Amandil - Sombras da Guerra
15 A Festa das Estrelas
Notas iniciais
– Bilbo! – chamou Amandil, entrando correndo em seu quarto. Trazia para o halfling uma cesta com bolos, frutas e pães, que pegara nas cozinhas com Varniel, uma das cozinheiras que conhecia a jovem desde menina, e costumava mimá-la com doces e petiscos fora de hora – sei que está aqui. Tire o anel, por favor.
O hobbit apareceu sentado na cama, fitando a moça com alegria; a jovem lhe sorriu de volta, tirou a própria capa e pousou a cesta sobre a mesa do quarto. Estava radiante com os rumos que a conversa com Thranduil tomara, e foi logo avisando ao amigo:
– Encontrei um modo de tirar os anões daqui, querido!
– Como?! – perguntou o hobbit.
– Teremos uma festa, dentro de quinze dias. É uma grande festa, a guarda estará reduzida, e praticamente não haverá ninguém nos andares inferiores.
– A adega vai estar vazia? – perguntou o moço, que já explorara todas as possíveis saídas do lugar.
– Geralmente fica vigiada por um copeiro, que se encarrega de manter o abastecimento de vinho para a festa... Mas posso colocar algumas gotas de sonífero na bebida dele. – ela hesitou um instante – sabe que será você a tirar os anões daqui, não é? Tenho o consentimento do rei, mas em caráter não-oficial. Se for pega, serei acusada de traição, então não posso estar envolvida.
– Sim. Usaremos o escoadouro dos barris... Vai nos dar uma boa dianteira, e fazer com que recuperemos o tempo perdido nesses meses aqui.
– Perfeito. O rio os levará direto à Cidade do Lago; encontrá-los-ei lá.
– Ainda vai conosco? – perguntou Bilbo, surpreso – Amandil, Thorin está furioso com você! Ele vai mata-la assim que a vir!
– Vou segui-los de longe, sem ser vista; só pretendo aparecer quando o dragão despertar.
– Des-des... Despertar? – perguntou Bilbo – achei que era só um roubo! Que a fera ia estar dormindo!
– Ele já acordou, Bilbo. Acredite: vai haver luta. Cedo ou tarde, a besta vai sair de seu covil, e então... – ela pegou a própria espada – Maranwër vai derramar o sangue de mais um dragão.
Bilbo ficou apreensivo; nem tanto por causa do dragão, mas da insistência de Amandil em segui-los. Ela não tinha ideia de como Thorin estava mudando, do ódio que tinha por ela... Ele previa um desfecho muito ruim para aquela história, se a mulher realmente os seguisse. Pois mesmo que ela matasse o dragão – o que ele considerava pouco provável – o rei anão não a perdoaria.
– Tome cuidado, Amandil. Acho que Thorin é, para você, muito mais perigoso do que qualquer dragão que possa enfrentar.
– Serei cuidadosa, meu querido hobbit. – ela piscou para o amigo – mas algumas coisas simplesmente têm de ser feitas. – em seguida levantou-se e, remexendo em sua arca, tirou de lá um vestido longo, azul – agora, se me der licença, preciso me banhar. O rei pediu que ceássemos com ele, esta noite. – ela entrou no banheiro e fechou a porta, deixando Bilbo com sua deliciosa refeição.
*
Era a Festa das Estrelas, enfim! O plano fora armado: Tauriel desceria às masmorras, com a desculpa de verificar se os anões estavam bem trancados, e se poria a falar com Kili, isto seria o sinal para que Bilbo se preparasse. Quando houvesse se transcorrido tempo suficiente para que a festa já deixasse a maioria alheia aos fatos, Amandil desceria para chamar a capitã, e juntas iriam até a adega; pediriam ao guardião das chaves da prisão que se certificasse de os anões estarem bem trancados – isso evitaria boatos maldosos sobre traição – e aproveitariam o momento para pingar algumas gotas de sonífero na bebida do guarda, assim como na do copeiro. Assim que saíssem da adega, dariam o sinal ao halfling, que poderia então abrir as celas assim que os dois elfos caíssem no sono.
