Amanhecer: Novos Começos
21 Segredos
Notas iniciais
Parecia impossível, mas podia jurar que, apesar da lua brilhante no céu, a noite ficava cada vez mais escura enquanto avançávamos em direção à casa de Emily. Eu estava com tanto frio, que nem o calor escaldante dos dois Lobos ao meu lado conseguia me aquecer.
Eu só queria estar errada sobre isso, voltar a ser a Bella insegura que imaginava problemas e situações horríveis onde não existiam, ouvia vozes de pessoas que já se foram, e saltava de penhascos. Mas a cada passo que dávamos na direção daquela casa, mais a teoria parecia plausível para mim. E o rosto sério de Jacob e Leah não ajudavam no meu pânico crescente.
Quando subimos na varanda, apenas a luz de fora se encontrava acesa. A Lua agora estava acusadoramente no meio do céu, nos observando de perto, como um olho gigante. Eu lutava desesperadamente contra o medo que crescia na minha garganta, enquanto outra parte de mim já estava se preparando para uma guerra. Era exaustivo, e fazia a minha cabeça girar. Me vi parada próxima a um abismo que se abria diante de mim, e olhei para o seu fundo, sabendo muito bem que a escuridão me olhava de volta. Será que eu não poderia permanecer mais um pouco nos bons momentos de hoje, antes que eles virassem uma lembrança? A resposta estava clara, já que a noite continuava avançando, e Jacob moveu a sua mão de maneira decidida, tocando a campainha da casa.
O som foi alto, e reverberou na noite silenciosa. E eu prendi a respiração por instinto, quando acompanhei os passos pesados surgindo dos quartos que eu sabia onde estavam, e que seguiram para mais perto.
Sam abriu a porta da frente, e seu olhar já demonstrava o quão infeliz ele estava com a visita fora de hora.
— Mas o que…? — Ele começou a falar, a expressão confusa e irritada, alternando entre nossos rostos aflitos, e se demorando um pouco demais no de Leah. Não era novidade que ela seria a menos bem-vinda.
— Sam… — Jake o interrompeu, e apontou para o corpo do outro.
Só então, vendo a cara de desconforto de Jacob, que eu voltei a realidade, e percebi que Sam estava apenas de cuecas.
— Droga… — Ele se escondeu em parte atrás da porta, agora definitivamente mais irritado do que antes. — O que vocês querem?
Eu olhei para Leah, só para ver que ela estava muito mais desconfortável quanto eu. Alguns minutos de silêncio se sucederam, enquanto a irritação de Sam crescia cada vez mais. Eles não conseguiam começar essa conversa, e eu também estava relutante. E se realmente estivesse enganada? Apenas deixaria todo mundo tenso por nenhum motivo.
— Vão embora — Ele fez menção de fechar a porta, mas Jacob logo a segurou.
— É importante — Eu praticamente implorei, ficando surpresa pela minha voz ter voltado. Eu tinha que tirar essa dúvida do meu peito, se não, nunca mais conseguiria ter uma boa noite de sono. E se tudo fosse realmente verdade, também não poderíamos perder mais tempo.
Os cenários que tínhamos discutido na praia eram assustadores, e tinham conseguido me perturbar o suficiente pelo caminho até aqui. Mas uma coisa que nós três concordamos de imediato, era que alguma informação estava faltando.
Sam me lançou mais um olhar de desconfiança, mas acabou se afastando da porta, dando passagem para o nosso grupo. Ele encarou Jacob com irritação, e não olhou para Leah quando ela passou por ele, em compensação, ela também virou o rosto.
Quando Sam voltou a fechar a porta, eu fui praticamente puxada por Jacob pela sala pequena. Estava escuro novamente, e a luz da varanda competia com a luz da lua pelo espaço das janelas. Eu não consegui ver praticamente nada, apenas sombras fantasmagóricas que se remexiam na escuridão, conforme os corpos grandes dos Lobos as criavam.
Sentamos no sofá, e Sam em uma cadeira ao meu lado. Eu só percebi que ele esperava uma explicação pelo incômodo, quando limpou a garganta de uma maneira indiscreta.
