Amandil - Sombras da Guerra
18 A Loucura do Rei
Notas iniciais
Esgotada pelo encantamento que acabara de realizar — para avisar Tauriel — Amandil deitou-se de lado no catre, sem nem mesmo puxar o cobertor sobre si; estava exausta demais para isso. Fechando os olhos, cochilou pelo que lhe pareceu um tempo muito curto – talvez uns poucos minutos – antes de ouvir a porta da cela abrindo. Não precisou se virar para saber que se tratava de Thorin: o rei emanava uma energia escura e pesada, quase totalmente consumido pela maldição do ouro, nem de perto lembrando o homem que ela conhecera no condado. Para seu próprio bem, ela se manteve imóvel e fingiu dormir.
– Eu sei que acordou quando ouviu a porta se abrir, elfa – a voz dele soou ríspida e enrouquecida – levante-se e olhe para mim.
Sabendo que evita-lo apenas o irritaria ainda mais, a moça fez como o homem dizia, e ficou surpresa com a figura de Thorin; não que ele estivesse vestido como menos do que um rei – ao contrário, paramentara-se com os trajes que um dia haviam sido de seu avô, ricamente adornado com ouro e prata — mas seu rosto... Havia em seu rosto uma loucura que não deveria estar lá! Talvez a maldição o houvesse consumido mais do que ela imaginava, naquele curto período de tempo... Que poder terrível tinha aquele tesouro, para transfigurar um homem daquela forma?!
– Thorin... O que... O que houve com você? – a moça estava realmente assustada com a mudança ocorrida com seu amigo, e temia mais por ele do que por si mesma.
– Talvez seus malditos feitiços estejam agindo sobre mim. – respondeu ele, olhando com voracidade para a mulher: o corpo perfeito tinha suas curvas marcadas pelo vestido longo, os seios generosos delineados e parcialmente revelados pelo acentuado decote. Os cabelos soltos eram como mel escuro escorrendo em ondas pelos ombros e costas, até os quadris da moça, e a beleza dela o enchia de um desejo intenso e feroz.
Estava totalmente fora de si quando estendeu a mão e segurou rudemente uma mecha de cabelos da elfa, que tentou se afastar, sem sucesso, puxada para perto do rei pelas melenas escuras:
– está tão linda com essas roupas, feiticeira... Tão linda... – segurando-a pelos cabelos, puxou-a para si pela cintura e colou sua boca à dela, forçando-lhe um beijo. A elfa se debateu e o empurrou, mas estava muito fraca após o encantamento, fraca demais para empurrar um homem pesado e forte como Thorin! Em desespero, ao sentir a língua dele invadir sua boca, mordeu-lhe o lábio até sentir o gosto de sangue. A corrente em seu tornozelo a impedia de correr, então ela recuou até sentir a parede às suas costas, sem ter para onde fugir.
Afastando-se com a mão no lábio mordido, ele parecia antes excitado do que com raiva quando, olhando para ela como um lobo faminto, declarou num sorriso mau:
– Você não devia ter feito isso. – e investiu contra a jovem, derrubando-a na cama; os dois lutaram ferozmente, ela tentando afastá-lo de si, ele tentando subjugar a mulher, cheio de desejo e ódio simultâneos – eu quero você, bruxa! Preciso de você, de seu corpo, e a terei por bem ou por mal! – a mão grande rasgou o decote da jovem e tentou subir-lhe a saia, mas as unhas dela se cravaram no rosto do anão, que apenas se enfureceu mais. Tentou afastar as pernas da moça, mas ela as fechou com toda a sua força, debatendo-se para escapar às mãos do guerreiro, retirando forças não sabia de onde para resistir a ele.
Irritado com a resistência dela, o rei anão deu-lhe um forte tapa no rosto — forte o bastante para fazê-la gritar de dor e atordoa-la – e prendeu-lhe as mãos acima da cabeça. Mas não conseguiu segurá-la por muito tempo: a mulher era esquiva como um peixe escorregadio! Em meio à luta ele conseguiu terminar de rasgar e arrancar o vestido fino do corpo dela, expondo as formas perfeitas diante de seus olhos; mas quando pensou que a tinha dominada, e tentou tirar as próprias vestes, sentiu sua faca sendo arrancada da bainha no cinto, e a lâmina se enterrou sem piedade em seu ombro esquerdo, resvalando no osso e afundando no músculo.