Aprontando-se para a festa no quarto de Tauriel – adjacente ao de Amandil – as duas moças ajudavam uma à outra com os cabelos; estavam muito belas, de fato, verdadeiras princesas dos elfos! A filha de Thranduil usava um vestido azul de mangas largas e longas e detalhes em prata, que ressaltava a alvura de sua pele e o tom de seus cabelos, os quais estavam soltos, adornados por flores. Amandil, por sua vez, trajava um vestido vermelho com um entrelaçado dourado nas costas e debrum dourado nas mangas, decote e barra da saia; os cabelos castanho-dourados estavam presos em uma trança frouxa lateral, enfeitados por flores também vermelhas.
Terminando de se aprontar, as damas desceram de seus quartos em direção ao grande salão. Ali, encontraram-se com Legolas e Cardhir – o mais jovem conselheiro do rei, que convidara a dama para ser sua acompanhante, na festa. Ambos trajavam o branco e dourado da realeza – Cardhir era sobrinho de Oropher, por parte de mãe – e enquanto Legolas trazia os cabelos presos para trás e encimados por uma coroa de prata, o outro elfo usava um diadema de bronze sobre os cabelos negros soltos. Eram ambos belos homens, mas o moreno nem de longe poderia competir com o jovem príncipe.
De braços dados com seus respectivos acompanhantes, as princesas caminharam até diante do trono, onde reverenciaram com elegância seu rei, o qual retribuiu a saudação com um curvar de cabeça. Quando os olhos azul-acinzentados encontraram os da filha de Galadriel, um breve sinal foi trocado entre ambos; Thranduil sabia que a princesa agiria naquela noite.
Havia música tocando, e a festa há pouco se iniciara; sob o comando do senhor das florestas, as copas das árvores se haviam curvado para os lados, desentrelaçando-se de modo a revelar o céu estrelado. Aproveitando-se dos momentos que lhes restavam, Legolas puxou sua amada para si, conduzindo-a através da pista de dança com leveza e elegância, sua mão segurando a dela, a outra na cintura firme e delgada, os olhares profundamente mergulhados um no outro.
– As estrelas no céu não são tão belas quanto seus olhos, meu amor – sussurrou o príncipe para sua noiva – jure que eles jamais se apagarão.
– Você é um raio de sol dourado, meu Legolas – sussurrou ela de volta – meus olhos não vão se apagar, enquanto você os iluminar com sua existência. – ela se aproximou um pouco mais, de modo que dançavam extremamente juntos, sentindo os movimentos um do outro – Leg... Você sabe que, não importa o que aconteça nos próximos dias, eu amo você, e sempre vou amar. E sempre, não importa onde esteja, encontrarei um modo de voltar para você.
– Se não houver um modo de voltar para mim – havia tensão na voz do guerreiro – Eu encontrarei um modo de ir ao seu encontro, e não há montanha, mar ou céu que me impeçam de fazê-lo. Eu sou seu, Amandil.
– Eu sou sua, meu amor. – respondeu ela. A música começou a declinar, e ele a deitou suavemente, segurando-a com firmeza. Reclinou-a no próprio braço e, antes de puxá-la de volta, depositou o mais suave dos beijos nos lábios rubros.
O príncipe parecia sério e apreensivo, apesar de ter um sorriso forçado nos lábios; e como não estar, quando iriam se expor ao fogo de um dragão? Apesar das promessas feitas um ao outro, ele sabia que algumas coisas estavam além do controle de qualquer um deles; tanto ele, quanto Amandil, poderiam não retornar daquela aventura. Mas se tivesse de morrer para garantir a vida de sua noiva – um ser tão especial jamais deveria experimentar o sono da morte – ele o faria.
Deixaram juntos a pista de dança – Legolas a segurava com firmeza pela cintura, como se para se certificar de que ela estava realmente ali, como se aquele aperto pudesse mantê-la segura e junto de si para sempre — e seguiram conversando com os participantes, ora sentando-se às mesas na companhia de alguém, ora bebericando um pouco de vinho a falar com um pequeno grupo. Foi assim, caminhando aos poucos pelo salão, que perceberam o sumiço de Tauriel; então, estava começando.
*
A elfa desceu até as prisões, sentindo-se constrangida quando os pouquíssimos soldados viraram os rostos para vê-la melhor; ter sua princesa usando um vestido e enfeitada como uma dama era algo raro, que só salientava a beleza selvagem que ela possuía naturalmente. Meneando a cabeça, ignorou os olhares de admiração e seguiu em frente, até chegar à cela de Kili. Não havia ninguém vigiando o entorno.