— Então? Quem vai ser o primeiro a falar? — Eu não conseguia vê-lo, mas sabia que seus olhos vasculharam as minhas expressões, pois parecia que meu rosto estava em chamas.
— Não pode ligar a luz? — Falei, nervosa por um momento. Estando assim, apenas conseguindo ouvir a voz dele, fazia tudo ficar mais assustador.
— Não — Ele respondeu ríspido, tornando a noite ainda mais fria. E após algum momento. — Não quero acordar Emily. Agora fale.
Eu realmente gostaria de não ter vindo aqui. Sam parecia o diretor sério de uma escola particular nesse momento, e eu a aluna prestes a ser expulsa. Hesitei, e não consegui evitar de engolir em seco.
— Os desaparecimentos em Seattle, como Paul e o primo de Angela — Rostos vieram à minha mente na mesma hora, ensanguentados e perdidos. Os pensamentos lutavam para se organizar na minha cabeça, e nesse instante, eu senti a mão de Jacob sobre a minha. — Os lobisomens que não param de se transformar, mesmo que não tenham mais vampiros por perto — Eu entrelacei a dele com a minha, tentando me concentrar no calor. E tive medo, por algum motivo, dessa ser a última vez que eu o sentiria. — Mas ainda há vampiros por perto, não é Sam? — Provavelmente já sabia dessa história toda, e o pior, é que se ele já sabia, então escondeu voluntariamente a informação até agora. O sentimento de traição era horrível, e a última parte saiu com um tom mais acusatório do que eu queria.
Eu desejava que Sam se levantasse agora, me chamando de louca e xingando nós três porta afora. Dizendo como estávamos errados, e que não acreditava que nós tínhamos interrompido a sua noite de sono por tamanha baboseira. Eu queria qualquer outra reação, que não fosse a que ele teve.
Sam permanecia em silêncio na poltrona, e foi só após vários minutos de uma espera nauseante que completou. — De fato...
Meu estômago pesou uma tonelada nesse momento. Então haviam vampiros em Seattle, matando pessoas e se alimentando delas. Provavelmente o primo de Angela já estava morto, e havia essa grande chance de Paul também estar. Eu senti as lágrimas se acumulando no canto dos meus olhos antes mesmo de saber pelo o que eu estava sofrendo.
— Quantos...? — Leah perguntou, e a sua voz saiu mais fraca do que eu jamais tinha ouvido.
— Não acho que sejam muitos — Sam respondeu, mas algo em mim dizia que ele estava mentindo. Me pergunto se Leah também teve essa mesma impressão.
— Você está errado — A voz calma e familiar veio do corredor, e eu não precisava nem pensar para saber de quem era.
— Amor, você deveria estar na cama… — Sam suspirou pesado.
A luz se acendeu como uma granada, me cegando por alguns segundos. Quando eu finalmente consegui abrir os olhos, por trás das minhas lágrimas que embaçavam a visão, Emily estava parada perto do interruptor. A expressão de vergonha que ela tinha no rosto, foi o que fez meu coração dar um salto.
— Eu achei que teria mais alguns dias para poupar vocês de mais problemas — Ela caminhou pela sala, se sentando no lado oposto de Sam, em uma poltrona parecida.
— Então você estava realmente escondendo alguma coisa… — Sam estava visivelmente ferido por isso. Ele provavelmente não estava acostumado a ter segredos de Emily, e esperava que o contrário também fosse verdadeiro. — Deixa eu adivinhar… Sue?
Ela concordou com a cabeça. — Eu sabia que isso não te escaparia por muito tempo, mas foi um pedido do conselho.
— Então o conselho anda me privando de informações também?
— Sam, tente entender... — Ela parecia mais cansada que ele agora, e infinitos anos mais velha. — Se você soubesse, então todos os Lobos saberiam. Você não conseguiria guardar esse segredo sem tomar alguma ação. — Mas ele não parecia estar satisfeito com essa explicação.