Atordoado pela dor súbita, ele se sentiu empurrado para fora do leito e caiu pesadamente no chão, recobrando aos poucos os sentidos. Por Aulë, o que ele fizera?! Com horror, compreendeu que tentara violentar Amandil! Como pudera cometer tão ignóbil ato, por mais raiva e desejo simultâneos que sentisse pela moça?
Olhando confuso para ela – que tremia no leito, cobrindo-se como podia com os braços, que já estavam, assim como seu rosto, ombros, pernas e mãos, com arranhões vermelhos e hematomas surgindo – arrancou a faca do próprio corpo. Ela certamente mirara a garganta, mas errara durante a luta... Era estranho... Não sentiu dor ao puxar a arma, como se apenas o corpo houvesse sido ferido. O que estava acontecendo consigo?
Confuso ele se levantou, a faca ainda na mão, e viu que a elfa recuou outra vez, com lágrimas de medo – ou seria raiva? – escorrendo pelo rosto bonito e machucado. Com uma voz que ele nunca ouvira antes, a princesa o fitava com olhos em chama – literalmente, ele podia ver as labaredas dançando, brancas e vermelhas, dentro das íris dela – ao gritar, movida pela vergonha, pela dor, pelo sentimento de traição e de orgulho ferido:
– Eu o amaldiçoo, Thorin, filho de Thrain, da linhagem de Durin! Maldito em nome de Aulë, maldito por todos os Valar! Eu o amaldiçoo! – era a primeira vez que a princesa amaldiçoava alguém, mas algo dentro dela sabia exatamente as palavras a pronunciar, colocando toda a sua mágoa, raiva e dor no que proferia – Você há de se ver sozinho e acuado, tal como me teve, sem forças, sem ninguém para vir em seu socorro! Eu o amaldiçoo até o fim de sua vida! – e encolheu-se, pensando que ele a atacaria novamente. Mas isso não aconteceu...
Perplexo com o que fizera, o rei cambaleou para fora da cela, tentando compreender o que acontecia consigo. Parecia que a luz de Amandil o fizera recobrar, ao menos em parte, o juízo perdido... Ah, precisava refletir! Ia voltar à sala do trono, onde a visão do ouro poderia acalmá-lo, enfim. Sentia-se muito perturbado na presença daquela feiticeira.
Sozinha na cela, sentindo o sangue escorrer de alguns dos machucados ganhados na luta, Amandil se pôs a chorar convulsivamente. Estava com medo – apavorada, para ser sincera – enterrada sob quilômetros de pedra, presa num quarto sem janelas, acorrentada a uma cama e, agora, totalmente nua; enfraquecida pelo feitiço e pela luta que se seguira – mais ainda pela maldição lançada no momento de ódio, da qual já se arrependia – sabia que, se o anão retornasse, não conseguiria impedi-lo de fazer o que quisesse.
Um lado seu – o mais fraco – estava a ponto de desistir e não lutar mais. Que Thorin fizesse o que bem entendesse com ela, pois já não queria viver! Que a violentasse e matasse, então, já não tinha importância: sentia-se imunda, usada, fraca e inútil. Seu lado mais forte, contudo, falou mais alto outra vez: ela não se entregaria. Se ele a tomasse, seria apenas a custo de muito sangue e luta. E mesmo se isso acontecesse, ela não pararia de lutar. Encontraria um modo de sair dali, e ainda conduzir os rumos da guerra que se avizinhava. Não sabia como o faria, mas daria um jeito! Ainda tinha uma missão a cumprir, antes de se render.
Porém, estava exausta demais até mesmo para se manter em pé! Puxando as cobertas sobre seu corpo despido – o que restara do vestido jogado no chão não a cobria em absoluto – obrigou-se a ficar calma e descansar. Não podia pensar no futuro. Tinha de cuidar de si mesma no agora. Antes de adormecer, porém, reconheceu para si mesma que ir a Erebor fora a pior de todas as ideias que já tivera.