Ao perceber a chegada da elfa, o anão correu para junto das grades, parando por um segundo ao vê-la daquele modo vestida; atônito, deixou escapar:
– Tauriel, você está linda! – e então tentou se corrigir – não que você não seja linda normalmente, mas... está muito mais... – e meneando a cabeça, se sentindo um idiota – isso tudo foi para me ver?
Ela riu com sinceridade das palavras do guerreiro – estar perto de Kili a fazia sentir-se feliz, mesmo quando estivera tão aborrecida até poucos segundos atrás — e explicou:
– Hoje é o Mereth in Gilith, a festa das estrelas. Sou a princesa e chefe das armas, então, precisava comparecer. Não se acostume: odeio essas roupas, mas uma festa como essa as exige. – ela olhou sonhadora para o céu, que podia apenas vislumbrar a partir das profundezas onde se encontrava – todas as luzes são sagradas para meu povo, mas os elfos da Floresta amam a luz das estrelas acima de todas as outras; por isso as celebramos com este banquete.
– Sempre achei que fosse uma luz fria – disse o moço, com simplicidade e inocência – remota, e muito distante.
– Ela é memória! – declarou Tauriel, um pouco indignada, um pouco encantada com a franqueza e suavidade nas palavras do moço – preciosa e pura, como a promessa feita a uma mãe. – ela se referia à pedra que o jovem carregava consigo – nelas estão guardadas todas as lembranças, e todos os segredos que ninguém mais conhece. – o anão sorriu, fascinado pelas palavras dela:
– é tão bonito, quando você fala... Conte-me mais, Tauriel. – ela sorriu e segurou a mão do anão, que estava pousada na grade. Seu rei ordenara que mantivesse distância do anão, mas ela não obedecera; embora viesse visita-lo apenas quando havia poucos guardas, continuara a fazê-lo, e talvez até por períodos maiores. A companhia do anão parecia-lhe um sopro fresco de primavera, alegrando-a e tranquilizando-a:
– Sabe... Eu já andei por aí, algumas vezes. Além da floresta, nas montanhas e campos. Eu vi o mundo desaparecer, e a luz branca imortal encher a paisagem com sua beleza, uma fina névoa de prata descendo sobre a Terra, como a mais bela das magias. Como não se apaixonar ainda mais pelas estrelas, após ter visto algo assim? – ela decidiu ousar um pouco mais – talvez, eu lhe mostre isso, um dia.
– Vi uma lua de fogo, uma vez. Escoltávamos mercadores de Ered Luin, nos caminhos dos Ermos... Olhamos para leste, e então ela surgiu: um orbe brilhante, vermelho e dourado, tingindo a terra como ouro e sangue. – ele então tocou os cabelos da elfa, através das grades – não um vermelho tão bonito quanto seus cabelos, mas ainda assim, memorável. Queria lhe mostrar, um dia. – ela corou, lisonjeada, e contou:
– No Mereth in Gilith, cada elfo faz um desejo às estrelas. Se sua intenção for pura, dizem que elas o atendem. – palavras perigosas, muito perigosas! Mas ela nunca mais veria o anão, depois daquela noite, então não importava o que lhe dissesse agora. O que sentisse por ele, agora.
– E se eu quisesse fazer meu pedido a uma estrela na terra? – perguntou ele, fascinado com o encanto e beleza da capitã, a qual aprendera a conhecer melhor naqueles dois meses – Ela me atenderia?
– Só saberá se fizer o pedido – devolveu a elfa. Sabia que estavam indo numa direção muito perigosa, mas... Talvez pela luz das estrelas, talvez pelo vinho, ou porque estava cansada de fingir para si mesma e negar o que sentia, não queria mais fugir.
– Tudo o que quero é um beijo. O primeiro beijo da mais bela donzela. – Tauriel já lhe confessara que nunca havia beijado alguém.
– E o que faria com tamanha dádiva? – perguntou ela, tão perto da grade que os rostos de ambos quase se tocavam. Sendo ele muito alto para um anão, e ela não tão alta para uma elfa, seus rostos estavam quase à mesma distância do chão. As palavras dele, tão ousadas, teriam rendido a qualquer outro um tapa no rosto; mas Kili... Ele era diferente. Além disso, esta seria sua última chance.
