Notas iniciais
Existe alguma palavra, na língua dos elfos ou dos homens, para me desculpar por meu sumiço? Só posso dizer que a arquitetura está tentando me enlouquecer, e quse não deixa tempo pra viver.... Mil desculpas pelo sumiço, e aqui vem outro capítulo. Meio parado, mas garanto que o próximo vai compensar, ok?

Bilbo deixou a cerimônia sem ser notado: despedira-se dos amigos anões, mas preferia esperar que aquilo tudo acabasse fora da cidade, e encontrar-se ali com Gandalf, que o acompanharia de volta ao Condado. A morte de Thorin ainda lhe pesava no coração, embora ficasse feliz por não ter perdido nenhum outro amigo próximo; solitário e entristecido, deambulava sozinho pelas muralhas, procurando uma escadaria para fora, quando viu logo adiante uma figura solitária, de vestes negras... Amandil.

— Não deveria estar na celebração, princesa? – perguntou o hobbit, aproximando-se da moça, que o fitou com um sorriso. Seu rosto estava muito cansado, abatido e entristecido, e os olhos da jovem pareciam prestes a derramar lágrimas. Bilbo não conseguia imaginar o quão pesado estava sendo tudo aquilo, para ela, e o quanto a elfa culpava a si mesma pelo rumo dos eventos, mas reconhecia a dor naquele olhar tão antigo e tão pueril, ao mesmo tempo.

— Não gosto dessas celebrações, embora sejam parte dos deveres de uma princesa... Aqui, porém, sou apenas Amandil. E não podia deixar um amigo ir embora, sem me despedir.

O halfling retribuiu o sorriso e, quando a amiga ficou de joelhos, abraçou-a com força; amava a princesa de Lothlorien como amaria sua própria irmã, e desenvolvera carinho, respeito, afeto e admiração por aquela guerreira incomparável. Sentia-se privilegiado por ter tido a chance de conhece-la, e lamentava a possibilidade de nunca mais vê-la.

— Se nunca mais nos virmos, Amandil, quero que saiba... Foi uma honra e uma alegria conhece-la. Um privilégio com o qual nunca sonhei.

— O mesmo digo eu, meu amigo. – respondeu a moça, beijando a fronte do Pequeno – é inacreditável a coragem do coração em seu peito... Muito maior que a de qualquer guerreiro que eu já tenha conhecido. Sua lealdade, sua bravura e compaixão o tornam uma criatura ímpar, meu caro amigo. – ela lhe segurou o rosto, e acariciou a fronte do moço – mas não pense que será nosso último encontro. Haverei de vê-lo outras vezes, pode apostar, quando meus caminhos me conduzirem às cercanias do Shire.

— O chá é às quatro – brincou Bilbo, abraçando a moça de novo – não precisa bater. – mas então ele ficou sério – você ficará bem, Amandil? Sei que está encrencada, com seu povo. As coisas que fez... Haverá consequências, não é?

Ela suspirou e anuiu:

— Sim, haverá. Talvez eu tenha de ficar alguns anos, bem... Fora de circulação. Mas Eu sabia das consequências, e escolhi assumi-las. Não se preocupe comigo. Trate de cuidar de seu próprio coração, que sei estar muito ferido. Plante seu carvalho, cuide de seu jardim. E quando nos reencontrarmos, esteja forte e inteiro outra vez.

Bilbo apertou o ombro da amiga, deu-lhe um beijo no rosto e outro na testa, agradecido pelas palavras gentis dela antes de, com um último olhar, voltar-se para a escadaria. Seu coração parecia mais leve quando retirou o anel da algibeira e o vestiu. Vendo aquilo, Amandil franziu o cenho... Que o Um Anel permanecesse com Bilbo, por hora. Todas as raças estavam atrás daquela peça, e ela não tinha certeza quanto a em quem poderia confiar tão perigoso objeto, além do Pequeno. Todos os que conhecia eram passíveis de ser corrompidos por algo tão maligno, e o Um Anel, nas mãos de um elfo ou de um rei, faria um estrago terrível demais para imaginar. Que Saruman lidasse com Sauron, primeiro, e então, quando chegasse o momento, e o caminho estivesse livre, talvez a própria Amandil se encarregasse de destruir o artefato. Por hora, contudo, estaria bem guardado nas mãos de um honrado, bondoso e corajoso halfling.