— É muito ruim? — Jacob perguntou e me puxou para mais perto. Parece que eu não era a única agora que precisava de uma apoio extra, para ter certeza que não iria desmoronar. Ele me abraçou pela cintura, e eu não sabia se era o frio da noite, ou o medo que me fazia tremer.
Emily não concordou, mas a sua expressão de dor era maior que qualquer “sim” dito.
— Sam não é o único que está ciente do que acontece em Seattle. Mas vocês tem que entender, que não é o dever de vocês salvarem tudo e a todos, já é um fardo grande o bastante vocês protegerem essas terras. Sair em missão em lugares, mesmo que próximos, seria um risco tanto para nós que ficarmos, quanto para vocês.
— Mas nós poderíamos ter feito algo — Jacob respondeu, e eu não consegui dizer como ele realmente se sentia por isso.
— Lembre-se que o segredo ainda precisa ser protegido a todo custo — E por um momento, Emily falava exatamente igual ao Billy. — Apesar de querermos realmente ajudar, também havia algo muito estranho nos padrões dos ataques. E foi só recentemente que o restante das informações chegaram — Ela se acomodou na cadeira, e só agora eu pude perceber os dias de exaustão estampados em seus olhos. A quanto tempo ela estava escondendo isso, e mantendo a fachada de normalidade para nós? — Sue resolveu fazer algumas viagens depois de um pedido estranho de outra aldeia próxima, no Canadá. E quando ela voltou de lá, a história que ouvimos foi horrível — Ela se abraçou, como se estivesse com frio também. Sam não se moveu na cadeira, muito menos encarava a noiva. Ele apenas fitava o chão, consternado. — Só então que começamos a ir atrás dos demais, os que ficam ainda mais distantes, ao norte...
“Começou alguns meses atrás. Estávamos todos muito ocupados com o problema de Victoria para dar a devida atenção na época”. A minha cicatriz na mão esquerda começou a formigar na mesma hora que ela disse, como se reconhecesse pelo nome o monstro que me fez isso. Jacob me apertou mais forte. “Um ataque organizado por um pequeno grupo de vampiros em uma das tribos originárias mais ao norte perto do Alasca. Tudo pareceu uma fatalidade isolada na época, mas isso por que as notícias demoram para chegar entre nós. Quando descobrimos o verdadeiro causador do incidente, outros dois povos já haviam sofrido o mesmo tipo de ataque”. Ela olhou para mim, os olhos buscando o meu perdão por algum motivo. “Nós nunca precisamos de muito para nos proteger antes, apenas dois ou três lobos já davam conta se algum invasor se aproximasse muito. Pois tínhamos uma vantagem clara, éramos organizados. Os lobos funcionam como um, graças à mente compartilhada. E isso era a maior vantagem. Os vampiros, por outro lado, sempre andavam solitários ou no máximo em pares. Os três nômades que apareceram aqui um ano atrás, foram uma exceção terrível ao caso. Quer dizer…”. Ela engoliu seco, e eu sabia o nome que surgiria de seus lábios agora. “Até os Cullen surgirem”.
“A disputa por comida sempre foi um fator determinante na organização entre os vampiros, foi o que Carslile nos informou anteriormente. E por isso, apenas os ‘vegetarianos’ que conseguiam permanecer juntos, e formar famílias. Mas a dúvida sempre permaneceu entre o conselho, e se essa ideia de união finalmente se espalhasse? Provavelmente seria algo catastrófico”, Emily se levantou em um salto, e começou a andar em círculos no lugar. O restante de nós estava tão chocado pela ideia, que não ousamos mexer um músculo. “Eles não precisariam criar famílias, pois a competição por alimento seria o suficiente para que a própria espécie desse um fim neles, pois eles também levam em consideração o ‘segredo a ser protegido’. Mas e se o objetivo não fosse uma união permanente? Mas sim, por um tempo limitado, em busca de um objetivo em comum?”. Só então que eu percebi que ela não falava isso pra mim exatamente. Apesar de ter crescido com essa realidade, era claro que Leah e Jacob não sabiam das histórias mais secretas escondidas pelo conselho, provavelmente apenas contadas para pessoas especiais. “Não é a primeira vez que já tivemos que lutar contra algo assim. As lendas contam, que na época de seus bisavôs ainda, já houve algo parecido. Mas tudo que restou desse tempo se perdeu muito fácil, nós apenas sabemos que, da mesma maneira misteriosa que o conflito se iniciou, ele desapareceu após algumas guerras ao norte. Provavelmente o vampiro que havia organizado isso foi destruído. Não há muitos inimigos para eles no mundo, mas os metamorfos são uma ameaça a ser considerada”. Ela se sentou novamente. “O objetivo deles é incerto para nós, mas o padrão de ataque é para eliminar o maior número de metamorfose possível, e no caminho adquirir reforços para os que morreram na guerra, para continuar matando. São poucos os que sobreviveram nos grupos atacados”.
