Amanhecer: Novos Começos
17 Alguns minutos da minha confiança
Notas iniciais
Era para a floresta que eu fugia toda vez que eu levava uma surra, ou quando qualquer outra coisa ameaçava me fazer perder o controle. Eu nunca gostei de machucar as pessoas, era muito fácil deixar a adrenalina e a raiva me subir a cabeça durante as brigas. Em pouco tempo eu sentia realmente que poderia chegar ao ponto de arrancar a cabeça de alguém com um soco, sentindo pouco, ou nenhum remorso enquanto eu fazia. E isso me assusta. Mas também, eu não poderia apenas ficar parado servindo de saco de pancadas por qualquer um que tivesse algo contra mim, e graças ao meu pai, muitas pessoas pareciam querer descontar as frustrações no meu rosto. — Por que o meu lembrava demais o dele —. Então eu tive que aprender a me defender, mas só revidava se alguém me atacasse antes. Era pouco, mas pelo menos me dava uma segurança sobre quem eu era. Isso é, até que o lobo apareceu, e até esse autocontrole medíocre me foi arrancado. Pelo menos nunca tirei a vida de ninguém, e isso só porque a floresta sempre estava lá para me receber. Era uma sensação incrível, deitar na terra e olhar para cima, me perder no mar verde das copas das árvores sempre acalmou o meu coração, e o barulho que o vento fazia quando se chocava contra as folhas, abafava todos os meus pensamentos destrutivos. As noites de ventania eram as melhores para mim, eu dormia como um bebê.
Eu não sabia, e ainda não sei explicar, mas quando a luz bate do jeito certo, e transpassa de maneira quase mágica pelos espaços que as copas deixam entre si, é um mundo novo que se abre para você. Em que as folhas dançam embaixo dos seus pés, como se fossem as ondas do mar. Quando eu me tornei um lobo, uma das únicas coisas positivas foi poder ir mais longe, para cima das montanhas. Lá as nuvens não conseguem barrar os raios de luz, e dá quase para tocar os feixes que chegam até o chão, além do vento ser mais forte também. Nas noites que eu dormi sob aquele céu estrelado, certamente entram na lista de melhores coisas da minha vida. A verdade é que eu sempre detestei o frio e a umidade de Forks, então em vez de me reunir na praia como todos os outros adolescentes da minha idade, eu me perdia cada vez mais fundo dentro da floresta. Eu ouvi uma vez, que uma tribo da América Latina, que meu povo um dia teve contato, conseguia se transformar como nós. Mas em vez de lobos, eles se tornavam pássaros. Eu daria tudo para ser um deles e não estar preso na terra, sobrevoar as águas verdes abaixo de mim. Essa sim, seria a vida perfeita.
A vida perfeita que eu nunca teria. Pois quando eu acordei, eu percebi rápido demais que eu ainda estava preso ao chão. E assim estaria até o fim dos meus dias. Meu pai havia se transformado em um lobisomem nos meus sonhos hoje, mas aqueles de filmes de terror, com a aparência bípede e assustadora. Ele correu atrás de mim com os dentes encharcados com o sangue da minha mãe, o som grutal que saia da sua boca se misturando com as batidas pesadas das patas na terra seca. E por mais que eu fugisse com toda a minha força, ele me alcançou, e mordeu fundo o meu ombro. Eu ainda sinto a dor dos dentes pontiagudos perfurando a minha pele, e consigo visualizar o brilho de satisfação no seus olhos enquanto ele assistia eu me tornar o mesmo monstro que ele, e partia para cima dos meus amigos. Essa era a razão das lágrimas acumuladas no canto dos meus olhos.