*
Em seu sonho, não estava mais em sua cela, nem sequer em Erebor; caminhava – despida como estava – por um jardim extremamente parecido com o de sua mãe, em Lothlorien. Uma fonte borbulhava ao centro do espaço em forma circular, caindo num lago espelhado, dentro do qual nadavam pequenas luzes douradas. As flores de todas as cores desprendiam um perfume delicioso, e ela soube que estava em casa; exausta, deixou-se cair de joelhos na relva macia, e então sentou-se ali, desfrutando do ar fresco e do calor do sol em sua pele. Ficou ali por longos segundos, até ouvir uma voz familiar e muito amada, às suas costas:
– Olá, minha filha.
Voltando-se rapidamente na direção da voz, ela se ergueu ao ver sua mãe, Galadriel – ignorando a dor dos ferimentos ao fazê-lo. A rainha se aproximou com um manto branco nas mãos, com o qual envolveu a filha, beijando-lhe a fronte com delicadeza e abraçando-a protetoramente. Sem soltar a jovem, sentou-se no chão, deitando a menina em seu colo como se esta ainda fosse um bebê.
– Você tem sido tão corajosa, minha querida – sussurrou Galadriel, percorrendo com as mãos os ferimentos da filha, que se fechavam ao toque mágico da Senhora de Lorien.
– Estou tão cansada, nana... – murmurou a moça, deixando-se chorar nos braços da mãe – tão cansada... Fiz tudo o que podia, e tudo isso para nada... Não pude matar o dragão, e a guerra continua sendo iminente. Sei que preciso ficar em Erebor, para levar Thranduil até lá, mas tenho tanto medo do que Thorin me fará!
– Eu sei. – respondeu a Senhora da Luz, tomando o rosto da filha em suas mãos e secando-lhe as lágrimas com os polegares – mas você guarda em si a força para fazer o que é preciso, querida. Só mais um pouco. Apenas mais um esforço.
– Sinto-me tão suja, nana! Tão suja, pelo que ele tentou fazer comigo! Tão suja, por todos a quem estou manipulando para impedir uma tragédia... – ela chorou por um longo tempo nos braços de sua mãe, que apenas a abraçava, calma e confortadora, passando sua força à filha. Quando os soluços da moça afinal silenciaram, a dama a ergueu e falou:
– Travarei minha própria batalha, minha filha. Precisa continuar sendo forte e brava, e concluir a sua. Sei que conseguirá. Eu acredito em você. – carinhosamente, ela encheu a própria mão em concha com água da fonte, e fez a jovem beber três goles. Cada golada parecia enchê-la com nova força e vontade, curando seu espírito machucado.
Revigorada e renovada pela luz de sua mãe, que parecia alimentar a sua própria, a princesa curvou a cabeça, sentindo o beijo da rainha em sua fronte uma segunda vez. Com uma carícia nos cabelos da moça, Galadriel finalmente falou:
– Agora, é hora de despertar. – e segurando os ombros da menina, empurrou-a para trás. Amandil sentiu-se cair e ser envolvida pela escuridão, até abrir os olhos em sua cela, em Erebor. Agora, contudo, não se sentia mais fraca, nem com medo: ao contrário, sabia exatamente o que tinha de fazer.
Foi só alguns segundos depois de despertar que percebeu haver alguém em sua cela; mas este alguém não a assustou: pelo contrário, foi um alívio ver Bilbo ali! Ela segurou as cobertas junto ao peito, e se sentou no catre:
– Bilbo! – se fosse qualquer outro, morreria de vergonha, mas sabia que o hobbit jamais a olharia com maldade.
– Amandil. – O halfling tocou o rosto dela, onde o hematoma deixado pelo tapa de Thorin estava bem claro – foi Thorin quem lhe fez isso? Ele a violou?
– Não sou uma donzela indefesa – brincou ela, ignorando o próprio tremor ao se lembrar do ocorrido – ele só tentou.
Meneando a cabeça, desesperado por ver seus dois melhores amigos naquele estado – um tomado pela loucura, a outra ferida e alvo de todo o ódio do primeiro – o hobbit pegou algo que trouxera consigo, um pano limpo, e o molhou na bilha de água. Chegando perto da moça, perguntou:
– Eu posso? — Ela anuiu, e deixou que ele limpasse o sangue dos arranhões já quase curados em seus ombros e braços. – Trouxe-lhe roupas, também. Eles têm alguns vestidos élficos aqui, só precisei procurar um pouco; Balin me ajudou. — Curiosa, a jovem perguntou:
– Como soube que eu precisava de ajuda e... De roupas?
