Notas iniciais
Olááá! Eu disse que a reunião seria neste capítulo, mas a inspiração me atacou, Amandil se rebelou e.... Bom, resultou nas cenas que se seguem. A reunião fica para o cap seguinte, ok? Tomara que gostem!

Em meio à noite profunda do interior da montanha, Amandil deixou seu quarto e seguiu pelos corredores; sua pele brilhava levemente, ante o feitiço que se formava dentro dela. Legolas não a viu sair, graças ao feitiço de sono que lançara sobre ele, e não havia ninguém a quem a moça precisasse dar explicações. Como um gato, esgueirou-se até o quarto onde Kili e Tauriel dormiam: bem, só Kili, pois Tauriel estava sentada no leito, fitando seu amado. O funeral de Thorin fora difícil para todos, mas o sobrinho mais jovem do rei fora quem mais sofrera.

Quando a porta se abriu, Tauriel se levantou de um pulo, as facas em mãos; baixou-as, porém, ao reconhecer o rosto da irmã, e perguntou com tom de surpresa:

— Amandil? O que faz aqui? – e vendo o modo como a pele da outra desprendia uma luz prateada – você está brilhando?!

— Vim falar com vocês dois. – a moça mais nova se pôs ao lado da cama, encarando o guerreiro que dormia nas mesmas vestes com que comparecera ao enterro do tio – como ele está?

— Arrasado. E com muita dor, também... Tentei ajuda-lo a se trocar, mas, depois de tantas horas em pé, ele mal conseguia se mover, e deixei-o dormir como está.

— Irmã, eu quero que me responda uma coisa, com absoluta sinceridade: você o ama? Passaria a eternidade com ele?

— A eternidade seria pouco tempo, para estar com Kili. – retribuiu a capitã – eu o amo, Amandil. Ele é a minha luz. – um estalo se acendeu na mente da elfa – o que está pretendendo, irmã?

— Escute, Tauriel... Eu posso fazer algo por vocês. Posso tornar Kili imortal.

— Mas isso é impossível! – exclamou a guerreira.

— Ilegal, sim; impossível, não. Posso fazer isso, mas preciso do consentimento de ambos para fazê-lo. O feitiço está pronto, já criado dentro de mim.

— Não vou deixar que faça. Pelos Valar, você será castigada!

— Esse risco, eu decido correr. Não importam as consequências, Tauriel... Eu amo Legolas, e sei que preferiria ter meu coração arrancado do peito a perdê-lo para a morte. Não quero que você tenha de enfrentar o gosto amargo da morte do homem que ama.

— Foi a minha escolha...

— Não. Amor não é uma escolha; simplesmente acontece. Minha pergunta é: está, mesmo, disposta a viver pela eternidade com ele? – a ruiva suspirou profundamente antes de, com um olhar firme, responder:

— Sim.

— Acorde-o. – pediu a princesa de Lothlorien. O anão despertou com um leve gemido de dor, sentando-se repentinamente ao ver Amandil. Aquilo o fez emitir um grito de dor, que as duas guerreiras abafaram com as mãos.

— Amandil! – exclamou ele, ao ver a moça – o que está fazendo aqui?!

A princesa explicou ao anão o que viera fazer ali. A princípio ele apenas ouviu, estupefato, e só ao fim da explicação foi que perguntou:

— Então, está dizendo que é possível me tornar... Imortal?

— Sim. Eu posso fazer isso. Mas quero que entenda, Kili: isso o colocaria numa situação em que não seria nem anão, nem elfo. Um anão imortal teria de ver todos de sua raça nascerem, crescerem e morrerem, enquanto se manteria o mesmo. Seu irmão, seus sobrinhos, seus amigos... Todos vão envelhecer e morrer. Você, não. Por outro lado, terá a eternidade ao lado de Tauriel e...

— Isso é mesmo possível? – ele perguntou.

— Sim. Nunca essa bênção foi dada a alguém de seu povo, antes, mas é possível, sim.