Mas o que me trouxe à realidade, era um som que estava começando a me ser familiar agora. A respiração calma e compassada que o homem produzia enquanto dormia. Quando eu finalmente abri meus olhos, não tive surpresa de encontrar Joshua desacordado na mesa de plástico. E me irritou o pensamento se ele não podia simplesmente ir dormir em sua cama. O que seria tão importante para manter ele aqui durante a noite toda? Provavelmente ele queria me estudar, ou me vigiava para não fugir. E todas as possibilidades que eu criava faziam com que a minha raiva aumentasse, mas eu estava determinado em não ferir ninguém, nem agora, nem durante a minha fuga. Eu só precisava ficar um pouco mais forte, isso faria com que eu conseguisse fugir sem nenhuma chance deles me seguirem, ou capturarem de novo. E após isso… Nem eu sei direito. Não há para onde voltar, e nenhum lugar para onde ir. Os pensamentos começaram a me deixar melancólico novamente, mas outra coisa chamava mais a minha atenção. Que era meu apetite voltando. Com um movimento ruidoso, e um rosnado de insatisfação, eu fiz Joshua pular novamente de surpresa, derrubando uma xícara com café em sua blusa azul-claro. Ele se levantou apressado da cadeira e me fitou com seus olhos alarmados. — Ok, tirar uma com a cara dele parecia ser um bom divertimento enquanto eu ainda estivesse preso aqui —, e se eu pudesse rir, com certeza eu o faria. Ele esfregou os olhos cansados, e olhou para o relógio, só para dar outro pulo de surpresa.
— Droga, já é meio dia? — Joshua me olhou assustado. — Você deve estar faminto amigão. Volto já.
Era quase cômico como ele tentava ser o mais prestativo possível com um lobo, mas eu não me incomodaria com isso no momento. O fato dele ser bom em entender o que eu quero dizer, mesmo eu não sendo capaz de produzir palavras, era de grande ajuda para mim. Inclusive, até me perguntava se não conseguiria me acostumar com essa vida, eu não tenho nenhum lugar melhor para ir de qualquer maneira. Mas é claro que isso seria impossível. E eu não poderia ignorar o fato de que alguma coisa me incomodava, que provavelmente vinha desse meu instinto de predador, de que eu estava deixando escapar alguma coisa. E eu sei muito bem que, quando um predador deixa escapar algum detalhe, ele acaba virando a presa. O segredo precisa ser protegido acima de todas as coisas agora.
— As provisões estão acabando, ainda bem que meu pai voltará de tarde com mais comida. — Ele gritou da outra sala, que agora eu tinha a percepção que ficava um pouco à frente da minha gaiola. E mais uma vez, não fazia sentido ele querer manter uma conversa com um animal. Era como se ele tivesse me avisando para não comê-lo se necessário, mas sem querer me ofender.
Eu olhei novamente pelos arredores enquanto esperava, agora que o estado de confusão e cansaço tinham diminuído. Eu consegui ver que as maiores fontes de luz que entravam no lugar, vinham de alguma janela na extremidade do espaço, e oposto à ela, o que eu presumi que seria uma grande porta. Haviam algumas vigas grossas que dividiam o lugar pelas paredes e que iam do chão de terra até o teto, onde os globos grandes das lâmpadas estavam desligados. Era uma espécie de estábulo, eu já havia visto um quando sai em uma viagem com Sue certa vez, mas esse era definitivamente menor em altura. Ou pelo menos parecia. É difícil enxergar o mundo sendo um animal enjaulado. E enquanto eu estava ocupado demais voltando a remoer meus pensamentos, Joshua apareceu novamente com o pote de comida em mãos, e a sua confiável vareta de metal.
— Aqui! — Ele disse enquanto empurrava a tigela pela portinhola no canto da minha gaiola. — Eu vi que você teve um sono inquieto essa noite, então estarei te dando mais alguns analgésicos dessa vez. Trate de comer todos, ok? — Ele sorria com ternura quando disse essa última parte. Então o motivo dele estar dormindo aqui esse tempo todo, era para cuidar de mim? A ideia era tão absurda que eu quase fui capaz de rir novamente.