— Esses vampiros são diferentes. Os sobreviventes relatam uma organização e autocontrole acima do comum. Talvez até tenham estratégias de ataque, nós não sabemos ao certo… — Ela voltou o olhar para nós três, que ainda estávamos atônitos no sofá. — Está tudo bem se sentirem irritados ou decepcionados, mas eu não queria colocar mais uma vez o peso do mundo sobre os ombros de vocês, até ter tudo esclarecido. Até eu conseguir propor, pelo menos, duas opções para o que vocês pudessem fazer.
— E como a situação de Seattle se enquadra nisso? — Leah foi a primeira a voltar à realidade, sua voz subindo mais do que deveria nesta noite tão silenciosa. E com o movimento dela, eu e Jacob também começamos a voltar à vida.
— Porque nunca houve uma população tão grande de metamorfos como a nossa. — Sam completou, o olhar distante em um cenário que ele provavelmente já deduzia como seria. — Então tudo que podemos pensar é que eles estão aumentando o exército para completar o objetivo deles.
— Matar todos os lobisomens da reserva -, eu pensei, e no mesmo instante eu consegui ver o pânico crescente no rosto de Leah. O aperto de Jacob em volta de mim estava tão firme que machucava.
— Vocês só podem estar de brincadeira! — A loba levantou em um salto, os punhos tremendo violentamente. Sam e Jacob também levantaram, enquanto Emily permaneceu sentada, o olhar envergonhado não encarava o da prima. — Isso não é o tipo de coisa que você esconde, Emily! Nós tínhamos o direito de saber! — E após retomar parte do controle, soltou baixinho. — Eu tinha o direito de saber…
Só então que a ficha caiu para mim, e eu lembrei da pessoa que Emily se importava mais do que qualquer outra, mais do que a própria vida. Haviam escondido que agora Seth também era um alvo dos vampiros.
— Você realmente não sabia de nada disso, Sam? — Jacob perguntou, e só então eu vi o olhar de confusão, misturado com a preocupação que ele tinha.
Sam negou com a cabeça, mais envergonhado do que antes. — Eu tinha uma ideia de que algo estava acontecendo. Mas não forçaria Emily a falar nada — Ele continuava com os seus olhos em Leah, em posição de defesa.
— É lógico que não. Pobre Emily, não é bem a cabeça dela que está para jogo agora, não é mesmo!? — E essa era uma verdade cruel, pois de todas as vidas em perigo nessa reserva, a minha e a de Emily estavam no final da lista.
— Leah eu… — A prima começou a responder.
— Cale a boca! — Leah gritou, e Sam deu um passo em sua direção, completamente alarmado. Jacob me puxou para mais perto, pronto para me tirar daqui caso as coisas se tornassem feias. — Cale a porra da sua boca agora! Você não tinha esse direito, eu podia ter me preparado eu...eu… — Ela lutava contra as lágrimas que começavam a se formar no canto de seus olhos, e o corpo que entrava em espasmos. Eu nunca havia visto Leah com tanto medo, e a imagem certamente nunca mais sairia da minha cabeça.
— Fugiria? — Sam perguntou, a voz carregada pelo rancor, defendendo quem ele ama. Aposto que não importa o que Emily fizer, Sam sempre estará do lado dela. — Abandonaria seus irmãos para trás? É isso?
