Amandil - Sombras da Guerra
32 Libertação
Notas iniciais
Os anos passam depressa para os elfos... Mas não quando estão confinados. Daqueles dez longos anos, Amandil sentira cada breve segundo arrastar-se como uma hora inteira. Sentia dolorosamente a privação do calor do Sol em sua pele, da luz prateada da Lua, do cintilar branco e imortal das Estrelas que, nas profundezas onde ela se encontrava, não lhe podiam falar o que fosse. Impedida de ver suas amadas amigas dos céus, a elfa criara em seu cativeiro, no teto da caverna, um céu estrelado de pequenas flores brancas, que se nutriam da energia da moça... Mas não era a mesma coisa. Daquelas pequenas e lindas flores não vinham os avisos, as visões, as memórias ancestrais que as estrelas verdadeiras compartilhavam com a dama. Ainda assim, era algo bonito de ser ver, e deitar-se contemplando aquela imagem era a única coisa que acalmava o coração da moça, terrivelmente angustiado desde a carta que recebera de Mithrandir, anos atrás.
Outra coisa que acalmava seu coração perturbado era pensar em seu amado Legolas; perdia-se por horas em lembranças, imaginando-se fora daquela cela, num outro tempo e lugar. Recordava saudosamente os tempos em que eram crianças, ora brincando, ora brigando e tendo de ser separados por quem os vigiava... Da adolescência, quando haviam começado a lutar as guerras do mundo, e depois haviam precisado manter forte um reino cujo rei estava fraco e doente... Do despertar da paixão... De perceber, afinal, que amava Legolas. Lembrava-se com um sorriso nos lábios do primeiro beijo, pouco mais que um toque de lábios, roubado ao assistirem a um nascer do Sol... A primeira noite de amor, que acontecera depois que Amandil vencera seu noivo nos torneios em Rivendell – no começo ele ficara irritado consigo mesmo, mas também admirado com a mulher a quem amava... Havia começado como uma discussão, para então se perderem em beijos e, apaixonados, acabarem por entregar-se um ao outro.
Flashback
O jovem príncipe caiu pesadamente de costas, enquanto a garota apontava a espada contra seu pescoço, o pequeno pé descalço sobre o peito do rapaz, que a olhou com misto de surpresa e fúria.
— Touché. – disse ela, saindo de cima dele e embainhando a espada, com aquele nariz empinado que lhe dava ar um tanto arrogante, especialmente ante as palmas dos guerreiros que haviam participado da brincadeira. – Oras, Legolas, está ficando descuidado? – perguntou, estendendo a mão ao príncipe que a recusou. Ergueu-se zangado, e acusou:
— Trapaceou!
— Não, não trapaceei. Rasteiras não são trapaça, nem mesmo em duelos formais. – contestou a jovem, indignada. Odiava que a acusassem de má-fé, trapaça ou deslealdade! – Aceite que perdeu, Legolas! Que vergonha, quase homem feito e não consegue admitir a derrota!
— Você trapaceou, Amandil!
Irritada, ela pegou uma pedra pequena e a arremessou contra o príncipe, que se desviou por pouco enquanto ouvia sua noiva:
— Isso é trapacear! – disse, enquanto saía furiosa do pátio onde haviam estado lutando. Alguns amigos foram atrás dela, enquanto outros permaneceram com Legolas: estava claro que Amandil não trapaceara, mas o ego do jovem príncipe podia ser bastante inflado, de modo bem similar ao de seu pai.
Várias horas se passaram, até que a zanga entre ambos arrefecesse; a princesa ficou em seu quarto, sem querer ver seu noivo prometido, e até mesmo deixou de ir jantar, para não o ver. Não seria ela a pedir desculpas, quando fora ele quem estivera errado! Que ele viesse até ela e se desculpasse, pois não tornariam a se falar, antes disso.
Enfim, a reclusão da dama teve efeito, pois, lá pela meia-noite, alguém bateu à porta de seu quarto. Tratava-se de Legolas, vestido formalmente com as roupas do jantar, cabelos penteados e impecavelmente arrumado. Mentalmente, a filha de Galadriel praguejou, pensando que ninguém deveria ter o direito de ser tão lindo assim. Ocultando, porém, a admiração, perguntou:
— O que quer, Legolas?
— Conversar, é claro. Permite que eu entre?
Ela se afastou para o lado, permitindo, de modo que o moço adentrou seus aposentos, permanecendo na sala de visitas. Sentaram-se os dois no divã, Amandil fingindo profundo desinteresse. Ela podia ser ainda mais teimosa do que ele.