Mas apesar das intenções duvidosas dele, eu não abaixaria a minha guarda desse modo. E mesmo sabendo que os analgésicos não funcionam tão bem em mim, por causa da minha temperatura alta, eu não correria o risco de comer o que é que fossem esses comprimidos brancos salpicados pela minha comida. Eu fiz o maior esforço do mundo para cuspi-los no canto enquanto o homem não estava olhando, e deitei por cima das provas quando terminei de me alimentar. Eu voltei a vasculhar o local o mais discretamente que eu podia, mas qualquer movimento brusco que eu deixava escapar, chamava a atenção dos grandes olhos de Joshua sobre mim. E eu ainda não sei por que, mas encará-lo me incomoda de um jeito que eu não sei descrever, de modo que eu desvio rapidamente o olhar.
Enquanto ele lia distraidamente uma revista qualquer, e cantarolava baixinho, eu senti a minha irritação crescendo cada vez mais. Como se fosse uma bola na minha garganta, que fazia minhas garras se contraírem automaticamente, implorando para que eu me movesse e atacasse. Ele realmente não tinha nenhum outro lugar para ir? Amigos para ver, ou até quem sabe uma namorada? Mesmo se eu fosse apenas um lobo comum, eu não precisava de uma babá se perguntando se eu estou sofrendo a cada movimento que eu faço. Eu só precisava de alguns momentos sozinho para agir e pensar como o humano que eu acredito ainda ser. Quando se passa muito tempo em pele de lobo, você quase se esquece como é ter polegares.
— Sabe… — Joshua disse, retomando a minha atenção. Só então eu percebi que estava rosnando baixinho, remoendo a minha raiva como um velho ranzinza. — Meu pai não é de todo mal. Ele pode ser um pouco rígido demais as vezes, mas eu sei que é só por que ele não quer me ver sofrer novamente. Ele só não sabe se expressar direito. — E por algum motivo eu senti que ele estava falando isso mais para si mesmo do que para mim. O que seria o lógico. — Mas ele gosta muito dos animais. — Ele voltou os olhos para mim, o que me fez desviar o meu olhar instantaneamente. — Eu lembro que o primeiro presente que ele me deu, e eu amei mais do que qualquer coisa, foi um filhote de Husky. Ele parecia um lobo, igual a você. Mas muito menor, é claro. — Ele riu da própria comparação, mas eu não consegui deixar de me sentir ofendido por algum motivo. — Ele sempre falava: "Joshua, os animais exigem grandes responsabilidades, então cuide dele como se fosse o seu irmão mais novo”. — Ele tentou imitar a voz grave do pai. — Mas quem realmente amava os animais era a minha mãe. Ah, Temporal... Você teria amado conhecer ela, eu te garanto. — Temporal? Eu parei por um segundo de prestar atenção no que ele estava falando. Por um acaso esse seria o nome imbecil que ele teria me dado? Agora eu me segurava muito para não me transformar novamente em humano para mandá-lo para o inferno. — Sempre disposta a ajudar, ela era o tipo de pessoa que daria a vida pelos animais. Na verdade… — Ele ficou mais sombrio enquanto lembranças tomavam conta da sua mente. Mas eu já não estava mais aqui. Em algum ponto entre minha fúria e descontentamento com o menino, algo surgiu na minha memória também, como uma doença que te faz querer vomitar.
O primeiro presente, ou o presente mais especial que você recebe dos seus pais é realmente inesquecível. Já o meu, ficou guardado vividamente na minha memória por outro motivo. Era o meu aniversário de 13 anos. Eu não me lembro de ter recebido algum presente nos meus outros aniversários, além de coisas baratas que se compravam em postos de gasolina. Mas esse aniversário era especial, eu tinha me comportado o ano inteiro, e estudado que nem um cão para conseguir notas excelentes na escola, por que, se eu fizesse isso, meu velho tinha me prometido um ótimo presente para recompensar. Eu não sei o que tinha dado na cabeça dele naquele dia, mas eu não deixaria escapar a oportunidade.
