Amandil - Sombras da Guerra
20 Nos portões de Erebor
Notas iniciais
– Ora, o que é isso, senhor Dain? – a voz de Gandalf soou em meio ao tumulto do confronto iminente entre as tropas anãs e élficas, tornando leve o coração de Amandil, que se sentiu tranquilizada pela presença do mago – não há necessidade de uma guerra entre homens, elfos e anões.
– Gandalf! – exclamou Dain, parecendo satisfeito – Você poderia, por favor, dizer a estes carniceiros para darem o fora daqui, antes que o esmaguemos como a insetos? Não recuarei diante de ninguém, especialmente diante desta... Fadinha da Floresta a quem chamam de rei!
– É claro que ele está louco! – exclamou Thranduil, sem se abalar com a ofensa – como seu parente!
– Louco? – Dain, por outro lado, parecia se irritar muito facilmente – Vou lhe mostrar o louco, bastardo! – e para suas tropas – vamos dar uma surra nestes desgraçados!
Nas tropas humanas – aliadas ao elfos – ouvia-se brados de “fiquem firmes” e “coragem, homens”; em meio a isso, Amandil se voltou para Thranduil e perguntou:
– Vai entrar em confronto com os anões?
– Não vou recuar diante desses animais, Amandil – disse o rei – Estou disposto a partir imediatamente, assim que as joias de Doriath forem devolvidas.
– Isso não é importante, Ada! – exclamou Tauriel – Por favor, Amandil já nos foi devolvida!
– Você quer dizer que ela conseguiu fugir aos malditos anões. – devolveu o soberano – se tivessem libertado Amandil de boa vontade, poderia esquecer as gemas brancas; agora, exigirei a herança de nosso povo. – e para Tauriel, especificamente – Lamento, querida, mas seu amante anão vai morrer, se resistir a nós.
A dama corou violentamente, indignada e furiosa a um só tempo, enquanto o rei se dirigia a Dain:
– Exijo o que é meu de direito, e nada além disso. Deem-me o que peço, e nenhum anão tombará diante de meus homens.
– Seu de direito? Seu de direito, é meu machado em sua testa, desgraçado! – gritou o líder do segundo exército, furioso. Ante o confronto iminente, a filha de Galadriel tentou se adiantar, sendo detida pela mão de Thranduil:
– Você fica aqui, onde sei que não se colocará em mais problemas. – havia um brilho estranho no olhar de Thranduil... O mesmo brilho que Amandil vira se intensificar no olhar de Thorin, com o passar do tempo! O Mal do Ouro! Aquilo apertou o coração da elfa que, rápida, esquivou-se à mão do rei, cavalgando o alazão que lhe fora dado até se interpor às duas linhas de frente; virando-se para os três líderes, perguntou:
– A este ponto chegaram os povos da Terra-Média? Lutando entre si por um punhado de ouro? – ela fitou Dain – não foi para isso que você veio até aqui, Lorde das Colinas de Ferro. Não foi em nome da ganância que veio a este lugar!
– Amandil – o anão de barba ruiva parecia divertido e irritado ao mesmo tempo, ao ver a dama – Circunstâncias diferentes de nosso último encontro. Ainda quero descobrir como escapou de minhas masmorras!
A elfa tentou ignorar o olhar de Thranduil e Legolas, aos quais deveria muitas explicações, mais tarde... Acabara sendo aprisionada pelos anões ao procurar a ajuda de Dain contra o dragão, antes de conseguir contatar Gandalf, alguns anos atrás... Escapar, porém, fora relativamente fácil, quando não sabiam de sua magia.