— Você não apareceu para o jantar.
— Eu estava evitando olhar para essa sua cara arrogante. – disse ela, pegando um livro e fingindo que o lia.
— Cara arrogante? Olha só quem me chama de arrogante! – devolveu Legolas, indignado.
— Eu aceito quando me vencem, e não saio acusando as pessoas de deslealdade e trapaça. Isso é acusação grave, sabia? – ainda o fingido desinteresse quando, de repente, o príncipe tirou o livro de suas mãos. Agora profundamente irritada, ela praticamente rosnou – devolva. Esse. Livro. Legolas.
— Você não vai ficar me ignorando. Trate de conversar como uma mulher, e não fazer birras de criança.
— Como a que você fez lá embaixo? – perguntou com ironia.
O príncipe se levantou, a irritação emanando até mesmo de seus poros:
— Você é a criatura mais petulante, irritante e orgulhosa que já conheci, Idril Amandil, de Lothlorien!
— E você é o elfo mais idiota, arrogante e insuportável que já tive o desprazer de conhecer, Legolas Greenleaf, de Greenwood! De todas as folhas da árvore, você é a mais irritante!
Ficaram ambos em pé, encarando-se; Legolas tentou manter a raiva, mas fitar os olhos zangados de Amandil, a beleza que havia neles, o rosto ebúrneo perfeito que o emoldurava... Aquele nariz empinado coberto de minúsculas sardas... A boca rosada entreaberta, como se implorando por um beijo. Ele sentiu como se houvesse borboletas em seu estômago, uma vontade de rir, de beijá-la, de gritar e de cantar, tudo ao mesmo tempo. Tentou desviar o olhar, e o que viu foi o corpo adolescente dela, com formas curvilíneas que se acentuavam à medida que a idade adulta chegava, cobertas apenas pelo fino tecido da camisola branca que ia até os pés... Um calor estranho irradiou por seu corpo, e ele tratou de banir seus pensamentos impróprios, antes que ela os lesse.
A princesa, por sua vez, já não pensava mais na briga: encarava o rosto de Legolas, as feições que assumiam seu aspecto final de adulto, os olhos azuis como gelo a brilhar enquanto a fitavam de volta... Viu os lábios dele, nem finos nem grossos, e uma súbita vontade de beijá-los se apossou dela... Tentou escapar disso mas, de repente, sem nem saberem como, estavam entrelaçados em um beijo apaixonado, sentando-se ambos no divã, braços envolvendo um ao outro quase com desespero. Os beijos apaixonados tornavam-se mais e mais fogosos, mais intensos e, finalmente, a jovem deixou escapar as palavras:
— Eu te amo, Legolas Greenleaf, o elfo mais irritante de Arda.
— Eu também te amo, Idril Amandil, a mais linda e orgulhosa elfa do universo. – respondeu ele. Entreolharam-se por algum tempo, compartilhando dos mesmo sentimentos e pensamentos, e tornaram a se beijar. Carícias acompanharam os beijos, enquanto ele a erguia nos braços e a carregava docemente para o leito.
Flashack off
Ah, que saudades daqueles tempos! Que saudades de ser livre, de amar e ser amada, de ser só uma garotinha, que não precisava usar a joia agora pendente de seu pescoço para controlar seus poderes...
Ela já perdera as contas de quantos livros e pergaminhos havia lido, instruindo-se nas artes arcanas, praticando, aprendendo novos encantos – que a maioria tomava apenas por lendas e histórias de crianças mas que, para ela, tinham efeito bem real – e certamente passara muitas e muitas noites (ou teriam sido dias?) em claro, praticando. Porém, o colar de Galadriel era uma forte barreira, e só quando o removia conseguia executar magia mais avançada. De qualquer modo, o aprisionamento não lhe deixava estabilidade emocional suficiente para que pudesse se concentrar naquela imensa força que vinha como uma onda, quando removia a joia, de sorte que, com o passar dos anos, a elfa acostumara-se à peça como se fosse parte de seu corpo. Aos poucos, tentar dominar a magia arcana tornou-se algo quase impossível, pois remover a joia fazia aquela energia transbordar, incontrolável. E para que nada mais fosse destruído por seus poderes incompreensíveis, a moça nunca mais removeu o colar.