Eu não era idiota, eu sabia que não tínhamos dinheiro para bancar coisas de primeira linha, mas eu também tinha feito alguns bicos pelas casas, como ajudar a cortar a grama, ou fazendo deveres de casa dos outros alunos. Então tudo que eu precisava era de uma pequena ajuda para comprar o que eu mais queria. Uma caixa de lápis de cor, com 24 cores. Eu a tinha visto um dia enquanto andava pela cidade, e eu nunca havia visto cores tão incríveis como aquelas, eu realmente precisava ter. E além disso, estava para chegar o dia dos namorados na escola, e eu também tinha decidido me declarar para a menina que eu gostava nesse ano. Já sabia muito bem que não se consegue nada com cartões feitos em grafite. Mas tudo parecia estar se encaminhando da maneira correta, pelo menos uma vez. Certamente seria o investimento mais bem feito da minha infância. Então eu só precisava dessa pequena ajuda, e em palavras dele, “se eu ficasse fora de seu caminho e não arrumasse confusão”, não teria do porque ele recusar. E foi o que eu fiz durante um ano inteiro. Então quando finalmente o dia chegou, eu estava muito animado, consegui mais do que eu esperava, o que era uma ótima coisa, pois nunca era bom contar com gerenciamento de dinheiro com meu pai. Mas ele havia me dado a sua palavra, e assim eu esperei. Naquela época, eu ainda não entendia que a palavra dele não valia merda nenhuma.
Já era quase meia noite, e o velho nem sequer tinha olhado na minha cara durante todo o dia, mesmo quando algumas pessoas telefonaram para ele, para me desejar feliz aniversário, o imbecil estava bêbado demais para sequer se lembrar de me chamar no quarto. Foi doloroso, e eu engoli a minha raiva junto com o choro para ir dormir. Mas dessa vez eu não deixaria como estava. Na calada da noite, eu fui até o pote na cozinha que eu sabia que ele guardava um pouco de dinheiro, era para as suas bebidas, mas eu rezava para que ele não desse falta da pequena quantia que eu havia pegado, e só pensasse que gastou de mais em uma noite de bebedeira. De manhã bem cedo, eu corri para a loja e comprei a caixinha de lápis. E não tinha criança mais feliz no mundo nesse momento, isso eu podia jurar. Eu corri o mais rápido que podia para casa, pensando em todos os desenhos que eu poderia fazer com meus lápis novos. As possibilidades eram infinitas na minha cabeça, e eu já sei como começaria, eu faria o maldito cartão para garota dos Clearwater.
Quando eu entrei na minha casa, meu pai já estava me esperando na sala. E eu sabia que estava com problemas, quando vi o vidro das economias em cima da mesa.
— O que você tem aí? — Ele apontou para a sacola de papel que eu tinha em mãos com a cabeça.
— Bem… — Eu comecei a murmurar. Eu sabia que não podia contar a verdade, mas a mentira seria igualmente dolorosa. Minhas pernas haviam começado a tremer de um jeito patético, e meu estômago se revirando só pelo olhar que ele grudou em mim. Se eu fosse um pouco mais medroso, eu teria me mijado quando ele veio em minha direção com o seu cinto preferido nas mãos. O objeto tinha uma fivela enorme que eu já havia sentido na pele.
— Fale mais alto! — Ele berrou, e eu tremi novamente.
— São lápis de cor. — Eu disse e estendi o pacote para ele, como se para provar a minha inocência.
— Lápis de cor? Bem que eu sempre te achei muito maricas mesmo. — Ele deu um tapa forte no pacote da minha mão, e eu consegui ouvir alguns lápis se quebrando quando foram arremessados no chão. — Escute aqui seu merdinha, eu não ligo a mínima para as coisas de menina que você compra ou deixa de comprar. — Ele segurou forte o meu braço, e apontou para a jarra. — Você vai me dizer agora se foi você que pegou o dinheiro de dentro do meu pote. E nem pense em mentir.