— Então, eu aceito. – Tauriel ia dizer algo, mas ele a silenciou – Tauriel, entenda de uma vez; eu te amo. Nada no mundo é mais importante do que isso. E, se Amandil pode mesmo nos dar a chance de estar juntos para sempre... Se me tornar imortal significar que seus olhos nunca vão derramar lágrimas por minha morte, então eu aceito. Tenho consciência das consequências, e as assumo todas. – ele tomou as mãos de sua amada nas suas – desde que eu possa estar ao seu lado.

A capitã da guarda sorriu e beijou seu amor, comovida quase até as lágrimas. Como o amava! Amandil, porém, sabia que tinha pouco tempo para realizar um encanto poderoso, e os interrompeu:

— Se a resposta é sim, então devo iniciar o encantamento agora. Só terei forças para fazê-lo se for sob a luz das estrelas – e assim dizendo, abriu a janela, que revelou o céu estrelado diante da encosta. – luz das estrelas, e é tudo o que preciso.

O casal ainda parecia surpreso e confuso com tudo aquilo, como se não houvesse ar de realidade no que fariam. Mas a filha de Galadriel corria contra o tempo, e tratou de fazer o anão se sentar numa cadeira, à luz das estrelas. Virando-se para Tauriel, falou:

— Não deixe ninguém entrar. E não me interrompa, não importa o que aconteça; se o fizer, matará a nós dois.

A elfa anuiu, postando-se junto à porta, para impedir qualquer pessoa de entrar. Seu coração batia acelerado, e receava pelo que estavam fazendo – não sabia se Amandil seria punida, nem qual a gravidade da punição, e já se sentia uma péssima irmã por permitir que o fizesse. Mas tratava-se de Kili! Como recusar?!

Com expressão séria, a dama morena ficou diante da janela e, fitando o céu estrelado, fez sua prece silenciosa:

“Luzes abençoadas, primeiras criações dos Valar, ouçam agora o meu pedido: que sua luz desça sobre mim, que sua força penetre minha alma, e sua magia corra por minhas veias, para que leve a cabo meu intento. Vejam em seu coração, e saibam que minhas intenções são puras. Ajudem-me, nesta hora, minha amigas, minhas guardiãs. Ajudem-me a fazer aquilo que nunca antes foi feito.”

Em seu silêncio meditativo, que durou longos minutos, a feiticeira ouviu uma voz fraca em sua mente, a mesma voz que em várias vezes a alertara sobre perigos, sobre o futuro, sobre o passado... A voz que já lhe era tão familiar, a ponto de lhe causar alívio e conforto:

“Sua alma é pura, e seus motivos são nobres, Filha das Estrelas— era a primeira vez que as Estrelas se referiam a ela desse modo – Tome de nosso poder, embeba-se em nossa luz, e cumpra o que sabe ser o certo. Estamos ao seu lado, criança, hoje e sempre.”

Todos os pontos brancos pareceram brilhar ao mesmo tempo, e sua luz se condensou num único raio branco-perolado, que banhou a jovem naquela luz liquefeita, preenchendo-a com um poder e força que queimavam como a labareda de mil dragões! Contudo, Amandil foi a única a ver esta luz; Tauriel e Kiliviam apenas a luminosidade que se desprendia da pele da jovem, intensificando-se a cada minuto, como se um Sol se instalasse dentro dela. A moça permaneceu imóvel, cada vez mais luminosa, até enfim abrir os olhos e voltar-se para Kili: suas pupilas, íris e escleras completamente tomadas por uma luz azul que uniformizava o olhar da dama.