– Vocês já não cansaram de ver morte, e guerra? – Ela ignorou o comentário e encarou Thranduil, que lhe lançava um olhar ameaçador, exigindo que retornasse para junto dos demais; mas ela não permitiria que outro rei assolado pela maldição do tesouro provocasse mais derramamento de sangue – Esse tesouro já roubou tantas vidas! Elfos, homens, anões... Este ouro é amaldiçoado! – ela pensava no rastro de morte que aquele ouro deixara: os elfos de Doriath, mortos por anões em tempos antigos; nos anões mortos pelo dragão, e nos homens que haviam morrido há tão pouco tempo... – Olhem para si mesmos! Desperdiçando a vida de seus povos por moedas e gemas! Lutando entre si, enquanto o verdadeiro inimigo está lá fora, em algum lugar, vindo em nossa direção! – havia desespero e sinceridade nas palavras da dama. Ela se virou outra vez para seu sogro, com censura na voz e no olhar, orando para que ele ouvisse suas palavras – O senhor é maior do que isso, meu rei... Sempre foi o soberano a quem amei e admirei como sábio e poderoso... Não se deixe consumir também pelo Mal do Ouro. Não se torne menos do que sempre foi!
As palavras de Amandil atingiram seu rei em cheio, fazendo surgir um raio de luz em meio às névoas que vinham rondando sua mente... Mas ele não poderia se deixar controlar pelos dizeres de uma simples adolescente que tentava salvar seus amigos anões! Ignorando o que ela falava pela primeira vez em sua vida, o elfo ordenou a seus comandados:
– Mantenham-se firmes e preparados. Darei ordem de abrir fogo em breve. Agora, Amandil – ele soou extremamente severo – retorne imediatamente!
– Não haverá guerra, Amandil – exclamou Dain – se as forças de seu rei e esses humanos maltrapilhos se retirarem agora dos portões de minha família! Eles só querem desgraça para meu povo!
– Sua família causou a destruição de nossa cidade. Perdemos incontáveis parentes e amigos por causa deles. Perdemos tudo o que tínhamos por causa de Thorin Escudo-de-Carvalho! – retrucou Bard, de cima de seu cavalo – não vamos recuar, até sermos compensados com a parte do tesouro que nos é cabida, para reconstruir nossas vidas!
– Vocês vão recuar, por bem ou por mal – o líder anão gritou uma ordem em khuzdûl, e enormes balestras com setas giratórias foram armadas; os elfos retesaram os arcos para devolver. Em desespero, sabendo a devastação que aquilo causaria, a princesa deixou a cautela de lado e, erguendo os braços, gritou:
– Não! – chamas brotaram do chão, explodindo as armas dos anões, que se desmontaram sobre si mesmas, inutilizadas. Aquilo gerou resposta imediata dos elfos, que miraram seus arcos, prontos a disparar contra os oponentes, alheios aos protestos de Gandalf; foi a vez de Legolas intervir:
– Baixem as armas! – ele se postou ao lado de sua amada, que estava levemente tonta por causa do feitiço, e levaria alguns segundos para se recompor – Não ouviram o que Amandil disse? Há orcs avançando sobre nós! Dois exércitos numerosos, que chegarão com a primeira nevasca! O ouro é mais importante do que lutar por nosso mundo?!
– Saia do caminho, Legolas! – ordenou Thranduil – isso é uma ordem.
– Não vou sair do caminho, meu pai. Se quiser entrar em guerra com os anões, terá de passar por cima de mim. – um terceiro cavalo se juntou aos do príncipe e da princesa de Lórien: Tauriel.
– E de mim, Aran nín. – a moça desafiou o pai com o olhar. Sabia que aquilo era praticamente traição, e poderia acarretar seu banimento, mas não se importava.