— Eu não… — Nem tive tempo de terminar a frase, e senti o ferro se chocar contra a minha perna. — Mas eu não pe… — Ele me calou dessa vez com um soco no rosto, e então eu não lembro mais de muita coisa.
Eu soube, depois de muito tempo, que não importava o que eu dissesse naquele dia, eu com certeza teria apanhado, já que meu pai havia sido demitido outra vez de um de seus empregos. Ele teria descontado em mim de qualquer maneira. Quando eu acordei no outro dia, estava com 2 dentes lascados, alguns roxos pelo corpo e um grande no olho. Meu pai me proibiu de ir na escola durante um mês, para não verem o estrago que ele tinha feito em mim. Eu nunca mais voltei a ver aquela caixa de lápis de cor.
— Temp? — A voz familiar me puxou da lembrança sombria, e quando eu dei por mim, estava encarando Joshua. Os olhos verdes estavam sentados no chão, a uma distância segura da gaiola. Só então eu me dei conta de que estava rosnando para o nada esse tempo todo. — Eu sei que as coisas estão complicadas agora, mas eu te garanto que você vai ficar bem logo, ok? E então vamos te enviar para um lugar melhor do que essa gaiola pequena. — Ele continuava me encarando, e seu olhar ainda me transmitia aquela sensação desagradavel na boca do estômago. Eu não sabia bem o que era, e isso me irritava. Eu não gostava de não saber o que estava acontecendo ao meu redor. “Quando o predador deixa escapar algum detalhe, ele vira a presa”, mas dessa vez era a voz de Sam na minha cabeça. — Você parece muito solitário aí… Provavelmente tem muitos amigos que sentem a sua falta. — Minha visão se escureceu novamente, pois esse era o tipo de coisa que eu não tinha. — Então trate de ficar bom logo. Você é algo incrível, Temp. O mundo deve conhecer você. — Então Joshua fez um movimento, que acabou por me deixar completamente sem reação. Ele ficou de joelhos, e lentamente estendeu a mão para perto de mim, para me tocar.
Eu demorei um segundo para compreender o que ele estava tentando fazer. Em um salto eu me joguei para trás na gaiola, um rosnado grutal saindo da minha garganta. — O que você pensa que está fazendo! -, eu gritei em pensamento. — Como se você soubesse qualquer coisa sobre mim! -, mais um rosnado, minha gengiva se contraia automaticamente para expor meus dentes afiados. — Como se eu fosse permitir que alguém como você me tocasse! -, a avalanche de raiva e ressentimento por ele, por essa maldita gaiola, e por eu não poder ter só um dia de descanso na minha vida, saiam sem controle. Eu me atirei para trás por reflexo, com uma força que até eu desconhecia que ainda tinha, pois sentia minhas presas ansiando pela carne dele. O barulho da batida e do rosnado foram tão altos, que fez o garoto se jogar para trás com o susto. Ele segurou forte e próximo ao peito a mão que uma vez ousou se aproximar de mim, talvez surpreso pela idiotice que ele iria fazer, e a sorte dela ainda estar ali. Eu conseguia contar os batimentos cardíacos de seu coração acelerado, e acompanhava a respiração ofegante. — Calma, amigão… Eu só queria… — Ele não terminou a frase, apenas se levantou rapidamente e deixou o lugar, com a expressão de horror ainda presa em seu rosto.
Depois de um tempo, quando finalmente as coisas se acalmaram na minha cabeça, eu pensei envergonhado que eu era mais animal do que humano novamente.