– Ouvi seus gritos, e os dele, dizendo que a teria por bem ou por mal – respondeu o halfling, um pouco envergonhado por não ter conseguido interferir, já que Thorin trancara a porta – e quando você amaldiçoou Thorin, também. Pelas suas palavras, deduzi logo o que tinha acontecido. O que quase aconteceu. Tentei arrombar a porta, mas estava trancada e... e Thorin mandou que os outros ficassem longe, então, não devem ter ouvido nada.
– Obrigada, Bilbo. – sussurrou a moça, acariciando o rosto do halfling, escondendo a própria vergonha por seu amigo ter ouvido o que lhe ocorrera – não tenho como retribuir seu gesto.
– Não tem que retribuir nada! Que tipo de homem eu seria, se não a ajudasse? – Ele estendeu o vestido novo para a moça, um cor-de-rosa de mangas compridas e gola canoa – vou virar de costas, para você poder terminar de se limpar e vestir, está bem? Juro que não vou olhar.
Sem se preocupar, sabendo que o halfling manteria sua palavra – ele parecia ser o mais honrado de toda a Companhia – a princesa usou o pano para limpar os arranhões em suas coxas e ventre – na verdade, para tirar o sangue seco sobre a pele regenerada — e colocou o vestido rosa, de tecido mais quente que o anterior, pelo que ela ficou muito grata. Já vestida, avisou:
– Pode se virar, Bilbo.
Ele o fez, corando levemente ao pensar em como Amandil era bonita; não que ele a desejasse, mas era impossível não reparar na beleza dela, tanto quanto era impossível não ver a de uma rosa. Mas não era hora de pensar na beleza da moça, que acabara de passar por algo traumático! Meneando a cabeça, ele lhe mostrou que trouxera alimento: pães recém-assados, carne fresca e algum doce que ela não reconheceu.
– Bombur acabou de fazer. Mandou especialmente para você. – disse o halfling, deixando de mencionar que contara aos amigos do ocorrido. Amandil morreria de vergonha, se soubesse que os demais haviam tomado conhecimento da quase-violação – não sei que doce é, mas parece ótimo.
Os dois se sentaram juntos na cama, e a elfa fez questão de dividir a refeição com o halfling, que só aceitou como desculpa para ficar mais tempo na companhia de Amandil. Tinha pela princesa um forte sentimento de proteção, e enorme afeição. Era a amizade mais pura e sincera que já experimentara em sua vida!
– Como estão as coisas? – perguntou a dama, enfim, após matar a fome, mais preocupada com o futuro do que com o passado recente.
– Temos um bando de humanos furiosos refugiados em Dale, Thorin está obcecado pelo tesouro e se recusa a dar qualquer coisa para eles; um exército de orcs se aproxima, e não recebemos resposta de Dain Pé-de-Ferro. – resumiu Bilbo – as coisas não podiam estar melhores.
Anuindo, a filha de Galadriel suspirou; as coisas ainda iriam piorar, antes de melhorar, mas o encontro com sua mãe a fizera recuperar o controle da situação, mesmo estando presa naquela cela.
– Os elfos virão, Bilbo. E quando chegarem, poderemos agir. Só precisamos ter paciência, e esperar um pouco mais. – ela acariciou o rosto do amigo, e beijou-lhe a testa, agradecida – tenha fé, meu pequeno amigo.
Confuso, o hobbit não compreendia por que se sentia confortado e protegido no abraço da amiga; ele fora até ela para protegê-la e cuidar dela, e agora era ela quem lhe passava forças e o acalmava. Estranho, mas, com Amandil, as coisas nunca ocorriam do modo esperado. E ele ficava muito feliz que fosse assim; se ela estava tão calma, era porque tinha um plano, e ele próprio começava a decidir o que faria, com base naquilo que a jovem lhe contava. Ocorreu-lhe uma ideia que, certamente, faria Thorin desejar mata-lo... Mas podia significar a libertação da moça, e impedir que elfos e anões guerreassem entre si, antes que os orcs chegassem. Valeria à pena, certamente!
Após se certificar de que sua amiga estava bem, Bilbo deixou a cela e tomou o caminho da sala do tesouro; ia tentar conversar com Thorin mais uma vez. Se não conseguisse chamar o amigo de volta à razão, então daria início ao seu plano, assim que os elfos se postassem diante de Erebor.
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