— Irmãos? — Ela deu uma risada venenosa. — Vocês nunca quiseram que eu fizesse parte do bando, e pode acreditar, eu odiei cada segundo que eu tive o desprazer de compartilhar a mente com vocês.
— Não posso evitar de dizer o mesmo. — Ele respondeu.
— Pois então vá se foder você e ela. Desde que vocês apareceram na minha maldita vida só me trouxeram dor. — Ela olhou fundo nos olhos de Emily enquanto as lágrimas escorriam. — Ou traição e decepção. Mas quer saber? — Ela voltou a se mover, os punhos cerrados para conter os tremores. — Que se fodam, eu vou fazer a coisa certa dessa vez.
— Leah, aonde você vai? — Jacob perguntou enquanto a garota passava com passadas largas pela pequena sala da casa.
— Vou fazer o que deveria ter feito anos atrás, me mandar desse lugar maldito e levar a única pessoa que eu me importo comigo — E eu pude ver nos seu olhar o momento quando ela se arrependeu dessas palavras terem saído de sua boca. Mas o estrago estava feito, tanto dentro, quanto fora do seu coração. — Seth não merece o destino que vocês estão tramando para ele — Ela praticamente cuspiu as últimas palavras com uma grande porção de veneno para Sam. Leah puxou a porta tão forte que ela se desprendeu da parede outra vez, e ela arremessou gramado a frente.
— Leah, espere! — Sam gritou, e quando ela não parou. — Isso é uma ordem!
Ela se virou no meio da noite. A luz da entrada não era o suficiente para iluminá-la por completo, mas eu pude ver o rancor e a dor estampados em seu rosto, misturados com as lágrimas que caiam sem medo agora. — Vá se fuder Sam, você é apenas um cretino que não merece porra nenhuma. E eu me arrependo de não ter dito isso para você anos atrás. Eu não te devo nada — Demorou um segundo, talvez dois, para Leah finalmente se transformar em uma Loba cinzenta e correr noite adentro.
***
Nós ainda estávamos na casa, Sam pegou a porta no meio do gramado e a colocou desajeitadamente onde ela deveria estar. Eu ainda estava sem reação com tudo, digerindo todas as informações e ações que aconteceram nos últimos 10 minutos de conversa. Era demais para mim, e tanto Jacob, quanto eu, estávamos aflitos.
— Eu falei que não queria dizer nada até ter duas opções para vocês. Eu também não acho justo colocar suas vidas em risco desse modo — Emily falou, surgindo da cozinha para nos entregar dois copos de chá quente, e se ajeitando para se sentar no braço do sofá. — Se o objetivo deles é mesmo eliminar a maior quantidade possível de metamorfos aqui, então uma das saídas é óbvia. Vocês podem fugir — Ela deu um pequeno gole em sua caneca antes de continuar. — Ninguém culpará vocês, assim como não culparemos Leah por querer preservar a sua vida e a de Seth. E se for o desejo de vocês dois, eu tenho alguns amigos no Canadá que ajudarão vocês a se instalarem, sem contar a casa que eu ainda tenho lá.
Sam voltou a se sentar conosco na sala, ele estava com a sua expressão séria habitual no rosto, ele provavelmente já tinha reavaliado diversas vezes a situação, e estava ciente dos riscos cada vez mais gritantes. Mas a sua voz era calorosa e paternal quando continuou. — Emily tem razão. Essa tem que ser uma escolha de vocês. Jacob, se você for entrar nisso que estamos nos metendo, saiba o que estará em risco, e como tudo isso afetará, não só você, como Bella também.
— Você ainda tem uma vida toda pela frente. Considerem isso, por favor... — Emily completou, e finalmente foi se sentar ao lado do noivo. Quando as mãos dele finalmente se entrelaçaram, parecia que algo no mundo tinha voltado a fazer sentido. No mesmo momento, eu senti os lábios quentes de Jacob beijando a minha. Mas não era para mim que ele responderia agora.
— E o que você vai escolher, Sam? — Todos nós sabíamos, mas ele precisava da confirmação.