***
O restante do dia passou lentamente, Joshua não voltou mais para ver como eu estava, e no fundo, eu sabia que ele não tinha o porque fazer isso. Quando o sol já estava se pondo, eu ouvi o barulho de um carro se aproximando, o que eu presumi ser seu pai voltando da cidade. Um tempo depois, o velho em pessoa veio empurrar o pote metálico pela portinhola, mas esse não tinha analgésicos misturados.
— Como ele esteve? — O pai perguntou quando ele passou para fora do estábulo.
— Bem... Tudo passou sem maiores complicações. — E eu pude sentir como ele estava mentindo. Só não entendia o porquê ele esconder do pai que eu havia tentado arrancar a sua mão. — Temp estava instável.
— Temp? — O outro perguntou.
— Tempestade — O homem respondeu. — Por causa do pêlo cinza escuro, parecem nuvens de tempestade se formando.
— Ah, não Joshua... Não seria por causa do…? — O velho deu um suspiro pesado.
— Não é sobre ele. — O outro disse, amargurado.
— Não é o que está me parecendo.
— Pois eu já disse que não é. — Agora ele estava irritado. E pensando aqui, realmente esse sentimento não parecia combinar com ele.
— Enfim. Já disse para você não dar nome aos pacientes. Pois vai ser mais doloroso a despedida depois
— Eu sei! — Joshua gritou, me pegando de surpresa. — Mas ele é especial, você não consegue ver?
— Especial? Ele é no máximo uma anomalia! — E eu sabia o suficiente do inglês para entender que “anomalia” era uma palavra chique para “aberração”. — Escute filho, sobre o lobo.
— Não pai, me escute você. Eu não sei como explicar isso, mas olhe para ele. Ele não é apenas um lobo muito grande, ele é inteligente, ele sente. É só olhar para os seus olhos, eu não sei explicar, mas tem algo lá dentro que…
— Eu telefonei para a central, e expliquei a situação. — Agora o velho que o havia interrompido, e pelo seu tom de voz, eu sabia que não seriam ótimas notícias. — Eles averiguaram a situação e eu não poderia concordar mais com a decisão.
— E qual foi?
— Não podemos soltar um lobo desse tamanho na floresta, provavelmente o convívio com humanos o impediria de sobreviver na natureza, E se conseguisse, também há grandes chances dele causar um desequilíbrio das espécies no local. — Ele suspirou pesado mais uma vez. O outro permanecia mudo. — E também nenhum zoológico ou santuário aceitariam, pelo mesmo motivo. Não há onde colocá-lo filho, a única opção sensata seria sacrificá-lo.
A palavra fez um calor se espalhar novamente pela minha espinha, e eu tive que lutar muito para não arrebentar logo essas barras e sair correndo. Então esse era o destino para aberrações que nem eu, eu seria sacrificado. E apesar disso tudo, eu não poderia estar menos surpreso.
— Amanhã virão dois veterinários para fazer o serviço, e levar o corpo para a autópsia. Eu sinto muito…
Mas o outro não respondeu, e se o fez, nem eu fui capaz de ouvir. Apenas senti seu andar pesado se afastando.
— Filho, espere — E agora os outros o seguiam.
Indo contra tudo que parecia possível, eu estava quase calmo enquanto bolava um plano de fuga definitivo. A raiva por eles acharem que podem definir o que acontece comigo ainda irradiava como calor em meu corpo, mas estava sob controle. Eu me prendia à ideia de que não queria machucá-los, eles não sabiam onde estavam se metendo, então não faria sentido deixar seus corpos para trás. Além disso, eu ainda não era um monstro, não é mesmo? Teria que ser essa noite, e eu não tinha mais tempo para recobrar as minhas energias para uma fuga rápida. Eu teria que ser o mais discreto possível, sair do radar deles por alguns dias, pois certamente me procurariam na área. Talvez me esconder em uma caverna, ou arranjar algumas roupas e despistá-los em forma de humano. Qualquer que fosse o passo que eu tomasse a seguir, teria que ser em breve. Com o plano encaminhado, só me restava tentar dormir pelo menos um pouco, pois sabia que os próximos dias seriam uma merda. — Mas quando eu tive algum dia de descanso? -, o pensamento mórbido acabou me arrancando um sorriso, e foi com o plano repassando repetidas vezes na minha cabeça, que eu caí no sono.