*

Silenciosa, deslizou pelas sombras do crepúsculo até ouvir uma voz chama-la:

— Não deveria a princesa de Lórien participar das cerimônias? – ela se virou para encontrar Gandalf, sentado nas ameias da muralha. Com um dar de ombros cansado, respondeu:

— Eu já me despedi de todos da comitiva, então, não havia motivos para ficar. Aqui fora, sou apenas mais uma guerreira. Nada de tiara, nem de vestes cerimoniais, e fico feliz que assim seja. Apenas mais uma.

— Apenas mais uma, que brilha na escuridão. – comentou o mago. Amandil olhou para si mesma, assustada, e percebeu que ele estava certo: sua pele desprendia uma forte luminosidade, como antes só ocorria ao evocar algum encanto! Assustada, olhou para seu amigo:

— O que está havendo comigo, Mithrandir? Meus poderes estão fugindo ao controle! O que está havendo? – ela esfregou a própria pele, que só se tornou mais luminosa – estou com medo, Gandalf!

— Creio que você destrancou poderes que não imaginava ter, Amandil. – disse o Mago Cinzento, pousando as mãos sobre a cabeça da jovem e começando a murmurar palavras num tom que as tornava incompreensíveis. Ao terminar, prosseguiu – despertou forças que ainda não pode controlar, e isso é perigoso... Terá de descobrir que poderes libertou, e como controla-los, minha criança.

— Invoquei a luz das estrelas para dentro de mim... Isso pode ter libertado qualquer coisa!

— Sim. E terá de descobrir o que. Como eu já disse, há muito mais em sua alma do que imagina, Amandil; ainda é jovem, mas, no tempo certo, descobrirá toda a verdade.

— E por que não ma conta agora, mestre? – perguntou a moça, desesperada ao sentir o brilho se intensificando – estou apavorada!

— Vá para junto de sua mãe: ela é sábia e antiga, e tem forças para suprimir estas suas novas... Habilidades, até que você as possa compreender.

— Mas o que está havendo comigo? O que são estas coisas que estou sentindo? Por favor, Gandalf, estou apavorada!

— Há coisas que você não está preparada para saber, criança. Tomará conhecimento de tudo, no tempo certo, mas não serei eu a lhe contar, e muito menos aqui. Você é especial, e perigosa. Contente-se em saber isto, e volte para junto de sua mãe. Isto não é um pedido.

Surpresa, uma vez que Mithrandir JAMAIS falar com ela daquele modo, a moça anuiu e obedeceu. Sua pele reduzira o brilho, mas ainda emanava um pouco de luz quando, silenciosa, reuniu-se a seus pais na solenidade, sem se deixar notar pelos demais. Galadriel lançou apenas um olhar para a filha, pousando a mão em seu ombro; e o conforto de tal gesto acalmou a jovem, fazendo com que o brilho desaparecesse.

*

Os elfos preparavam-se para partir: ao entrever a figura de Amandil junto aos demais nobres de seu povo, Bard tomou coragem e se aproximou. Um dos guardas élficos, porém, o barrou, perguntando:

— O que deseja com lady Amandil, senhor de Dale?

— Meus assuntos com a princesa de Lórien não são da conta de mais ninguém – devolveu o humano, irritado pela intromissão. Aquilo teria se tornado um confronto, se a dama não interviesse:

— Está tudo bem, Elthered; lorde Bard é um amigo.

O soldado se afastou e fez uma reverência à dama, que dirigiu a seus pais algumas palavras em élfico, antes de ir para junto do humano:

— Queria falar comigo, Bard?

— Não tive oportunidade de fazê-lo, milady. A senhorita desapareceu durante a solenidade na qual gostaria de ter-lhe prestado minhas homenagens.

A moça olhou em volta, desconfortável com a presença da guarda de Thranduil, Elrond e dos Senhores de Lothlorien, e segurou a mão do humano – para completa surpresa e perplexidade deste, que não conhecia a moça senão por seus atos em combate – dizendo:

— Vamos conversar em outro lugar.

A elfa praticamente arrastou o humano para fora do círculo onde cavalos eram encilhados, bagagens arrumadas e últimas saudações trocadas, e foi com ele caminhar pelas vielas abandonadas da parte mais destruída da cidade. O silêncio dela, porém, incomodou o novo Mestre de Dale, que começou:

— Eu queria falar com a senhorita, antes que partisse...

