Amanda - Isso Não Poderia Ter Acontecido
1 O Homem de Terno
Fazia dias desde que começou a perder a vontade de ir ao trabalho. Sentava no assento do metrô e procurava ajeitar os documentos e relatórios mantidos em sua bolsa. Depois de muito resmungar sobre a bagunça dos seus papeis, acomodou-se para admirar a visão da janela. Muitos vultos luminosos incomodavam seus olhos até chegar a certo ponto da superfície. Todos aqueles prédios e construções incomodamente cinzas a traziam uma má sensação.
Chegou ao ponto de sua descida, ajeitou o casaco e colocou a extensa alça de sua bolsa no braço esquerdo. O céu nublado só intensificava o efeito monocromático do ambiente. Caminhou 150 metros até chegar à porta de seu serviço. Marcou seu ponto e partiu ao seu lugar no escritório.
Não havendo nenhum relatório exigido a ela, começou a refletir encostando-se na cadeira sobre o que aconteceu semana passada. Pensou sobre que momento perdeu o prazer em trabalhar na firma. “Marcelo, que filho de uma...”.
Um animador de festas infantis que resolveu terminar com uma auxiliar de advocacia por acha-la muito imatura. Marcelo, à sete dias atrás, vestido de dálmata até o pescoço, depois de um longo aniversário de um menino de 4 anos, cansou-se dos pedidos de Amanda para levar o namoro mais a sério e a ligou terminando o relacionamento. Um dia após o término, a auxiliar descobriu que ele flertava com outra animadora de seu emprego durante o namoro por mensagens na internet.Foi infeliz por deixar sua conta em login no computador da Amanda.
Como se não bastasse, a garota descobriu que seu salário e de outros colegas do seu setor tiveram redução de 10% devido a supostos custos desnecessários alegados pelo setor de contabilidade. Um bom motivo para querer que os esquisitos contadores daquele escritório sumissem do planeta e também para querer pedir demissão de uma vez por todas.
Depois de um colega de trabalho se levantar de sua baia para avisar que tem algumas fichas que precisam ser verificadas, Amanda interrompe suas lembranças e começa a ser produtiva. Após algumas horas preenchendo diversos documentos, uma vibração abafada começa a tocar. Era o seu celular, recebendo uma chamada de sua mãe. Ela atendeu e uma voz chorosa respondeu: “Mandinha, sua avó faleceu. Estou muito triste, filha. Tem como você pedir pra se retirar do serviço só hoje?”.
Procurou consolar sua mãe e aceitou seu pedido. Nunca teve muitas relações de afeto com a avó pelo fato de raramente vê-la, assim não se comoveu a ponto de chorar. Foi ao escritório de seu chefe e pediu para sair mais cedo. Meio contrariado permitiu a saída. Amanda resolveu pegar um táxi desta vez, pois o metrô iria demorar muito tempo para chegar.
A alguns metros, um táxi chegava pela avenida principal. Ela acenou e o carro parou a sua frente. Sentou-se apressadamente e falou o endereço ao motorista. Mais uma vez ela encarava a cidade cinza por trás de uma janela. Ela havia se livrado do trabalho por hoje, porém ela não estava nada satisfeita. As frustrações, preocupações e os constantes “Por que isso tá acontecendo comigo?” estavam de volta. Mantendo sua bolsa no colo e constantemente roendo as unhas, ela encarava a paisagem com um olhar frustrado. O táxi faz uma cursa em direção a uma outra avenida.
“Minha vida tá uma bagunça” começa a pensar. “Pra piorar essa droga só me falta um câncer, um apocalipse na Terra ou qualquer outra desgraça”. Abre a bolsa um instante, volta o rosto para a janela e continua “Pelo menos eu sei que isso é passageiro, todo mundo passa por um perrengue ou outro né? Meu conforto é ter a certeza ...” . Ela é interrompida por um grito do motorista logo em seguida de um fortíssimo impacto. O táxi começa a capotar e diversos objetos vão de um lado para o outro no automóvel. São segundos desesperadores para a garota. O carro estanca de cabeça para baixo e a moça permanece desacordada.
Os pneus continuavam a rodar e o motor emitia ruídos abafados. O capô caíra alguns segundos depois do acidente. Ambos os espelhos retrovisores estavam partidos e apenas os faróis traseiros continuavam funcionais. O veículo permanecia capotado no meio de uma avenida a 450 metros de uma esquina. Estranhamente o lugar estava desértico, sem motores ou pernas perambulantes. Apenas um ponto trágico em um plano indiferente.
O interior estava caótico. Papéis, copos plásticos, moedas, pontas de cigarro e estilhaços do velocímetro compunham a bagunça. O motorista, já um senhor com certo grau de obesidade, estava de ponta cabeça com os braços estendidos e com um profundo corte na testa. Amanda não usava cinto, portanto diversos cortes foram feitos em seu esguio corpo. Manchas de sangue e óleo sujavam sua camisa de mangas longas. A perna direita de sua calça social estava rasgada. No rosto da jovem o nariz não parava de sangrar e uma mancha roxa formou-se no olho esquerdo.
Nesse impacto, o fim da vida de Amanda parecia ter finalmente chegado, porém essa possibilidade foi eliminada assim que duas leve batidas na carcaça do carro foram ouvidas. O barulho desfeito foi leve, mas suficiente para despertar a provável falecida.
Acorda em um susto, com fortes tonturas. Olha para os lados do veículo capotado perdidamente. O cheiro extremamente forte do sangue a faz querer vomitar. Procurando uma saída de uma maneira desesperada, percebe pela janela que há um par de pernas vestidas de calça social, que provavelmente compõe um terno, ao lado do acidente. As pernas se agacham e um rosto jovem sorridente aparece.
Amanda encara atonitamente o homem do lado de fora. Ele, mantendo o sorriso entre os lábios, toma coragem para falar:
“Você sabe que isto não deveria ter acontecido, certo?”
A garota sentindo fortes dores no corpo começa a gemer, sentindo-se destruída. Tenta se arrastar para fora do táxi em vão. Ela volta o rosto para o homem expressando urgência para ser salva.
“Eu estou falando sério. Por que você continua aqui? Isso acontece de vez em quando mas geralmente tem motivo” ele cessa o sorriso e continua ignorando a situação da menina.
“Moço, eu acabei de sofrer um acidente. Eu devo estar viva por algum milagre. Me ajuda, por favor” suplica Amanda.
“Era pra você ter morrido. O que mais me estressa é que provavelmente a senhorita nem sabe o motivo”. Ele respira fundo e continua “Tenho minhas dúvidas se era pra você estar aqui mesmo” .
A indiferença e a grosseria do homem começa a irritar e ao mesmo tempo confundir a cabeça da garota. Se sentindo mal tratada, ela toma forças para se arrastar e finalmente sair do veículo.
Ambos ficam de pé. Amanda estranha muito o fato de a avenida estar completamente vazia. Apenas o táxi de ponta cabeça, o homem arrogante, o motorista e... Lembrou-se do condutor.
“O motorista! Ele deve estar morrendo! Onde ele está?”
“Ele com certeza não está aqui, felizmente”. Faz uma pausa e sucede “Ao contrário de você, ele está no lugar onde devia estar”.
“Mas do que é que você está falando?” a menina esquenta a cabeça querendo entender o que aquele homem queria dizer com essa história de lugar.
“Olha aqui, era pra você estar em um táxi completamente sem vida. O condutor eu consegui levar a alma para seu devido lugar, mas não consigo achar a sua em canto algum” ele desabafa.
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