A situação era insustentável: Thranduil não podia admitir tal afronta dos três jovens que haviam crescido em sua casa! Porém, os anões não seriam barrados pelos três cavaleiros, e uma saraivada de flechas de ferro teria sido disparada contra eles, se uma quarta voz não se manifestasse:
– Filhos de Dúrin, seu príncipe ordena que baixem as armas! – E quem falou não foi Thorin, nem mesmo Fili, mas Kili, que descera da barricada contra as ordens de seu rei, e agora se colocava diante de seu parente, Dain, fitando-o com olhos corajosos. E mesmo o primo estando montado num enorme porco, o arqueiro de cabelos negros era o mais alto dos dois – Terão de me matar para fazerem mal aos elfos! – sem perceber, ele tocou a perna de Tauriel, que estava montada no cavalo. Ela não olhou para baixo, a fim de não revelar o que havia entre ambos, mas suspirou de alívio e deleite com a presença de seu amado. Agora, não havia retorno para lado algum: ou as armadas recuariam, ou se engajariam numa luta ferrenha, mas a decisão tinha de ser mútua!
Cada respiração parecia exalar tensão no ar; longos segundos de silêncio se transcorreram, uma breve trégua que poderia tanto se estender, quanto se interromper subitamente. Foi neste momento, quando parecia que a resistência do quarteto de nada adiantaria, que Amandil sentiu algo em seu rosto: um pequeno floco de neve. Levando a mão à gotícula gelada que já derretia, declarou com um misto de alívio e receio, mais para si mesma do que para os demais:
– Estão aqui. – e neste momento, toda a terra tremeu.
*
– Acho que eles esqueceram a rivalidade, por hora! – brincou Kili, apontando o modo como elfos, homens e anões lutavam agora lado a lado. Não lutavam unidos, é claro, mas pelo menos não rasgavam as gargantas uns dos outros, o que parecia uma vantagem.
– Espere acabarem os orcs, que vão se jogar uns sobre os outros novamente! – respondeu Tauriel, que lutava costas contra costas com o anão – Nunca pensei que diria isso, mas foi uma bênção a chegada dos orcs!
O anão riu enquanto degolava um inimigo com o machado, concordando com as palavras de sua amada; mas o evento que interrompera o confronto iminente acabara separando as armadas: homens e elfos tentavam defender Dale, enquanto anões se erguiam entre Erebor e as hostes do Inimigo. Cravando sua arma no crânio de outro adversário, ele se abaixou para que a elfa pudesse rodar as duas lâminas que portava, derrubando cinco orcs num só movimento; lutavam em conjunto, como se sempre houvessem feito isso! Porém, havia uma preocupação na mente de ambos: em meio à luta, Amandil desaparecera!
– Tauriel – começou Kili – onde está Amandil? – não a vi, depois que os exércitos se dividiram!
– Eu a vi seguindo para Dale, mas depois a perdi de vista! – respondeu a guerreira, rolando por sob um troll e cortando ambas as pernas da criatura, arrancando-lhe os tendões. A besta caiu, dando tempo à moça para ver o que ocorria: os anões estavam acuados contra a entrada de Erebor, sendo praticamente massacrados! Sem seu rei, estavam perdidos, desmotivados! O que Thorin Escudo-de-Carvalho pretendia, afinal?! Deixar seu povo morrer?! – Kili, eles estão sendo massacrados!
– Não entendo por que Thorin ainda não veio em socorro de seu povo! Ele NUNCA falhou! – Kili estava pasmo, incapaz de compreender como seu tio pudera chegar a tão profunda loucura, a ponto de se tornar completamente diferente do que já fora!
Kili e Tauriel lutavam em conjunto com um grupo isolado de elfos, humanos e anões que haviam sido encurralados contra os muros de Dale; não havia para onde ir, para onde correr! Só podiam continuar matando inimigo após inimigo, esperando que algum evento oportuno lhes desse uma brecha para fugir!
Esse momento surgiu quando, de repente, o clangor de um enorme sino de metal se fez ouvir, estremecendo a terra, ressoando nos ouvidos de todos os guerreiros; seguiu-se a isso o desmoronar da enorme barricada construída às portas de Erebor e, como um alento de esperança na hora mais escura, Thorin Escudo-de-Carvalho deixou seu refúgio, seguido por seus homens. Revigorados pela presença de seu rei, os anões retomaram o ímpeto inicial, lançando-se contra os inimigos com força redobrada, agora com o acréscimo daqueles excelentes guerreiros que compunham a Comitiva. A esperança voltava aos Filhos de Aulë, e também a Kili, que via seu tio ser mais uma vez ele mesmo. Talvez houvesse esperança, afinal!