— Trate-me por você, por favor. – interrompeu ela – não gosto que me dirijam alguma deferência pelo mero acaso de minha posição social.

O barqueiro riu, cruzando as mãos diante do corpo e mirando a jovem de alto a baixo, levemente divertido, e muito admirado:

— Se houvesse na Terra-Média outra igual a Amandil, o mundo não seria como o conhecemos.

— O que quer dizer? – ela estava confusa.

— Queria lhe agradecer, minha jovem. Não nos conhecemos bem, mas já tenho por você enorme consideração e apreço: vi as coisas que fez em batalha, vi sua coragem, sua determinação, o modo como se expõe ao perigo para proteger os outros. Ouvi histórias a seu respeito, algumas contadas por seu noivo... Vi essa estranha magia que flui de seus olhos. Arriscou-se para impedir uma batalha entre humanos, elfos e anões, destruiu balestras com apenas algumas palavras... Tem alguma ideia da admiração que causa em todos?

Ela ruborizou: geralmente não ficava num lugar tempo o suficiente para receber os elogios; preferia pular essa parte. Não gostava dos louros da vitória. Contentava-se com a vitória em si, sem loas e bajulações, mas Bard estava sendo absolutamente sincero.

— Eu... Apenas faço o que sei que é certo.

— Ainda assim, eu lhe sou grato. Por impedir que nos batêssemos contra os anões, por impedir que os elfos partissem e nos abandonassem... Por bloquear o Gargalo e salvar a todos de um massacre sem precedentes. Se agora há paz entre a Montanha, a Floresta e o Lago, é porque Amandil de Lothlorien tomou parte nisso tudo.

— Não fui a única. Muitos trabalharam para que isso acontecesse.

— Teriam trabalhado, sem sua liderança?

Ela parou por um segundo, ponderando a verdade no que ouvia. Mas o que o humano pretendia, afinal?

— Só o que quero dizer, milady – ele continuou – é que tem minhas eternas gratidão e admiração. Será sempre bem-vinda em Dale e, se algum dia necessitar, eu atenderei. – ele pareceu pensar um pouco – bem, considerando nossa diferença de longevidade, devo dizer que minha linhagem a servirá, qualquer que seja a necessidade.

Ela recebeu aquelas palavras com dignidade e surpresa, e reagiu do modo como aprendera com sua mãe: numa mesura elegante, que não perdia a graça por estar ela de calças, em vez de vestido, respondeu:

— Sua dedicação me honra e alegra, senhor Bard. Aceito seus préstimos, e juro em troca jamais solicitar-lhe qualquer favor que traga desonra ao seu nome ou ao de sua família. – Ela estendeu a mão direita, a qual ele beijou reverentemente, conduzindo em seguida a moça de volta para junto dos elfos. Quando o humano se afastou, Legolas perguntou:

— Algo errado, meu amor?

— Acabou de acontecer algo inesperado... Acho que recebi um juramento de vassalagem, ou algo que o equivalha...

Legolas riu-se do desconcerto de sua amada, e beijou-lhe a mão com ternura, cingindo-a pela cintura sem ligar para os olhares dos que passavam:

— Já devia ter se acostumado. Não sou eu seu vassalo fiel, desde que pus os olhos em você, pela primeira vez?

Ela sorriu e, beijando os próprios dedos, pousou-os sobre os lábios de Legolas, antes de se esquivar aos braços dele e ir atrás de Nevoeiro, que aguardava ansioso por sua dona.

*

Haviam, enfim, cruzado a Floresta Verde. Agora, os elfos de Lórien seguiriam para o sul, enquanto Lorde Elrond continuaria seu caminho para o oeste, até Rivendell. Haviam parado momentaneamente, para descansar os animais antes de tomarem caminho por campo aberto, e agora era hora de voltarem à estrada.

Sem qualquer arreio, como lhe era costumeiro, a princesa de Lórien içou-se às costas de seu corcel, que resfolegou alegremente e pateou o chão, ansioso por correr. Instantes depois, outro cavalo emparelhou-se ao da moça, montado por ninguém menos do que Lorde Elrond. Havia uma expressão séria no rosto do elfo, que tocou de leve o rosto da moça, perguntando:

— Não vai a Rivendell, comigo?