Galadriel e Celebörn visitavam a filha tanto quando podiam, mas a própria princesa não gostava que sua família a visse naquele lugar. Assim, até mesmo sua irmã, Arwen, passou a vir muito pouco até ali, pois grande era a vergonha da irmã caçula em deixar-se ver aprisionada, por sua família. Preferia a companhia dos livros, nos quais se perdia, e das flores que fazia crescer. E cada dia era exatamente igual ao outro...
Assim o tempo passou, até que, um dia, Haldir veio até a cela. Curiosa, a elfa se espremeu contra as grades para vê-lo melhor, e pensou que desfaleceria: nas mãos, o capitão tinha a chave da cela, e foi impossível, para ela, reter as lágrimas quando ouviu a porta metálica se abrir. Sorrindo, o capitão abriu os braços e falou:
— Está livre, menina. Acabou-se o confinamento.
Esquecendo-se de qualquer formalidade ou protocolo, ela apenas se atirou nos braços de seu amigo, que a apertou contra o peito, talvez mais feliz do que a própria Amandil. Porém, algo pipocava na mente da jovem, que perguntou:
— Mas ainda não é outubro... Não se completaram dez anos exatos...
— Não, de fato – concordou Haldir – mas seus pais têm uma visita muito importante, que anseia para vê-la tanto quanto nossos rei e rainha.
— Quem? – perguntou a moça, acompanhando o capitão pelas escadas. O cansaço que sentiu em subir a escadaria mostrou-lhe o quão fora de forma havia ficado, na inércia do cativeiro. Precisaria treinar muito, para retomar logo sua boa-forma anterior...
— Mithrandir. – aquela punica palavra fez fugir ao rosto da dama toda a cor. Se Gandalf estava ali, e considerando-se a carta que lhe enviara, no passado, nada de bom estava ocorrendo na Terra-Média! Aquilo fez a jovem disparar escadas acima, sem se importar com o cansaço ou ofegância que a tomaram: só lhe importava chegar ao salão real de Cahras Galadhon!
O ultimo lance de degraus foi vencido, enfim – Haldir acabara ficando para trás, na carreira da elfa – e, diante da moça, descortinou-se o salão real de seus pais, tão belo quanto sempre fora. Era noite, e cristais iluminavam tudo com luz branco-azulada... O salão no alto dos galhos era preenchido pelo som do vento nas ramas, e no céu acima... Lágrimas brotaram dos olhos de Amandil ao ver as estrelas, cintilando, como se estivessem alegres es rever a jovem guerreira cheia de vida.
Mais lágrimas vieram aos olhos dela ao fitar as três única pessoas presentes: sua mãe, seu pai e Mithrandir, todos de braços abertos para recebê-la. Como uma criança, ela correu para os três, que a envolveram num abraço cheio de amor; até mesmo a rígida e controlada Galadriel perdeu-se em lágrimas, sussurrando:
— Minha querida filha... Ah, como ansiei por isso, minha pequenina...
Longos minutos durou aquele reencontro maravilhoso, mas, quando enfim se separaram, não passou por despercebido à moça que havia coisas importantes a serem tratadas; assim, recuperando toda a sua compostura e seriedade, ela perguntou:
— O que houve?
Gandalf, Celebörn e Galadriel se entreolharam, e o Mago Cinzento se pronunciou:
— Amandil, precisamos ter uma longa conversa. Aquela carta que lhe mandei foi apenas um breve resumo, e muita coisa aconteceu desde então. – Celebörn se dirigiu para a porta que levava às salas de visitas da família real, e falou:
— Conversemos em lugar mais apropriado. – assim, o quarteto, ao qual Haldir logo se juntou, seguiu para a câmara de visitantes, onde se travou uma longe e séria conversa. Havia muito a ser contado, e mais ainda a ser decidido. Por mais de uma hora, a garota ouviu coisas inimagináveis, e apenas aguardou para saber o que poderia fazer, ante todo o mal que se espalhava por seu mundo.
*
Não houve tempo para a jovem Amandil se recuperar. Gandalf precisava de sua ajuda, de sua companhia, e não seria ela a recusar, por mais que seu corpo não mais tivesse o vigor de antes do aprisionamento. Bem, uma viagem com Gandalf certamente a colocaria em forma, de novo!
Agora nos estábulos de Lothlorien, ela acariciava o focinho de Nevoeiro, que parecia ter sentido enormes saudades de sua dona. Aquele cavalo era um Meara, portanto, mais longevo e forte do que os demais; mesmo contando quinze anos, era jovem o bastante para seguir com sua amazona naquela aventura. Preocupada, a dama começou a escovar o animal, retomando contato com sua montaria.