Sem emitir um único ruído que fosse, ela caminhou até o amigo e pousou as mãos nas dele; a luz começou a fluir de sua pele para a do anão. Ele arregalou os olhos e deixou escapar uma exclamação enquanto suas veias se iluminavam em azul iridescente, mas Tauriel o alertou com um gesto para que ficasse quieto. Mesmo assustado, ele o fez. Por Erú, o que era aquilo que Amandil fazia? Ele sentia um formigamento intenso subir por seus braços, junto com a luz que avançava, até que seu peito foi tomado pelo brilho. Seus coração se agitou, batendo tão rápido que parecia prestes a sair do peito! Sua respiração se acelerou e ficou pesada, ruidosa... Seus olhos se fecharam com força, e ele se arqueou, enquanto uma enorme pressão quase esmagava seu peito! Amandil queria mata-lo, era isso?! Pois nunca se sentira tão próximo à morte, quanto naquele momento! Respirar era quase impossível, abrir os olhos era inútil, pois só havia uma cegante luz branca a preencher suas retinas, estivessem as pálpebras abertas ou fechadas, e a sensação em seu peito era a de que cada costela estava sendo quebrada, reconsolidada e quebrada outra vez! Mesmo assim, nem mesmo um gemido escapava aos lábios do guerreiro, que estava estático!

Vendo a cena bizarra, em que o rosto de seu amado se retorcia de dor, a luz intensa fluindo direto para dentro de seu coração, Tauriel pensou em interromper, mas lembrou-se das palavras de Amandil, alertando que uma interrupção acarretaria na morte de Kili e da própria filha de Galadriel... Assim, tudo o que a capitão podia fazer era aguardar, e assistir petrificada à terrível situação. Por Ilúvatar, o que aconteceria?!

A luz que preenchia Amandil tornava-se mais fraca, á medida que se escoava para dentro do peito de Kili. E o guerreiro, em vez de brilhar como a elfa, apenas contraía todos os músculos, respirando com cada vez mais dificuldade, seu coração batendo tão forte que Tauriel podia ouvi-lo da porta! Passaram-se minutos – ou teriam sido horas – antes que toda a luz deixasse Amandil. Quando a última centelha penetrou o coração do anão, sua respiração e pulsação cessaram completamente. A elfa quase desfaleceu, imaginando que ele não resistira, mas então viu sua amiga tomar o rosto do anão nas mãos e, abrindo-lhe os lábios, soprar dentro destes. Uma fumaça dourada deixou os lábios da mulher, penetrando a boca e as narinas do homem, que aspirou o ar com ânsia, e retornou à vida. Enfim a noiva de Legolas abriu os olhos, agora outra vez normais, antes de cair ao chão, esgotada. Conseguira! Executara um feitiço não realizado senão pelos próprios Valar, quando da criação dos elfos, e ainda assim estava viva. E Kili... Kili, agora, era um imortal. Ela podia ver isso no brilho dos olhos dele, enquanto a capitã corria para ambos, sem saber a quem socorrer primeiro.

— Estou bem – disse Amandil, levantando-se – mas ele ficou bastante quebrado, com o encanto. Vai precisar de umas boas horas de sono e, depois, de um banho morno, para aliviar a dor nos músculos. – ela abraçou Tauriel – só lhe peço uma coisa, irmã: seja feliz.

— Nós seremos. – a capitã ajudou um Kili semiconsciente a se erguer e deitar na cama, e voltou para junto de Amandil – está tão abatida! Deixe-me cuidar de você.

— Não é preciso; estou bem, querida. – a mais moça respirou fundo – cansada, mas vou sobreviver. Voltarei a meu quarto, agora, antes que amanheça e me descubram.

— Então, vou acompanha-la. – a ruiva deu um beijo em Kili, prometendo voltar logo, e acompanhou a irmã de armas por todo o caminho até o quarto desta, sentindo uma gratidão e preocupação que palavras não poderiam expressar.

*

— Meu amor? – chamou Legolas, sacudindo Amandil de leve – o que houve?

— Ah, bom dia, Leg – respondeu ela, cobrindo o rosto com um travesseiro – acho que fui atropelada por uma tropa de olifantes...