— Infelizmente, não será possível, meu senhor. Tenho coisas a fazer... Coisas pelas quais responder, em Lothlorien. Porém, prometo-lhe que regressarei tão logo me seja permitido.

— Isso quer dizer que não faz ideia de quando regressará a Imladris – suspirou o soberano, mudando de mão as rédeas do cavalo – sua mãe recusou-se a me dizer quais foram seus delitos, Amandil... Mas espero com todo o meu coração que eles sejam pequenos, e que a punição lhe seja leve.

A princesa apenas deu de ombros: cometera tantas infrações, que já não estava certa de que mesmo sua posição como princesa serviria para evitar a pena de morte. Tomara iniciativa de partir para a Montanha Solitária por conta própria, aliara-se a anões sem a permissão de sua rainha, tirara os mesmos anões não de uma, mas de duas cidades élficas, contra as ordens dos monarcas dos respectivos reinos... Em uma análise fria, fora ela quem causara aquela guerra, quando a retomada de Erebor forçara o Inimigo a se revelar... Dera a imortalidade a um anão... Certamente, a lista era longa, e as punições seriam severas.

Elrond compreendeu o silêncio da filha, e apenas apertou-lhe o ombro, tentando passar algum conforto. Pesaroso, declarou:

— Espero revê-la em breve, dama dos Galadhrim.

— Que os Valar assim o permitam, meu senhor – desejou a moça, formal e carinhosa a um só tempo, apertando a mão do pai contra seu ombro num gesto amoroso, antes de afastar seu cavalo do de seu pai biológico. Juntou-se a seus pais adotivos, participando das formalidades da partida; em dado momento, o cervo de Thranduil a interceptou, tendo seu dono às costas. O soberano tinha um sorriso triste no rosto, e não disse muito. Apenas fitou longamente a moça, beijou-lhe o dorso da mão direita e se despediu como ordenava o protocolo:

— Que bons ventos a levem a seu destino, princesa, e que seu caminho seja leve a seus pés. – os olhos dele claramente lamentavam aquela despedida, e neles ela viu a vontade do rei de abraça-la como a filha que a considerava.

— Que as árvores de seu reino sejam sempre verdes, e o céu sobre sua cabeça, sempre límpido, meu rei. – devolveu a moça, executando o protocolo com uma formalidade que surpreendeu a ela mesma. Seus olhos, contudo, não eram formais, e diziam muito ao soberano: pediam desculpas por atos irresponsáveis, aceitavam a gratidão dele, por tê-lo trazido de volta à razão, lamentavam as separações que aquela batalha causara, e muito mais. O monarca se esquivou à jovem, e dirigiu-se aos seus pais, enquanto a princesa procurava por aquele cuja partida seria mais dolorosa: Legolas.

Foi só ao se afastar de sua guarda que, enfim, o encontrou: o moço pareceu surgir do nada, simplesmente aparecendo sobre a garupa de Nevoeiro, seus braços passados ao redor da moça, que riu:

— De onde você veio?

— De seus melhores sonhos. – sussurrou ele, abraçando-a com força e virando-a de lado no cavalo, de modo a sentá-la de atravessado em seu colo. – quando vou vê-la de novo?

A moça tombou a cabeça no peito de seu amor, suspirando:

— Eu não sei. Nós dois sabemos que cometi incontáveis infrações, para não dizer crimes. Você deve dar caça a Gollum, e eu... Tenho de responder por minhas ações. Só podemos orar aos Valar para que nos reencontremos em breve.

O príncipe desceu do cavalo e a puxou consigo; segurando-a pela cintura diante de si, fitou-a com olhos muitos sérios; seus dedos percorreram o rosto da moça, antes que ele a beijasse profunda e apaixonadamente. Perderam-se um no outro por longos segundos antes e se afastarem.

— Um beijo, para que se lembre de mim. – sussurrou o príncipe – eu amo você, minha dama da luz.

— Eu amo você, meu príncipe das florestas. – sussurrou a mulher de volta, dando um último beijo em seu amado, e voltando para as costas de seu cavalo. Ouviu a voz de Galadriel a chama-la, ecoando dentro de sua mente, e soube que havia chegado a hora... Hora de ir para casa. Hora de responder por suas ações.

Notas finais
Bom, sei que está meio monótono, e peço perdão também por isso, mas prometo me esmerar no próximo, ok? Espero que tenham gostado, e me despeço com mil beijos!