– Thorin! – exclamou Tauriel, surpresa, ao ver de longe o rei anão saudar seu prente, Dain. Pareciam conversar em meio ao combate e, de repente, enormes cabras das montanhas foram trazidas da retaguarda das fileiras anãs. Quatro daqueles animais estranhos... Mas a elfa não tinha tempo para prestar atenção ao que era feito do outro lado do campo de batalha: tinha seus próprios problemas em se manter viva!
Como se movidos por uma força sobrenatural, os exércitos anões se reanimaram da exaustão que os tomava, investindo furiosamente contra as hordas de Dol Guldur. Forçadas a recuar em direção a Dale, as hostes inimigas abriam espaço na planície, libertando do cerco o pequeno grupo isolado. Aquilo deu tempo aos guerreiros para se recuperarem das longas horas de combate acalorado, mas não haveria de durar: os orcs pareciam não ter fim em seu número, e ainda que houvessem cedido terreno, não davam mostras de pretender bater em retirada.
Tentando forçar passagem através da planície, para seguir a Dale, Kili e Tauriel de repente viram diante de si um quadro inusitado: Thorin, Fili e Dwalin postaram-se à frente do jovem casal, soturnos e frios como ela nunca imaginara que um anão pudesse ser. Montavam aqueles animas estranhos nos quais a princesa élfica já reparara, e traziam consigo uma montaria livre. Sem se dirigir à elfa, Thorin falou com seu sobrinho:
– Suba, Kili. Precisamos de você conosco.
– Não vou deixar Tauriel, tio! – protestou o moço, partindo ao meio o crânio de um orc.
– Quer que sua amante sobreviva? – perguntou Thorin, a voz inexplicavelmente impassível, tão controlado e cheio de autoridade quanto costumava ser, antes da louca incursão à Montanha Solitária. O rei combatia com uma pesada espada de folha dupla, varrendo os oponentes de seu caminho com maestria – então monte neste animal, e venha conosco. Isso só vai acabar se matarmos Azog, e precisamos de você para consegui-lo.
Sabendo que era seu dever, mas receoso de deixar sua amada para trás em meio à batalha – poderiam nunca mais se ver, afinal! – o rapaz olhou para ela, que lhe apertou os dedos brevemente, entre um golpe de espada e outro:
– Vá, Kili! Eu ficarei bem! – ela chutou um goblin anormalmente grande, e cravou sua faca de caça no olho de um segundo. Convencido, o filho de Dúrin se voltou para subir na cabra montesa mas, mudando de idéia, voltou até a elfa e segurou-a pelos ombros, tomando-lhe os lábios num beijo rápido e profundo, mal se importando com a presença de seus parentes. Ante a surpresa dela, que matou outro inimigo sem tirar os olhos de seu amado, o guerreiro respondeu:
– Podia ser minha última chance – e subiu na cabra – vou procurar por você, Tauriel. Fique viva.
– Vou esperar por você. – devolveu ela, ignorando a presença dos outros anões – Volte vitorioso.
Com um breve sorriso, sem ligar para a fúria silenciosa que brilhava nos olhos de Thorin, o jovem acompanhou os outros três em direção às encostas da Montanha: iam ao encontro de Azog, derrotar o líder das tropas e acabar com aquela carnificina... Mas o que aconteceria, depois que a cabeça da serpente houvesse sido cortada? Humanos, elfos e anões ainda tinham enorme rivalidade... O que poderia acontecer, quando não houvesse mais um inimigo em comum para fazê-los se unir?
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