— Aconteceu algo que eu deva saber? – perguntou o príncipe, preocupado – Amandil, você sempre acorda muito antes do sol, e jamais precisou que eu a tocasse para despertar. O que você fez?

— Nada demais. – respondeu a jovem, levantando-se e tirando a camisola – testei um feitiço novo, e ele funcionou melhor do que eu esperava.

— Feitiço? Qual? – Ele tinha um ar de censura, já imaginando que se tratava de algo ilícito. O que mais esperar de sua noiva, afinal? – o que você aprontou?

— Está parecendo seu pai falando, sabia? – brincou ela – e por falar nisso, temos de nos aprontar rápido. O Conselho Branco chegará hoje, e não irão querer atrasos para se reunir com todos.

— Não pense que escapou desta conversa, Amandil – alertou o príncipe – vamos retomá-la, depois da reunião.

— Estou com medo – provocou a dama, beijando seu noivo com ar travesso antes de enfiar o vestido pela cabeça. Com uma expressão que estava entre o divertimento e a censura a sua noiva, o príncipe da floresta vestiu a camisa e o gibão, e prendeu os cabelos. Amandil também terminou de se aprontar depressa, de modo que logo deixaram seus aposentos, vestidos e prontos para comparecer à reunião dos lordes.

— E Tauriel? – perguntou Legolas – vai ou não se reunir a nós?

— Estou aqui, Legolas! – a voz da própria capitã respondeu à pergunta do elfo, quando ela surgiu no corredor, com suas roupas de oficial e armadura.

— Armadura, Tauriel? – perguntou Amandil, rindo – é sério?

— mais confortável do que um vestido, creia-me. A vida de dama não é para mim. – devolveu a outra, no mesmo tom – bem, Fili e Kili irão com Dain, quando o Conselho Branco chegar, mas nós devemos estar com Lorde Thranduil, para recebê-los. Vamos?

O trio deixou a Montanha, ignorando os olhares hostis dos guardas sobre suas figuras, e seguiu a pé em direção a Dale. Embora os anões os respeitassem, e sua hospitalidade nada deixasse a desejar, a animosidade era quase tangível. Só não haviam ocorrido ações hostis devido ao débito contraído para com Amandil, Legolas e Tauriel, responsáveis por os príncipes de Erebor ainda viverem.

— Eles arrancariam nossas cabeças, se tivessem chance. – comentou Tauriel – é assustador.

— Assustador é um bando de elfos apontando arcos para você, quando se está caminhando por uma floresta escura e cheia de aranhas gigantes – provocou Amandil – já estive nesta situação antes.

— Não atiraríamos em você, sua tola! – interferiu Legolas, rindo – Não seja dramática.

— Não, mas atirariam nos meus amigos, e eu teria de passar na frente, e levar a flecha por eles. – apesar do tom de brincadeira, os três sabiam que Amandil falava a sério. Isso o fez se entreolhar e rir sonoramente logo depois; essas brincadeiras estavam entre as coisas que jamais haviam mudado!

Chegaram a Dale cerca de meia hora depois, tratando de se apresentar a Thranuil, que estava na companhia de Bard e Gandalf. Legolas, como o mais velho, foi o responsável por falar:

— Aqui estamos, meu senhor e rei, como nos foi dito que fizéssemos.

— Fico satisfeito em ver que os três puderam vir. – ele estreitou os olhos para Tauriel – pensei que estaria ocupada com suas mais recentes... Atividades.

— Ainda tenho deveres para com a Floresta Verde, meu rei. Minhas novas atividades, como definiu, não mudam este fato.

— E é bom que continue a se lembrar disso, princesa. – Tauriel ficou corada: ser repreendida pelo pai na frente de outras pessoas, como se ainda fosse uma criança! Se ele pensava que tal tipo de pressão mudaria sua decisão, estava enganado! O rei, contudo, voltou a se dirigir a Legolas – O restante do Conselho Branco chegará em poucas horas; peço que recebam nossos visitantes, à entrada da cidade, e os conduzam aos aposentos a eles destinados, no antigo palácio de Dale. Iremos nos reunir ao cair da noite, nesta mesma sala.