— É, Nevoeiro... As coisas ficaram bem ruins nesses últimos anos. Orcs vagando livremente pelas terras, goblins invadindo as montanhas dos anões, salteadores e piratas nas estradas e rotas por rio ou mar... Mordor está outra vez ocupada, e a Torre de Barad-Dûr foi reativada... – ela pousou a testa no flanco do garanhão, que virou a cabeça e a acariciou com o focinho, dando uma lambida no rosto da elfa, que riu e ralhou – Nevoeiro! Você sabe que isso é difícil de limpar! – se isso fosse possível, ela apostaria que Nevoeiro estava rindo. – cavalo travesso!
Continuou seu trabalho, até sentir uma presença atrás de si: sua mãe. Sem hesitar, voltou-se e correu para ela, lançando-se nos braços de Galadriel.
— Minha filha querida. – sussurrou a Senhora da Luz – mal a tive em meus braços, e já a perderei outra vez...
— Não me perderá, Nana – assegurou a jovem, beijando as mãos da rainha – Mithrandir quer que eu veja com meus próprios olhos o que acontece lá fora, e precisa que eu o ajude a reviver as velhas alianças e fortalecer os reinos, para que possam estar inteiros e se aliar contra a Sombra.
— Depois de dez anos aprisionada, filha, não conseguirá lutar da mesma forma!
— Recuperar-me-ei depressa, mãe. – assegurou Amandil – Não posso ficar aqui, depois de tudo o que ouvimos. Rohan, os reinos anões, Gondor, as Florestas Sombrias... Cada reino está ameaçado de um modo diferente. Mithrandir é antigo e sábio, mas é um só. Fiz aliados importantes, que certamente haverão de me ouvir e vir em nosso auxílio, se for preciso. – a garota parou e pensou – sei que há mais por detrás de tudo isso. Há um motivo pelo qual o Mago Cinzento quer que eu veja tudo o que ocorre com o mundo – ela fitou os olhos sábios da mãe – e também você sabe o motivo, mesmo que não goste dele, ou não me diga qual é.
A rainha baixou a cabeça, retendo as lágrimas que não rolavam por seu rosto, mas por seu coração:
— Tudo deve ser descoberto a seu tempo. – ela pousou a mão sobre o coração da filha – prometa-me que ficará a salvo. Prometa, Amandil.
— É uma promessa, Nana. – sorriu a guerreira, abraçando a rainha, que continuou:
— E jamais tire seu colar. – Ante o olhar confuso da filha, explicou – seu poder é grande, e uma luz como a sua não passará por despercebida ao mal. Sauron fará de tudo para tê-la, se souber que você existe. E tudo o que foi feito para mantê-la a salvo, toda a farsa criada para ocultar sua existência, terá sido em vão.
— Então... Se eu tirar o colar...
— Sua magia extravasará, e a luz criada por ela mostrará à Sombra quem você realmente é. Não cometa esse erro, filha. Não se revele. Não ainda. Chegará o momento certo, mas não é agora. Primeiro, deve ver o que o mundo se tornou. Deve conhecer seu inimigo e, mais ainda, conhecer a si mesma. Quando compreender quem e o que você é, e qual a natureza de sua magia, então, sim, poderá se revelar sem medo. Mas não antes disso. – havia veemência na voz da rainha – prometa, Amandil, que não irá retirar o colar!
— Eu juro. – ante o juramento da filha, a Senhora da Luz sorriu e beijou sua fronte:
— Sentirei tanto sua falta, minha pequena filha. – e olhando para a mulher à sua frente – não... Não mais pequena. Apenas a minha filha, que deixou para trás a infância.
Aconchegando-se no abraço da mãe, a princesa falou:
— Sempre serei sua filha. Serei sempre a garotinha que se deitava em seu colo para ouvir histórias antigas sobre a Primeira Era.
A Dama da Luz acariciou o rosto da garota e, dando-lhe um último beijo na fronte, deixou os estábulos. Em breve teria lugar a despedida final, mas, pelo menos, pudera falar a sós com sua menina. Lamentava apenas não poder lhe contar tudo o que sabia, pois eram coisas que, para sua própria segurança e crescimento pessoal, Amandil teria de descobrir sozinha.
Murmurando uma bênção a sua jovem filha, a rainha retornou a seus jardins no palácio. Lá, perto da fonte rumorejante, alguém a esperava. Espantada, a Senhora dos Galadhrim perguntou:
— O que faz aqui?