— Eu ficarei, e lutarei por essas terras — Emily o olhou preocupado por um instante. E em resposta, ele acariciou gentilmente a face dela, e deu um sorriso discreto e caloroso. — Lutarei por aqueles que vivem aqui, e por aqueles que virão. Essa terra nos pertence, e como Alfa eu não poderia abrir mão tão facilmente.
E eu sabia, antes mesmo de ver a resposta no olhar que Jacob deu para mim, que também não havia outra escolha para ele. Jake já havia me explicado o quanto estava conectado com esse lugar pelo seu sangue e dos seus antepassados. Ele poderia não ser um alfa, mas eu sabia que agiria como um. Então não foi surpresa quando ele respondeu. — Então, qual o plano?
— Eles estão nos pegando isoladamente. — Sam começou, sua mente totalmente focada em resolver o problema que enfrentaríamos. — Mas eu tenho certeza que não conseguiriam lidar com muitos de nós. E eu chuto que é por isso que devem estar aumentando drasticamente o número de seu exército.
— E o que você sugere?
— Aumentar o nosso também.
— O que você quer dizer?
— Recrutaremos metamorfos — Ele explicou, seus olhos brilhando com a possibilidade de um contra ataque. — Ainda devem haver alguns de nós por aí, nos povos que foram atacados, ou nos que sobraram. Não há como acabar com a magia do nosso sangue como eles pensam, se ficaram alguns de nós para trás, então podemos lutar. E se eles funcionarem igual a nós, é nos períodos de maior crise que a nossa força realmente surge — Sam falava de maneira triunfante, como se a vitória fosse inevitável. Agora eu entendo um pouco mais do porquê ele ter se tornado um líder. Quando ele falava desse jeito, não havia outra escolha a não ser segui-lo. — Tenho certeza que se propusermos, não haverão muitos contrários à minha ideia. Não tem como deixar que um bando de sanguessugas façam o que quiserem conosco sem revidar. Nós já sobrevivemos a tantas coisas, que não será para isso que deixaremos de existir.
— Há muitas outras tribos? — Acabei perguntando para Emily, que estava igualmente hipnotizada pela fala energética do noivo.
— Pelo menos 5 que mantemos contato — Ela respondeu, envergonhada por ter perdido a compostura em um momento tão sério. — Mas eu sei que existem muitas outras, todas igualmente debilitadas pelos ataques, eu aposto.
— Também não obrigaremos eles a lutarem — Ele assentiu. — Mas, como eu disse, se tiverem o mesmo orgulho que nós, não precisarei pedir de fato.
— Só precisamos de um jeito de contatá-los então — Jacob completou. Nós não sabíamos ao certo quanto tempo ainda tínhamos, mas até eu suspeitava que não era muito.
— Tem algo que eu quero tentar a algum tempo — Sam deu um sorriso macabro, o que fez um arrepio subir pela minha espinha. — Essa parece ser a hora perfeita.
— Então é isso que faremos — Emily segurou a mão do noivo com as duas dela agora, e apertou de maneira firme. Em um gesto automático, Jacob se virou para mim, e deu um beijo carinhoso na minha testa.
Eu sabia o que esses atos, antes tão inocentes, significavam agora. Eram mais do que gestos de carinho, e expressavam muito mais que um simples “adeus” ou palavras de conforto. Eram promessas mudas, feitas no tempo em que as coisas ainda eram só ideias, e que poderiam ser resolvidas com planos em vez do sangue. Aqui estavam selados acordos silenciosos, que não nos abandonariamos, e que enfrentariamos juntos todo o perigo que estava por vir. E tudo isso porque escolhemos desse jeito. E eu, que nunca antes tinha pensado se preferia morrer pelo fogo ou pelo gelo, já tinha feito a minha escolha, antes mesmo de saber dela.
Mas eu estava decidida em não morrer mais. Se eu lutei desde os primeiros segundos da minha vida, eu também lutaria até os últimos. Então, quando eu retribui o beijo nos lábios quentes de Jacob, eu já sabia exatamente o que teria que fazer, pelo menos mais uma vez, para cumprir a minha promessa particular de proteger todos aqueles que eu amo. Lutar.
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