— Sim, meu pai. – concordou o príncipe. Ele e Tauriel se curvaram e fizeram menção de sair, mas Amandil se dirigiu a Gandalf:

— Mithrandir, preciso falar com o senhor... Em particular – o mago sorriu ternamente e, estendendo a mão para a dama, falou:

— Se a filha de Lady Galadriel tem algo a me dizer, como eu poderia me recusar a ouvir? – oferecendo o braço à elfa, que o aceitou, o mago a conduziu para fora do prédio, para recantos da cidade onde poderiam conversar em particular.

Chegaram, após longos minutos, às destruídas ameias da muralha; Gandalf soltou o braço da jovem e, puxando o cachimbo de dentro das vestes, sentou-se sobre uma pedra, bem menos formal do que fora até o momento. Com um sorriso gentil para a jovem da qual tanto gostava, perguntou:

— Como você está, Amandil?

— Estou bem. Sentindo-me culpada, mas minha mente e corpo estão sãos.

— Você nunca saberá se ele não teria morrido, mesmo sem ser amaldiçoado – a elfa olhou com espanto para o mago, que continuou – lorde Thranduil nada me disse. Mas eu conheço você, e conhecia Thorin. – o ancião abraçou a princesa – eu não devia ter posto tamanho peso em seus ombros, criança. Sinto muito se minha confiança na honra de Escudo-de-Carvalho causou tudo isso...

— Fomos todos enganados, Gandalf. Manipulados como peões num jogo de xadrez; o Inimigo conhece nossas fraquezas e forças, e as usou contra nós... Essas rixas, rivalidades, mesquinharias... Nós quase o poupamos de ter que nos destruir. Por muito pouco, não o fizemos por conta própria.

— Não o fizeram, graças a três jovens elfos corajosos, e a um hobbit extraordinário.

— E por falar nele, onde está Bilbo? Procurei por ele em todos os cantos, mas não o encontrei...

— Ele não está em seu melhor ânimo. Perder Thorin foi duro para o Pequeno, e creio que ele partirá amanhã mesmo. Só não irá embora hoje, porque insisti com ele que tomasse parte na reunião dos lordes.

— Ele parece ser a pessoa mais lúcida de toda a Terra-Média. – constatou a princesa.

— Talvez seja. Talvez nós nos tenhamos deixado contaminar pela raiva, amargura, pela guerra, e não enxerguemos mais tão claramente quanto costumávamos. Mas ele não se contaminou, e ainda é tão lúcido quanto o jovem que deixou o Shire.

Amandil também se sentou, debruçando-se sobre os joelhos... Fazia, mesmo, apenas um ano e meio que ela se reunira com Gandalf, no Pônei Saltitante? Elfos eram longevos, e o passar do tempo tornava-se algo irrisório ante suas vidas de milhares de anos... Mas os últimos meses haviam parecido mais longos do que toda a sua vida anterior. Ela certamente aprendera mais naquele ano e meio do que nos mil anos anteriores.

— Parece que já faz tanto tempo. – suspirou – o que faremos, Gandalf? Com tudo o que aconteceu, o que podemos fazer?

— Vigiar. O Inimigo se refugiou no Leste, onde não temos como alcança-lo; podemos destruir suas fortalezas em Angmar, Gundabad... Mas nenhum exército sobreviveria ao ar envenenado e às águas pútridas de Mordor. É uma situação delicada, e por isso os lordes se reunirão. As raças terão de fazer vista grossa às antigas querelas, e trabalharem juntas, se pretenderem manter o mal afastado.

— Sabe quando isso vai acontecer? Em uma Era, com sorte!

— Talvez não – disse o mago, levantando-se – sabe, Amandil, quando a chamei para integrar a comitiva, confesso que não fui totalmente sincero com minhas intenções.

— Como assim?