– Guardaria pela eternidade como a mais preciosa de minhas memórias. Essa lembrança seria o meu mais valioso tesouro, acima de todas as joias da terra, acima de toda beleza que eu possa ver no mundo. Não haveria nada mais belo, nem lembrança mais divina.
Encantada com as palavras do anão, ela finalmente se rendeu: nunca mais o veria, então, daria a ambos aquele momento; um beijo, para durar o resto da eternidade. Suas faces se aproximaram e, tocando as grades com o rosto, ela pousou os lábios sobre os do guerreiro; não foi um beijo sensual, apaixonado ou fogoso, mas puro e casto, o primeiro beijo de uma donzela. Ela dava a ele o mais precioso dos presentes: a pureza de seu coração, que até então nunca batera acelerado por alguém; embora nunca mais fosse ver o anão, seu coração pertenceria a ele para sempre, pois tal era a natureza dos elfos: tal como eles próprios, seus sentimentos eram imortais.
Aquele breve instante pareceu durar uma eternidade e tempo algum, simultaneamente. De repente, a voz de Amandil se fez ouvir, afastando-os um do outro:
– Tauriel, precisamos falar ao copeiro, irmã. É necessário enviar mais vinho para o banquete. – de imediato a mulher ruiva compreendeu que chegara a hora e, num último olhar para aquele a quem compreendera amar, correu escadaria acima, em direção à irmã. Hora de continuar com o plano.
*
– Como foi que orcs entraram em nossas terras e não fomos avisados? – perguntou Thranduil, visivelmente furioso.
– Eles não vieram do sul, majestade, mas do leste! – disse Amálië, quase se arrastando em um pedido de perdão.
– Eu pareço estar preocupado com a questão dos pontos cardeais, guardiã? Porque não estou! Nossas fronteiras devem ser bem guardadas, este é seu trabalho! – ele se dirigiu a seu pajem – convoque o Conselho de Guerra. Quero-os reunidos em meia hora na Sala do Conselho. – e então, para Amálië – o que se passa com os orcs que entraram em nossas terras?
– Eles seguiram os anões, majestade. Desceram o rio em direção ao lago.
– Então orcs entram em nossas fronteiras, atacam nossos prisioneiros, e você acha que está tudo bem, apenas porque “eles vieram do leste”. – havia farpas cortantes na voz do rei – chame a capitã Tauriel. Há uma guerra se aproximando, preciso dela aqui, e não, expulsando orcs das fronteiras.
– Meu rei... – a elfa loura mal tinha forças para falar, tamanha sua vergonha por ter falhado – Meu rei... A capitã não está mais no Reino da Floresta.
– Como assim? – pela primeira vez o soberano encarou a mulher nos olhos. Sentindo-se diminuir ante a imponência de seu amado rei, a guardiã explicou:
– Seus filhos, majestade, seguiram os orcs. Eles acompanharam a dama Amandil, rio abaixo, atrás dos invasores... Ou atrás dos anões.
Bem, aquilo Thranduil não esperara, e censurava-se por isso, agora: é claro que Legolas e Tauriel acompanhariam Amandil, como sempre haviam acompanhado! Isso se ela não houvesse seguido por causa daquele anão imundo! Maldição! Ele devia ter pensado nisso! Devia ter dado à jovem ruiva uma missão importante, para que seu senso de dever a mantivesse na floresta, que era seu lugar! Voltando-se para a elfa à sua frente, ele falou, ríspido:
– Acha que é capaz de cumprir pelo menos uma tarefa a contento, Amálië?
– Qualquer coisa que ordenar, majestade!
– Prepare o exército. – disse o rei, sombrio, seguindo para a Sala do Conselho – esses orcs não serão os últimos a avançar sobre nós. – Não havia como piorar o humor do rei: sua nora prestes a se expor a um dragão, sua filha apaixonada por um anão imundo, seu filho disposto a arriscar a própria vida junto às duas... Uma guerra se aproximava depressa, e ele estava privado de seus três melhores guerreiros! Sua fúria e decepção em relação ao filhos – especialmente sua filha – não poderiam ser maiores.
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