***
Eu acordei alarmado na escuridão, com o meu coração parecendo que iria sair pela boca. Mas não por que eu dormi demais ou coisa parecida, na verdade era o contrário, eu acordei muito antes do esperado por causa dos meus sonhos. Eles se alternavam entre uma fuga desesperada, como humano ou animal, e com vários cadáveres deixados para trás. Mas não importa como se desenrolava, o fim era sempre o mesmo. Eu terminava preso e dissecado em cima de uma bandeja de metal, com vários médicos cutucando meus órgãos expostos. Era demais para mim, e eu senti uma ânsia de vômito só de me lembrar das imagens. Eu acreditava estar perdendo o juízo, mas tentei me acalmar o suficiente para não enlouquecer agora. Eu precisava começar a colocar em prática o meu plano de fuga, pois não passaria mais nenhum minuto nessa maldita gaiola.
A minha sorte é não precisar me acostumar com o escuro, eu conseguia ver perfeitamente, mesmo agora, nesse breu total. E só tive que mover um pouco a minha cabeça para achar o que eu estava procurando, o cadeado que segurava as barras da gaiola. Ele era grosso e parecia muito resistente, mas acredito que a minha força sobre-humana dará conta. Eu ainda estava concentrado em fazer uma fuga discreta, então não poderia contar com a minha sorte, mesmo estando mais recuperado. Só precisava me transformar em humano por alguns segundos, arrancar o cadeado com as mãos, e fugir novamente em forma de lobo, pois era mais rápido e silencioso.
Mas então eu percebi algo, enquanto eu me movia para não ser esmagado pelas grades quando eu me transformasse, que o lugar não estava tão silencioso quanto eu pensava. Havia um barulho baixinho, de algo se chocando contra o chão de terra. Esse baque surdo era o mesmo do meu sonho, dos passos pesados das botas dos oficiais correndo atrás de mim pela floresta. Mas ele continuava vívido, mesmo comigo acordado. Eu esperei alguns segundos, para saber se não era realmente algo da minha cabeça, e como não parou, eu comecei a vasculhar atentamente o lugar. Isso não podia ser um bom sinal, nunca era um bom sinal.
Eu consegui perceber, depois de um certo esforço, que havia mais alguém no celeiro. Mas ele estava tão encolhido, que mal parecia humano. Joshua choramingava baixinho encostado em uma das gaiolas à minha direita, batendo ritmicamente uma garrafa vazia no chão. Foi preciso só respirar um pouco em sua direção, para que o cheiro do álcool queimasse as minhas narinas.
— Você quer fugir, não é mesmo? — Ele olhava diretamente para mim, mas eu tinha certeza que ele não conseguia me ver claramente, por causa da escuridão na sala. Mas mesmo assim, eu estagnei no lugar. Se ele tivesse deduzido demais, mesmo comigo ainda em forma de lobo, eu teria que eliminá-lo. E pelos céus, eu não queria matar Joshua. — Eu consigo ver nos seus olhos o quanto você odeia esse lugar. — Ele levantou cambaleando como o bêbado que estava, e veio na minha direção. Novamente parecia que Joshua conseguia ler meus pensamentos, o que me deixou ainda mais desconfortável. O quando ele conseguia saber? — Eu não te culpo, também fugiria se pudesse. — Ele deu mais três passos em frente e caiu no chão. — Mas eu sou tão fraco... — Choramingou novamente com a cara enterrada na terra.