— Bem, é claro que matar o dragão era o objetivo oficial. Mas eu tinha outros planos... Planos que, apesar de tudo, parecem ter dado certo; e tudo dependia de você. – ela ia perguntar que planos eram aqueles, mas logo compreendeu: a Companhia só obtivera êxito porque ela estivera com eles. Ao mesmo tempo, ela só estava viva porque a Companhia a salvara em várias ocasiões (uma lágrima escorreu de seu rosto ao lembrar-se de como Thorin a defendera do açoite dos orcs). Uma elfa, um halfling e um grupo de anões, viajando e lutando juntos ao longo de tantos meses... Isso criava um vínculo, que ia além do relacionamento pessoal do grupo. Sendo ela uma princesa, e sendo Fili e Kili herdeiros de Durin, aquela aliança ocasional assumia importância muito maior. Era o primeiro passo para uma aproximação decisiva de dois povos que, até então, haviam beirado o ódio um pelo outro.

— Pensou em tudo, não foi, Gandalf? – sorriu ela, estendendo a mão para pegar o cachimbo de Mithrandir – ah, apague essa porcaria, que o cheiro é terrível!

Gandalf riu e bagunçou os cabelos da elfa: ela era como uma filha ou neta muito amada, e ele tinha orgulho das mudanças vistas na dama, nos últimos meses. Ela crescera, amadurecera, experimentara coisas novas. Estava a caminho de se tornar a rainha que um dia deveria ser, talvez maior que a própria Galadriel, e ainda mais perto de descobrir ainda mais sobre si mesma. Se ela soubesse do poder que jazia latente em seu interior, apenas aguardando para aflorar...

— Mithrandir – ela começou, após minutos de silêncio – fiz algo que não deveria, e receio que os Valar estejam me punindo...

— O que você aprontou?

— Corrompi leis muito antigas... Usei a magia que me foi dada para tornar um anão imortal... E agora, receio os efeitos do que fiz. – Gandalf tirou o cachimbo da boca, subitamente sério enquanto ela falava – depois do encanto, tive um sonho onde eu me sentia caindo num túnel de luzes e sombras, cercada de tempestades... No fim deste túnel, fiquei suspensa no vazio, como se houvesse subido ao céu noturno. Eu era mais uma das estrelas no firmamento, suspensa na escuridão aveludada, cintilando em meio às outras. Vi... Coisas. Coisas das quais não consigo me lembrar, mas que sei serem importantes! E depois que acordei, meu coração está acelerado, apertado, como se algo dentro dele tentasse se libertar. – ela cruzou os braços com força – estou com medo.

O mago deu um breve sorriso, como se já esperasse por aquilo, e fez a moça erguer o rosto:

— Amandil, algumas respostas eu não posso lhe dar, pois deve estar pronta para ouvi-las. Só o que posso lhe dizer é que esta força que está sentindo, as coisas que viu em seu sonho, tudo isso é parte de quem você é. As estrelas sempre velaram por seu caminho, não é verdade?

— Sim. E, na noite passada, chamaram-me de Filha das Estrelas.

— Então deixe que continuem a guia-la. Não lute contra a força que quer despertar, pois o medo apenas a deixará fora de controle. Aceite o que lhe for dado, aceite o que descobrir a seu próprio respeito, e se tornará muito mais do que jamais sonhou. Deixe a luz guiar você, e tudo ficará bem.

As palavras do mago foram extremamente confusas, mas quando a moça se voltou para lhe perguntar o que queria dizer, Mithrandir já não estava lá. Fora para algum outro lugar, deixando a Filha das Estrelas com um milhão de pensamentos rodando em sua mente.

Notas finais
E então? O que acharam? Foi aqui que Amandil primeiro travou contato com seu verdadeiro poder, o momento em que, com a desobediência e o feitiço arcano que conjurou, quebrou as barreiras que limitavam sua força. E já sabemos aonde isso termina, não é? deixem reviews, minhas flores! kisses