eu sentia, desde que olhei aqueles olhos sem vida, que ele já não era mais o mesmo. E depois… Bem, acho que você já sabe o que aconteceu.”
Nós ficamos paradas em silêncio por um tempo, o som do mar me deixando em um estado de torpor.
— Você deve saber como é ser trocada — As palavras dela foram dolorosas, pois era a verdade, e isso me tirou do transe. Leah havia voltado a me encarar agora, seu rosto impassível. — Sabe porque eu estou te contando tudo isso, menina vampira? — Ela deu mais um sorrisinho de lado, mas esse não tinha luz. — Digo isso para te poupar de muita dor — Ela se levantou, limpou a areia das calças. — Eu até que gosto de você Bella, apesar de não parecer. Sinto que nós duas somos iguais em muitas coisas. E sou grata pelo o que seu pai fez pela minha família nos tempos mais complicados. Então vou te dar esse precioso conselho, o conselho que deveriam ter me dado anos atrás — Ela fez uma pausa, parecia ter pena de mim. Ou será que ela tinha pena dela mesma de anos atrás? — Fuja o quanto antes. Não há sentido em insistir, ou lutar contra isso. Nós nunca ganhamos garota, o Lobo que sempre ganha. Ele é mais forte que nós, e vai te devorar se for preciso.
Eu continuei em silêncio enquanto Leah saia, incapaz de desviar meu olhar dela. A água havia avançado com o aparecimento da lua, e tocava levemente meus pés. Eu estava morrendo de frio de novo.
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