— Está chegando a hora, Galadriel. – disse a voz feminina – ainda é cedo para eu me revelar, mas manterei os olhos sobre sua filha, até chegar o momento certo.
— Pensei que não podia interferir diretamente nas guerras da Terra-Média!
— E não posso – lamentou a mulher de cabelos prateados e vestido verde – as regras de Erú, nossa mãe e nosso pai, são bem claras. Mas manter Amandil a salvo... Não chega a ser interferir na guerra. Estou cuidando de minha protegida, apenas. Não o fez a Senhora das Estrelas, por todos estes anos, ensinando a menina através do brilho das luzes noturnas?
— Mas tomar forma física, senhora? A Sombra não a perceberá?
— Annatar é mais cego do que todos pensam. E o braço dele cresceu muito, se acha que pode me pegar. – Respondeu a estranha – de qualquer modo, não sou tola. Não ficarei em forma física durante muito tempo.
Galadriel se aproximou, e havia preocupação em seu semblante, mas esperança também:
— Mantenha minha filha segura. Por favor.
— É claro que a manterei segura, criança! – assegurou a dama de verde – não a trouxemos até aqui para perde-la tolamente, não é? Mas esta viagem é muito importante para ela. É de extrema urgência que ela conheça toda a Terra-Média, e a conheça sem as restrições e proteções de irmãos, pais ou protetores a restringir suas ações e decisões. Ela precisa terminar de crescer, e logo. O tempo vai mais adiantado do que pensa, Galadriel, e só o que podemos fazer é nos preparar. – a dama começou a se desvanecer em uma névoa verde-clara – mantenha-se vigilante. Prepare-se. Muito em breve, precisarão de sua sabedoria. Mas por hora, adeus, Galadriel.
— Adeus, Mestra. – respondeu a Dama da Luz, suspirando. Então, começara. Muito mais cedo do que imaginara, certamente. A batalha pela Terra-Média, enfim, estava iniciada.
*
O aperto de saudades do lar misturou-se à satisfação de saber que fazia o certo, quando Amandil deixou seu lar. Olhando para trás uma última vez, acenou para Haldir, que os acompanhara até a fronteira, e então voltou-se para o Mago:
— Disse que vamos ao Condado primeiro, não é?
— Exatamente. – confirmou o Mago – você precisa recuperar suas habilidades físicas, antes de entrar em algum combate ou viajar a terras mais perigosas. Uma viagem ao Shire nos dará tempo de conversar, alguns orcs pelo caminho, para treinar outra vez seus braços, e condições para que seu corpo se fortaleça outra vez. Quanto a sua magia... Teremos muito a falar dela.
— Imagino que não vá responder a nenhuma pergunta que eu faça agora, estou certa?
— Mais do que correta – assegurou o mago, num sorriso – pronta para algumas aventuras?
— Depois de dez anos? – perguntou ela – pronta para o que vier pela frente.
— Excelente. – comemorou o ancião – então siga-me, se puder! – e incitou Shadowfax a um galope rápido, que Nevoeiro se pôs a acompanhar. E se, nos primeiros minutos, a moça precisou de toda a sua concentração para não cair do cavalo, logo seus músculos se lembraram do movimento, da cadência, e repetiram o que já haviam feito tantas vezes, tornando o galope outra vez algo natural e maravilhoso. Sim! Pois se ela aprendera uma vez, tudo o que precisava era fazer o próprio corpo relembrar aquilo que já sabia. E mesmo que coisas sombrias rastejassem por seu mundo, mesmo que as sombras da guerra se anunciassem, ela estava feliz. Feliz por ser outra vez livre. Feliz porque poderia fazer algo útil, e lutar na guerra que se iniciava. Não importava o que tivesse de enfrentar, ela o faria, pois era Idril Amandil, silha de Galadriel, princesa dos Galadhrim... Filha das Estrelas. Que viessem os desafios, que viessem os perigos, que viessem os sacrifícios: estava pronta para dar até a última gota de sua força, nos tempos que viriam.
Com o vento a esvoaçar seus cabelos, ela acompanhou Gandalf no galope pela estrada. Longe de ambos, em Cahras Galadhon, a Rainha de Lórien apenas fitava o amanhecer e, numa prece, sussurrou:
— Que a graça do Valar a proteja, minha filha. Você há de precisar, muito antes do que imagina.
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