O comportamento dele me assombrava, em um nível além do que eu conseguia aguentar. Porque, bêbado e transtornado desse jeito, Joshua parecia demais com o meu pai. Nas noites em que ele tinha bebido muito mais do que aguentava, logo depois de me dar uma surra ou outra, era a sua voz que eu ouvia. — Filho, por favor, ajude o seu velho a chegar na cama —, e eu, como um imbecil, o ajudava. Naquela época eu ainda tinha esperanças de que meu pai um dia se tornasse um bom pai. Esperanças que morreram conforme a minha raiva crescia e se transformava em um Lobo gigante. — Filho, quem fez isso com você? —, ele às vezes perguntava, tão fora de si que nem lembrava das surras que me dava. — Por favor, não deixe ninguém ver isso. Eles podem te tirar de mim, e você é tudo que me resta —. Ele choramingava do mesmo jeito patético, e como um covarde, eu ficava.
A raiva que eu sentia, pela lembrança que o cheiro do álcool me trazia, começou a inundar a minha mente. Meus lábios se contraíram instantaneamente, e eu só conseguia me ver rasgando a garganta do homem na minha frente, com as minhas garras pesadas e dentes afiados. Mas ele não era assim, algo dentro de mim gritava, tentando falar mais alto que o rosnado do Lobo na minha cabeça. — Ele não é o seu pai! -. Tentei empurrar desesperadamente os pensamentos negativos para longe. E busquei por lembranças de como eu sabia que ele era antes, antes da bebida manchar a sua camisa. Joshua era cuidadoso, preocupado, e sempre animado. Meu corpo continuava tremendo em profusão enquanto eu ainda estava listando os aspectos positivos que tinha captado nele durante esses poucos dias, para tirar a imagem do homem bêbado que grudava na minha cabeça. Quando eu ouvi um tilintar metálico, e o cadeado se abrindo. Eu olhei para o rosto do homem, a barba eternamente por fazer, e os cabelos quase brancos caindo pela testa.
Mas nada disso me fez lembrar quem realmente estava ali, na minha frente, até eu encontrar os seus grandes olhos verdes. Claros e rasos, como um lago pequeno. E foi o suficiente para fazer meu corpo se acalmar de uma vez. Eram os olhos de quem não tinha nada a esconder, tudo que você precisava ver estava ali, logo na superfície.
— Vamos, vá! — Ele derrubou o cadeado no chão, e empurrou uma parte da gaiola para o lado. — Por favor… Vá embora... — Era quase doloroso vê-lo assim, tão perdido. E em um segundo, senti extremamente a falta do rosto sereno que ele fazia enquanto dormia. — Você não deve mais ficar aqui, você não merece o que eles farão com você.
E talvez eu merecesse. Mas a questão não era o que aconteceria comigo a partir de hoje, era o que aconteceria com ele. Como eu poderia deixar Joshua aqui, e seguir a minha vida como se ele nunca tivesse existido? Seria o mesmo que me deixar novamente preso naquela casa, enquanto o mundo desmoronava em cima de mim. Fraco demais para fazer qualquer coisa a respeito, e se culpando por tudo que não era a minha culpa. Parecia maluquice quando eu pensava sobre isso agora, já não podia simplesmente deixá-lo. Ele estava quebrado, e a sensação que ele sentia transparecia pelos olhos, e eu a conhecia tão bem. Mas diferente de qualquer um, Joshua não era culpado sobre isso, então por que ele que deveria sofrer?
Eu queria lhe dizer tantas coisas, lutava para isso. Mas eu não conseguia pronunciar nenhuma palavra, pois estava preso pelo Lobo. Eu me arrependeria sobre isso logo mais, eu sei que sim, mas não havia alternativa.
Seu queixo caiu juntamente com a garrafa que ainda estava em suas mãos, enquanto ele me via me tornar novamente o humano que eu me recusava a deixar de ser.
— Alguns minutos de confiança, ok? — Eu falei, e fechei novamente a gaiola. — É tudo o que eu peço.
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